CARLOS CHAGAS

 

 

          Representa uma tarefa das mais difíceis sin­tetizar em poucas paginas, a vida e a obra de Carlos Chagas.

          Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas, primei­ro filho do casal José Justiniano das Chagas e Mariana Cândida das Chagas, nasceu a 9 de julho de 1879, na fazenda do Bom Retiro, município de Oliveira, Es­tado de Minas Gerais. Os seus primeiros anos de vida decorreram no ambiente rural de duas proprie­dades agrícolas, onde a principal atividade consistia no plantio do café. Deriva daí, possivelmente, o seu amor à natureza e a sua identificação com os proble­mas do homem do campo nos anos posteriores.

          Órfão de pai aos 4 anos, já aos 7 era enviado como interno ao Colégio dos Jesuítas em Itu, no Estado de São Paulo. Um ano depois era dali transferido pa­ra S. João del Rei, onde se educou no Colégio Santo Antônio, tendo como principal mentor o Padre João Sacramento, considerado na época grande educador, humanista e poeta.

          Era desejo de sua mãe que o filho primogê­nito fosse engenheiro e por isso foi Carlos Chagas es­tudar na famosa Escola de Minas de Ouro Preto.

          Aos 16 anos de idade, achando-se em Olivei­ra, encontrou seu tio Carlos Ribeiro de Castro, médico recém-chegado do Rio, que exerceu sobre ele decisiva influência, aconselhando-o a deixar a engenharia pe­la medicina.

          Em 1896 matriculou-se na Faculdade de Me­dicina do Rio de Janeiro.

          Destacou-se durante o curso médico como um dos mais brilhantes e esforçados alunos, tornando-se querido de seus mestres, dentre os quais se achavam Aloysio de Castro, Miguel Couto, Francisco Fajardo e outros.

          Iniciou sua vida profissional como clínico, mas dificuldades financeiras levaram-no a aceitar em 1905, o oferecimento para trabalhar na Cia. Docas de Santos. Ali, aos 26 anos de idade, realizou com êxito, a primei­ra campanha antipalúdica no Brasil.

          De volta ao Rio, outras tarefas semelhantes o aguardavem. Primeiramente na baixada flu­minense e, a seguir, no vale do Rio das Velhas, onde os operários da Estrada de Ferro Central do Brasil eram dizimados pela malária.

          Na localidade de Lassance, em pleno sertão mineiro, realizou Carlos Chagas em 1909 a sua genial descoberta, revelando ao mundo a Tripanosomíase americana.

          Dedicou-se daí por diante com devoção ao Instituto Oswaldo Cruz, do qual foi diretor após a mor­te se seu fundador. Ocupou ainda, até a sua morte, a cátedra de Clínica de Doenças Tropicais e Infectuo­sas da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e realizou um extenso trabalho à frente do Departamen­to Nacional de Saúde Pública.

          Faleceu subitamente, aos 8 de novembro de 1934, com 55 anos de idade.

          Para melhor compreender Carlos Chagas, a­nalisaremos separadamente as diversas faces de sua multifária personalidade, valendo-nos de estudos bio­gráficos já publicados e de trabalhos originais do nosso biografado. Carlos Chagas viveu, na realidade, diversas vidas paralelas, tal a vivacidade de sua in­teligência, a inquietude de seu espírito e o vigor de sua mente privilegiada.

 

O PESQUISADOR


          Desde cedo revelou Carlos Chagas pendor para a pesquisa. Espírito atilado e observador, não lhe escapavam fatos e pormenores que a outros passariam despercebidos.

          Sua tese inaugural, realizada no Instituto Os­waldo Cruz e dada a lume em 1903, versa sobre “Es­tudos hematológicos no Impaludismo”. De 1903 a 1908 realizou importantes e fundamentais descobertas em malariologia, logo reconhecidas pelo mundo científi­co. Em 1905 proclamou que “a malária é por excelên­cia uma infecção domiciliaria”, isto é, adquirida no interior das habitações, ficando assim destruída a “no­ção clássica que indicava como focos perigosos dessa parasitose as proximidades dos pântanos, as margens dos rios, córregos, riachos. Com essa descoberta a­bria caminho para a moderna profilaxia da malária.

          Descreveu uma cepa do Plasmodium falcipa­rum, responsável pelas formas clínicas graves ou perniciosas. Verificou a existência de uma espécie de a­nofelino de hábitos diurnos, que denominou Celia brasiliensis, e ligou seu nome a diversas outras espécies de anofelínos.

          Sua genial descoberta realizada aos 30 anos de idade merece ser contada por suas próprias pala­vras:

          “A ocorrência de grande epidemia de malária em operários do governo nos trabalhos de construção da Estrada de Ferro Central do Brasil, no vale do Rio das Velhas, fez com que fossem solicitadas pelo Ministro Miguel Calmon, providencias a

Oswaldo Cruz. Este atendeu pressuroso à solicitação e, empenhado em prosseguir nas campanhas antipalúdicas, com êxi­to executadas em outras regiões do país, resolveu confiar-me o encargo das medidas sanitárias".

          “Em companhia do Dr. Belisário Penna, por mim convidado para auxiliar da missão, segui para os sertões mineiros e lá nos instalamos nas margens do Rio Bicudo, onde permaneciam, retardados pela intensa epidemia, os trabalhos da via férrea. Iniciamos aí a profilaxia da malária e dela conseguimos resultados dos mais propícios, o que permitiu prosseguimento regular dos serviços de construção. Mais de um ano permanecemos naquela zona, sem que hou­véssemos sabido da existência, ali, nas choupanas dos regionais, de um inseto hematófago, denominado vulgarmente barbeiro, chupão ou chupança. Já nessa época tivemos oportunidade de realizar vasta obser­vação clínica, e de estudar numerosos casos mórbidos nos habitantes da região, tanto naqueles sujeitos a infecção palúdica, porque residiam em vales de gran­des e pequenos rios, quanto ainda em outros, que ha­bitando zonas mais ou menos elevadas ou montanho­sas, nenhum sinal apresentavam de malária. E desde então foi-nos penosa a absoluta impossibilidade de classificar, no quadro nosológico conhecido, muitos dos casos mórbidos que se ofereciam ao nosso estudo. Nem valiam, para elucidação do diagnostico, os re­cursos experimentais do laboratório, e nem decidiam os elementos da semiótica mais segura e meditada. Alguma coisa de novo, nos domínios da patologia, aí perdurava desconhecida e se impunha à nossa curio­sidade.

          “Numa viagem a Pirapora, e quando pernoi­távamos, o Dr. Belisário Penna e eu, no acampamen­to de engenheiros, encarregados dos estudos da linha férrea. conhecemos o barbeiro, que nos foi mostrado pelo Dr. Cantarino Mota, chefe da comissão de en­genheiros. O papel de diversos hematófagos na transmissão de doenças humanas, e na de algumas tripanosomíases de mamíferos, orientou agora o meu raciocínio e levou-me a conseguir novos exemplares do inseto, a fim de pesquisar no tubo digestivo deles ou nas glândulas salivares, qualquer parasito, do qual fosse o barbeiro o hospedador intermediário. Dissecando os insetos, no intestino posterior de cada um encontrei numerosos flagelados, que apresenta­vam os caracteres de critídias. Esta verificação con­duziu-me a duas hipóteses: ou seria o flagelado observado parasito natural do inseto, sem qualquer a­ção patogênica, ou representaria estádio evolutivo de um hematoflagelado de vertebrado, quiçá do próprio homem. Assim orientado, iniciei a nova fase de meus trabalhos pela pesquisa do tripanosoma naque­les indivíduos cuja condição mórbida obscura esca­pava à minha interpretação. Quantas tentativas de principio realizei, visando a encontrar o tripanosoma, foram sempre negativas, fato posteriormente explica­do pela ausência do parasito no sangue periférico, e sua localização exclusiva na intimidade dos tecidos. As minhas observações foram reali­zadas em residências humanas, abundantemente in­festadas de triatomas e numa delas, quando insistia na pesquisa do protozoário, encontrei um gato, eviden­temente doente, em cujo sangue verifiquei a presença do Trypanosoma cruzi. Nenhuma conclusão definiti­va, porém, autorizava esse achado, porquanto, sendo o gato um animal doméstico que pernoitava nas resi­dências humanas, deveria ser também sugado pelos insetos e não poderia constituir maior surpresa sua in­fecção. E, aliás, em pesquisas posteriores, repeti múltiplas vezes a mesma verificação, o que me levou a considerar aquele animal um reservatório do parasito, e por isso mesmo um elemento epidemiológico da do­ença.

          “Insistindo em meus trabalhos, e devo afirmar que o fazia com fundamentada segurança de êxito, tive oportunidade de surpreender febricitante uma cri­ança, residente na casa onde eu havia verificado a in­fecção de um gato. Ë de referir que talvez, 15 ou 20 dias antes, pernoitara eu na habitação daquela doen­tinha, e aí tive o ensejo de observar grande numero de insetos picando os habitantes inclusive a criança ago­ra febril, e que então se apresentava absolutamente higida”.

          Esta descrição demonstra a centelha do gênio, a pertinácia do pesquisador e o raciocínio indutivo e dedutivo do método científico. O que mais admira é a am­plitude e o polimorfismo da cultura médica de Carlos Chagas, que abordava sempre com igual segurança e perfeito domínio os mais diversos terrenos: a entomo­logia, a microbiologia, a clínica, a medicina preventi­va.

          Pela primeira vez, na história da medicina, um médico pesquisador descobria sozinho uma nova do­ença, o seu agente etiológico, o transmissor e os reser­vatórios. Não contente com isso, descreveu, com a co­laboração de Eurico Villela, Magarinos Torres, Gaspar Vianna e outros, todos os aspectos clínicos da nova enfermidade, sua evolução, anatomia patológica e métodos diagnósticos; anteviu sua extensão epidemioló­gica e importância social e indicou os caminhos para a sua profilaxia.

          Longe de deter-se em suas atividades de pes­quisa, após sua grandiosa descoberta, que lhe deu fa­ma universal, continuou trabalhando árdua e entusiasticamente, não só na ampliação dos conhecimentos sobre a Tripanosomíase americana, como em outros setores. Deve-se a ele importantes trabalhos sobre ou­tros protozoários. Registrou, pela primeira vez, a pre­sença da moléstia de Sodoku no Rio de Janeiro; des­creveu a forma edematosa da febre quartã; identificou as úlceras encontradas nas populações da Amazônia à leishmaniose e fez numerosas outras observações de valor.

          Por sua grandeza, valor e brilho, seu trabalho em Lassance como que ofuscou os demais, que teriam sido suficientes para imortalizá-lo.

 

O SANITARISTA

 

          A incomparável figura de Oswaldo Cruz exerceu irresistível atração sobre Carlos Chagas no iní­cio de sua trajetória. Oswaldo Cruz, após a memorá­vel campanha contra a febre amarela no Rio de Ja­neiro, aproveitara o seu prestígio para conseguir a criação de um centro de medicina experimental — o Instituto de Manguinhos, depois Instituto Oswaldo Cruz. Ali Carlos Chagas fez sua tese inaugural, tendo oportunidade de conhecer de perto aquele que era então um símbolo para a mocidade estudiosa do Brasil.

          Recusando um primeiro convite para perma­necer no Instituto, passou, entretanto, a fazer parte do mesmo por ocasião da campanha sanitária contra a malária na baixada fluminense.

          Estabeleceu-se, daí por diante, perfeita sinto­nia e duradoura amizade entre Carlos Chagas e Oswal­do Cruz. Chagas teria, por força, que tomar o lugar de Oswaldo Cruz, após a morte deste, para continuidade da obra encetada naquele Centro de Pesquisas.

Revelou-se Carlos Chagas um sanitarista já aos 26 anos de idade, quando se desincumbiu com êxi­to da campanha antipalúdica junto à Cia. Docas de Santos. Seu prestígio cresceu ao encetar com igual descortínio a mesma campanha nos arredores do Rio de Janeiro, o que lhe valeu, imediatamente, outra mis­são ainda mais difícil, a do vale do Rio das Velhas. Abençoada incumbência que lhe permitiu a descober­ta da doença que hoje tem o seu nome!

          O ano de 1912, no dizer de seu filho, marca, entretanto, “o início da evolução de sua personalida­de. Desde então passará a ter gradativamente um só objetivo em sua vida, que é o saneamento da Na­ção”.

          Esta evolução fora determinada pela viagem a Amazônia, aonde foi incumbido de estudar as ende­mias locais e o modo de combatê-las. Ali conheceu o lastimável estado de penúria das populações, em con­traste com a riqueza potencial da terra. O sanitarista atingiu, daí por diante, sua plena maturidade.

          Por ocasião da gripe espanhola, já como Di­retor do Instituto Oswaldo Cruz, foi-lhe entregue a che­fia do combate à endemia. Essa tarefa exigiu a mobi­lização de todas as suas reservas de energia. Tal foi a sua dedicação à causa que o povo do Rio Janeiro quis ele­gê-lo Senador ou Deputado e o Governo ofereceu-lhe uma cátedra. Recusou uma e outra oferta e voltou-se com devotamento para o Instituto Oswaldo Cruz.

          Logo depois, entretanto, o Governo de Epitá­cio Pessoa convidou-o para dirigir o Departamento Nacional de Saúde Pública, recém-criado. A­ceitou o novo posto, sem, entretanto, abandonar a di­reção da Casa de Oswaldo Cruz, como a chamava.

          Naquele Departamento encontrou meios de iniciar a luta pelo saneamento do País. Para tanto, criou as Inspetorias de combate à tuberculose, à sífilis, à lepra e de proteção à infância. Orientou a legisla­ção e os regulamentos de Saúde Pública. Fundou a Escola de Enfermeiras Ana Nery, que serviu de modelo para as demais no País. Regulamentou a profissão da enfermagem e estabeleceu a formação de médicos sanitaristas, dando-lhes condições de trabalho em regi­me de tempo integral. De 1920 a 1926 Carlos Chagas realizou uma gigantesca obra de medicina sanitária, cujas diretrizes básicas perduram até os nossos dias e cujos resultados cedo se fizeram sentir.

 

O CLÍNICO

 

          Lendo-se os trabalhos de Carlos Chagas tem-se idéia de suas qualidades de clínico perspicaz e ob­servador. Não há fato ou pormenor com relação à tri­panosomíase que lhe tenha escapado.

          Compreende-se que tenha sido excelente clí­nico se nos lembrarmos que foi discípulo dileto de Mi­guel Couto, com ele aprendendo à cabeceira dos do­entes, não somente a propedêutica e a patologia, mas também a bondade, o desvelo e a dedicação no trato com os doentes.

          De Miguel Couto diria mais tarde: “Nele aprendi, acima de tudo, a visar na missão do médico sua alta finalidade de amor e altruísmo”.

          Diz Eurico Villela em seu relato: “Por esse tem­po ainda grassava a febre amarela no Rio, pela qual eram vitimados numerosos estudantes mineiros e do sul do País. Estudante atacado de febre amarela ti­nha que ter visita de Couto e à cabeceira, Chagas. Que imenso consolo não era para o jovem doente, sentir que por ele velavam a bondade e o saber do mestre e do discípulo”.

          Dedicado ao estudo e insatisfeito com os conhecimentos superficiais dos compêndios, era apelida­do pelos colegas de “homem dos tratados”. Com fre­quência, diz-nos ainda Eurico Villela, “o interno de. Clínica Módica, via-se rodeado pelos condiscípulos que à beira do leito do doente queriam ouvir a expla­nação clara do caso clínico”.

          Foi-lhe possível assim descrever tão bem a doença que recebeu seu nome. Algumas interpreta­ções, como a do bócio endêmico foram por ele mesmo corrigidas mais tarde, po­rém os relatos clínicos permanecem fiéis, completos e autênticos.

          Com a mesma desenvoltura com que maneja­va o microscópio e descrevia os caracteres morfológi­cos de um protozoário ou as alterações patológicas de um tecido, examinava um doente dentro da mais apu­rada semiótica, pesquisando e descobrindo os elemen­tos de valor para o diagnóstico.

          São magistrais as descrições clínicas que nos legou, às quais nada se lhes pode acrescentar.

 

O PROFESSOR

 

          Carlos Chagas ocupou durante os últimos anos de sua vida a cátedra de Doenças Tropicais e In­fectuosas, que lhe fora oferecida na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

          Devotava grande amor ao ensino e punha em suas aulas toda a sua eloquência e todo o brilho de sua inteligência.

          Anos antes, colaborara em um curso de aperfeiçoamento no Instituto Oswaldo Cruz, sendo-lhe con­fiada a parte de protozoologia.

          Deixemos falar seu antigo companheiro, Euri­co Villela: “Suas aulas são quase ditadas na improvi­zação de uma forma perfeita e elegante”. “A expo­sição deflue metódica e os temas se entrelaçam na sequência natural, sucedem-se e substituem-se insensi­velmente na seriação lógica”. “As notas do seu cur­so, são um modelo de exposição clara e metódica em que as doutrinas dominantes estão ponteadas dos mo­dos de ver pessoal”.

          Com referência ao curso que ministrava na Faculdade é ainda Villela quem diz: “O conhecimen­to profundo da matéria, a sistematização superior do assunto, o desenvolvimento da doutrina, os elementos de demonstração que formavam a parte do ensino ob­jetivo, a multiplicidade dos pontos originais que dei­xavam de ser personalistas porque quase todos uni­versalmente adotados, a palavra que acudia dócil, agradável e precisa, davam a seu curso, autoridade, prestígio e encanto, que dificilmente serão atingidos e nunca excedidos”.

          “Era o verdadeiro tipo do professor no qual o didatismo se tempera com o pesquizador na mais per­feita harmonia e nas medidas exatas, limitadas pelo seu senso inato das proporções”. “Comprazia-se em dar uma aula e nela punha calor, arte e vida. Daí o carinho com que organizava as lições. As aulas eram cuidadosamente estudadas e preparadas e se a elo­cução fácil dava-lhe o cunho de improviso, a impro­visação era só da forma que a doutrina provinha de profunda meditação e elaboração demorada”.

          Na véspera de sua morte estivera até hora e meia da madrugada preparando a lição do dia se­guinte, que versava sobre doença de Chagas!

          Revelou-se sempre um professor de escol em todas as conferências que pronunciava nos centros médicos do País e do exterior. Clareza nas idéias, segurança no raciocínio, precisão de linguagem e elegância de expressão, e­ram seus atributos.

          O ensino universitário muito lhe deve, pois foi membro da Comissão que elaborou o anteprojeto do ensino superior na reforma Francisco de Campos, sen­do de sua iniciativa a criação do Conselho Nacional de Educação e dos Conselhos Técnico-Administrativos que regem os destinos dos Institutos Universitários.

 

O ADMINISTRADOR E LÍDER

 

          Carlos Chagas possuía as qualidades da um líder. Quando estudante já aglutinava em torno de si as aspirações dos colegas e, como consequência, foi alçado à direção do Grêmio dos Internos dos Hospitais do Rio de Janeiro.

          Ao findar o curso, escolheram-no para orador da turma e intérprete dos sentimentos de sua classe.

          Nos diversos cargos de chefia que exerceu du­rante sua vida, a serviço da Pátria, demonstrou sem­pre largueza de vistas, espírito de organização e ex­traordinária capacidade de trabalho. Era um chefe respeitado e querido de seus subalternos.

          Na direção do Instituto Oswaldo Cruz sua a­ção administrativa foi intensa e profícua, no dizer de Eurico Villela. “Ao mesmo tempo que terminava as instalações da biblioteca, do museu, do Hospital de doenças tropicais e incentivava o desenvolvimento da filial de Belo-Horizonte, criou as novas seções de físi­co-química, medicamentos oficiais, anatomia patológi­ca, fisiologia, micologia, e incorporou ao Instituto o antigo Instituto Vacinogênico Municipal (de vacina an­ti-variólica) e o recém-fundado Centro Internacional de Estudos sobre a Lepra”.

“A tudo dava assistência com a sua lúcida in­teligência e agudo espírito crítico, com aquela clari­vidência que lhe mostrava quase por intuição o cami­nho a seguir”.

 

O HUMANISTA

 

          A educação eclesiástica, quaisquer que se­jam os defeitos que se lhe possam imputar, apresenta sempre um magnífico saldo positivo – o amplo conhecimento de humanidades que proporciona e o seguro domínio do vernáculo graças ao estudo das letras clássicas.

          As lições recebidas por Chagas no Colégio de S. João del Rey, certamente plasmaram em seu espí­rito o gosto pela pureza da linguagem e pela beleza do estilo.

          Os seus escritos, mesmo os relacionados com aspectos puramente técnicos, possuem um encanto to­do particular pelo sabor clássico de que estão impreg­nados. Vejamos um período tomado ao acaso quando descreve por exemplo, a forma aguda da doença (1916): “De pouca valia, ou de nenhuma, são aqui os sinais colhidos na anamnese do próprio doente. Às mais das vezes, lidamos com crianças de baixa idade, que ainda não falam, e quando maiores de alguns anos, aos sinais subjetivos acusados falta qualquer precisão, nenhum valor merecendo, de indecisos e qua­se sempre inconsequentes”.

Quando escreve abordando temas gerais, sentimos a limpidez cristalina de seu pensamento e o po­der grandiloqüente de sua pena. Vejamos este trecho transcrito por seu filho, de suas notas de viagem pela Amazónia: “Nestas imensas terras fertilíssimas, palmo a palmo recobertas de vegetações luxuriantes, de fluo­rescências magníficas, de frutificações abundantes, nessa fecunda e opulenta natureza tropical, as mes­mas influências cósmicas, as mesmas energias criado­ras que estimulam e fortalecem a vida animal e vege­tal, fizeram nascer e proliferar fatores de destruição e da morte”...

          Revelou-nos Mário Araújo, que o conhecera de perto na Biblioteca do Instituto Oswaldo Cruz, que seus manuscritos raramente apresentavam emendas ou rasuras. Com a mesma fluência com que falava, escrevia.

          Sua passagem pela Escola de Engenharia de Minas em Ouro Preto, dera-lhe por outro lado, sólidas noções de ciências físicas e matemáticas, o que torna­va ainda mais completo o seu cabedal de conhecimen­tos, destacando-o dos demais médicos de sua geração.

 

O HOMEM

 

          Alguns aspectos da extraordinária personali­dade de Carlos Chagas merecem ser comentados. O principal deles era a sua bondade, o seu amor ao próximo. “Não sei de quem tanto se comovesse diante da miséria humana”, diz-nos Eurico Villela: “Miséria física ou moral. Sua compaixão pelo sofrimento alheio, sincera e profunda, não era, porém, passiva e resig­nada. Para atenuá-lo nunca se poupou, tudo dava de si num esforço que não distinguia o dia da noite, tor­turado na angústia de remediar o inelutável”.

          Tinha particular compaixão pelas crianças. Afeiçoava-se aos pequenos enfermos internados no Hospital e cobria-os de paternal proteção. Levava-os frequentemente a passear em sua residência e interessava-se pelo seu destino após a alta.

          A sua tolerância e compreensão para com os er­ros alheios eram proverbiais, chegando a parecer ti­bieza. Nunca se prevaleceu de sua posição, poder e prestígio para qualquer ato que resultasse em prejuí­zo de outrem, mesmo de seus adversários.

          Todos os gênios são combatidos em sua épo­ca, pois suas idéias são uma antecipação do porvir e não podem ser alcançadas pelos seus contemporâ­neos. Chagas teve também seus opositores, que ten­taram anular ou reduzir a importância de sua desco­berta. Sabia, entretanto, nas ocasiões propícias, de­fender com indomável bravura, o patrimônio científico que criara com trabalho honesto e pertinaz. Em duas ocasiões vemo-lo transfigurar-se na defesa de sua o­bra científica: No 1º  Congresso Pan-Americano, reali­zado em Buenos Aires em 1916, quando Krauss, Diretor do Instituto Bacteriológico de Buenos Aires procurou negar a existência da Doença de Chagas na Argentina, bem como a ação patogênica do S. cruzi; e em 1923, na memorável contenda havida na Academia Nacional de Medicina quando refutou a argumentação absurda dos Professores Afrânio Peixoto, Parreiras Horta e Figueire­do de Vasconcelos, que puseram em dúvida a existên­cia ou a importância da nova entidade mórbida.

          Do debate elevado que se travou na Argentina saiu vencedor e cumulado de honrarias; os a­taques que teve de suportar dentro de sua própria Pátria, entretanto, marcaram-lhe a alma de tristeza e amargura. Porque sabia ele que a ação do Governo em torno do problema ia ser retardada, como o foi re­almente, e que os únicos prejudicados seriam os mi­lhares de enfermos abandonados à sua própria sorte.

          A nobreza de caráter e a desambição pelos bens materiais são outras características de sua per­sonalidade. Quando, em 1918, o Governo lhe outorgou um prêmio em dinheiro, no valor de 50 contos de réis (Cr$ 50.000,00), elevada importância para aquela épo­ca, abriu mão do mesmo em favor da construção de um monumento a Oswaldo Cruz. Ao acumular duas importantes funções públicas, a de Diretor do Instituto Oswaldo Cruz e Diretor do Departamento Nacional de Saúde, aceitou apenas os vencimentos de uma das funções.

          Carlos Chagas teve na esposa a companhei­ra dedicada que sabia partilhar com ele dos mesmos ideais, propiciando-lhe as condições de tran­quilidade espiritual necessárias ao trabalho criador.

          Teve ainda, o que não é frequente, a felicidade de ver seus dois filhos, Evandro e Carlos, trilhar o seu próprio caminho, tornando-se cientistas ilustres. O primeiro deles foi, oito anos após a morte do pai, vítima de trágico acidente de aviação. Carlos Chagas Filho, que honra e dignifica uma das cátedras da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, é uma das glórias da medicina brasileira.

 

O BRASILEIRO, AMANTE DE SUA PÁTRIA

 

          Em todos os momentos de sua vida, Carlos Chagas tinha a mente e o coração voltados para os superiores interesses da Pátria.

O seu amor ao Brasil e sua predileção pelos problemas médicos relacionados com as condições sa­nitárias do interior do País são patentes em toda a sua vida e através de toda a sua obra.

          O seu primeiro trabalho, escrito ainda quan­do estudante, versava sobre o impaludismo, que foi também o assunto escolhido para a sua tese inaugural.

          Sua primeira conferência cuidava do saneamento rural e depois de sua excursão científica à Amazônia, o saneamento do País passou a ser a constante de todas as suas atividades e preocupações.

          Ao ser acusado por Afrânio Peixoto e outros adversários seus, de impatriota, por estar apresentan­do no exterior a Tripanosomíase americana como grave endemia e por estar exagerando sua importância social, respon­deu com estas palavras, perante a Academia Nacio­nal de Medicina.

          “Não me posso capacitar, Sr. Presidente, de que constitua nacionalismo sincero e verdadeiro esse empenho em desviar as providências do Estado de um dos assuntos que mais se impõem ao nosso zelo de brasileiros e às nossas responsabilidades de povo cul­to. Todos os países do mundo possuem seus proble­mas sanitários de maior gravidade e deles cuidam sem essa preocupação de ocultá-los aos próprios o­lhos ou aos olhos de outras nações”.

          “Não difamo a minha terra e nem deprimo os predicados nativos de minha raça, raça forte e va­lente, de raro estoicismo que a tem salvado na resis­tência homérica à doença em algumas regiões do País. Não procedo desse modo, Sr. Presidente, mas não de­sejo recomendar-me ao apreço de meus conterrâneos por um falso nacionalismo, que contraria os interesses da Nação e constitui obstáculo a seus impulsos civilizadores”.

          Na direção do Departamento Nacional da Saú­de pôde por em prática muitas medidas sanitárias de longo alcance, cujos benefícios logo se fizeram sentir.

          Na cátedra preocupava-se com a formação de uma consciência sanitária e patriótica de seus discí­pulos. Aconselhava sempre aos novos que estudas­sem, de preferência, a patologia regional, as doenças do Brasil. Ao dirigir-se na qualidade de paraninfo aos doutorandos de 1932 pronunciou as seguintes pala­vras:

          “Nessa obra magnânima de redenção nacio­nal pela ciência, será máximo o concurso de vossa inteligência, será decisiva a interferência da vossa sabedoria. Grande á a nossa Pátria na imensidade de seu território, mas é ainda maior nos seus intuitos de civilização e de cultura, nas reservas infinitas de seu civismo. Ide ampará-la na força de vossa ciência, ide elevá-la à altura dos seus destinos".

          Sua atuação no exterior elevou bem alto o no­me de nosso País. Chagas foi para o Brasil no terreno das ciências médicas o que foi Ruy Barbosa no cam­po do Direito.

          Em diversos congressos de âmbito internacio­nal era sua preocupação constante a projeção de nossa Pátria no concerto das nações civilizadas e se empenhava a fundo na defesa do bom nome da me­dicina brasileira.

          Por ocasião das festividades do centenário de nascimento de Pasteur em 1923, a exposição brasi­leira realizada em Estrasburgo, sob sua orientação, constituiu um sucesso marcante, a todos enchendo de entusiasmo e admiração. Basta citar a propósito o fato de ter o Ministro de Higiene da França convidado todos os participantes do Congresso de Lepra, a visitar o pavilhão brasileiro “a fim de admirar a formidável capacidade de organização de um País novo".

          Representou o Brasil em diversos outros Con­gressos, tais como o Íbero-Americano de Medicina, rea­lizado na Espanha em 1924; o de Malária, em Roma, em 1925; a Conferência Sanitária de Paris, em 1926, e o 7º Congresso Pan-Americano de Montevidéu, em 1932.

          Em todos eles brilhou como estrela de primei­ra grandeza, tornando respeitada e admirada a medi­cina brasileira e, em particular, a escola de Oswaldo Cruz.

 

O SÁBIO, PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

 

          Chagas pode ser comparado a Pasteur, Koch, Ehrlich e outros sábios, que se tornaram demasiado grandes para pertencerem apenas às suas respectivas nações. Tornou-se por isso patrimônio de toda a hu­manidade.

          A fama de Chagas cedo transpôs os mares e rompeu todas as fronteiras.

          Em 1912 já recebia o prêmio Schaudinn, con­sagração do Instituto de Moléstias Tropicais de Ham­burgo aos grandes cientistas.

          Em 1916 era convidado a dar um curso na Universidade de Harvard. Em 1920 foi aos Estados U­nidos como hóspede de honra da “Rockfeller Founda­tion”, tendo sido recebido como Artium Magistrum ho­noris causa pela Universidade de Harvard.

          Em Bruxelas, em 1923, foi-lhe oferecido um jan­tar pelo Rei Alberto, recebendo das mãos de sua Ma­jestade a Comenda da Ordem da Coroa da Bélgica. Conta-se que o rei Alberto, dirigindo-se a Carlos Chagas desculpou-se da presença de sua filha ao jantar, di­zendo: é preciso que cedo aprenda a conhecer os gran­des sábios.

          Na Espanha teve audiência especial do Rei que desejava conhecê-lo pessoalmente e que o agra­ciou com as Comendas da Ordem de Afonso XIII e da Ordem de Isabel, a Católica.

          Em Londres, ao ser apresentado ao famoso malariólogo Cel. James, este quis saber se se tratava do grande Chagas.

Recebeu ainda condecorações da Itália, França, Romênia e diversos outros diplomas e títulos, tais como membro das Academias de Medicina de New York, Paris, Madrid, Roma, Bruxelas e Doutor honoris causa das Faculdades de Medicina de Paris, Lima, Bruxelas e Hamburgo.

          O nome de Carlos Chagas cedo incorporou-se definitivamente à galeria dos grandes sábios e ben­feitores da humanidade.

          Aqueles que o combateram ou tentaram di­minuir-lhe o valor dentro de sua própria Pátria serão lembrados no futuro apenas por terem associado seus nomes à obra imortal do grande brasileiro.

 

 

Referências

 

BACELLAR, R. C. Carlos Chagas. O Hospital, 52 (3): 315-327, 1957.

BIO-BIBLIOGRAFIA DE CARLOS CHAGAS, organizada pela Biblioteca do Instituto Oswaldo Cruz. Serviço Gráfico do I.B.G.E. Rio, julho, 1959.

CHAGAS, C. Tripanosomiase Americana. Forma aguda da moléstia: Mem. Inst. Oswaldo Cruz, 8: 37-60, 1916.

CHAGAS, C. A trypanosomiase Americana. Conferência na Academia Nacional de Medicina em 6 de dezembro de 1923. A Folha Médica, 5: 5-8, 1924.

CHAGAS FILHO, C. Carlos Chagas. Oficina gráfica da Universidade do Brasil. Rio, setembro, 1958.

EDITORIAL. A Folha Médica, 4: 162, 1923.

EDITORIAL. A Folha Médica, 4: 186-187, 1923.

NOTICIÁRIOS DA ACADEMIA NACIONAL DE MEDICINA. A Folha Médica, 4: 6, 1923; 4: 232, 1923 e 4: 240-243, 1923.

PELLEGRINO, J. e REZENDE, C.L. A doença de Chagas na infância. Rev. Eras. Med. 9: 765-780, 1952.

VILLELA, E. Carlos Chagas. Indústrias Gráficas Legislação Federal S.A. Rio, junho, 1959.

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Publicado no livro do autor, Vertentes da Medicina, São Paulo, Ed. Giordano, 2001, p.319-333.

 

Joffre M. de Rezende

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