CARLOS CHAGAS
Representa
uma tarefa das mais difíceis sintetizar em poucas paginas, a vida e a obra de
Carlos Chagas.
Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas, primeiro filho do casal José
Justiniano das Chagas e Mariana Cândida das Chagas, nasceu a 9 de julho de
1879, na fazenda do Bom Retiro, município de Oliveira, Estado de Minas Gerais.
Os seus primeiros anos de vida decorreram no ambiente rural de duas propriedades
agrícolas, onde a principal atividade consistia no plantio do café. Deriva daí,
possivelmente, o seu amor à natureza e a sua identificação com os problemas do
homem do campo nos anos posteriores.
Órfão de
pai aos 4 anos, já aos 7 era enviado como interno ao Colégio dos Jesuítas em
Itu, no Estado de São Paulo. Um ano depois era dali transferido para S. João
del Rei, onde se educou no Colégio Santo Antônio, tendo como principal mentor o
Padre João Sacramento, considerado na época grande educador, humanista e poeta.
Era
desejo de sua mãe que o filho primogênito fosse engenheiro e por isso foi
Carlos Chagas estudar na famosa Escola de Minas de Ouro Preto.
Aos 16
anos de idade, achando-se em Oliveira, encontrou seu tio Carlos Ribeiro de
Castro, médico recém-chegado do Rio, que exerceu sobre ele decisiva influência,
aconselhando-o a deixar a engenharia pela medicina.
Em 1896
matriculou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
Destacou-se
durante o curso médico como um dos mais brilhantes e esforçados alunos,
tornando-se querido de seus mestres, dentre os quais se achavam Aloysio de
Castro, Miguel Couto, Francisco Fajardo e outros.
Iniciou
sua vida profissional como clínico, mas dificuldades financeiras levaram-no a
aceitar em 1905, o oferecimento para trabalhar na Cia. Docas de Santos. Ali,
aos 26 anos de idade, realizou com êxito, a primeira campanha antipalúdica no
Brasil.
De volta
ao Rio, outras tarefas semelhantes o aguardavem. Primeiramente na baixada fluminense
e, a seguir, no vale do Rio das Velhas, onde os operários da Estrada de Ferro
Central do Brasil eram dizimados pela malária.
Na
localidade de Lassance, em pleno sertão mineiro, realizou Carlos Chagas em
Dedicou-se
daí por diante com devoção ao Instituto Oswaldo Cruz, do qual foi diretor após
a morte se seu fundador. Ocupou ainda, até a sua morte, a cátedra de Clínica
de Doenças Tropicais e Infectuosas da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro
e realizou um extenso trabalho à frente do Departamento Nacional de Saúde
Pública.
Faleceu
subitamente, aos 8 de novembro de 1934, com 55 anos de idade.
Para
melhor compreender Carlos Chagas, analisaremos separadamente as diversas faces
de sua multifária personalidade, valendo-nos de estudos biográficos já
publicados e de trabalhos originais do nosso biografado. Carlos Chagas viveu,
na realidade, diversas vidas paralelas, tal a vivacidade de sua inteligência,
a inquietude de seu espírito e o vigor de sua mente privilegiada.
Sua tese
inaugural, realizada no Instituto Oswaldo Cruz e dada a lume em 1903, versa
sobre “Estudos hematológicos no Impaludismo”. De
Descreveu
uma cepa do Plasmodium falciparum,
responsável pelas formas clínicas graves ou perniciosas. Verificou a existência
de uma espécie de anofelino de hábitos diurnos, que denominou Celia brasiliensis, e ligou seu nome a
diversas outras espécies de anofelínos.
Sua
genial descoberta realizada aos 30 anos de idade merece ser contada por suas
próprias palavras:
“A
ocorrência de grande epidemia de malária em operários do governo nos trabalhos
de construção da Estrada de Ferro Central do Brasil, no vale do Rio das Velhas,
fez com que fossem solicitadas pelo Ministro Miguel Calmon, providencias a
Oswaldo Cruz. Este atendeu pressuroso à solicitação e,
empenhado em prosseguir nas campanhas antipalúdicas, com êxito executadas em
outras regiões do país, resolveu confiar-me o encargo das medidas
sanitárias".
“Em
companhia do Dr. Belisário Penna, por mim convidado para auxiliar da missão,
segui para os sertões mineiros e lá nos instalamos nas margens do Rio Bicudo,
onde permaneciam, retardados pela intensa epidemia, os trabalhos da via férrea.
Iniciamos aí a profilaxia da malária e dela conseguimos resultados dos mais
propícios, o que permitiu prosseguimento regular dos serviços de construção.
Mais de um ano permanecemos naquela zona, sem que houvéssemos sabido da
existência, ali, nas choupanas dos regionais, de um inseto hematófago,
denominado vulgarmente barbeiro, chupão ou chupança. Já nessa época tivemos
oportunidade de realizar vasta observação clínica, e de estudar numerosos
casos mórbidos nos habitantes da região, tanto naqueles sujeitos a infecção
palúdica, porque residiam em vales de grandes e pequenos rios, quanto ainda em
outros, que habitando zonas mais ou menos elevadas ou montanhosas, nenhum
sinal apresentavam de malária. E desde então foi-nos penosa a absoluta
impossibilidade de classificar, no quadro nosológico conhecido, muitos dos
casos mórbidos que se ofereciam ao nosso estudo. Nem valiam, para elucidação do
diagnostico, os recursos experimentais do laboratório, e nem decidiam os
elementos da semiótica mais segura e meditada. Alguma coisa de novo, nos
domínios da patologia, aí perdurava desconhecida e se impunha à nossa curiosidade.
“Numa
viagem a Pirapora, e quando pernoitávamos, o Dr. Belisário Penna e eu, no
acampamento de engenheiros, encarregados dos estudos da linha férrea.
conhecemos o barbeiro, que nos foi mostrado pelo Dr. Cantarino Mota, chefe da
comissão de engenheiros. O papel de diversos hematófagos na transmissão de
doenças humanas, e na de algumas tripanosomíases de mamíferos, orientou agora o
meu raciocínio e levou-me a conseguir novos exemplares do inseto, a fim de
pesquisar no tubo digestivo deles ou nas glândulas salivares, qualquer
parasito, do qual fosse o barbeiro o hospedador intermediário. Dissecando os
insetos, no intestino posterior de cada um encontrei numerosos flagelados, que
apresentavam os caracteres de critídias. Esta verificação conduziu-me a duas
hipóteses: ou seria o flagelado observado parasito natural do inseto, sem
qualquer ação patogênica, ou representaria estádio evolutivo de um
hematoflagelado de vertebrado, quiçá do próprio homem. Assim orientado, iniciei
a nova fase de meus trabalhos pela pesquisa do tripanosoma naqueles indivíduos
cuja condição mórbida obscura escapava à minha interpretação. Quantas
tentativas de principio realizei, visando a encontrar o tripanosoma, foram
sempre negativas, fato posteriormente explicado pela ausência do parasito no
sangue periférico, e sua localização exclusiva na intimidade dos tecidos. As
minhas observações foram realizadas em residências humanas, abundantemente infestadas
de triatomas e numa delas, quando insistia na pesquisa do protozoário,
encontrei um gato, evidentemente doente, em cujo sangue verifiquei a presença
do Trypanosoma cruzi. Nenhuma
conclusão definitiva, porém, autorizava esse achado, porquanto, sendo o gato
um animal doméstico que pernoitava nas residências humanas, deveria ser também
sugado pelos insetos e não poderia constituir maior surpresa sua infecção. E,
aliás, em pesquisas posteriores, repeti múltiplas vezes a mesma verificação, o
que me levou a considerar aquele animal um reservatório do parasito, e por isso
mesmo um elemento epidemiológico da doença.
“Insistindo
em meus trabalhos, e devo afirmar que o fazia com fundamentada segurança de êxito,
tive oportunidade de surpreender febricitante uma criança, residente na casa
onde eu havia verificado a infecção de um gato. Ë de referir que talvez, 15 ou
20 dias antes, pernoitara eu na habitação daquela doentinha, e aí tive o
ensejo de observar grande numero de insetos picando os habitantes inclusive a
criança agora febril, e que então se apresentava absolutamente higida”.
Esta
descrição demonstra a centelha do gênio, a pertinácia do pesquisador e o
raciocínio indutivo e dedutivo do método científico. O que mais admira é a amplitude
e o polimorfismo da cultura médica de Carlos Chagas, que abordava sempre com
igual segurança e perfeito domínio os mais diversos terrenos: a entomologia, a
microbiologia, a clínica, a medicina preventiva.
Pela primeira
vez, na história da medicina, um médico pesquisador descobria sozinho uma nova
doença, o seu agente etiológico, o transmissor e os reservatórios. Não
contente com isso, descreveu, com a colaboração de Eurico Villela, Magarinos
Torres, Gaspar Vianna e outros, todos os aspectos clínicos da nova enfermidade,
sua evolução, anatomia patológica e métodos diagnósticos; anteviu sua extensão
epidemiológica e importância social e indicou os caminhos para a sua
profilaxia.
Longe de
deter-se em suas atividades de pesquisa, após sua grandiosa descoberta, que
lhe deu fama universal, continuou trabalhando árdua e entusiasticamente, não
só na ampliação dos conhecimentos sobre a Tripanosomíase americana, como em
outros setores. Deve-se a ele importantes trabalhos sobre outros protozoários.
Registrou, pela primeira vez, a presença da moléstia de Sodoku no Rio de
Janeiro; descreveu a forma edematosa da febre quartã; identificou as úlceras
encontradas nas populações da Amazônia à leishmaniose e fez numerosas outras
observações de valor.
Por sua
grandeza, valor e brilho, seu trabalho em Lassance como que ofuscou os demais,
que teriam sido suficientes para imortalizá-lo.
A
incomparável figura de Oswaldo Cruz exerceu irresistível atração sobre Carlos
Chagas no início de sua trajetória. Oswaldo Cruz, após a memorável campanha
contra a febre amarela no Rio de Janeiro, aproveitara o seu prestígio para
conseguir a criação de um centro de medicina experimental — o Instituto de
Manguinhos, depois Instituto Oswaldo Cruz. Ali Carlos Chagas fez sua tese
inaugural, tendo oportunidade de conhecer de perto aquele que era então um
símbolo para a mocidade estudiosa do Brasil.
Recusando
um primeiro convite para permanecer no Instituto, passou, entretanto, a fazer
parte do mesmo por ocasião da campanha sanitária contra a malária na baixada
fluminense.
Estabeleceu-se,
daí por diante, perfeita sintonia e duradoura amizade entre Carlos Chagas e
Oswaldo Cruz. Chagas teria, por força, que tomar o lugar de Oswaldo Cruz, após
a morte deste, para continuidade da obra encetada naquele Centro de Pesquisas.
Revelou-se Carlos Chagas um
sanitarista já aos 26 anos de idade, quando se desincumbiu com êxito da
campanha antipalúdica junto à Cia. Docas de Santos. Seu prestígio cresceu ao
encetar com igual descortínio a mesma campanha nos arredores do Rio de Janeiro,
o que lhe valeu, imediatamente, outra missão ainda mais difícil, a do vale do
Rio das Velhas. Abençoada incumbência que lhe permitiu a descoberta da doença
que hoje tem o seu nome!
O ano de
1912, no dizer de seu filho, marca, entretanto, “o início da evolução de sua
personalidade. Desde então passará a ter gradativamente um só objetivo em sua
vida, que é o saneamento da Nação”.
Esta
evolução fora determinada pela viagem a Amazônia, aonde foi incumbido de
estudar as endemias locais e o modo de combatê-las. Ali conheceu o lastimável
estado de penúria das populações, em contraste com a riqueza potencial da
terra. O sanitarista atingiu, daí por diante, sua plena maturidade.
Por
ocasião da gripe espanhola, já como Diretor do Instituto Oswaldo Cruz, foi-lhe
entregue a chefia do combate à endemia. Essa tarefa exigiu a mobilização de
todas as suas reservas de energia. Tal foi a sua dedicação à causa que o povo
do Rio Janeiro quis elegê-lo Senador ou Deputado e o Governo ofereceu-lhe uma
cátedra. Recusou uma e outra oferta e voltou-se com devotamento para o
Instituto Oswaldo Cruz.
Logo
depois, entretanto, o Governo de Epitácio Pessoa convidou-o para dirigir o
Departamento Nacional de Saúde Pública, recém-criado. Aceitou o novo posto,
sem, entretanto, abandonar a direção da Casa de Oswaldo Cruz, como a chamava.
Naquele
Departamento encontrou meios de iniciar a luta pelo saneamento do País. Para
tanto, criou as Inspetorias de combate à tuberculose, à sífilis, à lepra e de
proteção à infância. Orientou a legislação e os regulamentos de Saúde Pública.
Fundou a Escola de Enfermeiras Ana Nery, que serviu de modelo para as demais no
País. Regulamentou a profissão da enfermagem e estabeleceu a formação de médicos
sanitaristas, dando-lhes condições de trabalho em regime de tempo integral. De
Lendo-se
os trabalhos de Carlos Chagas tem-se idéia de suas qualidades de clínico
perspicaz e observador. Não há fato ou pormenor com relação à tripanosomíase
que lhe tenha escapado.
Compreende-se
que tenha sido excelente clínico se nos lembrarmos que foi discípulo dileto de
Miguel Couto, com ele aprendendo à cabeceira dos doentes, não somente a
propedêutica e a patologia, mas também a bondade, o desvelo e a dedicação no
trato com os doentes.
De Miguel
Couto diria mais tarde: “Nele aprendi, acima de tudo, a visar na missão do
médico sua alta finalidade de amor e altruísmo”.
Diz
Eurico Villela em seu relato: “Por esse tempo ainda grassava a febre amarela
no Rio, pela qual eram vitimados numerosos estudantes mineiros e do sul do
País. Estudante atacado de febre amarela tinha que ter visita de Couto e à
cabeceira, Chagas. Que imenso consolo não era para o jovem doente, sentir que
por ele velavam a bondade e o saber do mestre e do discípulo”.
Dedicado
ao estudo e insatisfeito com os conhecimentos superficiais dos compêndios, era
apelidado pelos colegas de “homem dos tratados”. Com frequência, diz-nos
ainda Eurico Villela, “o interno de. Clínica Módica, via-se rodeado pelos
condiscípulos que à beira do leito do doente queriam ouvir a explanação clara
do caso clínico”.
Foi-lhe
possível assim descrever tão bem a doença que recebeu seu nome. Algumas
interpretações, como a do bócio endêmico foram por ele mesmo corrigidas mais
tarde, porém os relatos clínicos permanecem fiéis, completos e autênticos.
Com a
mesma desenvoltura com que manejava o microscópio e descrevia os caracteres
morfológicos de um protozoário ou as alterações patológicas de um tecido,
examinava um doente dentro da mais apurada semiótica, pesquisando e
descobrindo os elementos de valor para o diagnóstico.
São
magistrais as descrições clínicas que nos legou, às quais nada se lhes pode
acrescentar.
Carlos
Chagas ocupou durante os últimos anos de sua vida a cátedra de Doenças
Tropicais e Infectuosas, que lhe fora oferecida na Faculdade de Medicina do
Rio de Janeiro.
Devotava
grande amor ao ensino e punha em suas aulas toda a sua eloquência e todo o
brilho de sua inteligência.
Anos
antes, colaborara em um curso de aperfeiçoamento no Instituto Oswaldo Cruz, sendo-lhe
confiada a parte de protozoologia.
Deixemos
falar seu antigo companheiro, Eurico Villela: “Suas aulas são quase ditadas na
improvização de uma forma perfeita e elegante”. “A exposição deflue metódica
e os temas se entrelaçam na sequência natural, sucedem-se e substituem-se
insensivelmente na seriação lógica”. “As notas do seu curso, são um modelo de
exposição clara e metódica em que as doutrinas dominantes estão ponteadas dos
modos de ver pessoal”.
Com
referência ao curso que ministrava na Faculdade é ainda Villela quem diz: “O
conhecimento profundo da matéria, a sistematização superior do assunto, o
desenvolvimento da doutrina, os elementos de demonstração que formavam a parte
do ensino objetivo, a multiplicidade dos pontos originais que deixavam de ser
personalistas porque quase todos universalmente adotados, a palavra que acudia
dócil, agradável e precisa, davam a seu curso, autoridade, prestígio e encanto,
que dificilmente serão atingidos e nunca excedidos”.
“Era o
verdadeiro tipo do professor no qual o didatismo se tempera com o pesquizador
na mais perfeita harmonia e nas medidas exatas, limitadas pelo seu senso inato
das proporções”. “Comprazia-se em dar uma aula e nela punha calor, arte e vida.
Daí o carinho com que organizava as lições. As aulas eram cuidadosamente
estudadas e preparadas e se a elocução fácil dava-lhe o cunho de improviso, a
improvisação era só da forma que a doutrina provinha de profunda meditação e
elaboração demorada”.
Na
véspera de sua morte estivera até hora e meia da madrugada preparando a lição
do dia seguinte, que versava sobre doença de Chagas!
Revelou-se
sempre um professor de escol em todas as conferências que pronunciava nos
centros médicos do País e do exterior. Clareza nas idéias, segurança no raciocínio,
precisão de linguagem e elegância de expressão, eram seus atributos.
O ensino
universitário muito lhe deve, pois foi membro da Comissão que elaborou o
anteprojeto do ensino superior na reforma Francisco de Campos, sendo de sua
iniciativa a criação do Conselho Nacional de Educação e dos Conselhos
Técnico-Administrativos que regem os destinos dos Institutos Universitários.
Carlos
Chagas possuía as qualidades da um líder. Quando estudante já aglutinava em
torno de si as aspirações dos colegas e, como consequência, foi alçado à
direção do Grêmio dos Internos dos Hospitais do Rio de Janeiro.
Ao findar
o curso, escolheram-no para orador da turma e intérprete dos sentimentos de sua
classe.
Nos
diversos cargos de chefia que exerceu durante sua vida, a serviço da Pátria,
demonstrou sempre largueza de vistas, espírito de organização e extraordinária
capacidade de trabalho. Era um chefe respeitado e querido de seus subalternos.
Na
direção do Instituto Oswaldo Cruz sua ação administrativa foi intensa e
profícua, no dizer de Eurico Villela. “Ao mesmo tempo que terminava as
instalações da biblioteca, do museu, do Hospital de doenças tropicais e
incentivava o desenvolvimento da filial de Belo-Horizonte, criou as novas
seções de físico-química, medicamentos oficiais, anatomia patológica,
fisiologia, micologia, e incorporou ao Instituto o antigo Instituto
Vacinogênico Municipal (de vacina anti-variólica) e o recém-fundado Centro
Internacional de Estudos sobre a Lepra”.
“A tudo dava assistência com a sua lúcida inteligência
e agudo espírito crítico, com aquela clarividência que lhe mostrava quase por
intuição o caminho a seguir”.
A
educação eclesiástica, quaisquer que sejam os defeitos que se lhe possam
imputar, apresenta sempre um magnífico saldo positivo – o amplo conhecimento de
humanidades que proporciona e o seguro domínio do vernáculo graças ao estudo
das letras clássicas.
As lições
recebidas por Chagas no Colégio de S. João del Rey, certamente plasmaram em seu
espírito o gosto pela pureza da linguagem e pela beleza do estilo.
Os seus
escritos, mesmo os relacionados com aspectos puramente técnicos, possuem um
encanto todo particular pelo sabor clássico de que estão impregnados. Vejamos
um período tomado ao acaso quando descreve por exemplo, a forma aguda da doença
(1916): “De pouca valia, ou de nenhuma, são aqui os sinais colhidos na anamnese
do próprio doente. Às mais das vezes, lidamos com crianças de baixa idade, que
ainda não falam, e quando maiores de alguns anos, aos sinais subjetivos
acusados falta qualquer precisão, nenhum valor merecendo, de indecisos e quase
sempre inconsequentes”.
Quando escreve abordando temas
gerais, sentimos a limpidez cristalina de seu pensamento e o poder
grandiloqüente de sua pena. Vejamos este trecho transcrito por seu filho, de
suas notas de viagem pela Amazónia: “Nestas imensas terras fertilíssimas, palmo
a palmo recobertas de vegetações luxuriantes, de fluorescências magníficas, de
frutificações abundantes, nessa fecunda e opulenta natureza tropical, as mesmas
influências cósmicas, as mesmas energias criadoras que estimulam e fortalecem
a vida animal e vegetal, fizeram nascer e proliferar fatores de destruição e
da morte”...
Revelou-nos
Mário Araújo, que o conhecera de perto na Biblioteca do Instituto Oswaldo Cruz,
que seus manuscritos raramente apresentavam emendas ou rasuras. Com a mesma
fluência com que falava, escrevia.
Sua
passagem pela Escola de Engenharia de Minas
Alguns
aspectos da extraordinária personalidade de Carlos Chagas merecem ser comentados.
O principal deles era a sua bondade, o seu amor ao próximo. “Não sei de quem
tanto se comovesse diante da miséria humana”, diz-nos Eurico Villela: “Miséria
física ou moral. Sua compaixão pelo sofrimento alheio, sincera e profunda, não
era, porém, passiva e resignada. Para atenuá-lo nunca se poupou, tudo dava de
si num esforço que não distinguia o dia da noite, torturado na angústia de
remediar o inelutável”.
Tinha
particular compaixão pelas crianças. Afeiçoava-se aos pequenos enfermos
internados no Hospital e cobria-os de paternal proteção. Levava-os
frequentemente a passear em sua residência e interessava-se pelo seu destino
após a alta.
A sua
tolerância e compreensão para com os erros alheios eram proverbiais, chegando
a parecer tibieza. Nunca se prevaleceu de sua posição, poder e prestígio para
qualquer ato que resultasse em prejuízo de outrem, mesmo de seus adversários.
Todos os
gênios são combatidos em sua época, pois suas idéias são uma antecipação do
porvir e não podem ser alcançadas pelos seus contemporâneos. Chagas teve
também seus opositores, que tentaram anular ou reduzir a importância de sua
descoberta. Sabia, entretanto, nas ocasiões propícias, defender com indomável
bravura, o patrimônio científico que criara com trabalho honesto e pertinaz. Em
duas ocasiões vemo-lo transfigurar-se na defesa de sua obra científica: No 1º Congresso Pan-Americano, realizado
Do debate
elevado que se travou na Argentina saiu vencedor e cumulado de honrarias; os ataques
que teve de suportar dentro de sua própria Pátria, entretanto, marcaram-lhe a
alma de tristeza e amargura. Porque sabia ele que a ação do Governo em torno do
problema ia ser retardada, como o foi realmente, e que os únicos prejudicados
seriam os milhares de enfermos abandonados à sua própria sorte.
A nobreza
de caráter e a desambição pelos bens materiais são outras características de
sua personalidade. Quando, em 1918, o Governo lhe outorgou um prêmio em
dinheiro, no valor de 50 contos de réis (Cr$ 50.000,00), elevada importância
para aquela época, abriu mão do mesmo em favor da construção de um monumento a
Oswaldo Cruz. Ao acumular duas importantes funções públicas, a de Diretor do
Instituto Oswaldo Cruz e Diretor do Departamento Nacional de Saúde, aceitou
apenas os vencimentos de uma das funções.
Carlos
Chagas teve na esposa a companheira dedicada que sabia partilhar com ele dos
mesmos ideais, propiciando-lhe as condições de tranquilidade espiritual
necessárias ao trabalho criador.
Teve
ainda, o que não é frequente, a felicidade de ver seus dois filhos, Evandro e
Carlos, trilhar o seu próprio caminho, tornando-se cientistas ilustres. O
primeiro deles foi, oito anos após a morte do pai, vítima de trágico acidente
de aviação. Carlos Chagas Filho, que honra e dignifica uma das cátedras da
Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, é uma das glórias da
medicina brasileira.
Em todos
os momentos de sua vida, Carlos Chagas tinha a mente e o coração voltados para
os superiores interesses da Pátria.
O seu amor ao Brasil e sua
predileção pelos problemas médicos relacionados com as condições sanitárias do
interior do País são patentes em toda a sua vida e através de toda a sua obra.
O seu
primeiro trabalho, escrito ainda quando estudante, versava sobre o
impaludismo, que foi também o assunto escolhido para a sua tese inaugural.
Sua
primeira conferência cuidava do saneamento rural e depois de sua excursão
científica à Amazônia, o saneamento do País passou a ser a constante de todas
as suas atividades e preocupações.
Ao ser
acusado por Afrânio Peixoto e outros adversários seus, de impatriota, por estar
apresentando no exterior a Tripanosomíase americana como grave endemia e por
estar exagerando sua importância social, respondeu com estas palavras, perante
a Academia Nacional de Medicina.
“Não me
posso capacitar, Sr. Presidente, de que constitua nacionalismo sincero e
verdadeiro esse empenho em desviar as providências do Estado de um dos assuntos
que mais se impõem ao nosso zelo de brasileiros e às nossas responsabilidades
de povo culto. Todos os países do mundo possuem seus problemas sanitários de
maior gravidade e deles cuidam sem essa preocupação de ocultá-los aos próprios
olhos ou aos olhos de outras nações”.
“Não
difamo a minha terra e nem deprimo os predicados nativos de minha raça, raça
forte e valente, de raro estoicismo que a tem salvado na resistência homérica
à doença em algumas regiões do País. Não procedo desse modo, Sr. Presidente,
mas não desejo recomendar-me ao apreço de meus conterrâneos por um falso
nacionalismo, que contraria os interesses da Nação e constitui obstáculo a seus
impulsos civilizadores”.
Na
direção do Departamento Nacional da Saúde pôde por em prática muitas medidas
sanitárias de longo alcance, cujos benefícios logo se fizeram sentir.
Na
cátedra preocupava-se com a formação de uma consciência sanitária e patriótica
de seus discípulos. Aconselhava sempre aos novos que estudassem, de
preferência, a patologia regional, as doenças do Brasil. Ao dirigir-se na qualidade
de paraninfo aos doutorandos de 1932 pronunciou as seguintes palavras:
“Nessa
obra magnânima de redenção nacional pela ciência, será máximo o concurso de
vossa inteligência, será decisiva a interferência da vossa sabedoria. Grande á
a nossa Pátria na imensidade de seu território, mas é ainda maior nos seus
intuitos de civilização e de cultura, nas reservas infinitas de seu civismo.
Ide ampará-la na força de vossa ciência, ide elevá-la à altura dos seus
destinos".
Sua
atuação no exterior elevou bem alto o nome de nosso País. Chagas foi para o
Brasil no terreno das ciências médicas o que foi Ruy Barbosa no campo do
Direito.
Em
diversos congressos de âmbito internacional era sua preocupação constante a
projeção de nossa Pátria no concerto das nações civilizadas e se empenhava a
fundo na defesa do bom nome da medicina brasileira.
Por
ocasião das festividades do centenário de nascimento de Pasteur em
Representou
o Brasil em diversos outros Congressos, tais como o Íbero-Americano de
Medicina, realizado na Espanha em 1924; o de Malária, em Roma, em 1925; a
Conferência Sanitária de Paris, em 1926, e o 7º Congresso Pan-Americano de
Montevidéu, em 1932.
Em todos
eles brilhou como estrela de primeira grandeza, tornando respeitada e admirada
a medicina brasileira e, em particular, a escola de Oswaldo Cruz.
Chagas
pode ser comparado a Pasteur, Koch, Ehrlich e outros sábios, que se tornaram
demasiado grandes para pertencerem apenas às suas respectivas nações. Tornou-se
por isso patrimônio de toda a humanidade.
A fama de
Chagas cedo transpôs os mares e rompeu todas as fronteiras.
Em 1912
já recebia o prêmio Schaudinn, consagração do Instituto de Moléstias Tropicais
de Hamburgo aos grandes cientistas.
Em 1916
era convidado a dar um curso na Universidade de Harvard. Em 1920 foi aos
Estados Unidos como hóspede de honra da “Rockfeller Foundation”, tendo sido
recebido como Artium Magistrum honoris
causa pela Universidade de Harvard.
Em
Bruxelas, em 1923, foi-lhe oferecido um jantar pelo Rei Alberto, recebendo das
mãos de sua Majestade a Comenda da Ordem da Coroa da Bélgica. Conta-se que o
rei Alberto, dirigindo-se a Carlos Chagas desculpou-se da presença de sua filha
ao jantar, dizendo: é preciso que cedo aprenda a conhecer os grandes sábios.
Na
Espanha teve audiência especial do Rei que desejava conhecê-lo pessoalmente e
que o agraciou com as Comendas da Ordem de Afonso XIII e da Ordem de Isabel, a
Católica.
Em
Londres, ao ser apresentado ao famoso malariólogo Cel. James, este quis saber
se se tratava do grande Chagas.
Recebeu ainda condecorações da
Itália, França, Romênia e diversos outros diplomas e títulos, tais como membro
das Academias de Medicina de New York, Paris, Madrid, Roma, Bruxelas e Doutor honoris causa das Faculdades de Medicina de Paris, Lima, Bruxelas e
Hamburgo.
O nome de
Carlos Chagas cedo incorporou-se definitivamente à galeria dos grandes sábios e
benfeitores da humanidade.
Aqueles
que o combateram ou tentaram diminuir-lhe o valor dentro de sua própria Pátria
serão lembrados no futuro apenas por terem associado seus nomes à obra imortal
do grande brasileiro.
BACELLAR, R. C. Carlos Chagas. O Hospital, 52 (3):
315-327, 1957.
BIO-BIBLIOGRAFIA DE CARLOS CHAGAS, organizada pela
Biblioteca do Instituto Oswaldo Cruz. Serviço Gráfico do I.B.G.E. Rio, julho,
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CHAGAS, C. Tripanosomiase Americana. Forma aguda da
moléstia: Mem. Inst. Oswaldo Cruz, 8: 37-60, 1916.
CHAGAS, C. A trypanosomiase Americana. Conferência na
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CHAGAS FILHO, C. Carlos Chagas. Oficina gráfica da
Universidade do Brasil. Rio, setembro, 1958.
EDITORIAL. A Folha Médica, 4: 162, 1923.
EDITORIAL. A Folha Médica, 4: 186-187, 1923.
NOTICIÁRIOS DA ACADEMIA NACIONAL DE MEDICINA. A Folha
Médica, 4: 6, 1923; 4: 232, 1923 e 4: 240-243, 1923.
PELLEGRINO, J. e REZENDE, C.L. A doença de Chagas na
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VILLELA, E. Carlos Chagas. Indústrias Gráficas
Legislação Federal S.A. Rio, junho, 1959.
_________
Publicado no livro do autor, Vertentes da Medicina, São
Paulo, Ed. Giordano, 2001, p.319-333.
Joffre M. de Rezende
e-mail: jmrezende@cultura.com.br