EPISÓDIO MACABRO NO ENSINO DE ANATOMIA
No século XVIII, Edinburgh, na Grã-Bretanha,
era um grande centro de estudos anatômicos. Na Universidade, a cátedra de
Anatomia foi ocupada pela dinastia dos Monro por três gerações. O primeiro
deles, Alexander Monro primus lecionou de
Na época,
era permitido o ensino paralelo em escolas e cursos privados. Para o ensino de
anatomia destacava-se o curso extracurricular dirigido por John Barclay,
anatomista de grande renome e prestígio internacional. Barclay convidou para
ser seu assistente ao Dr. Robert Knox, que se tornou um dos personagens do episódio
que vamos narrar. Antes, precisamos saber quem era Robert Knox.
Robert
Knox (1791-1862) era natural de Edinburgh, onde foi educado. No colégio fora um
aluno brilhante, tendo sido premiado por seu desempenho nos estudos e conduta
exemplar. Graduou-se em medicina em 1814, ingressando no ano seguinte no Exército
como cirurgião-auxiliar. Uma de suas primeiras atuações foi a de atender feridos
da batalha de Waterloo. Em 1815 foi promovido a cirurgião-assistente, indo servir
na África do Sul, onde permaneceu durante três anos.
Durante
sua estada na África do Sul interessou-se por estudos de anatomia comparada,
antropologia e características étnicas dos povos africanos.
Retornando a Edinburgh em 1821 licenciou-se do Exército
e foi estagiar em Paris com Cuvier, um dos grandes anatomistas da época. De
volta a Edinburgh aceitou o convite de Barclay para ser seu assistente no curso
de anatomia.
Entre 1821 e 1823 Knox
publicou vários trabalhos científicos no Edinburgh Medical Journal e em
dezembro de 1823 foi eleito membro da Royal Society.
Barclay possuía uma grande
coleção de peças anatômicas, que ele doou ao Royal College of Surgeons de
Edinburgh para instalação de um museu de anatomia e, em 1825, Knox foi indicado
para Conservador do museu. Este museu foi enriquecido com outra grande coleção
de anatomia e anatomia patológica adquirida pelo Colégio, em Londres, de
Charles Bell. Knox encarregou-se de organizar o museu, catalogando todas as
peças.
Paralelamente a essas atividades,
Knox firmou-se como professor de anatomia na escola de Barclay. Suas aulas eram
muito apreciadas pelos alunos por seu conteúdo, exposição didática e, sobretudo,
pelas demonstrações práticas em dissecções de cadáveres.
Em agosto de 1826 Barclay
faleceu e Knox assumiu a direção da escola, que contava, naquele ano, com 300
alunos matriculados.
Na época, o ensino prático de anatomia era
dificultado pela falta de cadáveres para dissecção. A dissecção só era legalmente
permitida em corpos dos criminosos condenados ao patíbulo, pois fazia parte da
pena de morte negar ao criminoso sepultamento digno em terreno santificado pela
Igreja.
O
número de criminosos condenados à morte era insuficiente para prover as
necessidades do ensino de anatomia. Em conseqüência, surgiu o mercado negro de
cadáveres, os quais eram exumados por ladrões no cemitério, logo após o
sepultamento, e vendidos às escolas médicas. Os cadáveres deviam ser recentes,
pois não havia os métodos de conservação atuais. Os ladrões de cadáveres
passaram a ser chamados de ressurreccionistas.
As
famílias dos mortos, para se defenderem dos ressurreccionistas, costumavam
proteger o túmulo com grades ou pagar vigias noturnos. Alguns cemitérios foram
cercados de muros ou dispunham de torres de observação e policiamento contínuo.
Mesmo assim, os ladrões de cadáveres conseguiam ludibriar toda a vigilância.
Curiosamente,
os ressurreccionistas, quando acusados, não eram condenados, por falta de
amparo legal, pois não havia lei prevendo este tipo de crime e a violação da
sepultura não se enquadrava como roubo, já que o cadáver não é propriedade de
ninguém.
Foi
nessa época e nesse ambiente que ocorreu o episódio macabro que abalou a opinião
pública, não somente na Inglaterra, como em todo o mundo. Dois irlandeses,
William Hare e William Burke, que residiam em Edinburgh, cometeram uma série de
assassinatos com o fim de vender os corpos das vítimas para dissecção nas aulas
de anatomia.
William
Hare residia em uma pensão, cujo proprietário, Mr. Log, veio
a falecer. Hare casou-se com a viúva, Margaret, passando da condição de hóspede
a dono da pensão. William Burke e sua amante, Helen Mc Douglas, foram residir
na referida pensão como inquilinos.
Hare e Burke costumavam beber juntos e tornaram-se amigos. Em 29 de novembro de 1827,
um dos pensionistas, de nome Donald, aposentado que vivia só, morreu
subitamente, deixando uma dívida para com a pensão. Hare teve a idéia de vender
o cadáver para dissecção,
com o fim de se ressarcir do prejuízo. Com a ajuda de Burke simulou o
sepultamento, colocando no caixão um peso equivalente ao de uma pessoa.
Hare tencionava vender o
corpo para Alexander Monro, na Universidade, porém foi informado por um
estudante que a escola de anatomia do Dr. Knox pagaria um preço melhor. O corpo
foi vendido para o Dr. Knox por
Encorajados com o sucesso da
operação, perceberam ambos que a venda de cadáveres era um negócio muito
lucrativo. Em lugar de violar sepulturas no cemitério, o que
era trabalhoso e arriscado, idealizaram um processo mais fácil de obter
o cadáver, que puseram
A vítima era embriagada com
whisky e, a seguir, morta por asfixia, comprimindo-se com um travesseiro ou
almofada seu rosto, impedindo-a de respirar. Esse método não deixava vestígio
da causa da morte. Burke se encarregava da execução e Hare de negociar a venda
do corpo.
Os estudantes do curso de
Anatomia do Dr. Knox passaram a desconfiar de que algo estranho estaria
ocorrendo, dada a quantidade de corpos disponíveis para dissecção, todos em bom
estado, ao contrário da escassez habitual.
Dois corpos chegaram a ser identificados
por alguns estudantes: o de uma prostituta, de nome Mary Paterson, e de um
homem popular conhecido por Daft Jamie. Comunicaram o fato ao Dr. Knox, que não
o levou em consideração, e os corpos foram imediatamente dissecados.
Durante o ano de 1828 pelo
menos 16 corpos foram vendidos à escola de anatomia do Dr. Knox. A última vítima
foi de uma irlandesa de nome Mary Docherty, que desapareceu da pensão de um dia
para outro, levantando suspeitas entre os demais hóspedes, especialmente do casal
Gray, que encontrou o corpo debaixo de uma cama. A polícia foi avisada, porém
quando chegou à pensão já o corpo não se encontrava no local. Alguns vizinhos,
contudo, relataram ter visto dois homens carregando uma grande caixa de
madeira. A polícia, já ciente da suspeita que pairava na escola de anatomia do
Dr. Knox, para lá se dirigiu, onde encontrou e identificou o corpo da vítima.
Em 24 de dezembro de 1828 foram
presos Hare e sua mulher e Burke com sua amante. Na impossibilidade de obter
uma prova concreta de que se tratava de assassinato, visto que não havia
ferimentos ou sinais de violência no corpo da vítima, a polícia propôs a Hare
que, se ele confessasse, somente Burke seria julgado
pelo assassinato de Mary Docherty.
Hare contou toda a verdade e
foi posto em liberdade juntamente com sua mulher. Burke foi julgado e condenado
à forca. Sua amante, Helen Mc Donald, acusada de cumplicidade, foi absolvida
por falta de provas.
Antes de sua morte, Burke
confirmou que havia matado, ao todo, 16 pessoas, porém negou que jamais houvesse
violado uma sepultura para roubo de cadáver.
Sua execução, na forca, ocorreu
no dia 28 de janeiro de 1829 e foi assistida por uma multidão de milhares de
pessoas, de todas as classes sociais, que se acotovelavam para ver de perto o
criminoso. Fazia parte da sentença que o seu corpo fosse publicamente dissecado
pelo Prof. Alexander Monro tertius, o que foi feito.
Durante a dissecção, em
presença de estudantes e de curiosos, houve um tumulto e a maior parte da pele
do criminoso, que já havia sido retirada, desapareceu. Tempos depois apareceram
à venda, livros encadernados com a pele curtida de Burke. Um de tais livros pode
ser visto no museu da Universidade, assim como o esqueleto de Burke.
Dr. Knox foi apontado como
receptador dos corpos das vítimas assassinadas e levantou-se contra ele a
suspeita de que teria conhecimento da procedência dos cadáveres. Como não se
comprovou sua culpabilidade, ele não foi processado, porém caiu em desgraça
perante a opinião pública. O seu curso de anatomia, que chegou a ter 504 alunos
matriculados nos anos de 1827 e 1828, esvaziou-se progressivamente.
Em 1831, sentindo-se
constrangido e alvo de desconfiança e de ataques, Knox deixou o cargo de
Conservador do museu e em 1842 mudou-se definitivamente para Londres, onde viveu os últimos anos de sua vida.
Hare fugiu para Londres,
onde terminou seus dias como indigente. Ignora-se o destino de Margaret Hare e
Helen McDouglas.
Os fatos ocorridos em
Edinburgh repercutiram intensamente no Parlamento britânico, que promulgou, em
1832, o Anatomy Act, segundo o qual
passou a ser permitido o uso de cadáveres não reclamados por familiares para o
ensino de anatomia. Com isto extinguiu-se na Grã Bretanha o mercado negro de
cadáveres e a prática de roubo de corpos nos cemitérios.
Este macabro episódio ficou
marcado na história da língua inglesa pela criação do neologismo burkism e do verbo to burk, com o sentido de sufocar, matar alguém para venda do cadáver,
assassinar sem deixar vestígio.
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médecine (trad.) Paris, Payot, 1931.
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