CAMINHOS DA MEDICINA
 

A CIRURGIA NO FINAL DO SÉCULO XIX

SEGUNDO O DIÁRIO DO DR. MALAQUIAS ANTONIO GONÇALVES*

        Ao final do século XIX, os centros médicos mais importantes da Europa eram os da França, Alemanha e Inglaterra. Paris destacava-se como o centro de maior projeção internacional, para onde se dirigiam médicos do mundo inteiro em busca de novos conhecimentos e aprimoramento profissional. Malaquias Antonio Gonçalves foi um desses médicos. Natural de Brejo, estado do Maranhão, nasceu em 1846 e graduou-se em 1869 na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde também se doutorou. Estagiou em Paris, Bordeaux e Londres, demorando-se mais tempo em Paris. Durante sua permanência na Europa, no período de novembro de 1891 a abril de 1892, freqüentou vários hospitais, ouviu preleções de grandes mestres da cirurgia e assistiu a mais de uma centena de intervenções cirúrgicas. Suas anotações de próprio punho, sob a forma de um diário, preenchem 89 páginas manuscritas. Seu depoimento é de inestimável valor, de vez que retrata com fidelidade a cirurgia que então se praticava nos Hospitais da França e que era considerada a mais avançada da época.
        Na ocasião, a cirurgia já contava com duas grandes conquistas: a da anestesia geral e a da antissepsia, graças às quais pôde ampliar o seu campo de ação. A assepsia ainda era precária no tocante à esterilização dos instrumentos e à indumentária da equipe cirúrgica.

        Malaquias estagiou no Hospital Saint Louis, sob a orientação de Péan e Championnière; no Hospital Necker, com Le Dentu e Guyon; no Hospital Broussais, com Reclus; no Hospital Charité, com Duplay e Delbet, além de ter visitado outros hospitais em Paris. Em Bordeaux esteve no Hospital Saint André e em Londres freqüentou o London Hospital, King's College e Middlesex Hospital. Em Lisboa conheceu o Hospital São José. Em seu diário, dá-nos uma viva imagem da cirurgia no final do século XIX. A fim de tornar a exposição mais atrativa, vamos reproduzir alguns trechos de suas anotações (com a ortografia atualizada) e tecer sobre os mesmos breves comentários.

        "Paris, 16.11.1891 - Hospital S. Luiz. Clínica do Dr. Lucas Championnière. Operação - ovarites dolorosas - Ovariotomia dupla - Fixação do útero em retroversão à parede anterior. A doente é cloroformizada e os cuidados anti-sépticos são regularmente empregados. O Dr. Championnière emprega um spray com uma solução de eucaliptol durante suas operações abdominais. A cloroformização é sempre acompanhada da inspiração de oxigênio em um grande balão de borracha. Esta doente sofreu um acidente de cloroformização, pelo que foi obrigado a fazer a respiração artificial".

        O spray com eucaliptol é um sucedâneo do método de Lister, que usava aspersão de ácido fênico no campo operatório durante o ato cirúrgico. O clorofórmio era o anestésico mais empregado na época. Em todo o diário do Dr. Malaquias só há referência a duas anestesias pelo éter, ambas na Inglaterra. O acidente anestésico deve ter sido parada respiratória, já que a paciente sobreviveu. Outro aspecto a comentar é a facilidade com que se retiravam ambos os ovários de uma mulher, sem atentar para as conseqüências hormonais daí decorrentes. A histeropexia era uma constante nas operações ginecológicas.

        "Paris, 17.11.1891 - Hospital Necker. Clínica Cirúrgica do Prof. Le Dentu. Cancroide da face em uma mulher - Ablação - Anestesia pela cocaína - Incisão circunscrevendo a lesão, hemostasia, sutura, curativo anti-séptico. A injeção de cocaína não produziu o resultado desejado, porque a doente, que era uma mulher de certa idade, deu grandes gritos durante a operação".

        A anestesia local estava em seus primórdios e o cloridrato de cocaína foi o primeiro anestésico local a ser empregado. A ação anestésica da cocaína havia sido descoberta por Koller em 1884 e, nesse mesmo ano, Halsted obteve com sucesso o bloqueio de um nervo periférico pela cocaína. A cocaína foi substituída posteriormente pela procaína (novocaína), sintetizada por Einhorn em 1905.

        "Paris, 18.11.1891 - Hospital Necker. Clínica das vias urinárias do Prof. Guyon - Nefrotomia direita por pionefrose. O doente é cloroformizado e todos os cuidados anti-sépticos empregados com rigor. Lavagem rigorosa da região a sabão e líquidos anti-sépticos, envolvimento da doente com uma longa e larga compressa de gaze anti-séptica umedecida em sublimado corrosivo cobrindo a região a operar, tendo sido feita uma abertura na mesma para, através dela, trabalhar o cirurgião."

        O sublimado corrosivo é o bicloreto de mercúrio, considerado na época o melhor germicida disponível. Utilizava-se em solução a 1:1.000 . É uma substância extremamente tóxica quando absorvida. A compressa com abertura central evoluiu para os campos fenestrados atuais.

        "Paris, 19.11.1891 - Hospital Necker - Dr. Lucas Championnière - Pé torto paralítico - Extração do astrágalo e de um cuneiforme. Dr. Champonnière faz a extração do astrágalo, depois do cubóide e por último do cuneiforme - faz a hemostasia, sutura a pele com crina de Florença, drena a ferida e termina empregando curativo anti-séptico com gaze iodoformizada e gaze com um pó composto de 1/4 de idodofórmio, quina, benjoim e carbonato de soda! - mackintosh".

        Crina de Florença é um fio de seda especial, que se utilizava na sutura da pele. O iodofórmio era usado como anti-séptico. O seu cheiro penetrante tornou-se uma das características marcantes dos hospitais e veio substituir o cheiro pútrido das feridas supuradas, comuns na era pré-pasteuriana. Na ausência de antibióticos, os anti-sépticos eram largamente utilizados.

        "Paris, 20.11.1891 - Hospital Necker - Clínica do Dr. Le Dentu - Laparotomia. Enterectomia para oclusão intestinal. O Dr. Nelaton havia feito um ânus artificial ilíaco direito para remediar a situação. Praticada a laparotomia, o Prof. Le Dentu facilmente encontra a causa da oclusão intestinal, que era um tumor; então resolve imediatamente praticar a enterectomia."

        Antes da descoberta dos raios-X em 1895 e sua utilização em radiografias do tracto digestivo, o diagnóstico de tumores intestinais só podia ser feito por laparotomia exploradora. Aparentemente tratava-se de um tumor de cólon esquerdo, visto que a paciente fora antes colostomizada à direita, e a enterectomia deve ser, na realidade, hemicolectomia esquerda. Não há relato sobre os resultados desta cirurgia, como, aliás, de nenhum outro caso.

        "Paris, 21.11.1891 - Hospital São Luiz - Serviço do Prof. Péan - Incisão de um abscesso da fossa ilíaca interna - O Dr. Pean narra a história deste doente e passa a praticar a incisão. O Dr. Pean é partidário da incisão precoce com o fim de evitar os sérios perigos que correm os doentes sofrendo de abscessos ligados à peritiflite. O Dr. Péan incisa camada por camada até o peritônio alguns centímetros acima da arcada de Poupart. Saíu grande quantidade de pus fétido. O Dr. Péan introduz um tubo de drenagem e faz uma lavagem anti-séptica."

        Abscessos ligados à peritiflite eram, na realidade, casos de apendicite supurada, que não era diagnosticada até então. A operação indicada consistia em simples drenagem; muitos pacientes morriam e alguns casos evoluíam com fístula cecal. O papel do apêndice como sede inicial do processo inflamatório em tais casos foi demonstrado em 1886 pelo patologista Reginald Fitz, quem autopsiou mais de 500 casos nos Estados Unidos, porém só foi reconhecido nos países europeus no início do século XX.

        Paris, 10.12.1891 - Hospital Necker - Clínica Cirúrgica do Prof. Championnière - Ressecção da cabeça do úmero esquerdo pelo processo de Malgaigne em um rapaz com uma fístula no braço por lesão tuberculosa... Faz sair a cabeça do úmero e a serra com a serra de Faraboeuf e termina a excisão com escopo e martelo. Faz a hemostasia da ferida e depois a antissepsia com solução de ácido fênico forte. Cauteriza a fístula com uma solução de cloreto de zinco a 10%... Curativo com gaze iodoformizada, saquinhos de gaze com pó anti-séptico, algodão escuro, algodão comum e atadura.

        A tuberculose óssea era comum, quase sempre secundária à tuberculose pulmonar. O ácido fênico é o mesmo ácido carbólico ou fenol, muito usado como anti-séptico. O cloreto de zinco possui uma ação cáustica sobre os tecidos e era utilizado no tratamento tópico de lesões tuberculosas, razão pela qual foi empregado com o fim de promover o fechamento do trajeto fistuloso.

        Paris, 12.12.1891 - Hospital Necker - Clínica de vias urinárias do Prof. Guyon. Sessão de litotrícia. Trata-se de um velho com a bexiga em más condições, em que o Prof. Guyon introduz o litotrictor de ramos curtos. Depois de muitas "prises" passa a fazer a lavagem da bexiga introduzindo uma grossa sonda metálica. Repetiu muitas vezes a lavagem e aspiração. Depois da aspiração o Prof. Guyon lava de novo a bexiga com ácido bórico e com uma solução de nitrato de prata e deixa uma sonda em permanência.

        A litotrícia ou litotripsia, introduzida no século XIX na prática médica, representou um avanço no tratamento da litíase vesical, antes só tratada pela cistotomia ou talha, por via hipogástrica ou perineal. O nitrato de prata foi muito empregado por sua ação levemente cáustica e cicatrizante sempre que havia tecido de granulação em processos inflamatórios.

        Paris, 16.1.1892 - Hospital S. Luiz. Clínica do Prof. Péan - Rssecção do maxilar superior direito por sarcoma. Não gostei desta operação, não só vi o Prof. Pean perder o seu sangue frio habitual como o processo não me pareceu aceitável. Ele abusa das pinças compressivas como meio de hemostasia preventiva. Elas prestam reais serviços, mas por isso não se deve empregá-las a torto e a direito.

        Péan destacava-se dentre os cirurgiões pelo pouco sangramento de suas operações, o que conseguia por meio de pinças hemostáticas que ele idealizara e mandara fabricar. O Dr. Malaquias demonstra, nesta passagem, o seu espírito de observação e de crítica.

        Dr. Malaquias teve ocasião de presenciar dois óbitos por acidente anestésico com clorofórmio. Vejamos um deles.

        Paris, 8.4.1892 - Hospital Charité - Clínica Cirúrgica do Prof. Duplay, substituído pelo chefe de Clínica, Dr. Delbet - Amputação de dedo da mão por necrose da falange por panarício. O doente é um homem forte, bem constituído. O doente é cloroformizado. O Dr. Delbet começava a antissepsia do campo operatório quando o doente torna-se cianótico e a respiração pára. Recorre-se imediatamente à respiração artificial e muitos outros meios são empregados, tais como flagelação, cauterização com água quente sobre o côncavo epigástrico, aplicação de eletricidade, injeções de éter, injeções de cafeína, mas tudo foi baldado e o resultado foi a morte do doente.

        Os acidentes letais com o clorofórmio ocorriam quase sempre no período de indução anestésica, com anestesia ainda superficial. Sabemos hoje que o clorofórmio, em presença da adrenalina desencadeia fibrilação ventricular. O estado emocional do paciente ou a sensação de dor, antes que a anestesia se aprofunde, libera catecolaminas endógenas, que atuam do mesmo modo que a adrenalina exógena. O clorofórmio foi posteriormente substituído por outros agentes anestésicos como o ciclopropano e o halotano.

        A maioria das operações registradas são de patologia externa, ortopedia, urologia e ginecologia. Chama a atenção o fato de não constar dentre as laparotomias nenhuma operação de estômago ou vesícula biliar, quando a gastrectomia já era praticada com sucesso na Austria por Billroth, desde 1881, e a colecistectomia na Alemanha desde 1882, por Langenbuch.

        Voltando ao Brasil, Dr. Malaquias exerceu suas atividades no Hospital Pedro II, em Recife, tornando-se um cirurgião exímio e pioneiro da urologia em nosso País. Faleceu em 1908, aos 62 anos de idade. Deixou diversos trabalhos publicados sobre cirurgia e urologia inclusive uma tese intitulada Da influência do traumatismo da uretra no organismo.
 
 

        PROCEDIMENTOS CIRÚRGICOS PRESENCIADOS PELO
        DR. MALAQUIAS ANTONIO GONÇALVES NOS HOSPITAIS
        EUROPEUS NO PERÍODO DE 13.11.1891 A 30.4.1892

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        Cidade                           Hospital                       No. de procedimentos

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        Paris                              St. Louis                                        27

                                              Necker                                           26

                                              Broussais                                        14

                                              Charité                                              8

                                              Maison de Santé                               7

                                              Lariboisière                                       5

                                              Hotel Dieu                                         3

                                              Lourcine-Pascal                                 3

                                              Hospitais privados                              2

        Bordeaux                      St. André                                           6

        Londres                         London Hospital                                6

                                              King's College                                    3

                                              Middlessex                                         1

        Lisboa                            S. José                                              1                                          ======================================================

        Total                                                                                      112

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        ÓBITOS POR ACIDENTE ANESTÉSICO PRESENCIADOS PELO
                         DR. MALAQUIAS ANTONIO GONÇALVES

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            Data                    Hospital                  No.

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        5.4.1892                Hosp. Necker              1

        8.4.1892                Hosp. Charité              1

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        Total                                                           2

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        DISTRIBUIÇÃO DOS PROCEDIMENTOS CIRÚRGICOS
        QUANTO À ÁREA DE ATUAÇÃO DO CIRURGIÃO**

        Patologia externa....................................22

        Cirurgia abdominal.................................21

        Urologia.................................................21

        Ginecologia............................................20

        Ortopedia...............................................16

        Cirurgia plástica........................................7

        Otorrinolaringologia..................................2

        Proctologia...............................................2

        Trepanação craniana.................................1

        Total.................................................... 112

        ** Foram excluídos dois casos de óbito intra-operatório por acidente anestésico, cujos procedimentos cirúrgicos não chegaram a ser realizados.
 
 
 
 

            PERFIS DOS MÉDICOS QUE SUPERVISIONARAM
        O ESTÁGIO DE MALAQUIAS ANTONIO GONÇALVES
 
 

        HOTEL DIEU

        Aristide August Stanilas Verneuil (1823-1895)

        Publicou Le système veineux (anatomie et physiologie) em 1853 e vários trabalhos sobre colostomia ilíaca, gastrostomia e hemostasia por forcipressão.

        HOSPITAL CHARITÉ

        Simon Emmanuel Duplay (1836-1924)

        Descreveu as bursites subacromial e subdeltoideana em 1872 e o fibroma dos seios em 1873. Autor de uma técnica original de correção cirúrgica das hipospádias congênitas.

        Pierre Louis Ernst Delbet (1861-1925)

        Publicou Du traitement des anéurysmes externes em 1889. Autor, em colaboração com Le Dentu, de um Tratado de Cirurgia.

        HOPITAL ST. LOUIS

        Jules Émile Péan

        Idealizador das pinças hemostáticas e de uma prótese para o ombro. Foi quem primeiro realizou gastrectomia em um caso de câncer gástrico em 1879, embora com óbito do paciente. Foi também o primeiro a operar divertículo da bexiga. Em 1886 realizou ablação de um mioma uterino por via vaginal.

        HOSPITAL BROUSSAIS

        Just Marin Marcolin Lucas-Championnière (1843-1913)

        Introduziu a cirurgia anti-séptica na França. Publicou Chirurgie antiséptique em 1876 e Cure radicale des hérnies em 1887.

        Paul Reclus (1847-1914)

        Descreveu a mastite crônica cística em 1883. Foi pioneiro da anestesia local em cirurgia. Publicou La cocaine en chiarugie em 1895 e L'anesthésie localisée par la cocaine em 1903.

        HOSPITAL NECKER

        Jean François Auguste Le Dentu (1841-1926)

        Descreveu a tuberculose da clavícula e publicou Reséction de l'extremité interne de la clavicule em 1882. Autor de um Tratado de Chirurgie em colaboração com Pierre Delbet.

        Jean Casimir Félix Guyon (1831-1920)

        Considerado o fundador da moderna urologia. Publicou Leçons cliniques sur les maladies des voies urinaiares em 1881, um alentado tratado de 998 páginas.

        HOSPITAL LARIBOISIÈRE

        Paul Berger (1845-1908)

        Autor do livro L'amputation du membre supérieur dans la contiguité du tronc  (amputation nterscapulo- thoracique) em 1887.

        HOSPITAL LOURCINE-PASCAL

        Samuel Pozzi (1846-1918)

        Contribuiu para o desenvolvimento da ginecologia na França.

        Paul Tillaux (1834-1904)

        Anatomista e cirurgião

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*Trabalho apresentado ao VI Congresso Brasileiro de História da Medicina, realizado em Barbacena, MG, de 14 a 17 de junho de 2001. Atualizado em 28/03/2005.

Autores:

Joffre Marcondes de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da UFG Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
Lena Castello Branco Ferreira de Freitas
Doutora em História. Profa. Titular aposentada da UFG Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
jmrezende@cultura.com.br
http://usuarios.cultura.com.br/jmrezende