HEPATOFUGAL, HEPATOPETAL
A partir dos anos 70, com
o aperfeiçoamento dos métodos de imagem utilizados no estudo
da hipertensâo portal, tornou-se possível a avaliação
hemodinâmica da circulação venosa intra-hepática
e dois novos termos foram introduzidos na terminologia médica em
inglês para indicar a direção do fluxo sanguíneo
em relação ao figado: hepatofugal
e hepatopetal.
A primeira publicação
indexada pela
National Library of Medicine com o termo hepatofugal
data
de 1971 [1] e com o termo hepatopetal, de 1975.[2]
Hepatofugal significa
que o fluxo sanguíneo se dirige para fora do figado, afastando-se
do mesmo, enquanto hepatopetal expressa o sentido contrário,
isto é, o fluxo sanguíneo está direcionado para o
interior do fígado.
Considerando-se o fígado
como centro da rede venosa que o vasculariza, poder-se-ia utilizar em inglês
as denominações de centrifugal e centripetal,
que seriam naturalmente traduzidas em português por centrífuga
e
centrípeta,
palavras oriundas do latim, em que fug
é raiz do verbo fugere,
com o sentido de fugir, e pet, raiz do verbo petere, que
significa aproximar-se.[3][4]
Autores de língua
inglesa usam ainda a forma
hepatopedal como variante de hepatopetal.[5]
O número de ocorrências dessa variante, entretanto, é
bem menor do que a de hepatopetal.
Em 155 artigos indexados pela
National
Library of Medicine, somente 16 empregaram hepatopedal.[6]
A substituição
de "centro" por "fígado", expresso pelo radical grego hepato,
trouxe maior precisão à terminologia empregada. Por analogia,
os aludidos termos podem aplicar-se igualmente a componentes específicos
veiculados pelo sangue, tais como ácidos biliares, eletrólitos
etc. [7]
Parece óbvio que,
se traduzimos centrifugal
por
centrífugo(a) e centripetal
por
centrípeto(a),
também deveríamos traduzir
hepatofugal
por hepatófugo
e
hepatopetal
por
hepatópeto(a).
Tal não está
ocorrendo, entretanto, e os autores brasileiros estão incorporando
os adjetivos ingleses ao vocabulário médico como se fossem
palavras vernáculas.[8]
Além da postura de
alienação de nossas elites em relação ao idioma
pátrio, poder-se-ia alegar razão fonética no caso
de hepatópeto(a), dada a sequência de consoantes oclusivas
surdas p e t. O mesmo não ocorre, no entanto, em relação
a hepatófugo(a), muito mais eufônico do que hepatofugal.
É possível
que tais neologismos se internacionalizem e sejam adotados também
em outras línguas de cultura. Neste caso passarão a integrar
as chamadas "palavras sem fronteira" e teremos de aceitá-los como
parte do vocabulário médico, mesmo tratando-se de estrangeirismos
com formas vernáculas equivalentes.
Enquanto isso não
ocorrer, entretanto, devemos nos posicionar em defesa da identidade de
nosso idioma e traduzir corretamente
hepatofugal
por hepatófugo(a)
e
hepatopetal
por
hepatópeto(a).
Referências bibliográficas
1. DIETERICH WR, WAGNER K, GUNTHER H., SCHMIDT T - Diagnostic
value of esophageal radiography and ammonia tolerance test (ATT) in the
diagnostics of hepatofugal collateral circulation in liver cirrhosis. Z.
Arztl. Fortbild (Jena) 65: 1030-1033, 1971.
2. THAU A, BUCCI L, ZIPARO V, SCHILLAACI A - Evaluation
of hepatic encephalopathy in portocaval shunts and mesenterico-cava bypass
with the jugular vein. Minerva Chir. 30:449-453, 1975.
3. NASCENTES, A. - Dicionário etimológico
da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Liv. Francisco Alves, 1932.
4. NASCENTES, A. - Dicionário da língua
portuguesa. Academia Brasileira de Letras,1961-1967.
5. CHANDLER, J.G., FECHNER, R.E. - Hepatopedal flow restoration
in patients intolerant of total portal diversion. Ann. Surg. 197: 574-583,
1983
6. INTERNET - http://research.bmn.com/medline
. Consulta em 19/5/2001
7. INTERNET - www.mednet.com.br/instpub/fmtm/discipe/atresvibil.htm.
Consulta em 19/5/2001
8. KAZMIRIK, M., CAPUA NETO, A., FAVERO, S.S.G. et al.
- Estudo comparativo do fluxo portal em portadores de cirrose e esquistossomose
através do ecodoppler. Acta Cir. Bras. 9: 38-43, 1994.
Publicado no livro Linguagem Médica, 3a. ed., Goiânia, AB Editora
e Distribuidora de Livros Ltda, 2004..
Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal
de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História
da Medicina
e-mail: jmrezende@cultura.com.br
http:www.jmrezende.com.br
10/9/2004.