A OBSESSÃO DE JOHN HUNTER
John
Hunter viveu na Inglaterra de 1728 a 1793. Era o caçula de 10 irmãos,
um dos quais, William Hunter, famoso anatomista e cirurgião, foi
seu preceptor em anatomia.
John Hunter desde cedo demonstrou grande habilidade na sala de dissecções,
tendo feito algumas descobertas importantes em anatomia.
Era um trabalhador infatigável a quem bastavam quatro a cinco horas
de sono e que se aborrecia com a especulação teórica,
muito em voga na época, sobre doutrinas e conceitos, sem nenhuma
base experimental.
Foi o fundador da cirurgia experimental e a ele se deve a descoberta da
circulação colateral nos casos de aneurisma, permitindo a
ligadura da artéria logo acima do saco aneurismático.
Descobriu os canais lacrimais, descreveu o choque, a flebite e a intussuscepção
intestinal e foi o primeiro a utilizar a sonda nasogástrica para
alimentar o paciente.
Considerava a maioria das operações como mutilações
que apenas atestavam a imperfeição da medicina e advertia
a seus colegas cirurgiões para não agirem como um "selvagem
armado".
Estabeleceu a diferença entre o cancro mole e o cancro duro e para
dirimir a dúvida se a blenorragia e a sífilis eram uma só
ou duas doenças, inoculou em si mesmo, no tecido subcutâneo,
o pus recolhido de um paciente com blenorragia.
Apresentou todas as manifestações primárias e secundárias
da sífilis, o que o convenceu de que se tratava de uma única
doença. Lamentavelmente, é fora de dúvida que ele
se auto-inoculou com material que continha tanto o gonococo como o Treponema
pallidum.
Além de anatomista e cirurgião, John Hunter era um colecionador,
tendo organizado em sua casa um verdadeiro museu de Anatomia, Patologia
e História Natural. Não somente coletava e preparava pessoalmente
os espécimes destinados à sua coleção, como
os adquiria de terceiros, gastando todas as suas economias no contínuo
enriquecimento do museu, que chegou a possuir 13.000 peças.
Não dispondo de espaço
suficiente em sua residência, adquiriu uma pequena área nas
cercanias de Londres, onde construiu a sede de seu museu e onde mantinha
animais vivos para observar-lhes os hábitos e para seus estudos
de cirurgia experimental.
Certa vez conheceu Hunter
um irlandês de grande estatura, um verdadeiro gigante, de nome Byrne
e desejou possuir o esqueleto dele para o seu museu.
Ao saber das pretensões
de Hunter, Byrne não somente recusou-se a fazer a doação
de seu esqueleto, em caso de morte, como deixou instruções
precisas para que seu corpo fosse colocado em um caixão de chumbo
e jogado ao mar.
Hunter não desistiu
de seu intento e a idéia de se apropriar do esqueleto de Byrne tornou-se
verdadeira obsessão. Passou a acompanhar os passos de Byrne que,
amedrontado, fugia sempre de encontrar-se com seu perseguidor.
O destino favoreceu a Hunter.
Byrne veio a falecer e Hunter
conseguiu subornar os responsáveis pelo seu sepultamento, adquirindo
o corpo do gigante pela elevada soma de 500 libras esterlinas, importância
que ele não possuía e teve de tomar emprestada.
O esqueleto do gigante é
hoje um dos espécimes mais famosos do Hunterian Museum, em Londres.
Hunter faleceu aos 65 anos
de idade de modo dramático. Sofria insuficiência coronariana
com crises de angina do peito e chegou e prever o seu fim com as seguintes
palavras: "minha vida está nas mãos de qualquer canalha que
queira me aborrecer e contrariar". Em uma reunião da Diretoria do
Hospital St. George em que se discutia quem seria o seu sucessor no Hospital,
teve uma discussão acalorada com seus interlocutores e caiu fulminado
por um infarto agudo do miocárdio.
Joffre M. de Rezende
Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal
de Goiás. Membro da Sociedade Brasileira e da Sociedade Internacional
de Histõria da Medicina. Atualizado em 15/10/2002
e-mail: jmrezende@.cultura.com.br
http://usuarios.cultura.com.br/jmrezende