Joffre M. de Rezende
LINGUAGEM
MÉDICA
4a. edição,
revista e ampliada
Goiânia, 2011
À
memória de Alzira
Aos
meus filhos e netos
Os nomes dados às coisas são necessariamente incompletos e inexatos.
Michel Bréal
Ninguém
vá procurar a lógica da nomenclatura
científica que não a achaará; mas, ao menos,que
estivessem todos, e em todos os tempos, de
acordo.
Miguel Couto
Terminologia médica é tarefa
exclusiva de
médicos. E todos podem, e devem
colaborar
Idel Becker
Prefácio à segunda edição
Prefácio à terceira edição
Prefácio à quarta edição
Introdução
Fundamentos da terminologia médica
A
A nível de, ao nível de
Abscesso, abcesso
Androgênio,
andrógeno. Estrogênio, estrógeno
Anedótico, anecdótico
Angioplastia, angioplastizar
Artelho
Artrópodo
Através de
Autópsia, autopsia.
necrópsia, necropsia
B
Bias
Bordo, borda, rebordo, reborda
C
Cemento,
cimento
Cintilografia, cintigrafia, cintilograma,
cintigrama
Cirurgia como sinônimo de
operação
Comedon (es), comedão (ões),
cômedo (s)
Concordância verbal
Crase
D
Dengue
Dificuldades no emprego do s e do x em palavras iniciadas por e
Dificuldades no emprego do s e do z em português
Digestivo e digestório
Droga, fármaco, medicamento, remédio
E
Embolia, embolismo. Tromboembolia, tromboembolismo
Enquanto
Entubação, intubação
Erucismo
Exame. Método. Técnica. Procedimento.
Prova. Teste. Reação
F
Ferramenta
H
Haja vista
I
Icterícia
Índice e sumário
Influenza e gripe
Íon, ânion, cátion
Ipsolateral, ipsilateral
Ir ao encontro, ir de encontro
J
L
Laudar, laudado
M
Maculo
Médico clínico
Morbidade, morbilidade
N
Necrosar, necrotizar, necrosante, necrotizante
Nematóides, nematódeos, nematodes, nematodos
Normalizar, normatizar
O
Oficina
Orelha e ouvido
P
Palavras terminadas em –uria
Pâncreas, pancreopatia,
pancreatopatia
Parônimos
Patologia como sinônimo
de doença
Peritônio, peritôneo, peritoneu
Pessoa, indivíduo, sujeito
Prótese, próstese, órtese
R
Ressecção, resseção, ressecação
Retratamento
S
Schistosomose, schistosomíase, esquistossomose, esquistossomíase
Sela túrcica ou sela turca?
Síndrome
Só
Sôma, somatos
Somatório, somatória
Sufixos –iase e -ose
Sumário e índice
Suprarrenal, adrenal
T
Tampouco, tão pouco
Terapia, terapêutica, tratamento
Terminologia anatômica
Testículo
Timo, lipotímia
Tissular, tecidual
Tórax, torácico
Tanstorno
Tricotomia
Tripanosoma ou tripanossoma
Tumoroso e tumoral
U
Útero
V
Valva e válvula
Vaso, vazar
Veia cava
não quer elogios. Entretanto, é preciso lembrar que
milhares de alunos e
professores de Medicina, Odontologia, Biologia e
especialidades afins
aplaudirão esta magna obra, única
no seu gênero em todos os países de
fala portuguesa.
Idel Becker
A boa aceitação deste livro em sua primeira edição por parte da classe médica deu ensejo a esta segunda edição, revista e ampliada.
Moveu-me o mesmo objetivo inicial de fornecer subsídios para uma opção consciente diante de possíveis dúvidas, e não a pretensão de ensinar o que é certo e errado.
Foi acrescentado um capítulo sobre “Fundamentos da terminologia médica”, que poderá ser útil aos estudantes e pós-graduandos da área biomédica, e foram incluídos estudos de trinta outros termos e expressões utilizados em linguagem médica.
Procurei manter-me fiel aos ensinamentos de meu mestre, professor Idel Becker, inclusive quanto à extensão que deve ter um prefácio para que seja lido.
Sou imensamente grato ao Fundo Editorial BYK, que patrocinou a primeira edição, e a todos os que contribuíram com suas críticas e comentários para o aprimoramento desta segunda edição, bem como ao Centro Editorial e Gráfico da Universidade Federal de Goiás pelo esmero com que se houve em todas as fases de editoração.
Goiânia, janeiro de 1997
Joffre M. de Rezende
Após
a publicação da segunda edição deste livro, a lexicografia brasileira foi
enriquecida com o aparecimento de obras do mais alto valor, modernas e
atualizadas, que vieram proporcionar novos instrumentos de apoio às pesquisas
histórico-linguísticas da terminologia médica. Dentre elas destacam-se a 3a.
edição do dicionário de Aurélio Ferreira, cognominado Aurélio século XXI (1999), a 3a. edição do Vocabulário
Ortográfico da Academia Brasileira de
Letras (1999), o monumental dicionário Houaiss,
de Antonio Houaiss e Mauro Villar (2001), o Dicionário
de usos do português no Brasil, de Francisco Borba (2002) e,
especificamente na área biomédica, o Dicionário
de termos técnicos em medicina e saúde, de Luís Rey (1999).
Diante
dessa nova realidade foi necessário proceder a mais ampla revisão dos tópicos
abordados para que os mesmos se ajustassem, sob múltiplos aspectos, às mudanças
diacrônicas da língua, especialmente no que diz respeito à ampliação do corpus
lexical, à extensão semântica das palavras já existentes, com a introdução de
novas acepções, e aos novos aportes referentes à etimologia e à datação
histórica dos termos averbados.
Foram
retirados alguns tópicos considerados ultrapassados em relação aos objetivos do
livro e acrescentados 30 novos estudos de termos e expressões que poderiam
suscitar dúvidas quanto ao seu emprego na redação de textos.
Se
a presente edição encontrar a mesma acolhida das duas anteriores, considero-me
plenamente recompensado por esta modesta contribuição ao estudo da linguagem
médica..
Goiânia,
maio de 2004
PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO
O Acordo Ortográfico firmado pelos países de língua portuguesa e promulgado no Brasil pelo Decreto Nº 6.583, de 29 de setembro de 2008, trouxe algumas alterações na escrita de muitos termos médicos, notadamente em relação ao uso do hífen e à acentuação das palavras. Para a presente edição, o texto foi adaptado às novas regras ortográficas e foram retirados os artigos referentes ao emprego do hífen segundo a antiga ortografia..
Além disso, procedeu-se a uma ampla revisão e atualização dos temas abordados e novos estudos sobre outros termos e expressões médicas foram acrescentados, perfazendo o total de 191 entradas, dispostas em ordem alfabética para maior facilidade de consulta.
Goiânia,
Joffre
M. de Rezende
INTRODUÇÃO
Este livro não foi escrito por um especialista em
filologia ou linguística e sim por um médico. Destina-se, igualmente, a médicos
e outros profissionais da área de saúde.
Na qualidade de editor de uma revista médica, durante
35 anos compartilhei das dificuldades, dúvidas e hesitações dos colegas na
redação de trabalhos científicos. Por isso julguei que seria útil divulgar
estas anotações, muitas das quais já publicadas como artigos esparsos na
imprensa médica.
Inspirado nos ensinamentos do Prof. Idel Becker [1], tive
em mente, neste trabalho, os seguintes objetivos fundamentais:
1. Origem e evolução histórica das palavras.
2.
Preservação e defesa de nosso maior patrimônio cultural, que é a língua
portuguesa.
3. Respeito à
tradição e ao uso já consagrado.
4. Uniformidade
dos termos médicos.
5. Aproximação, sempre que
possível, da terminologia médica de outros
idiomas de cultura.
1. Atualmente, pouco ou nenhum valor se dá à etimologia
das palavras na determinação de seu significado. "A importância da
etimologia em linguística médica, e
particularmente em semântica médica, é exagerada frequentemente. Contrariamente
à opinião generalizada, o papel essencial da etimologia não é o de aclarar o
sentido de uma palavra, mas a sua evolução histórica".[2]
Foi com este propósito que procurei fazer um retrospecto
histórico dos fatos relacionados com a criação, uso e evolução semântica dos
termos médicos estudados.
2. Deve constituir preocupação de todos os que redigem
textos científicos em língua portuguesa preservar a identidade desta,
defendendo-a, sempre que possível, das influências alienígenas.
A importação de novos termos técnicos e sua incorporação
à língua vernácula são uma contingência do desnível científico existente entre
os países desenvolvidos e aqueles em desenvolvimento, como o Brasil. A
incorporação de palavras tomadas a outros idiomas, em si, não empobrece nem
descaracteriza uma língua; antes, a enriquece. O importante é que as palavras e
expressões peregrinas não tenham equivalentes no segundo idioma e sejam
corretamente adaptados a este.
O inglês é atualmente a língua de comunicação universal
em ciência, como já o foram antes o latim e o francês. Nenhum mal há nisto; o
mal está na atitude de alienação de muitos autores que, pelo hábito da leitura
de textos médicos em inglês, escrevem em português usando a sintaxe daquele
idioma; introduzem termos desnecessários, para os quais existem correspondentes em nossa
língua, ou simplesmente adaptam morfologicamente as palavras, alterando-lhes o
significado. Essa descaracterização do idioma pátrio, além de prejudicar a
clareza do pensamento, dificultando a comunicação, revela desamor à nossa
herança cultural.
3. Na tentativa de estabelecer diretrizes e normas que
contribuam para a correção da linguagem científica, os puristas da língua quase
sempre assumem posições extremadas, fora da realidade. Com base em regras
ortodoxas ou convicções pessoais, simplesmente desprezam a tradição, o uso, e
tentam impor soluções inaceitáveis.
É preciso repetir que, em linguagem, não deve prevalecer
a noção de certo e errado, e sim o bom senso, a orientação baseada nos
fundamentos da língua e o respeito ao que já está consagrado pelo uso.
A dificuldade em relação à linguagem médica reside
exatamente neste ponto; em distinguir o que ainda é polêmico, controverso, e
pode ajustar-se aos cânones da língua, daquilo que é irreversível por estar
definitivamente arraigado na cultura médica.
De nada serve dizer, por exemplo, que o glóbulo vermelho
do sangue deve ser chamado de hematia
( com t e acento tônico na letra i); que os termos formados com o sufixo
grego ia são sempre paroxítonos; ou
que as enzimas com terminação em ase
são sempre proparoxítonas, se o uso consagrou em definitivo as formas hemácia,
autópsia, biópsia, glicosúria, poliúria, amilase, fosfatase, etc.
Quando existe vacilação, dúvida, e mais de uma
alternativa são usadas, então sim, devemos optar pela forma mais condizente com
as regras de formação das palavras, com o espírito da língua e com a correção
ortográfica e prosódica, dentro das normas estabelecidas para o nosso idioma.
Embora de menor importância, uma das dúvidas de difícil
solução é a que diz respeito ao gênero de muitas palavras, pois, tratando-se de
convenção, é fácil encontrar argumentos que justifiquem tanto um quanto outro
gênero.
O ideal é que cada coisa seja designada por um só termo e
que cada termo designe uma só coisa. "Na linguagem científica, os
vocábulos devem ser usados com o mesmo cuidado com que o são os símbolos na
matemática".[3]
A questão é tão importante em nomenclatura científica que
constitui preocupação permanente das sociedades sábias. A nomenclatura
anatômica, por exemplo, chegou a dispor de cerca de 50.000 denominações
diferentes para apenas 5.000 estruturas. Percebendo os inconvenientes de tal
situação, os anatomistas de diversos países se congregaram, desde 1890, em um
esforço conjunto para estabelecer uma nomenclatura uniforme, conhecida como Nomina Anatomica,
que vem sendo revista periodicamente. A última edição saiu com o nome de Terminologia
Anatomica, tendo sido publicada em 1998.[4]
Para garantia de sua universalidade, esta nomenclatura é
redigida em latim, sendo facultada a sua tradução para o idioma de cada país. A
tradução mais recente para a língua portuguesa foi feita pela Sociedade
Brasileira de Anatomia em 2001.[5]
À semelhança da Nomina Anatomica, a
Organização Mundial de Saúde, conjuntamente com o Council for International Organizations of Medicine
(CIOMS) elaboraram um projeto de padronização internacional de nomenclatura das
doenças, conhecido pela sigla IND (International
Nomenclature of Diseases). Ao contrário da Nomina Anatomica, o IND é
redigido em inglês.
Entre os anos
de
Infelizmente
este projeto não teve continuidade, interrompendo-se em 1992 por insuficiência
de recursos financeiros.[6]
5. Como último objetivo, tive em mente a conveniência de
aproximar, tanto quanto possível, e sem prejuízo da vernaculidade, a
terminologia médica em português da de outras línguas de cultura. Destarte,
diante de uma opção linguística entre dois termos equivalentes ou duas formas
sobejantes de um mesmo termo, a preferência recaiu sempre no termo e na forma
que mais se assemelhassem aos de outros idiomas.
Para maior comodidade o leitor encontrará ao pé de cada
página, de modo resumido, a indicação das obras citadas no texto e, ao final do
livro, as referências bibliográficas completas, dispostas em ordem alfabética.
Por desnecessário e repetitivo, os principais dicionários
da língua portuguesa deixaram de ser citados, na maioria das vezes, ao pé da
página, sendo mencionados no texto pelo nome do autor e data da edição. Os
léxicos conhecidos pelo nome da editora foram citados pelo título da obra ou
pelo nome do responsável por sua organização.
Por dificuldades gráficas e maior facilidade de leitura,
as palavras gregas foram escritas em alfabeto latino, com indicação apenas da
sílaba tônica. As palavras latinas, por sua vez, foram grafadas sem os sinais
indicativos de quantidade silábica. Tanto as palavras gregas como latinas foram
escritas em negrito itálico, com a finalidade de distinguí-las das de outros
idiomas.
Os textos dos artigos foram escritos em diferentes
ocasiões e não obedecem à mesma estruturação. Foram dispostos em ordem
alfabética para maior facilidade de consulta.
Em todos os casos em que foi necessária uma opção linguística,
acha-se indicada, ao final do artigo, aquela que me pareceu mais apropriada,
sem que isso signifique que seja a melhor.
Finalmente uma explicação quanto ao uso da primeira
pessoa do singular em lugar do costumeiro plural majestático. Não se interprete
o fato como imodéstia e sim como corolário da intenção de restringir ao autor
inteira e total responsabilidade por todos os erros, equívocos e omissões, que
certamente são muitos em trabalho desta natureza. A todos aqueles que se
dignarem a apontá-los manifesto, desde já, a minha gratidão.
_________
1.
BECKER,
I. Nomenclatura biomédica no idioma português do Brasil, 1968.
2.
MANUILA,
A. (Ed.) Progress in medical terminology, 1981.
3.
ALBUTT,
C. Apud BARBOSA, P. Dicionário de
terminologia médica portuguesa, 1917, p. 14.
4.
FEDERATIVE
COMMITTEE ON ANATOMICAL TERMINOLOGY. - Terminologia anatomica.
1998.
5.
SOCIEDADE
BRASILEIRA DE ANATOMIA. Terminologia anatômica., 2001.
6.
MARECKOVA,
E. et al. Medical Weekly 132: 581-587, 2002.
OS DICIONÁRIOS E A
TERMINOLOGIA MÉDICA
O dicionário é imprescindível na
vida cultural duma Nação
O dicionário,
entre nós, é chamado popularmente de "pai-dos-burros" ou
"tira-teima".
Conta-se a anedota de um homem simples do povo, que após
ouvir falar a Rui Barbosa, disse-lhe todo orgulhoso: "Eu tenho um livro lá
em casa que tem tudo que o Sr. falou", ao que Rui teria indagado,
surpreso: - "E que livro é esse?" - "Chama-se DICIONÁRIO",
replicou o feliz possuidor de tamanho tesouro.
Este conceito de onisciência e polivalência do dicionário
está de tal modo arraigado entre nós que, mesmo entre as pessoas de instrução
superior, é frequente ouvirem-se frases como estas: "Está no
dicionário", "eu vi no
dicionário", como se o conteúdo de um dicionário fosse o próprio
texto de um livro sagrado, infalível,
definitivo.
Infelizmente a verdade é bem outra. Os dicionários, por
melhores que sejam, contêm falhas, omissões, erros e opiniões divergentes entre
si. Todo trabalho humano é necessariamente imperfeito e os dicionários com
maior razão ainda, em virtude de sua natureza e complexidade.
As dificuldades na organização de um dicionário são
inúmeras: de ordem ortográfica, prosódica, etimológica, semântica, sem falar
nos percalços da editoração.
Vamos considerar apenas dois aspectos: o significado das
palavras e o corpus lexical, ou seja,
o número de palavras averbadas.
A língua não é estática, "move-se ao longo do tempo
numa corrente que ela própria constrói" (Sapir). O dicionário nada mais
representa que o registro das palavras de uma língua em um dado momento da sua
história. Muitas palavras nascem, envelhecem
e morrem como
células integrantes de um
organismo vivo. Outras sobrevivem, porém sofrem mudanças de significado ou
adquirem com o tempo novas acepções.
Tais mudanças são lentas, mas podem ser facilmente percebidas
ao folhearmos um dicionário de um ou dois séculos passados, quando deparamos
com quantas palavras que já não se usam e que lá estão, mumificadas, ao lado de
outras que ganharam significados novos.
Os lexicógrafos nada mais fazem do que registrar os vocábulos
em uso, que eles procuram captar em suas várias acepções nas fontes disponíveis
ao seu alcance. Alguns conseguem uma coleta mais ampla e enriquecem o seu
trabalho com citações de textos e autores por eles consultados. A par disso,
registram a categoria gramatical da palavra, a
sua prosódia e a sua etimologia. Os dicionários mais bem elaborados
assinalam ainda a data em que a palavra foi introduzida na linguagem escrita.
A dificuldade maior na organização de um dicionário,
entretanto, reside no que Houaiss chamou de "explosão vocabular", que
fez com que o corpus lexical da língua
portuguesa passasse de cerca de
Essa explosão vocabular se deve, sobretudo, ao
desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Os novos termos criados são de uso
internacional, sofrendo adaptações mórficas em cada idioma em particular.[1]
Outro aspecto a ser ressaltado é o tabu de que somente as
palavras que se encontram dicionarizadas têm existência real na língua e podem
ser utilizadas. Nenhum dicionário, por mais completo que seja, tem essa
abrangência total do corpus lexical, que se renova e é acrescido de novos
termos a cada dia. Acrescente-se a isso a legitimidade dos derivados correlatos que se podem deduzir dos
vocábulos averbados, aos quais Houaiss chama de implícitos, além do acervo
potencial do vocabulário, para se ter uma compreensão do manancial inesgotável
dos recursos de uma língua de cultura como a portuguesa. Houaiss, em 1975,
estimou o acervo potencial do nosso léxico em
cerca de 1.000.000 de palavras.[1]
Os melhores dicionários existentes em língua portuguesa
resultaram do esforço de alguns abnegados lexicógrafos, que dedicaram parte de
sua existência a um trabalho árduo e penoso, nem sempre compensador, para nos
legarem o que de melhor existe em matéria de lexicografia.
No século XVIII o Vocabulário
Português e Latino, de Rafael Bluteau, publicado em Lisboa entre 1712 e
1728, representou um marco na história da língua portuguesa.
No início do século XIX veio a lume o dicionário de
Antônio de Moraes Silva, cuja segunda edição, datada de 1813, é considerada
obra clássica de lexicografia portuguesa. Seguiram-se, entre outros, os
dicionários de Francisco Solano Constâncio (1836), Eduardo de Faria (1849),
Frei Domingos Vieira (1871), Correa de Lacerda (1874), Caldas Aulete-Santos
Valente (1881), Cândido de Figueiredo (1899), cada qual apregoando sua
superioridade sobre os seus antecessores, todos com falhas, omissões e
incorreções. À exceção do dicionário de Constâncio, publicado em Paris, os
demais foram impressos em Lisboa.
O primeiro dicionário da língua portuguesa, escrito e
publicado no Brasil, data de 1832, e se deve ao
goiano Luiz Maria da Silva Pinto, que o compôs e imprimiu na
cidade de Ouro Preto,
Os dicionários de Moraes Silva e Cândido de Figueiredo
tiveram edições posteriores ampliadas, enriquecidas, atualizadas.
No século XX e albores do século XXI surgiram no Brasil
obras notáveis no campo da lexicografia, como as de Simões da Fonseca-João
Ribeiro (1926), Laudelino Freire-J. L. de Campos (1957), Antenor Nascentes
(1961-1967), Silveira Bueno (1963), Prado e Silva e col. (1975), Aulete-Garcia
3a ed. (1980), A. G. Cunha 2a. ed. (1986), Aurélio
Ferreira 3a. ed. 1999),
Houaiss-Villar (2001), Francisco Borba (2002). Dentre todas, destaca-se
a de Houaiss-Villar por sua erudição e riqueza de dados quanto à etimologia e
datação histórica das palavras.
Como dicionários gerais, entretanto, todos são
deficientes no tocante à terminologia científica. Essa deficiência é muitas
vezes agravada pelo propósito do autor de não sobrecarregar o léxico "com
uma verdadeira praga de coleópteros e animais daninhos", para usar as
palavras do grande filólogo Pe. Augusto Magne, cujo malogrado Dicionário da Língua Portuguesa
interrompeu-se, infelizmente, na letra "A ", por morte do autor.
O Dicionário da
Língua Nacional, previsto pela Lei n° 93, de 21/12/1937, cuja publicação
ficara a cargo do Instituto Nacional do Livro, jamais passou de um ambicioso
projeto.
A Academia Brasileira de Letras, em 1940, designou o
Prof. Antenor Nascentes para elaborar o que se propôs chamar de projeto de um Dicionário da Língua Portuguesa. O Prof.
Nascentes concluiu o seu trabalho em
1943, porém o mesmo só foi publicado de
Em cumprimento à Lei 5.765, de 18/12/1971, a Academia
Brasileira de Letras publicou também, em 1981, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, organizado por uma
Comissão de Acadêmicos, sob a coordenação do eminente linguista Prof. Antônio
Houaiss, e que já se encontra em sua 3a. edição, datada de 1999.
Estas duas obras
de iniciativa da Academia Brasileira de Letras servirão de base, sem
dúvida, para um futuro dicionário de referência de nosso idioma.
Cada área do conhecimento humano desenvolveu sua própria
linguagem, com terminologia pouco acessível aos não iniciados. Este fato fez
com que surgissem os dicionários especializados, inteiramente dedicados a áreas
específicas do saber. Contam-se às centenas tais dicionários.
No particular da medicina, desde cedo tornou-se evidente
a sua necessidade.
O mais antigo dicionário impresso de termos médicos de
que se tem noticia é de autoria de Simone Cordo, que viveu de
Em 1564 foi publicado em Genebra o Diccionarium Medicum, de autoria de
Henrique Estiennes. Trata-se de uma coletânea de termos médicos
greco-latinos extraídos de autores clássicos, que muito influenciou na fixação
da terminologia anatômica.[3]
Em 1598 foi publicado em Veneza o Lexicum medicum graeco-latinum, de autoria de Bartolomeu Castelli,
obra que se tornou clássica pelo acervo lexical que contém.[4]
Em 1679 surgiu a primeira edição do Lexicum Medicum Graeco-latinum
Germanicum, de Stephen Blancard, médico e farmacêutico holandês. Trata-se
de um pequeno dicionário que teve boa aceitação, alcançando a quinta edição em
1718.[5] No século XVIII foi publicado
na Inglaterra o New Medical Dictionary,
de John Quincy e, na Alemanha, o Medizinisch-chirurgisch-terminologisches
Wörterbuch, de Knackstedt.
A partir do século XIX foram editados em alemão, francês
e inglês importantes léxicos especializados em terminologia médica. Na Alemanha
destacaram-se o dicionário de Ludwig Kraus, intitulado Kritisch Etymologisches Medicinisches Lexikon, e o de Walter
Guttman, Medizinische Terminologie,
cuja primeira edição data de 1902.
Na França a iniciativa de maior repercussão data de 1806
e se deve a Brosson, médico e livreiro que editou um pequeno dicionário de
medicina e ciências afins, o qual foi ampliado por Nysten. Este dicionário foi
posteriormente refundido e muito aumentado por Littré e Robin, passando a
chamar-se Dictionnaire de Médecine, de
Chirurgie, de Pharmacie et des Sciences qui s'y Rapportent e a servir de modelo a outros dicionários
médicos. Em 1908, sob a assinatura de Littré e Gilbert, o referido dicionário
alcançava a 21ª edição.
Ao dicionário de Littré e Robin sucedeu o Dictionnaire des Termes Techniques de
Médecine, de Garnier e Delamare, obra premiada pela Academia Francesa. Sua primeira edição
data de 1899 e a vigésima de 1978. Desta última edição existe tradução para a
língua portuguesa.
Finalmente a França ofereceu à comunidade científica o
monumental Dictionnaire Français de
Médecine et Biologie, de Manuila e colaboradores, obra com mais de 150.000
entradas de que participaram 350 especialistas.
Na Inglaterra foram editados dois importantes léxicos: o Dictionary of Terms Used in Medicine, de
Hoblyn (1830) e o dicionário de Mayne, intitulado An Expository Lexicon of the Terms Ancient and Moderns in Medical and
General Science (1860). Este último, grandemente ampliado e atualizado ,
foi reeditado em anos posteriores (1881-1899) sob o nome de The New Sydenham Society's Lexicon of Medicine
and Allied Sciences.[6]
Nos Estados Unidos da América do Norte vieram a lume no
século XIX o Dictionary of Medical Sciences, de Robley
Duglison, que alcançou a 21a. edição em 1893, e o Illustrated Dictionary of Medicine, Biology
and Sciences, de George Gould, cuja 3a edição data de 1896.
Dois outros dicionários médicos norte-americanos que
tiveram grande sucesso e sobreviveram até os dias atuais, foram o Dorland's Illustrated Medical Dictionary e o Stedman's
Medical Dictionary. O primeiro deles data de 1900 e chegou à 31ª
edição em 2008, tendo sido traduzido para o espanhol, japonês e para o alfabeto
Braille. O Stedman's Medical Dictionary teve sua 1ª edição em 1911 e a 23ª em 1976. Há
dele uma tradução para o português.
Um dos mais modernos dicionários médicos em língua
inglesa é o Churchill's Medical Dictionary, editado em
1989. Com mais de 2.000 páginas e cerca de 100.000 entradas, nele colaboraram
90 professores e especialistas de várias Universidades dos Estados Unidos e da
Inglaterra.
Em língua espanhola devem ser mencionados o Dicionário
Terminológico de Ciências Médicas, de Cardenal, que teve seis edições entre
1918 e 1958, e o Dicionário Enciclopédico
de Medicina, de Léon Braier, cujo êxito pode ser avaliado pelo fato de ter
tido quatro edições em 25 anos (1955-1980).
No Brasil, os primeiros dicionários de medicina editados
são, na verdade, tratados de medicina popular, nos quais os tópicos se
dispõem em ordem alfabética. São eles o Dicionário de Medicina Popular e das Sciencias
Acessórias, de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, e o Diccionario de Medicina
Domestica e Popular, de Theodoro Langgaard.
Chernoviz era polonês de nascimento, tendo-se educado
Theodoro Langaard era médico dinamarquês, radicado no
Brasil, tendo publicado a 1ª edição de seu dicionário em 1865 e a 2ª em 1873.
Sua obra mereceu comentários elogiosos de Von Martius, conforme consta do
prefácio da segunda edição.
Em 1909, o eminente médico e filólogo Ramiz Galvão
publicou o Vocabulario Etymologico, Orthographico e
Prosodico das Palavras Portuguesas Derivadas do Grego, no qual se encontram
arrolados os principais termos médicos em uso na época.
Em 1917, Plácido Barbosa publicou o seu Dicionário de Terminologia Médica Portugueza,
cuja finalidade principal, conforme consta na Introdução do mesmo, era a de
corrigir "os erros, os barbarismos, os vícios, as deficiências, as
impropriedades e os desacertos de que anda inçado o vocabulário médico
portuguez hoje em uso". Conforme o próprio autor reconhece trata-se apenas
de uma contribuição a um futuro dicionário médico completo.
A primeira tentativa, infelizmente malograda, de se
editar no Brasil um dicionário médico de maior amplitude data de 1923 e se deve
a Serafim Vieira de Carvalho e Paulino B. Vieira.[7]
Em 1926 foi publicado o Dicionário Enciclopédico de Medicina,
de Ricardo d'Elia, obra pouco difundida.
O dicionário médico que teve maior aceitação entre nós e
alcançou sucessivas edições foi o de autoria de Pedro A. Pinto, professor de
farmacologia da antiga Faculdade Nacional de Medicina (hoje Faculdade de
Medicina da Universidade Federal do Rio de janeiro). A 1ª edição data de 1926 e
a 8ª de 1962. Seu autor, que dizia não ser filólogo, era profundo conhecedor da língua e da literatura
clássica portuguesas, tendo publicado inúmeros trabalhos e livros sobre
questões de linguagem. Na maioria dos verbetes de seu dicionário encontram-se
ensinamentos, conceitos e opiniões do próprio autor, o que muito valoriza esta
obra.
Outras contribuições lexicográficas no campo da medicina
surgiram no Brasil em anos posteriores, tais como o Dicionário Médico, de Mário
Rangel (1951), o Dicionário Médico,
de Hugo Fortes e Genésio Pacheco (1968) e o Dicionário Médico, de Rodolpho Paciornik
(1975).
Em 1999 foi editado o Dicionário
de Termos Técnicos de Medicina e Saúde, de autoria de Luis Rey, que veio preencher uma
lacuna na lexicografia médica brasileira. Trata-se de uma obra moderna,
atualizada, de feição enciclopédica e didática, que prima tanto pelo conteúdo
como pela correção da linguagem e cuidadosa revisão tipográfica. O autor seguiu
a terminologia da IND, embora registre os sinônimos mais usados com remissão para o termo que deve prevalecer.
Ao final de cada verbete
encontra-se o termo equivalente em inglês, o que é muito importante na época
atual de hegemonia da língua inglesa em comunicação científica e contribui para
evitar os falsos cognatos que infestam as traduções de livros médicos no
Brasil. Uma segunda edição aprimorada foi publicada em 2003.
Algumas editoras têm publicado traduções de dicionários
médicos. De modo geral, as traduções de dicionários médicos não são
recomendáveis. Os textos explicativos dos verbetes são, em geral, mal
traduzidos, e neles se percebe a língua de origem, descaracterizando o segundo
idioma. Além disso, não atentam para as peculiaridades da terminologia que o
uso consagrou em cada país.
O importante, quando consultamos um dicionário, seja
técnico ou geral, é que estejamos conscientes de que nem sempre vamos encontrar
tudo que desejamos; de que o registro que buscamos pode revelar apenas um ponto
de vista sobre uma questão que comporta duas ou mais interpretações. Devemos
estar convictos de que os dicionários não são infalíveis, nem completos, e que
os seus ensinamentos podem ser questionados.
É importante que façamos o cotejo entre um e outro
léxico, que consultemos mais de um autor, comparando o que escreveram sobre a
mesma palavra. Por vezes os textos são idênticos; por vezes há divergências
quanto à grafia, quanto à prosódia, quanto ao gênero da palavra, quanto à etimologia, quanto à semântica. Uns
são mais completos que outros, ao assinalarem as diversas acepções de um mesmo
vocábulo, e mais ricos no exemplário das fontes consultadas. Há dicionários de
todo jaez, de épocas diferentes, edições mais bem cuidadas que outras, com
muitos ou poucos erros tipográficos.
Assim, ao nos referirmos a um dicionário, é necessário
mencionar sempre o autor, a edição, o editor e o ano da publicação.
No tocante à terminologia médica, nós médicos devemos
manter certa independência e espírito crítico em relação aos dicionários gerais
que fazem incursões pela nomenclatura biomédica. De modo geral, tais
dicionários definem de maneira incompleta, ou mesmo incorreta, o significado de
termos médicos, além de impor normas de como escrever ou pronunciar tal ou qual
palavra, ao arrepio do uso e da tradição da linguagem médica.
Conforme ressalta o Prof. Idel Becker em seu
extraordinário livro Nomenclatura
Biomédica no Idioma Português do Brasil, este assunto é da competência
exclusiva dos profissionais da área biomédica. São as sociedades científicas
que devem procurar definir o significado de cada termo técnico usado em
medicina e decidir com conhecimento de causa quanto à sua grafia e pronúncia.
_________
1.
HOUAISS,
A. - Estudos vários sobre palavras, livros, autores, 1979, p. 104
2.
MUSEU
DE ARTE DE SÃO PAULO - História da tipografia no Brasil, 1979, p. 178
3.
MORTON,
L.T. - A medical bibliography, 1983, p. 902.
4.
MANGABEIRA-ALBERNAZ,
P.- Questões de linguagem médica, 1944,
p. 171
5.
BLANCARD, S. - Lexicon medicum
graeco-latino-germanicum, 1718.
6.
SKINNER, H.A.-
The origin of medical terms, 1961, p.435-7
7.
ALMEIDA,
S.,VIEIRA, P.- Rev. Língua Portuguesa, ns. 21-39, 1923-1925
Todo ramo do saber humano, toda ciência, necessita criar
sua própria terminologia, adequada às suas necessidades de comunicação e
expressão. A medicina, como uma das mais antigas atividades do homem,
desenvolveu uma linguagem que, ao leigo, se afigura hermética e de difícil
entendimento. Do mesmo modo, o estudante
de medicina se assusta de início com tantas palavras novas que deve aprender e
cujo significado tem dificuldade de memorizar.
Para
facilitar o aprendizado da terminologia médica são úteis algumas noções sobre
formação de palavras.
Inicialmente
é necessário ressaltar que os termos médicos são regularmente formados a partir
de radicais, prefixos e sufixos gregos e latinos, com os seguintes objetivos:
1. Simplificação da linguagem.
2. Precisão do significado das palavras.
3. Intercâmbio científico entre as nações
com diferentes idiomas de cultura.
O uso de radicais gregos e latinos,
comuns a vários termos, permite expressar em poucas palavras fatos e conceitos
que, de outro modo, demandariam locuções e frases extensas. Cada termo médico,
tal como ocorre em outras áreas do conhecimento humano, caracteriza um objeto,
indica uma ação ou representa a síntese de
uma ideia ou de um fenômeno, a definição de um processo, contendo em si, muitas
vezes, verdadeira holofrase, cujo sentido está implícito na própria palavra.
Quando nos referimos, por exemplo, à colecistectomia laparoscópica enunciamos
em duas palavras um procedimento complexo que, em linguagem descritiva seria:
“operação para retirada da vesícula biliar por um processo que não necessita
abrir a parede abdominal e que utiliza um equipamento de videolaparoscopia”. Se
quiséssemos explicar em que consiste o equipamento teríamos de escrever outro
parágrafo ainda mais extenso.
Vejamos outro exemplo: O mielograma acusou pancitopenia. Equivale
a dizer “que o exame da medula óssea mostrou diminuição de todos os tipos de
células normalmente ali encontradas e que dão origem aos glóbulos vermelhos,
glóbulos brancos e plaquetas do sangue”.
Choque
hipovolêmico expressa a condição
clínica caracterizada, em linguagem comum
por “queda acentuada da pressão arterial por diminuição do volume de
sangue circulante”. E assim por diante.O segundo objetivo consiste na precisão
da linguagem. Cada termo empregado deve ter um único significado, uma definição
própria aceita pela comunidade científica, ao contrário da linguagem literária
ou coloquial em que as palavras podem ter acepções diversas, na dependência do
seu contexto na frase. O terceiro objetivo da terminologia médica é a sua
internacionalização, facilitando o intercâmbio de informações entre os
diferentes países. Isto se torna possível pela utilização de termos que são comuns
a todas as línguas de cultura, adaptáveis morfologicamente a cada uma delas.
O número de termos novos com os quais o médico deve
familiarizar-se é relativamente grande - cerca de 13.000 [1] - número superior
ao vocabulário habitualmente usado em qualquer idioma. Basta dizer que em toda
a obra literária de Machado de Assis foram utilizados não mais que 12.000
diferentes vocábulos.[2]
Seria
extremamente difícil memorizar tantas palavras, não fosse o fato de que a
maioria dos termos científicos usados em medicina foram criados utilizando-se
de raízes gregas e latinas, que entram com o mesmo significado na formação de
múltiplas palavras, e que podem ser facilmente identificadas. São relativamente
poucos os termos médicos oriundos de outras línguas ou formados de elementos
vernáculos. Assim, para a compreensão e mais fácil assimilação da terminologia
médica, é indispensável um mínimo de conhecimento sobre a origem e formação de
termos médicos a partir do grego e do latim.
FORMAÇÃO DE NOVAS PALAVRAS
As gramáticas
ensinam que os principais processos de formação de novas palavras são a derivação e a composição.
A derivação
pode ser prefixal, sufixal,
parassintética e regressiva.
A composição
se faz por justaposição e aglutinação.
a) Derivação
Na
derivação prefixal utilizam-se, na
grande maioria das vezes, prefixos gregos e latinos. Para muitos linguistas a
prefixação é, na verdade, uma forma de composição e não de derivação.
Na
derivação sufixal, também chamada progressiva, utilizam-se sufixos
nominais na formação de substantivos e adjetivos, e sufixos verbais na formação
de verbos. Há ainda em português um sufixo adverbial mente usado na formação de advérbios.
A
derivação parassintética consiste na
utilização simultânea, na mesma palavra, de um prefixo e de um sufixo.
A
derivação regressiva busca encontrar
a palavra primitiva a partir da derivada.
b) Composição
Na composição por justaposição duas palavras se unem, com ou sem hífen, sem que
nenhuma delas sofra qualquer modificação.
Na aglutinação ocorre modificação em uma
delas ou em ambas.
RAIZ, RADICAL, TEMA, PREFIXO, SUFIXO
E DESINÊNCIA
Chama-se raiz o elemento
nuclear, primitivo e irredutível da palavra, que exprime a ideia central.
Chama-se
radical a parte da palavra desprovida de sufixo. Pode ser a própria raiz
ou esta acrescida de outro elemento, caso em que também é chamada de tema. Alguns gramáticos consideram radical e tema como sinônimos.[3]
Prefixos são elementos ou partículas que
se antepõem ao radical, modificando o sentido da palavra. Originam-se, em sua
maioria, de preposições ou advérbios.
Sufixos são elementos ou partículas que
se pospõem ao radical, para formação de derivados da mesma palavra. Os sufixos
podem ser nominais (substantivos e adjetivos) e verbais.
Desinência vem a ser o elemento final da
palavra, indicativa da flexão nominal (gênero, número e grau) ou verbal (modo,
tempo, número, pessoa e voz).
DECLINAÇÃO
Uma
noção linguística importante, que deve ser conhecida para melhor entendimento
da maioria dos termos médicos, é o da declinação.
Tanto
o grego como o latim possuem declinações, ou seja, um sistema de flexões
casuais dos nomes, que permite reconhecer a função da palavra na oração por sua
terminação.
Há três
declinações em grego e cinco em latim, conforme o tema. A declinação se dá no
singular e no plural e abrange cinco casos em grego e seis
O nominativo corresponde ao sujeito da
oração; o genitivo ao adjunto
adnominal; o acusativo ao objeto
direto; o dativo ao objeto indireto;
o ablativo aos adjuntos adverbiais, e
o vocativo expressa um apelo ao
sujeito. O ablativo em grego é substituído
pelo genitivo ou pelo dativo em latim.
As
línguas sem declinação, como a portuguesa, valem-se de preposições para
substituir as flexões casuais. Em português usa-se a preposição de para o genitivo; a ou para no dativo, e por em lugar
do ablativo. O nominativo e o acusativo,
ou seja, o sujeito e o objeto direto são identificados por sua colocação na
frase, sem necessidade de preposição.
Os termos médicos oriundos do grego são
formados em sua maioria a partir do genitivo e do nominativo, enquanto os
termos derivados do latim, utilizam de preferência o acusativo. [4]
Na
notação escrita é usual mencionar o nominativo seguido do genitivo, que
identifica a declinação a que pertence a palavra. O genitivo tanto pode ser indicado por extenso, como, o que é mais
usual, de modo abreviado apenas pela desinência. Exemplos:
Em
grego:
1. genitivo por extenso: 2. genitivo indicado apenas pela
desinência
kheir,
kheirós - mão
dérmo,
atos - pele
rhis,
rhinós -
nariz
haîma, atos -
sangue
thrix,
thrichós - cabelo
nephrós, oû - rim
poús,
podós - pé thórax, akos - tórax
Em
latim:
1. genitivo por extenso:
2. genitivo indicado apenas pela desinência
cor,
cordis - coração
manus, us - mão
os, oris
- boca
nasus,
i -
nariz
os,
ossis - osso
sanguis, inis - sangue
pes,
pedis - pé
vena,
ae -
veia
FORMAÇÃO DE TERMOS MÉDICOS
Conforme já foi referido, os termos médicos, em sua grande maioria, são formados a partir de
radicais, prefixos e sufixos gregos e latinos. Em menor número provêm de
elementos vernáculos ou procedentes de outros idiomas.
As
palavras formadas com elementos de mais de um idioma são chamadas híbridas. O hibridismo deve ser evitado,
sempre que possível.
Prefixação e sufixação.
Principais
prefixos gregos de interesse médico:
a, an - privação: acloridria,
afasia, anaeróbio, analgésico
an, ana - para cima, para trás: anionte, anaplasia
ana - de novo: anamnese,
anastomose
anti - contra: antiemético,
antídoto, antissepsia
apo - separação, derivação: apócrino, apófise, aponeurose
dia - através de: diagnóstico, diafragma, diarreia, diáfise, diálise
dis - dificuldade: disfagia, dispneia, dislalia, distrofia, disúria
ecto - fora de, exterior: ectoderma, ectópico, ectoparasito
endo - dentro, parte interna: endocárdio, endógeno, endotélio
epi - sobre: epiderme, epidemia, epífise, epidídimo
eu - bem, bom: euforia, eugenia, eutanásia
exo - para fora, externo:
exoftalmia, exosmose, exógeno
hemi - metade: hemisfério, hemiplegia, hemicrania, hemicolectomia
hiper - aumento, excesso: hipertrofia, hipertonia, hiperglicemia.
hipo - diminuição ou posição abaixo:
hipocloridria, hipocôndrio
iso
- igualdade: isotérmico, isogênico, isótopo, isotônico
macro
-
micro
-
meta - mudança, sucessão: metamorfose, metafase, metacarpo
neo - novo: neoplasia,
neoformação, neologismo
oligo - pouco: oligospermia,
oligúria, oligofrênico
orto - reto, direito: ortognata,
ortopedia, ortodontia
pan - todo: pancardite,
pangastrite, pandemia, pan-hipopituitarismo
pen - escassez, pobreza: citopenia, leucopenia, linfopenia
para - proximidade: parasito, paratiróide, paramétrio, paranormal
peri - em torno de: periarticular, periférico, peritônio, pericárdio
poli – muito: policitema,
polidipsia, polimenorreia, poliúria
pro - anterioridade: prognóstico, proglote
sin - ideia de conjunto, simultâneo: síndrome, sincrônico, sincício.
Principais
prefixos latinos de interesse médico:
ab, abs - separação, afastamento: abscesso, abstêmio
ad - aproximação, adição: adsorção, adstringente
ante - anterioridade, para frente: antebraço, anteflexão
co, con - companhia: co-autor,
congênere
contra - oposição: contraceptivo,
contralateral
de,
des - sentido contrário, separação: desinfecção degeneração,
desnervação.
en - introdução, mudança de estado, revestimento: encarcerar (hérnia),
envenenar, envolver
ex - para fora: exfoliativa
(citologia), exsudato
in - introdução, para dentro: intubação, invaginação
inter - posição intermediária, reciprocidade: intersexualidade, interação
intro - para dentro: introversão,
introspecção
per - durante, através: peroperatório,
peroral
pós, post - depois, em seguida: pós-operatório, post mortem
pré - antecedência, posição anterior: pré-coma, pré-frontal
pro - para diante (não confundir com igual prefixo grego):
pronação,
protrusão
re - repetição, volta, intensidade: repolarizar, refluxo, reforçar
retro - atrás, para trás:
retroperitônio, retroversão,
retroalimentação
semi – parcialmente, incompleto: semicírculo, semicúpio, semimorto
sobre,
super, supra - posição acima,
intensidade: sobrepor, supercílio,
suprapúbico, superinfecção
sub - posição inferior, ação incompleta: subconsciente, subagudo, subliminar
trans - através, além: transmural,
transaminase, transexual
Principais
sufixos nominais gregos de interesse médico:
ase - enzima: amilase,
lipase, fosfatase, transaminase
ia - coleção, qualidade, ciência: enfermaria,
assistolia, cardiologia
íase
- doença causada por parasito ou
bactéria: amebíase, hanseníase
ismo
- doença, sistema, crença: alcoolismo, botulismo, vitalismo
íase - doença causada por parasito ou bactéria: amebíase, hanseníase
ite - inflamação: apendicite, gastrite, cistite, miosite
óide - semelhante a: mastóide, esfenóide, esquizóide
oma - tumor: mioma, carcinoma, sarcoma
ose - doença não inflamatória, ou
degenerativa: artrose, dermatose
Principais
sufixos nominais latinos de interesse
médico:
al
< -ale - adjetivos: arterial, mental, nasal, sexual
ança, ancia < antia - substantivos: balança, criança, ambulância
ano < -anus - adjetivos: craniano,
microbiano
ante, ente < - vogal temática + suf. -nte: substantivos e adjetivos:
acidificante,
calmante, expectorante, absorvente, emoliente
ario, a< -arius - substantivos e adjetivos: protozoário, coronária, urinário
atico <- aticum - adjetivos: pancreático,
profilático, sintomático
ção < -tione - substantivos: dissecção,
hidratação, pigmentação
dade < -tate - substantivos: enfermidade,
fertilidade, insanidade
ento, lento < -(l)entu - adjetivos:
incruento, peçonhento, purulento
eza < -itia - substantivos: fraqueza,
magreza, pureza
ivo < -ivus - adjetivos: nutritivo,
regenerativo, supurativo
ino < -inu - substantivos e adjetivos: intestino, mediastino, masculino
io < -ivo - substantivos e adjetivos: calafrio, doentio, sadio
mento, a < -mentu, a - substantivos: aleitamento,
corrimento,
medicamento
oso < -osus - adjetivos: aquoso,
infeccioso, edematoso, membranoso
ura < -ura - substantivos: comissura,
estatura, fissura, sutura
Termos
médicos oriundos do grego:
Os termos médicos de origem grega podem ser divididos em dois grupos:
1.
Termos já existentes em grego clássico e que transitaram pelo latim antes de
serem incorporados às línguas modernas. O latim foi a língua de comunicação
científica utilizada durante muitos séculos nos países europeus. Mesmo quando o
latim vulgar já não era mais falado pelo povo e havia se transformado nas
línguas neolatinas, o latim clássico, erudito, continuava a ser usado nas
Universidades, tanto na publicação de livros como na comunicação oral, em
preleções, aulas e conferências.
Todo
o legado da medicina grega e, posteriormente, da medicina árabe, foi trasladado
para o latim. Em consequência, os termos médicos existentes foram adaptados a
esse idioma, sofrendo alterações morfológicas e prosódicas que se mantiveram
nas línguas atuais.
2.
Termos formados diretamente de elementos gregos em data posterior ao abandono
do latim como língua de comunicação científica, o que ocorreu progressivamente
a partir do século XVIII. O acervo lexical de novos termos cresce dia a dia, em
decorrência do progresso científico. Quase sempre os novos termos surgem em
países desenvolvidos, onde são feitas novas descobertas, e devem ser adaptados
aos idiomas de outros países, que os incorporam ao seu léxico.
Na
composição dos novos termos usam-se dois ou mais elementos da língua grega, que
podem ser prefixos, temas nominais e sufixos.
Devemos
distinguir nos compostos o determinante e
o determinado.
Determinante é o elemento modificador,
que restringe ou especifica o sentido do determinado.
Determinado é o elemento mais
importante, de sentido geral.
Conforme
a posição do determinante na palavra,
os compostos podem ser de três tipos:
Tipo sintético - O determinante vem em
primeiro lugar. É o tipo mais comum. Ex: cardiologia,
cromossoma, linfoma, mielócito, oftalmoscópio.
Tipo analítico - O determinante vem em segundo lugar, São poucos os
compostos desse tipo. Ex: filosofia,
hipopótamo
Tipo anfótero - Os
elementos são de igual valor, não se distinguindo entre determinante e
determinado. Ex: andrógino, hermafrodita.
Termos médicos oriundos do latim
Os termos de origem latina integrantes do vocabulário médico procedem,
em sua maioria, do latim erudito. Contudo, alguns nomes, sobretudo os relativos
a partes visíveis do corpo humano, são remanescentes do latim vulgar.
Denomina-se latim vulgar ao latim que era falado pelo povo nas províncias
romanas e que se diferenciou regionalmente, dando origem às línguas neolatinas.
Entende-se
por latim erudito a língua-padrão em que foram escritas as obras clássicas da
literatura latina, manancial onde se abasteceram os eruditos de épocas
posteriores.
Muitos
termos mantiveram no latim vulgar a mesma forma do latim erudito.
Termos
médicos oriundos do latim vulgar. Exemplos:
Cabeça - de capitia, plural de capitium,
capuz. No latim erudito caput.
Gr.kephalé, ês
Nariz - de naricae, ventas singular nariceplural narices singular
nariz. Gr. rhís, rhinós.
Boca - de bucca,
bochecha. Suplantou os, oris. Gr. stóma,
atos
Orelha - de oricla,
de auricula, diminutivo de auris. Gr. oûs, otós
Dedo - de ditu, mod.
de digitu. Gr. dáktylos, ou
Joelho - de genuculu,
diminutivo de genu. Gr. góny, gonatos
Osso - de ossu. No
latim erudito os, ossis. Gr. ostéon, osteu
Fígado - de ficatum (figo).
Lat. erudito: jecur. Gr. hepar, hepatós
Calcanhar - de calcanho,
do lat. erudito calcaneum. Gr. astrágalus, ou
Termos médicos oriundos do latim
erudito. Exemplos:
Radio - de radiu, vara. Gr. kerkís, ídos
Cúbito -
de cubito, cotovelo. Gr. pêkhus, eos
Tíbia - de tibia, flauta, tubo de órgão (instrumento musical).Gr. knéme,es
Pálpebra - de palpebra. Gr. blépharon, ou
Intestino - substantivação do adj. intestino, do latim intestinu, interior.
Gr.: énteron,
ou
Reto - de rectus (sem flexuras). Gr. proctos,
oû (inclui o ânus)
Ânus - de anus, anel
Ovário - de ovariu, portador de ovos. Gr. oophoros,
os
Testículo - de testiculus, diminutivo de testis,
testemunha. Gr. órkhis, ios
Pênis - de penis,
der. de pendere, pender. Gr. phallós, oû
Vulva - de vulva. Gr. hystéra
Músculo - de musculus, diminutivo de mus,
rato. Gr. mys, myós
Útero - de uterus, ventre, ou de uter,
odre. Gr.: métra, as; hystéra, as; delphýs, ýos
Veia - de vena, conduto. Gr.: phlebós,
ou
Olho - de oculu. Gr. ophtalmós, oû
Perna - de
perna. Gr. skélos, ous
Coxa - de coxa, osso do quadril.
Passou a designar o segmento femoral.
Gr.merós, oû
Fêmur - de femur, coxa. Gr. merós, oû
Pé - de pes, pedis. Gr. poús, podós
Mão - de manu. Gr.
kheír, kheirós
Lábio - de labiu.
Gr. kheîlos, ous
Barba - de barba.
Gr. pólon
Cabelo - de capillu. Gr.
thrix, thrikhós
Punho - de pugnu. Gr. karpós, oû
Dente - de dente.
Gr. odoús, ontos
Língua - de lingua. Gr. glôssa, es
Pele - de pelle.
Gr. dérma, atos
Pulmão - de pulmone.
Gr. pneúmon, onos
Coração - de cor. Gr. cardía, as
Rim - singular de renes,
órgão duplo. Gr. nephrós, oû
Bexiga - de vesica. Gr. kýstis, eos
Escroto - de scrotu,
bolsa. Gr. orkhis, ios
Ombro - de umero. Gr. ômos, ou
Termos oriundos do grego através do latim. Exemplos:
Estômago - do gr. stómakhos, pelo latim stomachu
Cólon - do gr. kólon,
pelo latim erudito colon
Artéria - do gr. artería, pelo latim arteria
Catéter - do gr. kathetér, pelo latim cateter
Faringe - do gr. pháryggx,
pelo latim pharynx
Braço
- do gr. brakhíon, pelo latim bracciu
Uretra - do gr. ouréthra, pelo latim urethra
Ureter - do gr. ouréter, pelo
latim ureter
Pâncreas - do gr. págkreas,
pelo latim pancreas
Termos oriundos de traduções latinas
de palavras gregas. Exemplos:
Duodeno - do latim duodenum, tradução do grego dódeka-dáktylon
(12 dedos) (Erasístrato).
Jejuno
- do latim jejunus, vazio, tradução do grego nêstis, jejum
(Aristóteles)
Termos híbridos:
São aqueles formados com elementos de mais de um idioma. Exemplos:
Hipertensão (hiper, gr. + tension,
lat.)
Endovenoso (endo, gr. + vena, lat. + o,,so,
gr.)
Densímetro (densi, lat. + metron,
gr.)
Termos
de origem incerta
São aqueles para os quais não há comprovação etimológica.
Exemplos:
Pescoço
Bochecha
Pestana
bigode
Termos de origem onomatopaica
São chamadas onomatopaicas ou onomatopéicas as palavras que imitam sons
naturais. Exemplo:
Garganta - de garg (ruído
de gargarejo).
RADICAIS DE
ORIGEM GREGA MAIS
UTILIZADOS
Na
relação que se segue os substantivos são indicados pelo nominativo e genitivo;
os adjetivos pelo masculino singular, e os verbos pela primeira pessoa do presente do
indicativo. Na transliteração para o
alfabeto latino foram observadas as seguintes equivalências: épsilon e êta = e; dzeta = z; thêta = th; kapa = k; ksi = x; ômicron e ômega = o; phi = ph; khi = kh; psi = psi; upsilon = y ou u. Para a elaboração
desta lista foram consultadas várias obras de referência.
Radical Palavra grega Significado Exemplos de
compostos
A
acant(o) ákantha, es espinho acantose, acantocéfalo
acro
ákron, ou extremidade acromegalia, acroparestesia
actin(o) aktís, înos raio
actínio, actinomiceto
aden(o) adén, énos glândula adenoma, adenomegalia
aero
aér, aéros ar aeróbio, aerofagia
agogo agogós, ón que conduz
colagogo, secretagogo
alelo
allelon
uns aos outros
alelomorfo
alg(o) álgo, ous dor gastralgia, algogênico
algesi -
- analgesia, analgésico
al(o)
állos
diferente alergia, alogênico
ambli amblýs
débil ambliopia
amil(o) ámylon, os amido amilase, amilopectina
anfi(o) ámpho
ambos anfíbio, anfótero
ancil(o) agkýlos
recurvado ancilóstomo
anquil(o) -
- anquilose
andr(o) anér, andrós homem andróide, androgênio
angi(o) aggeîon, ou vaso angioma, angiologia
antr(o) ántron, ou cavidade antrite, antrectomia
antrac(o) ánthrax, akos carvão antraceno, antracose
antropo anthrôpos, ou homem antropologia, antropófago
aracn(o) arakhnós, oû aranha aracnóide, aracnodactilia
arque(o) arkhé, ês princípio
arquétipo, arqueologia
arreno àrren
macho
arrenoblastoma
artr(o) árthron, ou articulação
artrite, artrodese
arteri(o) artería, as artéria arterial, arteriografia
axon(o) áxon, onos eixo axonema, axonômetro
atel(o) atelés, es imperfeito
atelectasia, ateloglossia
atero
athére, es papa ateromatose, aterosclerose
B
bacteri(o) baktería, as
bastão bactéria, bacteriófago
balano
bálanos, ou glande
balanopostite
bali bállo
propulsar ecbólico, metabolismo
balisto bállo
propulsar balistocardiograma
baro
báros, ous peso, pressão barômetro, barorreceptor
bati
bathýs profundo batiestesia
batmo
bathmós, oû degrau batmotropismo
bequi beksi
tosse béquico
biblio
biblíon, ou livro biblioteca, bibliografia
bi(o)
bíos, ou vida biologia, aeróbico
blast(o) bláste, es germe
blastoderme
blefar(o) blépharon, ou pálpebra blefaroptose
bleno
blénnos, eos muco blenorragia
botrio
bóthros, ou orifício botriocéfalo
botrio
bótrys cacho botrióide
bradi
bradýs lento
bradicardia, bradilalia
braqui
brakhýs curto
braquicéfalo
braquio brakhíon, ou braço braquiocefálico
brico brygkós
rangido briquismo
bromato brôma, atos
alimento bromatologia
brom(o) brômos, ou mau
cheiro bromidrose
bronco brógkhia
brônquio broncoscopia
bronquio " "
bronquite,bronquiectasia
bu boûs, boós boi, vaca bulimia
buli boulé, es vontade abulia
butir(o) boútyron, ou manteiga butírico
C
caco
kakós ruim cacogenia, cacosmia
calase khálasis, eos afrouxamento acalásia
cali
kalós belo caligrafia, calicreína
campto kamptós, e, on curvado camptodactilia
capn(o) kapnós, oû vapor, gás hipocapnia
carcino karkínos, ou câncer carcinoma,
carcinogênico
cardi(o) kardía, as coração cardiolgia, cardiopatia
cario
káryon, ou núcleo cariocinese, cariotipo
carpo
karpós, oû punho
metacarpo
cata
katá para baixo catabolismo, catalepsia
caus(i) kaûsis, eos ardor
causalgia
cefal(o) kephalé, es cabeça
cefálico, hidrocéfalo
cele
kéle, es
tumefação hematocele
celi(o)
koilía, as ventre celíaco, celiotomia
cen
koinós, óu comum
cenestesia
centese kentésis, eos punção
paracentese, toracocentese
cer(o)
kerós, oû cera ceramida, cerolisina
cerat(o) kéras, atos chifre ceratina, hiperceratose
-querat(o) "
"
queratina, hiperqueratose
cesto kestós, oû cinta cestóide
ciano kyanós
azul
cianose, cianopsia
cicl(o) kýklos, ou círculo
ciclase, cicloplegia
ciese kýesis, eos gravidez pseudociese
cifo kýphos, ous gibosidade cifose, cifoescoliose
cine kinéo
mover cinerradiografia, cinina
cimo
kyma,atos onda
cimógrafo-quimógrafo
cino khýon, kynós cão
cinófilia,
cinismo
cinese kínesis, eos movimento acinesia, hipercinesia
cineto kinetós
móvel cinetose, cinetoplasto
cir kheír, kheirós
mão
cirurgia
(-quiro) " " "
quirodáctilo,quiromancia
cirro kirrhós
amarelado cirrose
cirso khirsós
variz cirsóide, cirsectomia
cirto kyrtós curvo
cirtômetro
cist(o) kýstis, eos bexiga
cistite, cistocele
cito kýtos, ous célula citologia, leucócito
claus(o) klásis, eos rotura
osteoclasia
cleido kleís, eidós clavícula esternocleidomastoideu
clepto klépto
furtar
cleptomania
clin(o)
klíne, es leito clínica, clinóide
clino
klíno
inclinar
clinoscópio
clor(o)
khlorós
verde clorídrico, clorofila
coc(o)
kókkos, ou grão estafilococo, pneumococo
col(e) kholé, ês bile
colédoco,
colangiografia
col(on) kólon, ou intestino grosso colite, colonoscopia
colpo kólpos, ou vagina
colpocitologia
comio koméo
cuidar nosocômio, manicômio
condilo kóndylos, ou protuberância epicôndilo, condiloartrose
condrio khondríon, ou grânulo condriossoma
condr(o) khóndros, ou cartilagem condrite, condrócito
copro kópros, ou fezes
coprolito, coprostase
cor(e) kóre, es pupila anisocoria
cor(io)
khórion, ou membrana coróide, coriocarcinoma
core(o)i khoreía, as dança coreiforme, coreoatetose
cras(e)
krâsis, eos mistura eucrasia, discrasia
crea(to)s kréas, atos carne creatorreia, pâncreas
crico kríkos, ou anel
cricóide, cricofaríngeo
crino
kríno secretar
endócrino, exócrino
crio krýos, ous frio criostato,
crioglobulina
cripto
kryptós oculto criptorquidia
criso khrysós, oû ouro
crisoterapia
crito krytéon que
separa hematócrito
crom(ato)
khrôma, atos cor cromossoma
cron(o)
khrónos, ou tempo sincrônico, cronológico
croto krótos, ou batimento dícroto, anacrotismo
D
dacrio dákry, ous
lágrima
dacriocistite, dacrioadenite
dactil(o) dáctylos, ou dedo
sindactilia,
dactiloscopia
deca déka
dez
decápodo, decalitro
delfo delphýs, ýos útero
didelfo
delo dêlos, e,
o aparente
adelomórfico
dem(o)
dêmos, ou povo epidemia, demografia
dendr(o) déndron, ou árvore dendrítico
deonto
déon, ontos dever
deontologia
derm(ato) dérma, atos pele dermopatia, dermatologia
dese dêse (de deo) ligar
artrodese
desm(o) desmós, oû ligamento desmóide, desmopexia
deuter(o) deúteros segundo deuteranopsia
dia diá
através de diagnóstico, diálise
diadoco diádokhos, on sucessivo adiadococinesia
didimo
dídymos, on, e duplo (testículos) epidídimo
dinam(o) dýnamos, ou força
adinamia, dinamômetro
diplo(o) diplóos, ón, óun duplo diplóide, diplopia
dips(o)
dipsa, es sede
dipsomania, polidipsia
dolico dolikhós, ou longo
dolicocolo
doxo dóksa, es crença ortodoxo, heterodoxo
drepano
drepáne, es foice
drepanocitose
drom(o) drômos, ou que corre
junto síndrome
E
ec ek
fora entra na formação de
muitos
compostos
eco êkhos, ou som
ecolalia
eco oîkos, on habitação ecologia,
ecótopo
ectas(e) ek-tasis, eos alargamento
ectásico, broquiectasia
ecto ektós externo ectoderma, ectoparasito
ectom(e) ek-tomé, ês ablação apendicectomia, colectomia
ego áiks, aigós cabra
egofonia
ego egó,
eu egolatria, egocêntrico
elasm(o) elasmós oû lâmina xantelasma, elasmobrânquio
eletro(n) élektron, ou âmbar
eletrocardiografia, eletrônico
emena
émmena, on menstruação emenagogo
emeto emetos, ou vômito
hiperemese, antiemético
en
en (adv.) dentro
enoftalmia
endo
éndon, en dentro endométrio, endocárdio
eno oînos, ou vinho
enologia
enter(o) énteron, ou intestino enterite, enterococo
entomo éntomon, ou inseto
entomologia
episio epísion região
vulvar episiotomia
erast(o) erastés, oû amante
pederastia
erg(o)
érgon, ou energia
hiperérgico,ergométrico
eritro erythrós vermelho eritrócito, eritrodermia
ero éros, ou
amor
erógeno, erótico
escafo skáphos, eos barco
escafóide (osso)
esclero
sklerós duro arterioesclerose
escolio skoliós sinuoso
escoliose
(e)scopia skopéo ver, observar endoscopia, laparoscopia
escoto skótos, ou
escuridão
escotoma, escotofobia
esfeno sphén, enós cunha
esfenóide (osso)
esfero
sphaîra, as esfera
hemisfério, esferócito
esfigmo sphygmós, oû pulsação
esfigmomanômetro
espasmo spasmós, oû espasmo
antiespasmódico
esperma spérma, atos semente
espermatozóide
espir(o) speíra, as espiral espirilo, espiroqueta
esplancno splágkhinon, ou
vísceras
esplancnologia
espleno splén, splenós
baço esplenomegalia, esplênico
espondil(o) spóndylos, ou vértebra
espondilartrose, espondilite
espongi(o) spoggiá, âs esponja espongioblasto
esporo spóros, ou descendente esporo, esporozoíto
esquise skhísis, eos fenda
raquisquise
esquistos skhistós
fendido
esquistossomose
esquizo skhízo fender
esquizofrenia, esquizóide
estafilo staphylé, ês cacho
estafilococos
estase stásis, eos imobilidade
colestase, coprostase
esteato stéar, atos gordura
esteatorreia, estearina
esteno sténos, eos estreito
estenose, estenotórax
esten(o) sthénos, eos força física
astenia, astênico
ester(eo) stereós sólido ` estereotipo, colesterol
estesi aísthesis, eos sensibilidade anestesia, hiperestesia
esteto stêthos, e peito
estetoscópio
estoma stóma,
atos boca
colostomia,
anastomose
estrang(o) strágx, aggós gota
estrangúria
estrepto streptós
torcido estreptococos
etio aitía, as causa etiologia
eto éthos, eos costume etologia
ex(ia) eksis, eos compleição caquexia
etmo
ethmós, oû crivo
etmóide
etno
éthnos, eos raça,
povo etnologia, etnografia
F
faco phakê, ês cristalino facólise,
facomalácia
fag(o) phagéo
comer disfagia, fagocitose
fal(o) phallós, oû pênis falodinia, fálico
fanero
phanerós visível fanerogâmica
farmaco phármakon,
ou droga farmacologia, farmacopeia
fasia phásis, eos palavra afasia
fen(o) phaíno
mostrar fenótipo
feo phaiós
pardo feocromocitoma
fico phykos, eos alga ficomicetos
fima phýma, atos excrescência rinofima
fila(x,t) phýlax, eos proteção profilaxia, anafilaxia
fil(o) phílos amigo filosofia, antropofílico
filo phylé, ês tribo filogenia
filo phýllon, ou folha
macrófilo, leptófilo
fise(t) phýse, es gás enfisema, antifisético
fisi(o)
phýsis, eos natureza fisiologia, fisionomia
fit(o)
phytón, oû planta fitobezoar, zoófito
fleb(o)
phlépsi, bós veia
flebite,
flebotomia
flog(o)
phlóx, phlogós calor
flogose,
antiflogístico
fob(o) phóbos, ou medo fobia, hidrófobo
foco phókhe, es foca
focomelia
fon(e, o) phoné, ês som
foniatria,
audifone,
for(o) phoreo, phéro conduzir euforia, eletroforese
fos phôs, photós luz
fosgênio
fot(o) ”
” luz
fotografia
fren phrén, phrenós diafragma frênico
freno phrén, phrenós mente frenologia
ftis(e) phthísis definhamento tísica
G
galact(o) gála, gálactos leite galactose
gam(o) gámos, on união gameta, poligamia
gangli(o) gágglion, ou tumefação ganglioneuroma
gastr(o) gáster, gastrós estômago gastrite, gastrostomia
gen(o) génos, eos origem genética, patogenia
geni(o) genéion,
ous mento
genioglosso
geo gê, és terra geofagia, geologia
gero géron, ontos velho geriatria, gerontologia
geusi geûsis, eos paladar ageusia
gin(o) gymnós nu ginástica
gino(eco) gyné, gynaikós mulher andrógino, ginecologia
gripo grypós, é, on encurvado
onicogripose
glia glía,
as
grude gliadina, neuróglia
glic(o) glýkys,
eîa doce glicemia, glicose
gloss(o) glôssa, es língua glossite, glossodinia
gnat(o) gnáthos,
ou queixo
prognata, retrognatismo
gnos(e) gnôsis, eos conhecimento diagnose, prognóstico
gon(a)
goné, ês procriação hipogonádico
gon(a góny, atos joelho gonartrite
graf(o) grápho
(v.) gravar radiografia
gram(a) grámma, atos registro eletrocardiograma
H
halo háls, halós sal
halogênio
hamarto hamartía, as defeito hamartoma
haplo haploûs, oûn simples haplóide
hapt(o) hápto apreender haptoglobulina,
hapteno
hebe hébe,
es juventude hebefrênico
hecto hekatón cem
hectolitro
helio hélios, ou sol
helioterapia
helmint(o) hélmins, inthos verme helmintíase, helmintologia
hem(o) haîma,
atos sangue hemograma, anemia
hemat(o) haîma, atos sangue hematócrito, hematologia
hemer(a,o) heméra, as dia
hemeralopia, nictêmero
hepat(o) hépar, atos fígado hepático, hepatologia
hepta heptá
sete
heptadactilia
hetero hetéros, a, on diferente heterólogo, heterossexual
hexa héx seis
hexaedro, hexâmero
hial(o) hyalós,
ou transparente hialino
hidr(o) hýdor, datos água hidrocefalia, hídrico
hidr(o) hidrós, ôtos suor
hiperidrose, bromidrose
higr(o)
hygrós, a, on
úmido higroscópico
himen(o) hymén, enos membrana himenotomia, himenóptero
hipn(o) hýpnos,
ou sono hipnótico
hist(o, io) histós, oû tear,
tecido histologia, histiócito
hister(o) hýstera, as útero histerectomia
holo hólos inteiro holístico
homo homós igual homozigoto, homossexual
homeo homoîos semelhante
homeopatia
I
iatr(o) iatrós, ou médico pediatra, psiquiatria
icter(o) íkteros, ou icterícia anictérico
ictio ichtýs, os peixe ictiose
idio ídios próprio idiopático
L
lago lagós, o
lebre lagoftalmia
lalia laliá, âs
fala
bradilalia
laparo
lapára, as flanco laparotomia, laparoscopia
laring(o) láryggx, yggos laringe
laringite,
laringoscopia
lecit(o lékythos,
ou gema
de ovo lecitina
leio leîos
liso
leiomioma,
sarcolema
lema lémma, atos envoltório neurilema
lepsi lêpsis, eos ataque epilepsia, catalepsia
lepto leptós
delicado leptossômico,
leptospira
leto léthe, es esquecimento
letal, letargia
leuc(o) leukós
branco leucócito, leucemia
lex(i) léxis, eos palavra
dislexia, lexicografia
lio leîos
liso
lienteria
lio lýo
dissolver liofilização
lip(o) lípos, eos gordura
lipase, hiperlipemia
lise lýsis, eos dissolução eletrólise, lipólise
listese olísthesis, eos
deslizamento
espondilolistese
lit(o) líthos, eos pedra
colelitíase, litogênese
log(o) lógos, ou estudo, discurso
cardiologia, logorreia
M
macr(o) makrós
grande macrófago, macroscopia
maieu maíeusis, eos parto maiêutica
malac(o) malakós mole
osteomelácia
mano manós pouco denso (ar)
manômetro
mast(o) mastós, oû mama
mastite, mastóide
mega(lo) mégas, megále grande
megacolo, acromegalia
melan(o) mélano- negro
melanina, melancolia
melo(o) mélos, eos membro
focomelia
men(o)
mén, menós mês
amenorreia, menopausa
mening(o) mêningx, iggos membrana
meningite
mer(o)
méros, eos parte merozoíto, polimerização
mer(o) merós,
oû coxa meralgia
mes(o) méso,
on meio mesoderma, mesênquima
meta metá
depois de metacarpo
meta metá
entre metáfise
metr(o) métra, as matriz, útero metrorragia, endometrite
metr(o) métron, ou medida audiometria
mic(o) mýkhes, etos fungo micose,
actinomiceto
micr(o) mikrós, á, ón pequeno micróbio,
microscópio
miel(o) myelós,
oû medula
mielograma, desmielinização
miel(o)
myelós, oû medula mielina, osteomietlite
miia myîa, as
mosca miíase
mimo mîmos, ou ator mímica, mimetismo
mio mýs, myós rato (músculo) mialgia, mioma
mis(o)
mîsos, eos aversão misantropia,
misógeno
mit(o)
mítos, ou fio
mitocôndria
mit(o)
mÿthos, ou lenda mitomania, mítico
mix(o) mýksa, es muco mixedema,
mixoma
mnes(e) mnêsis, eos memória anamnese,
amnésia
mono mónos, e, on
único monócito, monoplegia
morf(o) mórphé, es forma
amorfo,
polimorfismo
N
nano nânos, ou anão
nanismo
narco nárke, es torpor
narcótico
necro nekrós, á, ón
morto
necrose, necrópsia
nefelo nephéle, es nuvem
nefelometria
nefr(o) nephrós,
oû rim
nefrologia,
nefrectomia
nema nêma, atos fio
nematelmintos
neur(o) neûron, ou nervo
neurologia,
polineurite
nict(o) nyks, nyctós noite
nictúria, nictalopia
nom(o) nómos, ou lei
isonomia
nos(o) nósos, ou doença nosocômio,
nosologia
noo
noûs, oû mente noologia, paranóia
noto nôtos, ou
dorso notocórdio
O
ocro ochrós amarelo pálido
ocronose
odin(o) odýne,
es dor odinofagia, pleurodinia
odo odós, oû caminho anodo,
catodo
odont(o) odoús, odóntos dente odontologia
ofio óphi, eos serpente ofiolatria, ofidismo
oftalm(o) ophthalmós, oû olho
oftalmologia,
oftálmico
omo ômos, ou
espádua omoplata
onco ógkos, ou massa (tumor) oncologia,
oncogênese
onfal(o) omphalós, oû umbigo onfalite, onfalocele
onic(o) ónyx, ychos unha onicofagia, ceiloniquia
onir(o) óniros, ou sonho
onírico
onoma
ónoma, atos nome onomatopaico (éico)
onim(o) ónyma, atos nome anônimo,
sinonímia
ont(o) ôn, ontos ser
ontologia,
ontogênese
oo oón, oû
ovo
oocisto, ooforectomia
op(si) ópsis,
eos vista
diplopia, hemianopsia
opisto ópisthen atrás opistótono
opo opós, eû seiva,
suco opoterapia
opto optos
visual optometria
orex órexis, eos apetite anorexia, hiperorexia
orn(i) órnis, ithos ave
ornitose
orqui(d) órchis, ios testículo orquite,
criptorquidia
osm osmé, ês odor anosmia
osm(o) osmós,
oû impulso osmose, osmolaridade
osteo ostéon, ou osso osteófito, osteoporose
ot(o) oûs, otós ouvido otite, otosclerose
oxi(d) oxýs, eîa ácido oxigênio, oxidase
oxi oxýs
em ponta
oxiuro
ozo ózos, ou
odor ozena, ozônio
P
pago págos, ou fixo xifópago
pale(o) palaiós
antigo paleontologia
palin pálin de
novo palinopsia,
palinfrasia
paqui pachýs, eîa espesso paquiderme,
paquipleriz
pat(o) pátho, os doença patologia, cardiopatia
pecilo poikílo variado pecilotérmico
poiquilo poikílos` variado poiquilocitose
ped(o) peûs, paidós criança pediatria,
ortopedia
pent(a) pénte, es cinco pentagastrina
peps,
pept pépsis, eos digestão dispepsia,
eupéptico
pex(i)
pêxis, eos fixação nefropexia,
histeropexia
picro pikrós
amargo pricrotoxina, pícrico
piel(o) pýelos, ou pia, bacia pielonefrite
piezo piézo
fazer pressão piezoterapia
pino píno tragar pinocitose
pi(o) pýon, ou pus
piócito,
pioemia
pig pygé, ês
nádega
esteatopigia
pile pýle, es
porta pileflebite (veia.porta)
pir(o) pÿr, pyrós fogo pirose, pirogênio
piret(o) pyretós, oû febre antipirético
plasm(o) plásma, atos molde ectoplasma, plasmaferese
plas(o)
plásso formar neoplasia, metaplasia
plast(o) plásso modelar
cardioplastia, cinetoplasto
plati
platýs, eîa plano,
chato platirrino
pleg plegé, ês golpe hemiplegia
pleo
pleíon, ou maior número pleomórfico
pleur(o) pleurá, âs costas, flanco pleurisia, pleurodinia
plex plésso golpear apoplexia
pneia pnéo
respirar dispneía, taquipneia
pneuma pneûma, atos ar
pneumotórax
pneumon pneúmon, onos pulmão pneumonia
podo poús, podós
pé, pata pseudópodo, pododáctilo
poie poiéo
fazer
hematopoiese
polaci pollákis
frequente polaciúria
polio poliós
cor cinza poliomielite
poste posthé, es prepúcio postectomia
prax(is) prâxis, eos ação apraxia
presbi présbys idoso presbiopia, presbiesôfago
proct(o) proktós ânus,
reto proctite, proctologia
prosop prósopon, ou face leptoprosópio
proto prótos
primeiro protozoário, protoplasma
pseudo pseudê, és falso pseudocisto
psic(o) psikhé
mente, alma psicologia, psíquico
psor(a) psóra, as sarna psoríase
pter(o) pterón, oû asa, pena díptero, pterígio
ptial(o) ptýalon, ou saliva ptialismo
ptise ptýo
cuspir hemoptise
pto(s) ptôsis, eos queda
nefroptose, gastroptose
Q
queil(o) kheîlos, ous lábio queilite, queiloplastia
quem(o) Kheûma, atos derrame quemose
quez(o) khézo
defecar disquezia
quil(o)
khylós, oû suco quilífero, aquilia
quimi(o) khymiké, ês química quimioterapia
quim(o) khymós,oû suco quimotripsina
quir(o) kheír, kheirós
mão quiroplastia,
quiromancia
quit(o) khitón, ônos armadura quitina
R
rabd(o) rhábdos, ou bastão rabdomiossarcoma
raf rhaphé, ês costura gastrorrafia
rag rhêgma, atos rotura hemorragia
raqui rhákhi, ios espinha
dorsal raquiano, raquicentese
reo rhéo
correr diarreia,
amenorreia
reuma rheûma, atos fluxo
reumatismo
rexe rhêksis, eos rasgo
metrorrexe
rinco rhýgkhos, ous
bico ornitorinco
rino rhís, rhinós nariz 77 rinite,
platirrino
ritido rytis, idos ruga ritidectoma
riz(o) rhíza, es raiz rizotomia,
rizópodo
rodo rhódon, ou rosa rodopsina
romb(o) rhómbos, ou losango rombocéfalo,
rombóide
S
sácaro sakkharon, ou açúcar sacarose, polissacarídio
salping(o) sálpigx, iggos trompa salpingite, salpingectomia
sapro saprós podre saprófito
sarc(o)
sárks, sarkós carne sarcoma, anasarca
sauro saúra, as lagarto dinossauro
scop(ia) skopéo olhar
endoscopia, cistoscopia
semio semeîon, ou sinal
semiologia, semiótica
seps(e)
sêpsis, eos putrefação
assepsia, septicemia
sial(o) síalon, ou saliva sialagogo, sialografia
sider(o) síderos, ou ferro
hemossiderose
sigm(o) sîgma
letra s sigmóide
sitio sitíon, ou alimento
sitiofobia
sito sîtos trigo, pão parasito
soma sôma, atos corpo somático, tripanosoma
spádia spádon, ontos eunuco hipospádia
T
tálamo thálamos, on leito nupcial hipotálamo
talass(o) thálassa, as mar talassoterapia, talassemia
tanat(o) thanatós, ou morte tanatologia
taqui takhýs, eîa rápido taquicardia, taquisfigmia
tauto tautós, e o mesmo tautologia, tautomeria
tax(o) táxis, eos ordem
taxonomia, ataxia
tec(a) théke, es depósito
biblioteca, soroteca
tecn(o) tékhne, es arte manual tecnologia, zootecnia
tele têle
distante
telemetria, telerradiografia
tel(o) thelé, es mamilo teloplastia, telorragia
teno ténon, ontos
tendão
tenossinovite
terap therapeia, as tratament
farmacoterapia, terapêutica
terat(o) téras, atos monstro teratologia
term(o) thérme, es calor
termometria,
diatermia
tetra téttara quatro tetralogia,
tetraplegia
tres(i) trêsis, eos orifício atresia
tifl(o) typhlós
ceco
tiflite, tiflostomia
tifo týphos estupor tifóide
(febre)
tim(o) thymós, oû alma esquizotímico
tio theîon, ou enxofre tioglicose, tiobarbital
tir(o) thýra, as porta tiróide, hipertiroidismo
tire(o) thýreos, oûs
escudo tireóide
tisio phthisis, eos definhamento tísica,
tisiologia
toc(o) tókos, ou parto tocografia, distócia
tom(o) témno
cortar anatomia, tomografia
ton(o) teíno
por sob tensão hipertonia, tonometria
top(o) tópos, ou lugar
ectópico, toponímia
torac(o) thórax, thórakos
tronco tórax, toracocentese
tox(o) tóxon, ou flechas toxina, toxoplasmose
traqueo trakhýs, eîa rugoso traqueia, traqueotomia
traquel(o) trákhelos, ou pescoço traquelocifose
traquel(o) trákhelos, ou colo uterino traquelorrafia
trépano téretron, ou trado trepanação, treponema
trípano trýpanon, ou verruma tripanossoma,
tri treîs(tria) três
trígono, tridactilia
tric(o) thríx, thrikhós
fio de cabelo
tricorrexe, tricofagia
trips(i) trîpsia, eos trituração quimotripsina
trof(o) trophé, ês alimentação
trofoblasto, hipertrofia
tromb(o) thrombos, ou coágulo tromboflebite, protrombina
trop(o) tropé,
és atração fototropismo
U
ule oulé, ês
cicatriz ulectomia
ulo oúlon, ou gengiva ulite, ulorragia
ur(o) oûron, ou urina urografia, oligúria
urano ouranós, oû pálato uranosquise
X
xant(o) xanthós amarelo xantoderma, xantocrômico
xen(o) xénos
estranho xenodiagnóstico, xenófobo
xer(o) xerós
seco xeroftalmia, xeroderma
xifo xíphos, ous espada xifóide, xifópago
xilo xýlon, ou madeira xilol, xilose
Z
zim(o) zýme, es fermento enzima, zimogênio
zo(o) zôon, ou animal zoologia, protozoário
1. BRIDGE, E.M. -
Pedagogia médica, 1965, p. 141
2. HOUAISS, A.
- Estudos vários sobre palavras, livros,
autores, 1979, p. 104
3. COUTINHO, I.L. - Pontos de gramática histórica,
1962, p. 194-195
4. SILVEIRA, S. - Lições de português, 1960, p.112-113
A NIVEL DE, AO NÍVEL DE
Embora de uso
generalizado, a locução a nível de é condenada por todos os
mestres e estudiosos da língua portuguesa. É tida por modismo que se introduziu
na linguagem jornalística e contagiou outros canais de comunicação, inclusive a
linguagem médica.
A referida
locução é utilizada em espanhol, com o deslocamento do acento tônico para a
última sílaba – a niv(è)l de.
Em francês se
diz au niveau de e em inglês on a level with.
Almeida, no
verbete "modismos" de seu Dicionário
de questões vernáculas, inclui a palavra nível, que teria sido "introduzida em várias expressões por
vários tradutores do inglês que não se envergonham de redigir "reunião a
nível de ministros" (por "reunião de ministros", "reunião
ministerial").[1]
Eduardo
Martins,
Em textos
médicos encontramos a locução a nível de
com certa frequência. Exemplos: "A síntese proteica ocorre a nível
celular.". "As dosagens hormonais são expressas a nível de
picogramas."
Ao contrário
de a nível de, a locução ao nível de encontra-se averbada nos
mais autorizados léxicos com o sentido de no
mesmo plano, à altura de. [3][4][5]
Para Cegalla, a nível de é uma "locução em voga,
porém inútil"; "a legítima locução portuguesa é ao nível de, que significa à
mesma altura" e exemplifica: "Era um solo baixo, quase ao nível
do mar", "Certos vícios rebaixam o homem ao nível dos
brutos".[6]
A locução ao nível de, portanto, é correta, desde
que empregada apropriadamente. Assim, em linguagem médica podemos usar a citada
locução quando buscamos um plano de referência topográfica, com o sentido de à mesma altura. Exemplos: "A
transição entre o reto e o cólon sigmóide situa-se ao nível da terceira
vértebra sacra". "Presença de imagem compatível com adenomegalia ao
nível da bifurcação traqueobrônquica." "A bala atingiu o paciente ao
nível do rim direito."
A referida
locução, entretanto, tem sido erroneamente utilizada para indicar o local, o
sítio no próprio órgão a que a sentença se refere. Exemplo (de um laudo
radiológico): "Presença de estenose ao nível do cólon sigmóide". É
óbvio que a estenose está no cólon sigmóide e não em outro local, ao nível do cólon sigmóide.
_________
1.
ALMEIDA,
N.M. Dicionário de questões vernáculas. 1981.
2.
MARTINS,
E. Manual de redação e estilo, 1997, p. 190.
3. MICHAELIS.
Moderno dicionário da língua portuguesa.,1998.
4.
FERREIRA,
A.B.H. Novo dicionário da língua portuguesa, 1999.
5.
HOUAISS,
A., VILLAR, M.S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. 2001.
6.
CEGALLA,
D.P. Dicionário de dificuldades da língua portuguesa. 1996.
ABSCESSO, ABCESSO
Abscesso (abcesso) vem do latim abscessus, termo empregado pela primeira vez por
Celsus[1] em substituição à apóstema, palavra grega que designava as supurações e cujo sentido era o de
separação e eliminação dos maus humores.
Apostema
chegou até ao português através do latim. Por aférese (perda da vogal
inicial) deu origem à postema, ainda de uso corrente em linguagem popular.[2] O
prefixo latino ab-, entre outras
funções, tem o sentido de afastamento, separação, e o verbo cedere traz em si a ideia de movimento, de algo
que está acontecendo no
tempo.
Ao prefixo ab- se acrescentava um s quando a palavra seguinte se iniciava
por c,
q ou t . Este s adicional
manteve-se em muitos vocábulos de origem latina, tais como absconso, abster,
abstrair, abstinência etc.[3]
De abscessus, em latim,
resultou absceso, em espanhol, ascesso em italiano, abcès em francês, e abscess
No dicionário
de Moraes (1813) e no de Lacerda (1874) encontram-se as duas formas, com
destaque para abscesso. Já
Pedro Pinto (1962) recomenda abscesso, considerando abcesso grafia corrente
e errônea". Dos dicionários mais modernos, o Aurélio, 3. edição (1999) registra as duas formas, com preferência
para abscesso, enquanto o Michaelis
(1998) averba apenas abscesso.
Nos textos
médicos encontramos as duas formas, com predominância de abscesso. Em 26 artigos publicados em revistas médicas brasileiras
no período de
Atualmente a proporção é ainda maior.
Em 205 artigos indexados pela BIREME, tendo como título a palavra em questão,
somente 16 utilizaram a forma abcesso, o
que dá a proporção de 92,2% para a forma
abscesso (com s).[5]
Em relação ao verbo, além da
divergência quanto ao prefixo, acresce a relativa à conjugação. Absceder ou abscedar?
À exceção de Domingos Vieira [6],
que adota a terminação em ar, os
demais lexicógrafos registram apenas
absceder (ou abceder).
Pedro Pinto
assinala no verbete absceder: "É
corrente, e ruim, a forma abscedar”
(1962). Abscedere, em latim, só poderia dar absceder
Estamos,
assim, diante de um fato linguístico provavelmente irreversível.
Finalizando, julgo deva ser adotada a forma
abscesso (com s), por melhor corresponder à grafia latina e por merecer a
chancela da grande maioria da classe médica. Em consequência, também se
escreverão com o prefixo abs- os verbos absceder e abscedar.
Apesar de
incorreto, não se pode condenar o verbo
abscedar, tendo em vista o seu uso generalizado em linguagem médica.
________
1. SKINNER, H.A. The origin of
medical terms, 1961, p, 2
2. SÃO PAULO, F. Linguagem médica popular
no Brasil, 1970, p. 298.
3. ROMANELLI, R.C. Os prefixos latinos. Belo Horizonte, 1964, p. 25.
4. IBBD-IBICT. Bibliografia brasileira de medicina, 1965-1979.
5. BIREME. Disponível em
http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/ Acessado em
02/12/2009.
O termo achalasia, em inglês, foi criado em 1914
por Arthur Frederick Hertz, atendendo à sugestão de Sir Cooper Perry, para
designar a falta de abertura ou relaxamento de um esfíncter.[1] Destinado
inicialmente ao esfíncter esofagiano inferior, o conceito de acalásia
estendeu-se posteriormente a outros esfíncteres do tubo digestivo e de outros
órgãos.
Alguns anos
mais tarde, Hertz mudou o seu próprio nome para Hurst, razão pela qual a teoria
por ele estabelecida passou a ser conhecida como teoria da acalásia de Hurst.
O termo achalasia formou-se com os elementos
gregos a, privado de + khálasis, relaxamento + sufixo -ia,
que exprime qualidade. Do inglês, achalasia
passou para outros idiomas de cultura, com as adaptações mórficas e prosódicas
de cada língua.
Em português
vigora a regra de que as palavras formadas diretamente do grego com acréscimo
do sufixo -ia, sem trânsito pelo
latim, são paroxítonas. Assim, por exemplo: atonia, cardiopatia, disfagia,
ectasia, hiperemia, patogenia etc.
Chega a ser
acaciano dizer que toda regra admite exceções, principalmente quando se trata
de questões linguísticas. No caso do sufixo -ia podemos citar como exceções amnésia, hemácia, biópsia, autópsia,
distócia, osteomalácia e todas as palavras formadas com o elemento - uro, do grego oúron, urina, como
anúria, colúria, cristalúria, glicosúria, hematúria, oligúria, poliúria, piúria
etc.
Acalásia também se inclui entre as exceções. Tratando-se de
um termo médico de criação relativamente recente, ainda permanece o desejo de mantê-lo
atrelado à norma, contra a realidade da língua. Perguntaria: quantos médicos
utilizam na linguagem falada a forma paroxítona?
O que ouvimos
em congressos, em comunicações, em aulas, em conversas, é sempre a forma
proparoxítona - acalásia. Na linguagem
escrita, todavia, procura-se não contrariar a regra e suprime-se o acento.
Escreve-se acalasia e pronuncia-se acalásia.
Aos que temem
contrariar os guardiães ortodoxos do idioma poderia oferecer alguns elementos
tranquilizadores.
O grande
filólogo e linguista Augusto Magne consigna as duas formas: acalásia e
acalasia.[2] De igual modo procede a Academia Brasileira de Letras, colocando acalásia em primeiro lugar e acalasia como variante.[3] No Dicionário Escolar da Língua Portuguesa,
editado pelo Ministério da Educação e Cultura, lê-se: "É corrente e aceita
em linguagem médica a prosódia acalásia".[4]
O Grande Dicionário da Língua Portuguesa,
de Morais Silva, 10. ed. (1949-1959) só
averba a forma proparoxítona - acalásia.
Assim também procede a Grande
Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, citando como exemplo a "acalásia
do cárdia, uma das formas de megaesôfago".[5]
Outros léxicos
contemporâneos, como o Grande Dicionário
Brasileiro Melhoramentos, (1975) e o Dicionário
Brasileiro da Língua Portuguesa, da editora Mirador Internacional, (1980)
ambos organizados por uma equipe de competentes linguistas, só registram a
forma acalásia. O moderno Dicionário de termos técnicos de medicina e
saúde, de Luis Rey, (1999) optou igualmente por acalásia. E até o Dicionário
de Rimas da Língua Portuguesa, de José Augusto Fernandes, rima acalásia com
Eufrásia e eutanásia.[6]
Dos léxicos de
maior expressão, somente o de Silveira Bueno (1963), o de Aurélio Ferreira
(1999) e o Michaelis (1998) adotam a
forma paroxítona acalasia.
Podem,
portanto, os médicos tranquilamente escrever acalásia, com acento bem visível
no penúltimo a, tal como pronunciam.
_________
1.
HERTZ, A.F. Achalasia of the cardia. Quart. J. Med. 8: 300-308,
1914/15.
2.
MAGNE,
A. Dicionário da língua portuguesa, 1950.
3.
ACADEMIA
BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 1999.
4. BUENO,
F.S. Dicionário escolar da língua portuguesa, 1980.
5.
MORAIS
SILVA, A. Grande dicionário da língua portuguesa, 1949-1959.
6.
GRANDE
ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA, 1935-1958.
7.
FERNANDES,
J.A. Dicionário de rimas da língua portuguesa 1985.
Acontecer é verbo defectivo unipessoal, que só se conjuga na
terceira pessoa e que não possui imperativo: acontece, acontecem, aconteceu, aconteceram, acontecia, aconteciam,
acontecerá, acontecerão etc.[1]
Acontecer
deriva do verbo latino contingit, gere, que tem a mesma
raiz de contingencia, ae, cujo significado é de um fato
imprevisto, que ocorre por acaso ou por acidente.Temos em português contingência e contingente, vocábulos que preservaram o sentido de incerteza, de
ocorrência eventual, que pode ou não suceder.
O verbo acontecer tem igualmente esta conotação
de inesperado, fortuito, inopinado, incerto, não previsto, conforme se pode ler
em muitos léxicos clássicos, como os de Moraes, (1813) Constâncio, (1845)
Domingos Vieira, (1871) Cândido de Figueiredo, (1899), Augusto Magne. (1950)
O Novo Aurélio Século XXI (1999) dá as
seguintes acepções para o verbo acontecer:
“1. Suceder ou realizar-se
inopinadamente.
2. Passar a ser realidade;
ocorrer, suceder, sobrevir.
3. Bras. Ser ou constituir fato de importância na vida social ou em
outros âmbitos.
4. Suceder, ocorrer.”
Por influência
da linguagem jornalística e dos noticiários de televisão, o verbo acontecer passou a ser usado com tal
frequência, que praticamente se transformou no único recurso linguístico para
registrar todas as ocorrências, previstas ou não. Vale citar, a propósito, as
cáusticas palavras de Napoleão Mendes de Almeida
"Pelo
menos no Brasil, fatos já não ocorrem ("desastre acontecido ontem"),
nem se verificam ( "O cerco aconteceu de surpresa"), nem se efetuam
("Operações acontecidas na bolsa"), nem se realizam ("Casamento
que irá acontecer"), nem se cumprem (..." para que aconteça o que foi
prometido"), nem sucedem ("Outras surpresas aconteceram"), nem
se dão ("Os motivos que aconteceram"), nem resultam ("Nenhum
efeito aconteceu"), nem redundam ("Tudo isso aconteceu em seu
favor"), nem revertem ("A discussão aconteceu em nada"), nem se
operam ("A detenção aconteceu ontem"), nem se praticam ("Faltas
que aconteceram por descuido"). "É a pobreza de vocabulário causa do invariável,
monótono, enfadonho (o grifo
é nosso) emprego de certas palavras". "Que aconteceu? É a nossa
língua que passou de flor a escória, a borra do Lácio".[2]
Como é
natural, a linguagem médica também deixou-se influenciar por este modismo e já
não é raro encontrarmos noticiário de congressos, jornadas, cursos, que aconteceram ou vão acontecer em tal data ou em tal lugar.
O verbo acontecer deve ser reservado para fatos
e ocorrências não programadas. Acidentes de trabalho acontecem com frequência; não são previstos. No Hospital das
Clínicas de Goiânia, em uma campanha preventiva contra acidentes de trabalho,
foram colocadas placas em diferentes locais, com os dizeres muito apropriados e
ilustrativos do que acabamos de afirmar: "O acidente não avisa, acontece."
Seria uma
impropriedade léxica dizer, por exemplo, que "a intervenção cirúrgica aconteceu sob anestesia geral". Uma
intervenção cirúrgica não acontece;
ela é programada, planejada segundo técnica preestabelecida e se realiza, se
efetua, se processa, se pratica. Durante o ato cirúrgico, no entanto, pode acontecer um acidente anestésico com
parada cardíaca.
Infelizmente,
para desespero do cirurgião e do anestesista.
_________
1. MACHADO FILHO, A.M. Coleção "Escrever
Certo", vol. 5, 1966, p. 281-282.
2. ALMEIDA, N.M. Dicionário de questões vernáculas, 1981, p. 12.
A diferença
semântica entre afecção, doença, enfermidade e moléstia tem sido objeto de
indagação, tanto do ponto de vista linguístico, como de terminologia médica.
O grego
clássico sempre foi a fonte inesgotável onde a ciência médica buscou os
elementos formadores de sua terminologia. Para expressar doença com radicais
gregos utilizam-se os temas nósos e páthos, com os quais se
formaram numerosos compostos, tais como nosologia,
nosografia, patologia, cardiopatia, patogenia, etc. Páthos, em grego, tem um
sentido muito mais amplo do que nósos, e tanto se refere ao
infortúnio físico como moral, às paixões exacerbadas.[1][2]
Para designar
o estado mórbido de um modo geral, entretanto, prevaleceram na terminologia
médica palavras de origem latina, populares ou semicultas, de livre trânsito
entre médicos e leigos, como achaque,
incômodo, padecimento, mal, afecção, doença, enfermidade, moléstia. As quatro últimas são as de
maior uso no vocabulário médico. Originalmente cada uma delas caracterizava um
aspecto particular da perturbação da saúde, o que estava implícito em sua
própria etimologia.
Afecção provém do latim affectione, ação de afetar,
influência; estado resultante da influência sofrida; modificação.[3]
Doença, em latim, era designada por morbus, i, donde mórbido,
morbidade, morbífico, morbígeno
etc. A palavra doença procede do
latim dolentia, de dolens, entis, particípio
presente do verbo doleo, dolere, sentir
ou causar dor, afligir-se, amargurar-se.
Enfermidade corresponde ao latim infirmitas, atis, de infirmus, que, por sua
vez, resultou da fusão do prefixo in (negação) + firmus, firme, robusto,
saudável. Denota, portanto, debilidade, fraqueza, perda de forças.
Moléstia provém de igual palavra latina, molestia,
que exprime enfado, incômodo, estorvo, inquietação, desassossego.[4]
Assim sendo,
cada uma das palavras em estudo tinha originalmente seu conteúdo semântico
próprio. Afecção expressava as
modificações sofridas pelo organismo resultantes da ação de uma causa; doença traduzia o sofrimento, a dor que
acompanha os estados patológicos; enfermidade
caracterizava o enfraquecimento, a debilitação do organismo, e moléstia refletia a sensação de
desconforto e mal-estar que acompanha o estado mórbido.
O uso
alternativo de um ou de outro termo para indicar uma condição que enfeixa o
significado dos demais, forçosamente levaria a uma metonímia, o que
efetivamente ocorreu.
As tentativas
de manutenção das diferenças semânticas entre essas quatro denominações, tanto
no passado como no presente, têm sido infrutíferas, sem qualquer resultado
prático.
Plácido
Barbosa,
Miguel Couto,
em uma tentativa de atribuir um significado próprio a cada um dos nomes, propõe
as seguintes definições:
"Doença - Termo genérico, significando
qualquer desvio do estado normal.
Moléstia - Conjunto de fenômenos que evolvem sob a
influência da mesma causa.
Afecção - Conjunto de fenômenos na dependência da mesma causa. Enfermidade - Desarranjo na disposição
material do corpo".[6]
Arnaldo
Marques,
Muito embora
possamos encontrar pequeninas diferenças entre o significado de cada uma dessas
palavras, não resta dúvida de que não raro influem na sua preferência, até um
certo ponto, fatores pessoais; um deles é a literatura estrangeira a que se
habitou o médico. Os que lêem principalmente o inglês (disease, illness, morbid condition) empregam de preferência condição mórbida. Os afeiçoados
das obras em castelhano servem-se de enfermidade. Outros mais referem-se, de
hábito, à expressão, mais correta, aliás, moléstia, talvez por influência das
obras de língua francesa (maladie)".[7]
O mesmo autor
faz uma ressalva quanto à afecção. "Se, entretanto, falamos de uma certa
doença, referindo-a como uma simples lesão anatômica - "úlcera do
estômago", "fratura do rádio" - devemos empregar a expressão
afecção e não moléstia".[7]
Lemos Torres
dá as seguintes definições:
"Doença - do latim dolentia de dolens
= dor, portanto indica perturbação em que há dor, corresponde à palavra grega algos,
algema
que nos legou algia = dor".
"Moléstia - do latim molestia, perturbações da
molens
(massa de matéria mole, corpo) sob o influxo de uma mesma causa, que importuna,
acarreta mal-estar e atormenta; corresponde em grego a nósos, nosema, que nos
deu nosologia, nosografia e nosogenia".
Afecção - Num sentido amplo e filosófico, afectar significa atuar sobre um ser
vivo, especialmente consciente, maximé em sua sensibilidade e sentimentalidade
ou em seus interesses vitais. No sentido médico, indica ação maléfica atuando
sobre um órgão ou tecido vivo, acarretando-lhe desvios de suas funções ou
lesando-o fisicamente. Afecção seria a expressão de um estado morbífico do
organismo vivo ou do ânimo. Entretanto, a afecção não é o mesmo que moléstia,
veio como esta do latim, mas de affectio, onis, deriva afficio,
significa relação, disposição, estado e modo de ser; corresponde no grego a páthos,
pathéma,
que significa modificação qualquer, sofrimento, moléstia, afecção
mórbida".
"Enfermidade - do latim infirmita,
infirmitatis
(de infirmus)
que significa fraqueza, debilidade. Incapacidade de realizar algo de habitual
devido a uma deficiência; corresponde no grego a astheneia, astenia, que
designa mais propriamente fraqueza muscular".[8]
Oliveira e
col., no livro Controvérsias em
Gastroenterologia, citando O. P. Cirne, emitem os seguintes conceitos:
"Quando se define doença, ou estado mórbido, pressupõe-se a coexistência
de uma lesão, de uma etiopatogenia, de um conjunto sintomático e de uma
evolução. Doença é considerada um evento biológico cuja causa pode ser ou não
reconhecida pelos métodos clínicos. Não deve ser confundida com moléstia,
vocábulo que provém de MOLESTO-(O)-IA e que tem a acepção de mal-estar, de
inquietação, não sendo bom português empregá-lo no sentido de doença ou
enfermidade. Molestar não significa produzir doença, mas sim atormentar, causar
incômodo. Por esta razão usa-se história
da moléstia atual".[9]
Em realidade,
nem sempre se usa história da moléstia
atual. Em muitos serviços médicos, universitários ou não, usa-se também história da doença atual (HDA).
Pelo exposto,
vê-se que não há consenso quanto ao significado preciso de cada um dos termos
empregados para indicar a alteração da saúde. São eles utilizados como
sinônimos, independentemente da conotação semântica que cada um possa ter. De
todos, o que mais se diferencia é, sem dúvida, afecção, ao qual se procura ligar a ideia de alteração anatômica
consequente ou determinante do estado mórbido.
Doença, enfermidade
e moléstia se equivalem, como atestam
os textos médicos atuais e os modernos léxicos da língua portuguesa,
especializados ou não. É interessante ressaltar que, nos epônimos, emprega-se
de preferência doença ou enfermidade e, mais raramente, moléstia ou mal (mal de Hansen, mal de Pott). De modo análogo, as pessoas que
apresentam qualquer perturbação na saúde, mesmo que esta seja rotulada de afecção ou moléstia, são sempre doentes
ou enfermos.
Etimologicamente,
doente é o que sente dor, o que
sofre, o que padece; enfermo é o que
está debilitado, enfraquecido pela doença. A etimologia, entretanto, não
determina o significado das palavras; serve apenas como esclarecimento de sua
origem. A menos que haja uma convenção, torna-se muito difícil, na atualidade,
estabelecer quando se deve empregar afecção,
doença, enfermidade, moléstia ou mal.
O fato, todavia, não constitui o mal maior. O que se deve evitar é o emprego,
cada vez mais frequente, de patologia
como sinônimo de afecção, doença,
enfermidade ou moléstia. Ouve-se
com frequência, em comunicações orais, ou lê-se em publicações médicas, que o
doente tem uma determinada patologia
ou. até mesmo duas ou mais patologias!
__________
1. BAILLY, A.
Dictionnaire grec-français, 16. ed.
2. LIDDELL, H.G.,
SCOTT, R. A greek-english lexicon, 1983.
3. MACHADO, J.P. Dicionário etimológico da língua
portuguesa, 1977.
4. SARAIVA, F.R.S. Dicionario latino-português, 1993.
5. BARBOSA, P. Dicionário de
terminologia médica portuguesa. 1917.
6. COUTO, M. Clínica médica, 1936, p. 223.
7. MARQUES, A. Manual de semiologia. 1959, p. 8.
8. TORRES, U.L. Achegas à nomenclatura
médica. An. Paul. Med. Cir. 82:359-368, 1961.
9. OLIVEIRA, C.A. et al. In CASTRO, L.P., ROCHA, P.R.S. (Ed.). Controvérsias em
Gastroenterologia, 1988, p.129.
Há, em grego,
duas palavras muito semelhantes: aphórisma,
atos, que significa posto à parte,
e aphorismós, oû, que, entre outras
acepções, tem a de definição curta,
sentença.[1] Foi neste sentido que a palavra aforismo entrou para o vocabulário médico em um dos livros mais
conhecidos e traduzidos da história da medicina: Os Aforismos, de Hipócrates. Ao todo são 413 sentenças agrupadas em
7 seções, resumindo todos os conhecimentos da medicina empírica da época.
O primeiro dos
aforismos hipocráticos é, talvez, a melhor conceituação da arte médica de todos
os tempos, jamais superada: A vida é
breve, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganosa, o julgamento
difícil.
Do grego, o
termo veio para o latim - aphorismus
- e deste para as línguas modernas: inglês e alemão, aphorism; francês, aphorisme;
italiano, espanhol e português, aforismo.
Com
certa frequência deparamos em escritos médicos com o termo aforisma em lugar de aforismo,
equívoco que deve ser evitado, pois aforisma
tem outro significado na terminologia médica. Embora pouco utilizado,
designa um hematoma resultante da rotura de um vaso sanguíneo.[2][3]
_________
1. BAILLY, A. Dictionnaire
grec-français, 1950.
2. HIPPOCRATES. The Loeb
Classical Library. , vol. 4, 1972, p. 98-216.
3. PINTO, P.A. Dicionário de termos médicos, 1962.
O termo alopecia (ou alopécia) provém do grego alopexia,
de alópex,
raposa, através do latim alopecia. A raposa apresenta com
frequência queda de pelos, ou como um fenômeno natural, ou em decorrência de
enfermidade, o que é mais comum em animais velhos.[1]
O emprego do
termo para expressar queda generalizada ou localizada de cabelos, barba e
outros pelos do homem, é bem antiga, datando dos tempos hipocráticos, e
resultou, possivelmente, da comparação do aspecto das pessoas com o das raposas
desprovidas de pelos.
Há referência
à alopecia em trabalhos de Galeno, que a comparou à doença das velhas
raposas.[2] Plinius empregou alopecis, referindo-se à cauda da
raposa[3] e Celsus denominou alopecia area uma superfície lisa,
sem pelos.[4]
Para a
incorporação definitiva do vocábulo à medicina oficial muito contribuiu
Ambroise Paré. É de sua autoria o seguinte trecho, recopilado e traduzido por
Pedro Pinto: "A alopécia é queda dos pelos da cabeça e algumas vezes de
supercílio, da barba e de outras partes..." "Assim a chamaram os
médicos como doença das raposas, por que são estas sujeitas a tal
depilação".[2]
A denominação
de alopecia areata,
dada a uma das formas de alopecia, é atribuída a Sauvages e data de 1763.[5]
A palavra alopecia, em português, deve ser
paroxítona (alopecía) ou proparoxítona (alopécia) ?
O sufixo -ia
tem sido motivo de constantes desacordos em terminologia médica.
Embora seja de
uso corrente entre os médicos a pronúncia alopecia,
há vozes discordantes entre os lexicógrafos que defendem a prosódia
proparoxítona, alopécia.
Adotam a forma
paroxítona os dicionários de Aulete, (1881) Nascentes (1961) Michaelis (1998),
Houaiss, (2001) e o Vocabulário Ortográfico da
Academia Brasileirade Letras.(1999)
Registram alopécia (proparoxítona) os léxicos de Domingos Vieira (1871),
Adolfo Coelho (1890) e Silveira Bueno. (1963) Este último autor assim justifica
a prosódia adotada: "A origem grega exige a acentuação paroxítona alopecía.
Mas o latim alopecia autoriza a acentuação proparoxítona". Aurélio
Ferreira (1999) consigna as duas formas, mencionando que a forma alopécia é a mais usada.
O'Reilly de
Sousa adverte que "a verdadeira prosódia é a do i breve, de acordo com o étimo. Entretanto, em virtude de uma
convenção, segundo a qual a bem da regularidade da língua, acompanhando a sua
própria índole e respeitando leis de analogia, recebem acento tônico os
derivados de raiz grega que significam moléstia ou defeito físico, ainda que o i originário seja breve (V. Ramiz
Galvão: Vocabulário Etimológico, Ortográfico e Prosódico das Palavras
Portuguesas derivadas da Língua Grega), temos a prosódia alopecia (com i longo)
consignada por Nascentes e Figueiredo".[6]
A uniformidade
prosódica sugerida pelo grande helenista, que foi Ramiz Galvão, para as
palavras terminadas com o sufixo grego -ia, não é compartilhada por outros
estudiosos da língua portuguesa, como Rebelo Gonçalves, que assim se expressou
sobre esta questão: "Se fôssemos pensar na regra exata, a regra seria
precisamente respeitar um princípio que se impõe, na nossa língua, a toda
reprodução de palavras gregas ou formação de palavras novas por meio de
elementos helênicos: seguir a acentuação exigida pela forma latina
intermediária, quer dizer, a acentuação de uma forma verdadeira ou apenas
suposta teoricamente, pois ao latim manda a filologia recorrer como base
prosódica dos nossos helenismos. Iríamos, porém, longe demais, se o fizéssemos
nessa categoria de palavras terminadas em ia".[7]
Torna-se
evidente que devemos respeitar a forma paroxítona em termos formados
diretamente do grego e que o uso consagrou, porém, na vigência de formas
paralelas, como no caso de alopecia,
devemos nos inclinar para a forma proparoxítona da prosódia latina,
considerando sobretudo que o termo nos veio através do latim.
Na Nomenclatura Dermatológica, de Francisco
Rabelo [8] encontra-se a forma alopécia. Apesar de todos estes argumentos, a forma
predominante na literatura médica brasileira é alopecia (paroxítona).
__________
1.
LITTRÉ,
E., ROBIN, Ch. Dictionnaire de médecine, de chirurgie, de pharmacie, de l’art
vetérinaire et des sciences qui s'y rapportent, 1873.
2.
PINTO,
P.A. Língua materna, 1934, p. 130-134.
3.
PLINIUS. Naturalis historia. The Loeb Classical
Library, 1979.
4.
SKINNER, H.A. The origin of medical terms,
1961, p. 18.
5.
MORTON,
L.T. A medical bibliography, 1983, p. 284.
6.
SOUSA,
M.O. Vocabulário etimológico, ortoépico
e remissivo, s/d, p. 23.
7.
GONÇALVES,
F. R. Linguagem médica. Rev. Ass. Paul.
Med. 10: 50-79, 1937.
8.
RABELLO,
F.E. Nomenclatura dermatológica. Rio de Janeiro, 1974, p. 24-26.
O sufixo -ase
é utilizado para designar as enzimas.
Tanto o sufixo
-ase como os sufixos -íase e -ose são sufixos verbais de origem grega, resultantes todos de um
primitivo sufixo -sis. "Dos verbos de tema em a com sufixo -sis
resulta –iasis (-íase), e dos
verbos de tema em o com o sufixo -sis, geralmente com alongamento
daquela vogal, formou-se -osis (ose)".[1]
Ex.: diástase, litíase, cifose.
O sufixo -ase é empregado "especialmente na
acepção de fermento solúvel (diástase), de onde se tomou diretamente".[1]
A palavra diástasis,
em grego, significa separação, e foi
utilizada por Kirchhoff, em 1814, para designar a substância encontrada no
extrato de cevada, responsável pelo desdobramento do amido em dextrina e
glicose. O mesmo termo estendeu-se a todo catalisador biológico de natureza
proteica.[2]
Com a
introdução em 1878, por Kuhne, do termo
enzyme para os fermentos solúveis, a Nomenclatura
Internacional de Química passou a utilizar-se deste novo termo para
designar, de maneira genérica, todos os biocatalisadores.[2]
A diástase, primitivamente descrita por
Kirchhoff, passou a chamar-se amilase,
indicando-se, com o novo nome, o substrato sobre o qual atua a enzima e
aproveitando-se do sufixo -ase da
denominação anterior.[3]
As demais
enzimas, descobertas posteriormente, receberam, de modo análogo, a denominação
do substrato, seguido da terminação -ase,
que passou a indicar enzima.
Diástase é palavra proparoxítona em
virtude da quantidade do sufixo -asis em grego e
É necessário lembrar que tais termos
inexistiam em grego e latim, tendo sido criados somente a partir do século XIX
nas línguas de cultura do Ocidente. Não há razão, portanto, para se lhes
aplicar o modelo proparoxítono de diástase.
Acresce notar que a tendência da língua
portuguesa é para a tonicidade da penúltima sílaba. A linguagem médica
consagrou como paroxítonos todos os nomes de enzimas e seria anacrônico
pretender o contrário.
O Vocabulário Ortográfico da Academia
Brasileira de Letras (1999) e o Michaelis
(1998) já registram as duas formas, enquanto a terceira edição do Aurélio (1999) já abandonou a forma
proparoxítona, o que sugere que a forma paroxítona irá prevalecer em
definitivo.
_________
1.
LOURO,
J.I. O grego aplicado à linguagem científica, 1940, p. 240.
2.
MANUILA, A., et al. Dictionnaire français de médecine et de biologie,
1970.
3.
GALVÃO,
B.F.R. Vocabulário etymologico, ortographico e prosodico das palavras
portuguesas derivadas da língua grega, 1909.
Ampola
provém do latim ampulla, primitivamente "pequena redoma onde se guardava
óleo para o banho". Também "vaso de perfume", "frasco
pequeno".[1] A ampulla se caracterizava por
apresentar a parte média do frasco bojuda e o colo longo e estreito.
A palavra
latina formou-se a partir do grego, como um diminutivo de amphora, que se
pronunciava ampora no latim vulgar.[2]
A ampola de
vidro como forma de veicular medicamento injetável foi inventada em 1886 por um
tcheco, A. F. Pel, e divulgada no ano seguinte por um farmacêutico francês de
nome Stanislas Limousin, que usou a denominação de ampoule em francês.[3]
Como termo
médico, no entanto, ampoule já era
empregado desde o século XIII com o sentido de bolha, para designar dilatações
sacciformes sob a pele, em alusão à semelhança com a ampulla romana.[4]
O termo foi
também introduzido em anatomia e sacramentado pela PNA (Parisiensia Nomina Anatomica) para nomear expansões de estruturas
tubulares como a ampola retal, ampola tubária, ampola de Vater, etc.
Paralelamente
à ampola, surgiu em nosso idioma a variante empola. Segundo Machado Filho, an e en tendem de
permutar-se muitas vezes. Assim, "anteado" ao lado de
"enteado", "antraz" a par de "entraz".[5]
Empola e o verbo empolar são de uso antigo em
português e já aparecem no dicionário de Moraes Silva (1813), que define empola como "bolha de ar ou
água, feita na pele".
Plácido
Barbosa considera empola
a forma clássica vernácula significando vesícula de serosidade formada na pele
ou acepções análogas. Após algumas citações, conclui: "Ampola é a forma
sinônima, erudita, e etimológica; mas o uso mais geral de empola para designar a vesícula
cutânea permite especializar o de ampola
para designar os pequenos recipientes de vidro destinados a guardar líquidos
esterilizados".[6]
Pedro Pinto
deixa a critério de cada um a opção entre ampola e empola, de vez que considera
ambos os termos sinônimos e equivalentes.[7]
Na
nomenclatura dermatológica atual das lesões elementares da pele, dá-se
preferência à bolha ou vesícula em lugar de empola.[8]
Na linguagem
comum o verbo empolar e
seus derivados são largamente utilizados, tanto em relação às bolhas cutâneas,
como no sentido de avolumar-se, criar protuberâncias ou elevações, tornando a
superfície irregular.
Em
sentido figurado, empolar tem ainda o sentido de tornar-se
pomposo, bombástico. Denomina-se estilo
empolado o estilo rebuscado, "cheio de palavras e pensamentos
comuns mal aplicados".[9]
Na linguagem médica, a tendência atual é de empregar-se ampola (com a) para os recipientes
de vidro contendo soluções injetáveis e empola (com e) para as vesículas cutâneas e acepções
correlatas.
_________
1.
SARAIVA,
F.R.S. Novíssimo Dicionario latino-português,
Livraria Garnier, 1993.
2.
MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico storico
dei termini medici, 1993.
3.
COWEN, DL, HELFAN WH. Pharmacy. An illustrated history,1988, p. 157.
4.
BLOCH,
O., VON WARTBURG, W. Dictionnaire étymologique de la langue française, 1986.
5.
MACHADO
FILHO, A.M. Coleção "Escrever Certo", vol. 3, 1941, p. 112.
6.
BARBOSA,
P. Dicionário de terminologia médica portuguesa, 1917.
7.
PINTO,
P. Dicionário de termos farmacêuticos., 1959, p.20-21.
8.
RABELLO,
F.E., FRAGA, S. Atlas de Dermatologia, 1970, p.3-12.
9. MORAES
SILVA, A. Grande dicionário da língua portuguesa, 10.ed.,1949.
ANDROGÊNIO, ANDRÓGENO
ESTROGÊNIO, ESTRÓGENO
Os termos acima foram introduzidos na linguagem médica na primeira metade do século XX para designar qualquer substância, natural ou sintética, dotada de ação hormonal, respectivamente sobre os caracteres sexuais masculinos e femininos.
O termo designativo do hormônio masculino, androgênio ou andrógeno formou-se a partir do grego anér, andrós, homem + gen, raiz do verbo gennáo, gerar, produzir.
Seria de esperar-se que o termo correspondente ao hormônio feminino se formasse de maneira análoga, a partir de gyné, gynaikós, mulher, de que resultaria ginecogênio ou ginecógeno. Tal não ocorreu, entretanto, e o termo criado proveio do latim oestrus (do grego oîstros), estro, com o sentido de cio ou excitação sexual.
O fato se deve a razões históricas. Marshell e Jolly, em 1906, prepararam um extrato de ovário, que se mostrou capaz de despertar o cio em cadelas, dotado, portanto, de ação estrogênica. Ao isolarem o hormônio folicular em 1926, Parkes e Ballerly chamaram-no de estrina, donde derivam os nomes químicos dados aos hormônios naturais: estrona, obtido por Butenandt em 1929; estriol, extraído da urina de gestantes por Marrian em 1930, e estradiol, preparado por Schwenk e Hillebrandt em 1933.[1][2]
Em inglês e alemão a raiz gen permanece inalterável (androgen, estrogen); em italiano e espanhol acrescenta-se a vogal o, variando a sílaba tônica (androgeno, adrógeno; estrogeno, estrógeno), e em francês, a raiz gen transforma-se em gène (androgène, estrogène).
Em português usam-se duas formas: uma idêntica ao espanhol (andrógeno, estrógeno) e outra formada com o acréscimo do sufixo -io (androgênio, estrogênio, no Brasil; androgénio, estrogénio, em Portugal).
Ambas as formas são corretas do ponto de vista linguístico e tanto se pode dizer androgênio e estrogênio como andrógeno.e estrógeno, Seria desejável, entretanto, a permanência de apenas uma delas na terminologia médica.
Os nossos léxicos não são uniformes em suas averbações. Deixando de lado os mais antigos e consultando apenas os mais modernos, encontramos as seguintes divergências:
O Michaelis (1998) registra androgênio, mas não estrogênio, e considera andrógeno como adjetivo e estrógeno como substantivo e adjetivo. No Aurélio século XXI, (1999) que consigna todas as formas, andrógeno é somente adjetivo e estrógeno somente substantivo.
Para Houaiss, andrógeno pode ser substantivo ou adjetivo e estrógeno apenas substantivo.[3] O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras, por sua vez, averba estrogênio, mas não androgênio; andrógeno aparece com a dupla função de substantivo e adjetivo, enquanto estrógeno é somente substantivo.[4]
É fato comum de linguagem que a mesma palavra possa ser ao mesmo tempo substantivo e adjetivo. O ideal seria, portanto, que os nossos lexicógrafos considerassem, de maneira uniforme, andrógeno e estrógeno, tanto como substantivo (equivalente a androgênio e estrogênio) quanto adjetivo (equivalente a androgênico e estrogênico).
Androgênio e estrogênio são substantivos aos quais correspondem os adjetivos androgênico e estrogênico. As formas androgênio
e estrogênio têm a seu favor a
similaridade com outros nomes científicos de formação mais antiga, como oxigênio, hidrogênio, nitrogênio, halogênio,
carbogênio etc.
A forma esdrúxula com a terminação -geno é utilizada em qualificativos como patógeno, mitógeno, reflexógeno etc. Adrógeno e estrógeno poderiam, assim, eventualmente, ser usados como adjetivos: hormônios andrógenos, hormônios estrógenos. Seria preferível, contudo, a meu ver, o uso alternativo de androgênicos e estrogênicos.
A opção definitiva deve caber, naturalmente, aos endocrinologistas e aos ginecologistas.
_________
1.
SKINNER, H.A. The origin of medical terms,
1961, p. 28.
2.
TATON,
R. (Ed.). Histoire générale des sciences, t. III, vol.2, 1964, p, 140.
3. HOUAISS,
A.VILLAR, M.S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2001.
4. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário
ortográfico da língua portuguesa, 1999.
ANEDÓTICO,
ANECDÓTICO
Na literatura
médica de língua inglesa, o adjetivo anecdotal
tem o sentido de "não publicado" ou, se publicado, "sem
comprovação científica", "sem verificação experimental."
Vejamos alguns
exemplos colhidos em publicações recentes:
"The clinical evidence in support of these claims
is anecdotal... [1]
"Treatment methodology is chosen based on
anecdotal experience...[2]
"Liver abnormalities seem a very
rare association in Turner's syndrome, only
reported in a few anecdotal
cases". [3]
"For many years anecdotal case reports have
suggested that pancreatic cancer aggregates in same families". [4]
"Anecdotal reports claim the vitamin E speeds
wound healing and improves the cosmetic outome of burns and other
wounds".[5]
"Anecdotal long term survival of patients with
unresectable liver metastases treated with systemic chemotherapy has been
reported".[6]
Em dicionários
especializados da língua inglesa, o significado de anecdotal como termo médico acha-se bem definido. Vejamos três deles:
Anecdotal. Based on casual observation rather than
systematic study or controlled scientific experimentation."[7]
"Anecdotal. [Gr. anekdotos not published] based on description of unmatched
individual cases rather than on controlled studies."[8]
Segen,
J.C. - The dictionary of modern
medicine
"Anecdotal. Unsubstantiated, as in anecdotal
patient response to unproven cancer therapy, or anecdotal cause-an-effect
relationship between a noxious environmental element and clinical
diseases" [9]
Anecdotal tem sido traduzido em português por anedótico. Seria uma tradução correta?
Tanto anecdotal em inglês, como anedótico em português provêm do francês
anecdote, que, por sua vez remonta ao
grego anékdota, plural neutro do adjetivo anékdotos, formado do prefixo an,
negação, e ékdotos, publicado. Etimologicamente, portanto, significa não
publicado, inédito; ékdotos, por seu turno, formou-se do prefixo ek,
para fora+ dotos, do verbo dídomi, dar, oferecer.[10][11]
Acompanhando-se
a evolução semântica da palavra anedota
em nosso idioma, verifica-se que, inicialmente, o seu significado era conforme
à sua etimologia. Assim, encontra-se no dicionário de Moraes, de
"Anecdóta,
s. f. Historia, ou successo, que estava escondido, não sabido, não publicado".
Assim também
no dicionário de Constâncio, de 1845:
"Anecdota,
s. f. (do Gr. an, privativo, e ékdotos, de ek, ex Lat.
e dídomi, dar, contar), narração de
successo não publicado ainda, successo ignorado, ainda não divulgado".
O sentido de
jocosidade, de burlesco, da palavra anedota, começa a aparecer a partir do
léxico de Domingos Vieira, de 1871, que registra uma segunda acepção, a de
"conto engraçado".
As duas acepções vão sobreviver, porém,
na linguagem falada e mesmo na escrita a nova acepção vai aos poucos eclipsando
a primeira. Cândido de Figueiredo, já na primeira edição de seu dicionário
(1899) define anecdota como "narração rápida de um fato jocoso;
particularidade divertida, histórica ou imaginária", não mencionando a
primitiva acepção.
Daí por
diante vai prevalecer para anedota o sentido de historia curta e divertida, de
facécia, de pilhéria.
Em dois dos
mais modernos léxicos da língua portuguesa, que são o Michaelis (1998) e o Aurélio século XXI (1999), encontram-se
as seguintes definições para anedota e
anedótico.
No Michaelis: "anedota sf (gr. anékdotos) 1. Relato
abreviado de uma particularidade histórica. 2. No uso mais comum, historieta de
efeito cômico; pilhéria, piada. A.
gráfica: cartum. "anedótico adj
(anedota + -ico2). Pertencente ou relativo a anedota. 2. Que
contém anedotas. 3. Fútil. 4. Grotesco."
No Aurélio: "anedota. [Do gr. anékdotos, 'inédito', pelo fr. anecdote.] S.f. 1. Relato sucinto de um
fato jocoso ou curioso. 2. Particularidade engraçada de figura histórica ou lendária.
3. P. ext. Piada (3).
"anedótico. [De anedota + -ico2.]
Adj. Relativo a, ou que encerra anedota".
Com a evolução
semântica que se operou em relação à palavra anedota, anedótico em português esvaziou-se de seu sentido primitivo, do
qual procede o significado de anecdotal na
terminologia médica da língua inglesa.
Ao traduzir anecdotal para o português devemos
transmitir a ideia de que se trata de um fato não documentado, sem
credibilidade do ponto de vista científico, e não de uma pilhéria ou de um relato
de efeito cômico, como sugere o adjetivo anedótico em português.
Seria possível
conferir ao adjetivo anedótico, como
termo médico, a mesma acepção de anecdotal em inglês?
Um primeiro
passo nessa direção, visando a restabelecer o primitivo significado da palavra,
seria a preservação integral das raízes gregas, mantendo-se na segunda sílaba o
som velar da consoante oclusiva c. -
anecdótico.
Temos
em português a palavra ecdótica, que
é a ciência e a técnica da edição crítica de textos e temos o adjetivo
correspondente ecdótico. [12] Nestes
exemplos, a consoante oclusiva c é
preservada na grafia e na pronúncia. A anteposição do prefixo de negação an ao adjetivo ecdótico converte este em seu antônimo anecdótico, forma que deve prevalecer já que o c não é mudo e, por isso, não deve ser suprimido.
Não se trata
aqui de escrever à moda antiga a palavra anedótico,
mas de restaurar o seu primitivo significado a partir de sua etimologia,
com a preservação da consoante oclusiva c,
que deve ser pronunciada, a exemplo do que ocorre com ectásico e anectásico.
Teríamos,
assim, anecdótico como um termo
médico equivalente a anecdotal em
inglês, diferente de anedótico na sua
acepção atual.
_________
1.
PRESCOTT, L.F. Paracetamol, alcool and the
liver. Brit. J. Clin. Pharmacol. 49: 291-301, 2000.
2.
VELMAHOS, G.C.et al. Operative
management of civilian rectal gunshot wounds: simpler is better. World J. Surg. 24: 114-118, 2000.
3.
FLOREANI, A. et al. Chronic cholestasis
associated with Turner's syndrome. Digestion
60: 587-589, 1999.
4.
HRUBAN, R.H.
Familial pancreatic cancer. Ann.
Oncol. 10 supl.4: 69-73, 1999.
5.
BAUMANN, L.S., SPENCER, J. The effects of
topical vitamin E on the cosmetic appearance of scars. Dermatol. Surg. 25:
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6.
MERIMSKY,O et al. Liver metastases from
extremity soft tissue sarcoma. Am. J.
Clin. Oncol. 22: 70-72, 1999.
7.
CHURCHILL'S MEDICAL DICTIONARY.
8. DORLAND'S ILLUSTRATED MEDICAL DICTIONARY,
1994.
9. SEGEN, J.C. The dictionary of modern
medicine., 1994.
10.
11. BAILLY, A. Dictionnaire grec-français, 1950.
12.
HOUAISS, A. Elementos de bibliologia, 1967, vol. 1, p. 215.
ANGIOPLASTIA,
ANGIOPLASTIZAR
Na dinâmica da
língua, é lícito criar-se um substantivo a partir de um verbo e, inversamente,
um verbo a partir do substantivo. Há casos em que é difícil precisar qual a
palavra primitiva, se o substantivo ou o verbo, tal como na história do ovo e
da galinha.
Não é o caso,
entretanto, de termos científicos de introdução mais recente na linguagem
médica, cuja origem pode ser facilmente rastreada. Um exemplo bem atual é o da
palavra angioplastia, termo formado
dos elementos gregos aggeîon, vaso + plásso, modelar + sufixo
-ia.
Significa, genericamente, recanalização de um vaso sanguíneo por meio
operatório ou técnica não cirúrgica.
Na moderna
cardiologia, o termo é usado para designar o tratamento da obstrução
coronariana por meio de um pequeno balão dilatador, que se introduz na artéria
durante o cateterismo cardíaco. O desenvolvimento e a importância do método
conferiram um relevo especial à palavra angioplastia
no léxico cardiológico, tornando inevitável a criação de um derivado verbal
para melhor atender às necessidades de comunicação e expressão.
Do mesmo modo
que a operação de ponte de safena fez nascer o verbo safenar, permitindo designar o paciente operado de safenado, assim também, por analogia, o
paciente submetido à angioplastia deveria ter o seu designativo correspondente.
Como ensinam
os gramáticos, os particípios verbais em português têm também função nominal.
Tanto podemos dizer "este paciente foi safenado", como "este é
um paciente safenado", ou "este paciente é um safenado". No
primeiro caso safenado tem função
verbal; no segundo e terceiro casos, tem função nominal (adjetivo e
substantivo, respectivamente).
"O
processo geral para formar verbos a partir de um nome, é dar apenas a esse nome
a flexão verbal. Ex.: muro - murar. Outro mecanismo é o emprego do
sufixo -izar. O sufixo -izar provém do grego -izein,
que deu origem, igualmente, aos sufixos -ear
e -ejar, como em sombrear e
velejar".[1]
No caso de angioplastia a dificuldade reside na
opção entre os sufixos -ar e -izar. A presença do sufixo -ia representa um complicador a mais. Se
analisarmos outros casos de palavras terminadas pelo sufixo -ia encontraremos três modalidades de
derivação verbal:
1.
Substituição do sufixo -ia pelo
sufixo verbal -ar, como nos termos
em que entra o elemento grafia, do
grego grápho, escrever. Ex.: radiografia > radiografar;
ortografia > ortografar; holografia > holografar.
2. Acréscimo
ao nome do sufixo -ar com fusão das
duas vogais "a" em uma única (crase). Ex.: autópsia >
autopsiar; anestesia > anestesiar; hipertrofia > hipertrofiar.
3.
Substituição do sufixo -ia pelo sufixo -izar. Ex.: embolia > embolizar; dicotomia >
dicotomizar; simpatia > simpatizar.
Como não há
exemplo na língua portuguesa de verbo derivado de substantivo terminado em plastia, para servir de paradigma, três
alternativas se apresentam: angioplastar,
angioplastiar, angioplastizar.
Tomando como
modelo a solução encontrada para outros procedimentos cirúrgicos como
embolectomia, gastrectomia, vasectomia, colostomia, etc., a forma mais
apropriada seria com o sufixo -izar
- angioplastizar, cujo particípio é angioplastizado. Do mesmo modo que nos
referimos a um gastrectomizado, vasectomizado ou colostomizado, diríamos angioplastizado.
Com a palavra
os cardiologistas.
__________
1. CÂMARA JR., J.M. História e estrutura da língua
portuguesa, 1979, p. 226.
Conforme
registram os dicionários latinos, há em latim três palavras muito semelhantes: anus (com
a primeira sílaba longa), com o sentido de círculo,
anel; anus (com a primeira sílaba breve), cujo sentido é de mulher velha, bruxa, feiticeira; e annus
(com dois n), que significa
o período de tempo equivalente a uma revolução da Terra em torno do Sol.[1][2]
De annus,
em latim (com dois n), derivam anné, em francês; anno, em italiano; año, em espanhol, e ano, em português.
Anulus é diminutivo de anus
(círculo); significa, portanto, pequeno
círculo ou anel, e deve ser
escrito com um único n. A grafia com
dois n é incorreta e parece ter
surgido, segundo Ernout et Meillet por uma falsa relação etimológica com annus.[3]
Annulus
(com dois n) seria diminutivo de annus,
inadmissível por se tratar de uma unidade de tempo fixa e irredutível.
A Terminologia Anatomica [4] designa de anulus fibrosus a parte fibrosa do disco intervertebral, que deve ser
traduzido por anel fibroso e não por anulus fibroso.
O emprego em latim de anus como termo anatômico, para
designar a parte terminal do reto, é bem antigo, e se encontra em várias
passagens dos livros de Celsus, que datam do século I d.C.[5]
A origem do
termo é duvidosa. Segundo Skinner o mesmo procede do sânscrito âs,
sentar.[6] A maioria dos lexicógrafos, entretanto, admite que o anus
foi assim chamado por sua forma circular, em função do esfíncter externo,
verdadeiro anel muscular. Do latim, anus
passou para as línguas modernas, conservando a mesma grafia em francês,
inglês e alemão. Em português acrescenta-se um acento circunflexo na primeira
vogal (ânus), enquanto em italiano e
espanhol houve mudança da terminação us para
o - ano.
_________
1.
QUICHERAT, L.,DAVELUY, A. Dictionnaire
latin-français. , 1876.
2.
SARAIVA,
F.R.S. Dicionario latino-português, 1993.
3.
ERNOUT,
A.,MEILLET, A. Dictionnaire étymologique de la langue latine. Histoire des
mots, 1979.
4.
FEDERATIVE COMMITTEE ON ANATOMICAL TERMINOLOGY.
Terminologia
Anatomica. Stuttgart, Georg Thieme Verlag, 1998, p.27.
5.
CELSUS. De Medicina. The Loeb Classical
Library, 1971, p.46, 280, 286.
6.. SKINNER, H.A. The origin of medical terms,
1961, p. 34.
O Dicionário de termos técnicos de medicina e
saúde, de Luís Rey, registra a palavra apatia como termo
psiquiátrico, com a seguinte definição: "Estado caracterizado pelo
desinteresse geral, pela indiferença ou insensibilidade aos acontecimentos;
falta de interesse ou de desejos".[1]
Apatia provém do grego clássico apatheia.
Páthos em grego, significa "tudo aquilo que afeta o corpo ou a
alma" e tanto quer dizer dor, sofrimento, doença, como o estado da alma
diante de circunstâncias exteriores capazes de produzir emoções agradáveis ou
desagradáveis, paixões. Assim, apatheia tanto pode significar
ausência de doença, de lesão orgânica, como ausência de paixão, de emoções.[2]
Galeno, no
século II d.C., empregou o termo apatheia no sentido somático,
referindo-se à ausência de lesão em uma parte do intestino.[3]
O termo apatheia
foi usado por Aristóteles (384-
Zenon era um
cipriota grego que em
Segundo o
estoicismo, o sofrimento decorre das reações despertadas no ser humano por
quatro classes de emoções: a dor, o medo, o desejo e o prazer. O ideal do
estoico é alcançar a apatheia, ou seja, a natural
aceitação dos acontecimentos, uma atitude passiva diante da dor e do prazer, a
abolição das reações emotivas, a ausência de paixões de qualquer natureza.[5]
Apatheia, no dizer de Aulo Gellio,
define o comportamento dos estoicos, "que nada desejam, de nada se
queixam, não se irritam e não se alegram". [6]
O estoicismo
teve seus continuadores em Sêneca e Marco Aurélio, que almejavam a libertação
do homem do sofrimento, das paixões e das emoções.[7]
Somente no
século XVII, segundo Dauzat, apatia adquiriu
a acepção de indolência.[8]
No
dicionário de medicina e ciências afins, de Littré e Robin, de 1873,
encontra-se a seguinte definição de apatia: "Estado de entorpecimento das
faculdades morais, no qual a pessoa se comporta como insensível à dor e ao
prazer e experimenta uma espécie de preguiça para movimentar-se."[9]
Parece óbvio
que o significado atual de apatia no vocabulário médico provém do
conceito filosófico estoicista da palavra, em que páthos expressa um estado
psíquico caracterizado por uma atitude de indiferença diante dos estímulos, e
não da versão organicista, tal como a empregou Galeno. Só assim podemos
compreender a aparente impropriedade semântica da palavra na terminologia
médica.
_________
1.
REY,
L. Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde, 1999.
2.
BAILLY, A. Dictionnaire grec-français, 1950.
3.
MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico storico
dei termini medici, 1993.
4.
DUNKLE, R. Philosophical Background of the
Hellenistic Age. Internet.
Disponível em http://ablemedia.com/ctcweb/netshots/hellphil.htm.
Acessado em 18/08/2002.
5.
RUSSO, M. Stoicism. Sophia on-line Philosophy
courses. Internet. Disponível em
http://www.molloy.edu/academic/philosophy/sophia/ancient_lit/happiness/stoicism2.htm.
Acessado em 18/08/2002.
6.
AULO GELLIO - Apud
MARCOVECCHIO, E. (2).
7.
BRUGGER,
W. Dicionário de filosofia (trad.),
1962.
8.
DAUZAT,
A. et al. Nouveau dictionnaire étymologique et historique, 1964.
9.
LITTRÉ,
E. & ROBIN, Ch. Dictionnaire de médecine, de chirurgie, de pharmacie, de
l’art vetérinaire et des sciences qui s'y rapportent, 1873.
ARTELHO
Artelho é palavra bem antiga na língua
portuguesa. Provém do latim articulus, diminutivo de artus,
com o sentido de junta, articulação. O sufixo vernáculo -elho é também diminutivo, como em folhelho, bedelho, leitelho.Desde
o século XVI há registro do emprego de artelho como termo anatômico para
designar a junta da perna com o pé. Ora se refere à própria articulação, ora, o
que é mais comum, às saliências ósseas formadas pela tíbia e perônio, que
correspondem ao tornozelo ou maléolo (externo e interno).
Nos léxicos
mais antigos da língua portuguesa vamos encontrar as seguintes definições para
artelho:
Moraes (1813): "cabeça
do osso que sai da extremidade da perna".
Constâncio (1845): "articulação da perna com o pé".
Eduardo de
Faria (1854): "parte do osso da perna que forma o tornozelo; junta por
onde o pé prende com a perna"
Domingos Vieira
(1871): "nó, junta ou articulação por onde o pé prende com a
perna."
Lacerda
(1874): "parte do osso da perna que forma o tornozelo, junta por onde o pé
prende com a perna."
Aulete (1881):
"parte saliente e arredondada da tíbia e perônio na sua articulação com o
pé; maléolo, tornozelo."
C. Figueiredo
(1899): "extremidade inferior, saliente e arredondada dos ossos da perna
na sua articulação com o pé."
Desde o final
do século XIX artelho vem sendo usado com uma nova acepção, de "dedo do
pé", o que se atribui à influência da literatura médica francesa. Em
francês, dedo do pé é orteuil, que
foi equivocadamente traduzido por artelho, considerado, com razão, galicismo. Orteuil em francês, antes arteuil, origina-se igualmente do latim articulus,
porém adquiriu significado diverso de artelho em português.
O uso de
artelho com o sentido de dedo do pé tem sido condenado por se tratar de um
galicismo desnecessário e inconveniente por sua ambiguidade.
Plácido
Barbosa adverte: "Quanto a se dar a artelho a significação de dedo do pé
isso é erro crasso em português; artelho nada tem de comum com o francês orteuil, nem pode ser traduzido dele,
apesar de sua aparência semelhante". [1]
Pedro Pinto é
da mesma opinião: "A palavra portuguesa artelho não corresponde à
francesa orteuil." "Nosso
artelho, da mesma etimologia de orteuil, significa
o maléolo, o tornozelo." [2]
Aloysio de
Castro condena artelho e sugere o uso
de pedartículo em seu lugar: "Em vez de artelho, termo comumente
usado, melhor fora dizer pedartículo,
como propôs o Dr. Alvaro de Barros na sua tese Contribuição ao estudo clínico dos reflexos cutâneos, (Rio de
Janeiro, 1904, p.8). Na verdade, minguando em nosso idioma vocábulo que
designe os dedos do pé (artelho é outra cousa, é tornozelo, é maléolo) até
certo ponto se justifica aquela creação, de articulus, articuli, e de pes,
pedis.(Aloysio de Castro). [3]
A difusão de
artelho com o sentido de "dedo do pé" ocorreu principalmente no
Brasil, provocando reação em Portugal.
"Porque
os franceses chamam de orteuils aos
dedos dos pés não vamos nós, portugueses, chamar-lhe artelhos, pois em bom
português artelho é sinônimo de maléolo e tornozelo". "Já assim não é
no Brasil, pois se Plácido Barbosa repudiou o termo nessa acepção, usa-o Renato
Locchi chamando músculo extensor longo do
grande artelho ao que nós denominamos longo
extensor do dedo grande do pé." (Soeiro) [4]
Em linguagem literária os léxicos citam abonações de clássicos portugueses,
desde João de Barros, Júlio Dantas, Manoel Bernardes, Camilo Castelo Branco e
Alexandre Herculano, que empregaram artelho somente como sinônimo de tornozelo.
Também entre os escritores clássicos brasileiros prevalece o mesmo
entendimento.
No livro Ubirajara, de José de Alencar, para só
citar um dos mais lídimos representantes da literatura brasileira, lemos o
seguinte trecho: "Os tupinambás
fizeram dessa goma contas para seus colares. Jurandir mostrou a pulseira que
lhe cingia o artelho, presente de um guerreiro daquela nação." [5]
Em que pese a
todas estas considerações, a nova acepção de artelho, apesar de tachada de
galicismo, vem ganhando terreno e firmando-se no vocabulário médico e na
linguagem comum. A tal ponto que a tradução da Nomina Anatomica para a língua portuguesa, publicada em 1977 sob a
coordenação do médico e eminente linguista Idel Becker, incorporou a
denominação de artelho como alternativa para dedo do pé. [6]
Alguns
dicionários modernos averbam separadamente as duas acepções, com entradas
independentes: artelho1 e artelho2, conforme se lê
Curiosamente,
a 3a. edição do Aurélio
(1999) registra artelho com remissão para pododáctilo e não faz referência à
acepção clássica de tornozelo. No verbete pododáctilo considera pedartículo
forma imprópria e artelho forma desusada de pododáctilo (!)
É óbvio que
nenhum dos dois termos sugeridos em substituição a artelho, tanto pedartículo
como pododáctilo se prestam a uso literário, ao passo que artelho chega a ser
poético e tem sido aproveitado pelos nossos vates, tanto na acepção de
tornozelo, como de dedo do pé. Exemplos:
Como
tornozelo:
Mostra o que ela não mostra de pudica
do colo abaixo e acima dos artelhos.
Raymundo Correa - Poesias.[1]
Como dedo do
pé:
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Cecília Meireles - Mulher ao espelho.[7]
O que me
parece mais acertado, para evitar confusão, é abandonar de vez artelho como
termo médico, nas duas acepções, usando-se maléolo ou tornozelo no sentido
tradicional e pododáctilo, ou simplesmente dedo do pé, para traduzir o latim digitus
pedis da Nomina Anatomica.
Para o primeiro pododáctilo (pododáctilo
I), ao qual tem sido atribuídos os nomes de grande
artelho, dedo grande do pé ou polegar do pé, a melhor denominação é, sem
dúvida, hálux, do latim hallux,
conforme a Terminologia
Anatômica. [8]
_________
1.
BARBOSA,
P. Dicionário de terminologia médica portuguesa, 1917.
2.
PINTO,
P.A. Estudinhos de etimologias, 1943, p. 138.
3.
CASTRO,
A. A propósito do termo pedartículo. Brasil-Medico 47:56, 1933.
4.
SOEIRO,
M.B.B. Terminologia anatómica portuguesa. Apud
Morais Silva, vol. 2, 1950, p.72.
5. . ALENCAR,
J. Obra completa, vol. II, Ubirajara, 1976, p. 1.162.
6.
COMISSÃO
LUSO-BRASILEIRA DE NOMENCLATURA MORFOLÓGICA. Nomenclatura anatômica da língua
portuguesa, 1977.
7.
MEIRELES,
C. - A mulher ao espelho. Obra poética, 1987, p. 272.
8. SOCIEDADE BRASILEIRA DE ANATOMIA.
Terminologia anatômica, 2001.
ARTRÓPODO, ARTRÓPODE
Artrópodo (ou artrópode) vem do grego arthrós,
articulação + pous, podós, pé.
Etimologicamente, portanto, significa "pés articulados".
Os artrópodos são o maior grupo de
animais existente no mundo, tendo sido descritas cerca de um milhão de
espécies, ou seja, mais de 3/4 de todas as espécies existentes no reino animal,
desde formas microscópicas do plâncton, até animais de grandes dimensões.
Incluem insetos, aracnídeos, crustáceos e outras formas semelhantes
caracterizadas por cobertura quitinosa e apêndices articulados.
Muitos artrópodos são de interesse
médico por seu papel de vetores na transmissão
de doenças infecciosas e parasitárias ao homem.
Na
classificação da Comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica (ICZN),
redigida em latim como toda nomenclatura científica, os artrópodos formam o Phyllum
Arthropoda, subdividido em níveis taxonômicos de classes, ordens,
famílias, gêneros e espécies.
Na literatura médica redigida em
português encontramos tanto a forma artrópodo(s)
como artrópode(s). Essa duplicidade
existe para todos os compostos formados com a raiz grega poús, podós, tais como ápodo, braquípodo, cefalópodo, hexápodo,
miriápodo, pseudópodo. Qual
seria a forma preferível?
Na nomenclatura científica muitos
termos procedem diretamente do grego, sem trânsito pelo latim, enquanto outros,
embora formados com raízes gregas, nos vieram através do latim.
Os léxicos da língua portuguesa, de
modo geral, abonam somente a forma artrópode(s) [1][2][3][4][5][6][7][8]. Os
dicionários de Silveira Bueno [9] e de José Pedro Machado [10] registram as
duas formas, porém com destaque para artrópode.
Ramiz Galvão nos esclarece porque na
língua portuguesa se deve usar artrópode e
não artrópodo. São suas as seguintes
palavras (com adaptação à ortografia atual).
"Tendo recebido este e outros
vocábulos congêneres pelo latim científico, e respeitando as regras da
analogia, não pode o português deixar de grafá-los com a desinência es, originada do acusativo
latino".[1]
Se o termo
procedesse diretamente do grego, não haveria dúvida de que deveria ser artrópodo.
"Essa dualidade de
origem", explica-nos Houaiss, "tem criado instabilidade com este
pospositivo [podó(s)] que, como se vê...pode
apresentar-se como -pode, -podo, -poda..;
É ponto pacífico, porém, que uma
padronização deste pospositivo deveria levar em conta o uso quantitativo dominante."
[6] Dá como exemplo de palavra com as três formas antípoda, que também pode ser antípode
e antípodo.
É possível que também tenha
contribuído para consolidar a forma artrópode
a grande influência exercida no passado em nosso idioma pelo francês (arthropode).
Apesar do posicionamento dos nossos
lexicógrafos, filiando os compostos da raiz grega podós ao latim, artrópodo tem sido empregado
paralelamente à artrópode na
literatura científica da área biológica. Nem mesmo as publicações especializadas
seguem uma padronização, ficando a critério de cada autor usar uma outra forma.
Consultando o site de busca Google, verificamos que, em português, a forma artrópode no singular ocorre na
proporção de 23:1 em relação a artrópodo,
enquanto no plural essa proporção cai para 4:1. Já em espanhol predomina de
maneira absoluta a forma artrópodo(s),
como se o termo proviesse diretamente do grego, sendo excepcional a forma artrópode(s). A proporção é de 1:800 no
singular e 1:1.150 no plural.
Nos Descritores em Ciências da Saúde
da BIREME consta somente a palavra no plural, sendo artrópodes para o português, artrópodos
para o espanhol e arthropods para
o inglês.
Se formos seguir o conselho de
Houaiss de nos basearmos no uso quantitativo dominante, a forma artrópode(s) deve ser adotada como
padrão em português.
__________
1. GALVÃO, B.F. R.
Vocabulário etymologico, ortographico e prosodico das palavras portuguesas
derivadas da língua grega, 1909.
2. PINTO, P.A. Dicionário de termos médicos, 1962.
3. AULETE, F.J.C. , GARCIA, H. Dicionário contemporâneo da língua portuguesa,
1980.
4. MICHAELIS. Moderno dicionário da língua portuguesa, 1998.
5. FERREIRA, A.B.H. Novo dicionário da língua portuguesa, 1999.
6. HOUAISS, A., VILLAR, M.S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2001.
7. ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA. Dicionário da língua portuguesa
contemporânea, 2001.
8. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa,
1999.
9. BUENO, F.S. Dicionário escolar
da língua portuguesa, 1980.
10. MACHADO, J.P. Dicionário etimológico da língua portuguesa, 1977.
11. INTERNET. Site de busca Google. Consulta em 10/10/2006.
12. BIREME. Disponível em http://decs.bvs.br/
Acessado em 10/10/2006.
ATRAVÉS DE
Através de é locução prepositiva formada do advérbio através e da preposição de. Conforme registram os léxicos da
língua portuguesa através de
significa: "de um lado para outro lado", "de ponta a
ponta", "ao correr de", "por entre", "no decurso
de". Expressa, portanto, a ideia de movimento, de passagem, de
transposição, de deslocamento no espaço ou transcurso no tempo, seja
concretamente, seja sob a forma de metáfora.
Não é correto
empregar através sem a preposição de. Através as matas, através o vidro,
através os anos, são construções próprias da língua francesa, portanto
galicismos. Através deve sempre
acompanhar-se da preposição de; assim, nos exemplos acima, as formas
corretas são: através das matas, através do vidro, através
dos anos [1][2];
A locução através de vem sendo usada abusivamente
em textos médicos, nem sempre de forma adequada, em substituição a outras
preposições e locuções prepositivas mais apropriadas.
São
corretíssimas frases como: "O sangue flui através das veias"; "os leucócitos migram através da parede dos capilares"; "a absorção
intestinal se processa através das vilosidades";
"a imagem obtida por ecografia através
dos tecidos"; "a experiência acumulada através dos anos"; "muitos termos anatômicos procedem do
grego através do latim".
O mesmo já não
se pode dizer de frases como estas: "o intestino é preso à parede através do mesentério"; "o
diagnóstico pode ser feito através da biópsia";
"o tratamento é feito através do uso
de antibióticos"; "através
destes achados pode-se concluir...", "através de testes sorológicos demonstrou-se a presença de
anticorpos".
A redação
alternativa adequada seria: "o intestino é preso à parede pelo mesentério"; "o
diagnóstico pode ser feito pela biópsia";
"o tratamento é feito com o uso
de antibióticos"; "destes
achados pode-se concluir"; "mediante
testes sorológicos demonstrou-se a presença de anticorpos".
Mendes de
Almeida condena acrimoniosamente tanto o galicismo através o, como o uso da locução através de no agente da passiva: "Constitui horripilante
galicismo a omissão da preposição. Deve-se dizer através do rádio, jamais
através o rádio". "Não menos horripilante é o emprego de através de no agente da passiva". E
conclui: "Vezes há em que a simples preposição por ou a preposição de expressam
suficiente e completamente a ideia sem o pelintra através de".[1]
_________
1. ALMEIDA, N. M. Dicionário de questões vernáculas,
1981.
2. BARRETO. M. Novos estudos da língua portuguesa, 1980, p. 483
AUTÓPSIA, AUTOPSIA. NECRÓPSIA, NECROPSIA
O exame
cadavérico com fins médico-legais, ou visando ao estudo anatomopatológico,
observa o Prof. Idel Becker, sempre foi chamado de autópsia. "Até alguém, de boa fé, tachá-la de forma
"errada" (prosodicamente) e propugnar a pronúncia "certa":
autopsia (ía). Ao mesmo tempo, outro autor lembrou-se de impugnar a forma
autópsia do ponto de vista etimológico. As divergências foram-se avolumando. E
o resultado é que hoje temos, pelo menos, 9 formas em conflito: autópsia, autopsia,
autopse, necrópsia, necropsia, necropse, autoscópia, autoscopia,
necroscopia".[1] Deixando de lado as formas autoscópia e autoscopia, pouco
usadas, ainda restam sete formas concorrentes.
O termo autopsía já existia em grego (formado de
auto,
próprio + opsis, ação de ver +
sufixo -ia), com o sentido de "ver com os próprios olhos".[2]
Galeno
empregou o termo no sentido de inspeção pessoal para aquisição de conhecimentos
de anatomia.[3]
Segundo Pedro
Pinto, no sentido de exame cadavérico, o vocábulo foi primeiramente empregado
por Alemanus, que entendia que o médico legista, ao examinar o cadáver,
observava-se a si mesmo.[4]
Com o
significado atual de investigação da causa mortis seu uso data do início do século XIX.[2] O dicionário de
Moraes, de 1813, não registra a palavra autópsia,
a qual teria entrado para a língua portuguesa por intermédio do francês.
Segundo J. P.
Machado, o primeiro documento em língua portuguesa com a palavra autópsia data
de 1847; é de autor anônimo e refere-se à "autópsia de partidos políticos...".[5]
A divergência
de natureza prosódica reside no sufixo -ia,
que pode provir diretamente do grego ou através do latim. Na primeira hipótese
a vogal i é tônica: na segunda, é
átona. Muitas palavras em português seguem a prosódia grega, enquanto outras
seguem a prosódia latina.
Embora o uso
tenha consagrado a forma proparoxítona, alguns léxicos indicam a forma
paroxítona, fazendo recair o acento na letra i, conforme o étimo grego. Nascentes observa que "a acentuação
no i, aceita por Constâncio, Faria, Roquete, Lacerda, Aulete e Ramiz,
não é popular".[6] Outros dicionários registram as duas formas como
variantes prosódicas possíveis.
O Vocabulário Ortográfico da Academia
Brasileira de Letras registra autopse e
autópsia, deixando autopsia (ía) para expressar a terceira
pessoa do indicativo do verbo autopsiar.[7]
Autopse, em lugar de autópsia (por analogia com sinopse),
tornou-se a forma preferida de autores portugueses, tendo sido adotada no
Brasil por Plácido Barbosa, Pedro Pinto e Afrânio Peixoto.
As formas necropsia e necroscopia foram propostas em substituição à autopsia por serem etimologicamente mais apropriadas. Com base no
dicionário de Moraes, Houaiss estabelece a datação histórica de 1858 para necropsia e necroscopia.[8]
O Shorter Oxforf English Dictionary indica
a data de 1856 para a entrada do termo necropsy
na língua inglesa.[9] Em francês ambos os termos estão averbados no Dictionnaire de Médecine, de Littré e
Robin, de 1873 [10] e, em português, no Dicionário
da Língua Portuguesa", de Domingos Vieira (1871).
A forma necropse e a divergência prosódica entre
necrópsia e necropsia decorrem, mutatis mutandis, das mesmas razões apontadas para autópsia. Existe,
contudo, em relação à necropsia menor
tolerância dos lexicógrafos para com a forma proparoxítona, talvez por se
tratar de criação mais recente.
A classe médica brasileira, nos últimos 40 anos, vem usando
indistintamente autópsia e necrópsia na sua forma proparoxítona,
sendo raro o emprego de autopse, necropse
e necropsia.
Parece claro
que, se optarmos por autópsia como variante prosódica correta, por uma questão
de coerência também devemos aceitar necrópsia
em lugar de necropsia (ía).
Autópsia e necrópsia são,
pois, as duas formas prevalecentes, sendo impossível, no momento, dizer qual
delas irá predominar no futuro.
_________
1.
BECKER,
I. Nomenclatura biomédica no idioma português do Brasil, 1968, p. 69-70.
2.
SKINNER, H.A. The origin of medical terms,
1961, p. 54.
3.
LIDDELL, H.G., SCOTT, R. A greek-english
lexicon, 1983.
4.
PINTO,
P.A. Vocábulos e frases, 1926, p. 10.
5.
MACHADO,
J.P. Dicionário etimológico da língua portuguesa, 1977.
6.
NASCENTES,
A. Dicionário etimológico da língua portuguesa, 1932.
7.
ACADEMIA
BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 1999.
8.
HOUAISS,
A., VILLAR M.S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2001.
9.
OXFORD
ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 1978.
10. LITTRÉ, E., ROBIN, Ch. Dictionnaire de
médecine, de chirurgie, de pharmacie...1873.
O baço é
designado nas diversas línguas por termos oriundos de mais de uma raiz
etimológica. A palavra original grega usada por Hipócrates para nomear o baço é
splén,
da qual derivam todos os termos médicos relacionados com este órgão, tais como esplênico, esplenite, esplenectomia,
esplenomegalia etc.
Em latim o
baço era designado por lien, conforme se encontra nos
livros de Celsus.[1] Skinner observa com muita propriedade que lien
é quase a mesma palavra grega, com perda das duas consoantes iniciais.[2] De lien
deriva, em português, o adjetivo lienal,
com o mesmo sentido de esplênico.
Em alemão o
baço é denominado milz e, em
italiano, milza. Segundo Guttmann, milz provém do alto-alemão milde que significa mole, macio,
esponjoso, atributos característicos do órgão.[3]
Em inglês o
baço recebe dois nomes: o primeiro, pouco usado, milt (primitivamente milte);
o segundo, spleen, de uso
generalizado, procede do grego através do francês antigo splen, forma arcaica igualmente encontrada na língua inglesa, até
sua ulterior evolução para spleen.[4]
Na língua
francesa o baço é chamado de rate,
que também significa fêmea do rato. Segundo Dauzat, rate, víscera, origina-se do neerlandês râte, favo de mel.[5]
Em espanhol e português temos, respectivamente, bazo e baço, de origem
controvertida. Três possíveis étimos são admitidos:
1. Corominas
ensina que bazo, nome de víscera,
provém de bazo, adjetivo, cujo significado é "moreno tirado a
amarillo".[6] Em seu apoio, Carolina de Michaelis identifica baço no Cancioneiro da Ajuda, com o
sentido de "moreno escuro".[7]
2. Gonçalves
Viana deriva baço do latim opacium, comparativo de opacum,
pela queda da vogal inicial e abrandamento de p em b.[8]
3. José Pedro
Machado, citando Piel (Miscelania de
etimologia portuguesa e galega),
considera baço vocábulo erudito, oriundo do grego hepátion, através do
latim.[9]
Nascentes,
Na história da
medicina o baço sempre constituiu um desafio à curiosidade dos investigadores
que buscavam compreender a sua função no organismo. A teoria dos humores da
medicina hipocrática, que orientou o pensamento médico durante mais de vinte
séculos, atribuía-lhe a função de produzir bile negra, um dos quatro humores do
corpo, de cujo equilíbrio dependeria a saúde. O excesso de bile negra seria
responsável pelo "mau humor" das pessoas.
Em alemão, milzsucht, literalmente
"enfermidade do baço", tem o mesmo sentido de hipocondria. Em inglês,
spleen conservou várias acepções
decorrentes desse conceito, tais como tristeza, melancolia, tédio,
irritabilidade, impaciência, impetuosidade, temperamento irascível, rabugento
etc.
Do inglês, spleen passou por empréstimo para outras
línguas e se encontra registrado em alguns léxicos da língua portuguesa com o
sentido de tédio, hipocondria, melancolia.
Os próprios
termos hipocondria e melancolia, revelam o seu vínculo
etimológico com o baço (Do grego hypó, abaixo de + khóndros,
cartilagem, e melán, negro + kholé, bile).
Em linguagem
literária encontram-se os adjetivos splénico
e spleenático, adaptados do inglês e inteiramente dispensáveis na língua
portuguesa.
_________
1.
CELSUS, A.C. - De Medicina. The Loeb Classical Library, 1971.
2.
SKINNER, H.A. - The origin of medical terms,
1961, p. 381.
3.
GUTTMANN,
W. - Medizinische Terminologie, 1911.
4.
OXFORD
ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 1978.
5.
DAUZAT,
A. et al.- Nouveau dictionnaire étymologique et historique, 1964.
6.
COROMINAS, J. - Breve
diccionario etimológico de la lengua castellana, 1980.
7.
NASCENTES,
A. - Dicionário etimológico da língua portuguesa. 1932.
8.. VIANA,
A.R.G. - Apostilas aos dicionários portugueses, 1906, p.173.
9.
MACHADO,
J.P. - Dicionário etimológico da língua portuguesa, 1977.
10. NASCENTES, A. - Dicionario etimológico
resumido. Rio de Janeiro, INL, 1966.
Ambos os termos têm o mesmo significado,
sendo usados em estatística para expressar, respectivamente em inglês e
português, o erro sistemático ou tendenciosidade [1].
Não
se justifica, portanto, tomar de empréstimo ao inglês o termo bias, quando temos em português o seu
equivalente, que é viés. Contudo,
embora pouco frequente, o fato tem ocorrido na literatura médica brasileira, na
proporção de 20 artigos que usaram corretamente viés, para cada artigo que utilizou bias, ora com a palavra entre aspas para indicar sua procedência
estrangeira, ora sem aspas, aportuguesada.
Vamos
citar alguns exemplos colhidos nos resumos de artigos indexados pela BIREME,
com menção à revista, volume, página inicial do artigo e ano.[2]
1. “A hipótese de
ausência de bias no diagnóstico psiquiátrico foi testada usando-se uma amostra
populacional de 385 adultos.”
J.bras.Psiquiatr. 33:159, 1984
2. “Ressalta
alguns dos mecanismos utilizados em diferentes momentos da investigação no
sentido de minimizar a possibilidade do aparecimento desses tipos de bias...”
3. “Existe a possibilidade de causalidade
reversa e os estudos que avaliam os
efeitos do desemprego no estado de saúde podem ter um “bias” dos efeitos
da saúde no emprego.”
4. “Os críticos
referiam as fragilidades do método e a susceptibilidade aos bias.
5. “Estudos
analíticos que minimizem bias da confusão são necessários para aferir o grau de
interferência do uso de antiretrovirais...”
A utilização de bias em lugar de viés menos
ainda se justifica se considerarmos que ambos os termos têm uma origem comum,
procedendo do francês biais.
A etimologia de biais em francês é incerta, admitindo-se como possíveis as
seguintes hipóteses:
1. Alteração do
latim obliquos. [3][4]
2. Do latim bifax
ou bifacem (duas faces) [5][6]
3. Do grego epikarsios,
oblíquo. [7][8]
4. Do latim biaxius
(dois eixos) [9]
Do francês biais
originou-se bias em inglês por supressão
da vogal da última
sílaba.
Para entender a
transformação de biais em viés, em português, devemos nos lembrar
que em Portugal as consoantes b e v têm som muito semelhante e que o
ditongo ai em francês tem o som de e.
O termo viés, com o sentido
de direção oblíqua, é bem antigo na língua portuguesa, datando do século XV
[10]. Escrevia-se inicialmente vyees,
passando a viez (com a letra z),
ou vieis (com ou sem acento na
última sílaba), conforme se encontra nos léxicos do século XIX (Moraes, 1813;
Constâncio, 1845; Faria, 1856; Lacerda, 1874, Vieira, 1874, Aulete, 188l; C.
Figueiredo, 1899) e, finalmente à forma gráfica atual de viés. O seu uso em estatística é recente, datando do século XX.
Em conclusão, só devemos
usar bias em textos redigidos em
inglês, e viés em textos redigidos em
português.
_________
1. REY, L.- Dicionário de termos técnicos de medicina
e saúde, 1999.
2.
BIREME – Internet. Disponível em 13/01/2004 em http://www.bireme.br/
3. CONSTANCIO, F.S. - Novo
dicionário crítico e etimológico da língua portuguesa, 1845.
4. LACERDA, J.M.A.A.C.-
Dicionário enciclopédico ou Novo dicionário da língua portuguesa,
1874.
5. AULETE, F.J.C. –
Dicionario contemporaneo da língua portuguesa. Lisboa, 1881.
6. HATZFELD, A., DARMESTETER, A., THOMAS, M.A. –
Dictionnaire général de la langue
française, s/d
7. DAUZAT, A., DUBOIS, J.,
MITTERRAND, H. - Nouveau dictionnaire étymologique et historique,
1994.
8. BLOCH, O, VON WARTBURG,
W. - Dictionnaire étymologique de la langue française, 1986.
9. TRÉSOR DE
10. HOUAISS, A., VILLAR, M.S; - Dicionário Houaiss da
língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva,
2001.
BIOTIPO, BIÓTIPO
j32
A palavra biotype foi cunhada no início do século
XX pelo geneticista e botânico dinamarquês W. L. Johannsen, o mesmo que
introduziu o termo gene em
biologia.[1]
Escrita em
inglês e francês com y, passou para o
português com a grafia biotypo,
posteriormente modificada para biotipo,
em virtude da reforma ortográfica de 1943.
A questão que
suscita dúvida diz respeito ao acento tônico. Proparoxítona ou paroxítona? Biótipo
ou biotipo?
O termo tem
sido empregado em mais de uma acepção em biologia, genética e medicina clínica.
Interessa-nos particularmente o seu uso em clínica.
A ideia de
classificar os indivíduos em tipos conforme suas características morfológicas
corporais data de Hipócrates e sempre se procurou correlacionar o tipo
constitucional com uma certa predisposição para determinadas doenças. Esta
doutrina teve grande aceitação na primeira metade do século XX, dando origem a
uma nova ciência - a biotipologia. Seus maiores representantes foram
Viola, Pende, Walter Mills, Sheldon e, no Brasil, Berardinelli, autor do livro Tratado de biotipologia e patologia
constitucional.[2]
Todas as
classificações propostas utilizaram o termo biotipo. Na classificação de Viola
são usadas ainda as denominações de longitipo,
normotipo e braquitipo (que correspondem a longilíneo,
mediolíneo e brevilíneo da classificação de Pende, enquanto Sheldon introduziu o
termo somatotipo.
Durante anos
seguidos, nas escolas médicas, nas lições dos mestres, nos livros didáticos e
nos trabalhos publicados, biotipo sempre
foi pronunciado e escrito como palavra paroxítona.
Insistem,
entretanto, os puristas da língua em chamar a atenção dos médicos para o erro
prosódico e dão a palavra como proparoxítona - biótipo.
Pedro Pinto,
Almeida,
O Vocabulário Ortográfico da Academia
Brasileira de Letras (1999) registra as duas formas: biótipo e biotipo.
Dos
dicionários mais modernos, o Michaelis (1998)
averba somente biótipo; o Houaiss
(2001) consigna as duas formas, com preferência para biótipo, e o Aurélio
(1999), mesmo optando por biótipo assinala
que "a pronúncia corrente no Brasil é biotipo".
O Prof. Idel
Becker, em seu livro Nomenclatura
Biomédica no Idioma Português do
Brasil ressalta a supremacia do uso sobre a norma e adverte que "os
fenômenos linguísticos não obedecem a leis rigorosas imutáveis, como os
fenômenos físicos e químicos".[3]
Assim sendo,
embora sabendo que a pronúncia correta deveria ser biótipo, a forma biotipo foi legitimada pelo uso.
_________
1.
MORTON,
L.T. - A medical bibliography , 1983, p. 32
2.
BERARDINELLI,
W. - Tratado de biotipologia e patologia constitucional, 1942.
3.
BECKER,
I. - Nomenclatura biomédica no idioma português do Brasil, 1968.
A
palavra bisturi procede do francês bistouri, primitivamente bistori. Sua origem é incerta; todavia,
admite-se que derive do latim Pistorium
[1] ou Pistoria [2], antigo nome de
Pistoia, cidade do norte da Itália, a mesma onde se encontra o cemitério dos
soldados brasileiros mortos na segunda guerra mundial.
Em
Pistoia fabricavam-se excelentes facas e punhais, utilizados como armas e
instrumentos de corte, que se tornaram conhecidos em latim por pistoriensis
[3] e em italiano por pistorino e
pistolese.
A
substantivação desses adjetivos explica as formas adaptadas ao francês de bistorie e pistolet. "As duas palavras são certamente idênticas, porém a
causa da substituição de p por b, que deve ser buscada na influência de uma outra palavra,
permanece obscura".[4]
Ambroise
Paré (1506-1590) foi o primeiro a empregar o bisturi como instrumento cirúrgico
e em seus trabalhos encontram-se indiferentemente as duas formas: bistouri e pistolet. O instrumento foi aperfeiçoado para uso cirúrgico,
prevalecendo o primeiro nome, que se difundiu a outros idiomas: inglês, bistoury; espanhol; bisturi; português, bisturi.
Em italiano coexistem as formas bistori,
bistorino e bisturi, com
preferência para esta última.[5] Em português também já se empregou bistori, como se lê nos dicionários de
Moraes (1813), Vieira (1871) e Aulete. (1881)
Escalpelo origina-se do latim scalpellum,
diminutivo de scalprum, que pode significar qualquer instrumento cortante.
Celsus empregou tanto scalpellum como scalprum com o sentido de
bisturi.[6]
Escalpelo é termo pouco empregado
atualmente em linguagem médica e, assim mesmo, de uso restrito às dissecções
anatômicas. De escalpelo deriva o verbo escalpelar,
com o sentido de dissecar.
No
século XVI, quando viveu Ambroise Paré, a língua oficial erudita utilizada nas
publicações médicas e científicas era o latim. Como Paré não soubesse latim, o
que lhe valeu o menosprezo de seus contemporâneos, escreveu todos os seus
trabalhos
__________
1.
SARAIVA,
F.R.S. - Dicionario latino-português, 1993.
2.
COROMINAS, J. - Breve
diccionario etimológico de la lengua castellana, 1980.
3.
SEGATORI,
L. - Dizionario medico, 1954.
4.
BLOCH,
O.,VON WARTBURG, W. - Dictionnaire étymologique de la langue française, 1986.
5.
SPINELLI,
V., CASASANTA, M. - Dizionario completo italiano-portughese (brasileiro). 1985.
6. QUICHERAT, L.,DAVELUY, A.: Dictionnaire
latin-français, 1876.
BORDO,
BORDA, REBORDO, REBORDA
Segundo a
maioria dos léxicos, tanto bordo como
borda são de origem germânica. O
termo primitivo poderia ter sido baurd
ou bort; em alemão atual bord, tal como em francês.
O vocábulo
parece ter sido utilizado inicialmente em Marinha para designar a madeira com a
qual se construía o costado dos navios, madeira esta retirada de uma árvore da
família das aceráceas, denominada bordo(ô),
muito usada para esse fim.
Do ponto de vista semântico o termo evoluiu para uma abrangência maior,
passando a significar o próprio costado do navio (navio de alto bordo), o
interior do navio (estar a bordo) e o rumo da navegação.
Paralelamente
ao seu emprego em Náutica, o termo passou a designar o limite ou extremidade de
uma superfície ou objeto, adquirindo o sentido de margem, beira, orla. Alguns
léxicos conferem ainda um significado adicional a bordo - o de disposição, ânimo, intenção, propósito.[1][2]
De bordo
derivam o verbo abordar e seus cognatos, como abordagem e abordável.
O francês bord e o espanhol borde mantiveram apenas um gênero (masculino) para todas as
acepções. Em português o vocábulo desdobrou-se em dois: bordo e borda.
Em Náutica firmou-se o uso do masculino - bordo.
No sentido mais amplo de margem, beira, orla, entretanto, têm sido usados as
duas formas.
Em linguagem
médica tanto se usa bordo, como borda, para designar elementos
anatômicos. Vieira Romeiro, autor de um clássico tratado de Semiologia Médica,
empregava borda: "... procura-se
a vesícula no ângulo formado pela união da borda externa do músculo grande reto
com a borda costal direita".[3] Já Arnaldo Marques preferia bordo: "A
mão sentirá com facilidade o seu bordo, cortante e duro".[4]
A Nomenclatura Anatômica da Língua Portuguesa, aprovada pelo I Congresso da
Sociedade Luso-Brasileira de Anatomia adotou bordo para traduzir o latim margo: bordo medial do úmero, bordo interósseo do rádio, bordo inferior do
fígado.[5]
A Sociedade
Brasileira de Anatomia, no entanto, na versão para a língua portuguesa da Terminologia Anatomica, publicada em
latim em 1998, preferiu traduzir margo por margem.[6] Os dicionários de latim-português aceitam tanto bordo
como margem como tradução correta do latim margo. [7][8]
Pelo menos no
que diz respeito à linguagem de uso corrente em clínica médica, dificilmente o
médico irá se referir à margem do fígado, em lugar de bordo ou borda do fígado.
Borda tem merecido a preferência dos médicos brasileiros
em relação a bordo, na proporção de
3:1, conforme se verifica da literatura indexada pela BIREME nos últimos 20
anos.
Rebordo é palavra encontrada em apenas alguns poucos
dicionários, significando "borda revirada para fora". Somente
Silveira Bueno (1963) registra o termo como sinônimo de borda.
Curiosamente, reborda não aparece em nenhum léxico,
nem mesmo no Vocabulário Ortográfico da
Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras (1999). Apesar disso, reborda é termo de longa data usado em
medicina, do qual existe equivalente em espanhol (reborde). Vale citar que o Dicionário
Terminológico de Ciencias Médicas de Cardenal, em espanhol, no verbete reborde, indica o correspondente em
português como sendo reborda.[9]
Rebordo e reborda
são compostos nominais formados com o prefixo re-
+ bordo(a). O prefixo
latino re- tem significados
diversos na formação das palavras, podendo indicar repetição, aumento,
reciprocidade, ação contrária, negação, ou servir para dar maior força à
palavra a que se liga como no caso de rebordo
(a), em que o prefixo não modifica o
sentido da palavra bordo (a).[10]
Encontramos em
escritos médicos o emprego de rebordo
com o mesmo sentido de bordo e, mais
raramente, de reborda, em
substituição à borda.
Torna-se
difícil tomar partido nesta questão. Embora a melhor opção seja bordo, como tradução do latim margo,
a tendência atual na linguagem médica é de preservar a forma borda.
_________
1.
FERREIRA,
A.B.H. - Novo dicionário da língua portuguesa, 1999.
2.
MICHAELIS
- Moderno dicionário da língua portuguesa, 1998.
3.
ROMEIRO,
V. - Semiologia médica, 1943 p. 207.
4.
MARQUES,
A. - Manual de semiologia. Liv. Atheneu, 1958, p. 348
5.
COMISSÃO
LUSO-BRASILEIRA DE NOMENCLATURA MORFOLÓGICA. Nomenclatura anatômica da língua
portuguesa, 1977, p. 26, 59.
6.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE ANATOMIA. Terminologia anatômica, 2001.
7.
SARAIVA, F.R.S. - Dicionario latino-português, 1993.
8.
TORRINHA, F. - Dicionário latino-português, 1942.
9.
CARDENAL,
L.: Diccionario terminológico de ciencias médicas, 1954.
10. GOES, C. -
Dicionário de afixos e desinências, 1937.
Em laudos de
exames radiológicos ou ultrassonográficos emprega-se com frequência o adjetivo bosselado para descrever a presença, em uma superfície, de saliências ou
protuberâncias, denominadas bossas.
O termo ora vem escrito com ss, ora
com c (bosselado ou
bocelado).
Qual seria a
forma correta?
Segundo a
maioria dos léxicos, bosselado
(com ss) é a tradução vernácula do
francês bosselé, e bossa equivale ao francês bosse.
Há ainda, em francês, bosselure, que
corresponde, em português, a bosseladura,
com o significado de "superfície deformada por bossas".
Bosse, em francês, tem pelo menos cinco acepções: [1]
1.Tumefação devida a uma
pancada ou traumatismo em região óssea (ex.: galo na cabeça).
2. Cifose, gibosidade.
3. Saliência arredondada em
um osso plano.
4. Corcova de animais como o
camelo e o dromedário.
5. Toda elevação ou
saliência arredondada sobre uma superfície plana (sentido genérico).
Segundo o Aurélio, bossa, em português, expressa ainda aptidão, queda, pendor,
vocação, e, no Brasil, adquiriu a acepção de "atributo ou qualidade
peculiar a pessoa ou coisa, que faz que elas agradem, chamem a atenção, se
distingam de uma ou das outras." [2]
Em Obstetrícia
denomina-se bossa a uma infiltração edematosa,
serossanguínea, produzida no feto pelo traumatismo do parto, localizada quase
sempre no couro cabeludo em virtude da maior incidência da apresentação
cefálica.[3]
Bossa
(com ss) não deve confundir-se com boça (com ç), termo de náutica que designa genericamente cabos de corda ou
correntes destinados a prender objetos a bordo ou à amarração de embarcações.
O adjetivo boçal, por sua vez, nada tem a ver
com boça e, menos ainda,
com bossa. Boçal, que significa estúpido, rude, tem seu étimo no latim
vulgar bucceu, derivado de bucca, bochecha. Aplicava-se
outrora, no Brasil, ao escravo recém-chegado da África [2].
Bocelado
(com c) encontra-se averbado na
maioria dos léxicos como particípio do verbo bocelar, cujo
sentido é o de "ornar com bocéis". Bocel designa, em arquitetura, a moldura estreita de meia
cana, assim como o ornamento arredondado que circunda a base de uma coluna, ou
ainda, a parte saliente, projetada para a frente, dos degraus de uma escada.
[2]
À vista do
exposto, parece claro que, em linguagem médica, devemos empregar unicamente bosselado (com ss), deixando bocelado aos arquitetos.
_________
1.
ROBERT,
P.: Dictionnaire alphabétique et analogique de la langue française, 1987.
2. FERREIRA, A.B.H. - Novo dicionário da língua
portuguesa, 1986.
3.
REZENDE,
J. - Obstetrícia, 1987, p. 260.
Cada palavra
tem sua história e a de bougie é das
mais interessantes.
No litoral da
Argélia há uma cidade com o nome de Bougie (Bujiya em árabe),
[1] que se tornou conhecida na Idade Média pela qualidade da cera que produzia,
uma cera fina com a qual se fabricavam velas para exportação.
Por metonímia,
a cera passou a ser conhecida pelo mesmo nome da cidade e, posteriormente, as
próprias velas passaram a ser chamadas de bougies.[2]
Sondas finas
de linho encerado foram primitivamente confeccionadas para uso médico,[1] as
quais foram igualmente denominadas bougies,
seja pelo emprego da cera em sua confecção, seja pela semelhança com uma vela.
Por analogia, as sondas dilatadoras feitas de outro material, como borracha,
plástico ou metal, também foram chamadas de bougies.[3]
Assim, por um
processo linguístico de metonímia, analogia e extensão semântica, um topônimo
transformou-se em instrumento de uso médico.
Antes da era
da esofagoscopia, as bougies eram
utilizadas principalmente em casos de corpo estranho impactado no esôfago. Eram
introduzidas às cegas, com grande risco para o paciente, para desalojar o corpo
estranho, empurrando-o para o estômago. Fabricius de Acquapendente (1537-1619)
teria sido o primeiro a fazer uso de finas velas de cera com essa
finalidade.[4][5]
Do francês, a
palavra bougie passou intacta para o
inglês e o alemão e foi traduzida por bugia
Como termo
médico um dos primeiros registros encontra-se no Dicionário de Medicina
Doméstica e Popular, de Langaard, de 1865.
Chernoviz dá
como sinônimos bugias, velinhas e
candelinhas, que "diferem das sondas, em serem estas ocas em todo o
seu comprimento", "enquanto as bugias
são maciças em toda a sua extensão".[6]
A dilatação
com bougies recebeu em francês a
denominação de bougirage [7] e,
em inglês, de bouginage.[1] O termo
correspondente em alemão é bougierung.[8]
Como seria em
português? Bugiragem ou buginagem?
Plácido
Barbosa tacha bougirage de neologismo
francês e se preocupa com sua tradução em português, oferecendo como sugestão envelamento. [9]
Ao contrário
do inglês, a tendência atual em português é de se empregar cada vez menos os
termos bougie e bouginage, ou seus
equivalentes aportuguesados, bugia e
buginagem, substituindo-os por sonda
e dilatação, respectivamente.
Tampouco se
usa atualmente a palavra bugia na acepção de vela de cera.
Acresce lembrar que bugia, em
português, tem outra acepção, de vez que designa também a fêmea do bugio, gênero de macaco cuja principal
espécie é Alouatta caraya, popularmente conhecido como guariba.[10]
_________
1.
OXFORD
ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 1978.
2.
DAUZAT,
A., et al. - Nouveau dictionnaire étymologique et historique, 1964
3.
ROBERT,
P.: Dictionnaire alphabétique et analogique de la langue française, 1987.
4.
KELLY, H.D.B. - Origins of oesophagology. Proc. Royal
Soc. Med. 62:781-786, 1968.
5.
EARLAM, R., CUNHA-MELO, J.R. - Benign
oesophageal strictures: historical and technical aspects of dilatation. British J.
Surg. 68:829-836,1981.
6.
CHERNOVIZ,
P.L.N. - Dicionário de medicina popular, 1890, vol. 1, p. 378.
7.
BARBOSA,
P. - Dicionário de terminologia médica portuguesa.,1917.
8.
ZATKIN, M., SCHALDACH, H. - Wörterbuch der
Medizin., 1992.
10. FERREIRA,
A.B.H. - Novo dicionário da língua portuguesa, 1999.
As duas formas
coexistem
Cãibra (ou câimbra),
no sentido de contração muscular espasmódica e dolorosa, tem sua origem no
germânico kramp, de que resultou krampf em alemão, cramp em inglês, crampe
em francês, cambro em italiano e calambre em espanhol.
Em português,
a palavra cãibra ter-se-ia formado a partir do francês crampe por metátese, abrandamento da última sílaba e ditongação, na
seguinte sequência: crampe > campra > cambra > caimbra (cãibra).[1]
A forma cambra é encontrada em textos
arcaicos e em dicionários do século passado. Sobrevive ainda na linguagem
popular, na expressão "cambra(s) de sangue", usada como equivalente
de disenteria, provavelmente em virtude do tenesmo retal.[2]
Em latim, a
contração muscular dolorosa era chamada de spasmus.[3]
Segundo Skinner [4], o texto médico em que aparece pela primeira vez o termo
germânico em substituição a spasmus é
de autoria de Van Helmont (1577-1644).
Mas voltemos
ao português: cãibra ou câimbra? Consultando-se os principais
léxicos da língua portuguesa encontramos as seguintes posições:
1. Registram
somente cãibra: Aulete (1881), Moraes
Silva (1949), Séguier (1981).
2. Registram
somente caimbra (sem acento
circunflexo na primeira sílaba): Nascentes (1961) e Silveira Bueno (1963).
3. Registra
somente câimbra (com acento
circunflexo na primeira sílaba) Luis Rey(1999).
4. Registram
ambas as formas Heckler et al.(1984) e o Vocabulário Ortográfico da Academia
Brasileira de Letras (1999).
5. Registra ambas
as formas, considerando incorreta a forma câimbra,
Laudelino Freire (1957).
6. Registra, na
mesma entrada cãibra, cambra e quembra,
mas não câimbra, J.P. Machado (1977).
7. Registram câimbra, como variante da palavra, com
remissão para cãibra, o que pressupõe
preferência para esta última forma: Cândido de Figueiredo (1949), Prado e Silva
(1975), Aulete-Garcia (1980), Michaelis (1998), Aurélio Ferreira (1999) e
Houaiss (2001).
Pedro Pinto
diz textualmente: "Câimbra é
grafia errônea"[5] e Calbucci ensina que "a grafia escorreita é cãibra e não câimbra".[6]
Convém,
talvez, rememorar que o til em português nada mais é que a letra n colocada sobre a vogal para indicar o
som anasalado da mesma. Durante o período de formação da língua portuguesa
empregava-se indiferentemente m, n ou ~ para indicar o som nasal. A confusão persistiu por muito tempo e
podemos encontrar em clássicos da literatura portuguesa e brasileira a mesma
palavra grafada de duas maneiras.[7]
Na reforma
ortográfica de 1943, o emprego do til foi assim definido: "Usa-se o til
para indicar a nasalização e vale como acento se outro acento não figura no
vocábulo".
O objetivo da
reforma ortográfica foi o de tornar mais fonética a escrita e, assim, a forma cãibra atende melhor a esse propósito.
A melhor
opção, por conseguinte, é cãibra e
não câimbra.
_________
1.
CUNHA,
A.G. - Dicionário etimológico, 1982.
2. SÃO PAULO, F. - Linguagem
médica popular no Brasil, 1970.
3.
CELSUS, A.C. - De Medicina. The Loeb Classical Library, 1971.
4.
SKINNER, H.A. - The origin of medical terms,
1961, p.127.
5.
PINTO,
P.A. - Dicionário de termos médicos, 1962.
6.
CALBUCCI,
E. - Questiúnculas de português, 1953, p. 15.
7. SAID ALI, M. - Gramática
histórica da língua portuguesa, 1964, p. 37-38.
A palavra cárdia é de origem grega (kardía) e desde os tempos
hipocráticos (sec. V a.C.) já era usada para designar tanto o coração como a
parte superior do estômago.Alguns autores admitem que a transição
esfagogástrica passou a ser assim chamada por estar próxima do coração.
Galeno,
entretanto, nos legou uma outra interpretação: "Os antigos chamaram cárdia
ao orifício do estômago, e assim o chamaram, segundo dizem, em razão dos
sintomas que as suas afecções produzem". Enumera a seguir os sintomas: síncopes,
espasmos, carus, epilepsia e melancolia.[1]
Cardialgia, por sua vez, significava dor no estômago.
Encontramos
Em latim
clássico cardiacus tanto significava doente do coração como do
estômago.[3]
As primeiras
descrições anatômicas do estômago mencionam duas aberturas, uma superior - cárdia
- e outra inferior - piloro. Riolan,
médico e anatomista francês (1580-1657) refere-se à boca superior do estômago. Testut, em seu monumental Traité d'Anatomie Humaine descreve dois orifícios no estômago: um orifício de
entrada, esofagiano, ou cárdia, e um
orifício de saída, duodenal, ou
piloro.[4] Destarte, a passagem do
esôfago para o estômago tem sido definida como abertura, boca ou orifício.
Devemos dizer o cárdia ou a cárdia?
O gênero da
palavra cárdia em português tem variado com a época, com os autores, e até com
a edição de um mesmo léxico. [5][6]
Cárdia é
masculino em espanhol, italiano e francês, e feminino
A influência
francesa foi marcante na cultura médica brasileira e, talvez por isso, tenha
predominado entre nós o gênero masculino para a palavra cárdia. Usaram o cárdia, entre outros, eminentes
professores, como Azevedo Sodré, Afrânio Peixoto, Rocha Vaz, Edmundo
Vasconcelos, e Alípio Correia Neto, cuja obras se tornaram clássicas.[7-9]
Modernamente,
os dicionários atribuem o gênero feminino à palavra cárdia.
O léxico de
Aulete-Garcia (1980) faz a observação de que "também se usa no masculino,
especialmente no Brasil". O dicionário Houaiss
(2001) também admite os dois gêneros.
A Terminologia
Anatomica designa a abertura
superior do estômago por ostium cardiacum. [10] É
natural que a ideia de orifício aponte para o gênero masculino, enquanto
abertura melhor se coaduna com o gênero feminino.
O fato da
palavra terminar em a não impõe o gênero feminino, pois temos
em português numerosos exemplos de palavras terminadas em a que são do gênero masculino, como dia, mapa, planeta, dilema etc.
Conforme nos
ensinam os gramáticos, a atribuição do gênero às palavras e às coisas
assexuadas que elas representam é puramente convencional e varia de uma língua
para outra e, dentro do mesmo idioma, com a época.
Podemos
finalizar estas considerações admitindo tranquilamente os dois gêneros para a
palavra cárdia. Tanto podemos dizer o
cárdia como a cárdia. O
importante, por uma questão de coerência e uniformidade, é não usar os dois
gêneros em um mesmo texto.
_________
1.
GALENO
- Oeuvres anatomiques, physiologiques et médicales. Trad. Ch.
Daremberg, 1854, vol. 2, p. 646.
2.
BARBOSA,
P. - Dicionário de terminologia médica portuguesa, 1917.
3.
QUICHERAT, L., DAVELUY, A. - Dictionnaire
latin-français, 1876.
4.
TESTUT,
L.: Traité d'anatomie humaine, 8.ed. Paris, 1931, t. 4, p. 196.
5.
PINTO,
P.A. – Dicionário de termos médicos, 5. ed., 1949.
6. PINTO,
P.A. - Idem, 8. ed.., 1962.
7.
PINTO,
P.A. - Nugas e rusgas da linguagem portuguesa, 1919, p. 105.
8.
VASCONCELOS,
E., BOTELHO, G. - Cirurgia do megaesôfago, 1937.
9.
CORREIA
NETO, A. - Patogenia, diagnóstico e tratamento do megaesôfago (mal de engasgo),
1935.
10.
FEDERATIVE
COMMITTEE ON ANATOMICAL TERMINOLOGY. - Terminologia anatomica, 1998, p. 51.
Categute é a forma aportuguesada do inglês catgut, estando já incorporada ao léxico do nosso idioma. Consta do Vocabulário Ortográfico da Academia
Brasileira de Letras e de quase todos os dicionários contemporâneos. Não se
justifica, portanto, o uso, em português, da palavra em sua forma original
inglesa, como se vê frequentemente em textos médicos.
A origem da
palavra inglesa catgut não é muito
clara. Etimologicamente significa intestino de gato (de cat, gato + gut, intestino). Corresponde ao latim chorda,
do grego khordé, cujo sentido primitivo era de intestino, tripa [1], e
que passou a designar fios preparados com intestino de animais, usados em
instrumentos musicais, nos chamados instrumentos
de corda.
O substantivo chorda,
em latim, antes empregado somente nesta acepção, passou a ser usado
posteriormente como sinônimo de funis, no sentido de cabo de fios
vegetais torcidos. Nas línguas neolatinas ampliou-se ainda mais o seu
significado. [2] As cordas de origem animal, usadas em instrumentos musicais,
são feitas de preferência com intestino de carneiro. Mais raramente utiliza-se
de intestino de outras espécies. Não há referência ao uso do gato para esse
fim.
Causa
estranheza, portanto, a denominação, em inglês, de catgut. A explicação que se encontra na Encyclopaedia Britannica é de que o nome primitivo seria kitgut (de kit, pequeno violino
+ gut, intestino), denominação esta
posteriormente alterada para catgut. [3] Já o Oxford English Dictionary
assinala apenas ser desconhecida a razão para uso de cat, tanto em catgut,
como em seu sinônimo catling. [4]
A ideia de
utilizar a corda feita com intestino animal como fio de sutura é bem antiga.
Segundo Major, Galeno (130-200 d.C.), em uma curta dissertação sobre ligaduras,
menciona o uso de fios de linho, fios de seda e cordas delgadas. [5]
Na medicina
árabe, Rhazes (850-923) utilizou corda de harpa como material de sutura, fato
que Graham atribui à sua educação musical e sua familiaridade com instrumentos
musicais. Avicenna (980-1037), na Pérsia, também empregou cordas de harpa para
sutura de feridas abdominais.[6]
A partir de
então, o categute foi usado de tempos
em tempos como material de sutura, apesar da supuração que provocava. Na
maioria das vezes era utilizado apenas para ligaduras de vasos sanguíneos nas
amputações de membros, trazendo-se para fora da ferida as extremidades do fio
para posterior eliminação deste com o pus.
Coube a
Lister, em 1869, iniciar a fase moderna do uso do categute
Modernamente o
categute é preparado com o colágeno
do tecido conjuntivo de animais, tratado e preservado; não necessariamente com
intestino de carneiro. Em alguns léxicos da língua portuguesa encontra-se a
informação de que o categute é feito
de "tripa de carneiro, gato ou lebre", o que justificaria a
denominação de categute. Não tenho
conhecimento de nenhuma fonte bibliográfica fidedigna que mencione o gato e a
lebre como animais utilizados na obtenção do categute.
_________
CATÉTER, CATETER
Muito se tem polemizado sobre a
pronúncia da palavra cateter. Ca-té-ter
ou ca-te-tér? E, no caso da forma
paroxítona, como seria o plural? Catéteres
ou cateteres?
A palavra cateter já existia em grego, com acento na última sílaba - kathetér
- e com o significado de algo que se
introduz. Hipócrates usou-a com o sentido de pessário[1] e Galeno para
designar instrumentos metálicos usados para esvaziar a bexiga.[2]
O fato do acento tônico recair na última
sílaba, em grego, tem servido de argumento aos que defendem a forma oxítona
"No que toca aos vocábulos de
procedência grega, discutem muitas vezes os mais doutos. Nasce a divergência,
em muitos casos, de ser tomada como padrão ora a acentuação grega, ora a
latina", diz o filólogo Machado Filho.[3] Catéter é um exemplo típico
dessa dificuldade.
O latim foi usado até o século XVIII nos
escritos médicos e, desse modo, muitos termos gregos sofreram alteração
prosódica ao serem a ele incorporados. É compreensível, portanto, que a
acentuação latina tenha predominado nas palavras que transitaram pelo latim, ao
contrário daquelas de formação erudita, oriundas diretamente do grego, que
conservaram, de maneira geral, o acento tônico original.
As opiniões, no entanto, são
discordantes. Ramiz Galvão assim se refere ao acento tônico da palavra cateter: "Os dicionários acentuam cathéter; mas, sendo este uso geral
entre os cientistas, e contrariando tal prosódia abertamente a quantidade da
raiz, deve ser preferido cathetér,
como se proviesse regularmente pelo acusativo latino - catheterem - tal como clister". "Os substantivos
portugueses de origem erudita terminados em er e derivados de substantivos gregos com a terminação ér,
êros
(exceção feita de charácter) são
oxítonos como clister, alter, masseter,
ureter, etc."[4]
Cândido de Figueiredo, a propósito de cateter e outros vocábulos de origem
grega, terminados em er, justifica a
forma paroxítona lembrando que "a prosódia não nos veio da Grécia; veio de
Roma"... "em latim não há palavras oxítonas, à parte os
monossílabos".[5] Recomenda, no entanto, para o plural, o acento tônico na
penúltima sílaba, que está de acordo com a prosódia grega e latina: cateteres, ureteres, caracteres etc.
A mesma lição nos dá Mendes de Almeida:
"A palavra catéter é grega, mas
o latim obriga-nos a dizer catéter no
singular e catetéres no
plural".[6] No caso de éter explica
o plural éteres (proparoxítono) por ser breve a última sílaba em grego,
representada pela letra épsilon e não pela letra eta
como no caso de catéter.
Plácido Barbosa[7], além de advogar a
acentuação latina - catéter- aceita o
plural catéteres, sem o deslocamento
da sílaba tônica, por ser a forma mais usual.
Os dicionários mais antigos da língua
portuguesa registram catéter,
enquanto os léxicos mais modernos adotam a forma oxítona.
Entre os dicionários especializados em
terminologia médica, Mário Rangel (1951) e Rey (1999) optaram por catéter; Pedro Pinto (1962) e Paciornik (1975) por cateter(tér).
Estamos, assim, diante
de um impasse do ponto de vista linguístico. Na literatura médica brasileira,
especialmente na referente à comunicação oral em Congressos e reuniões
científicas, bem como na linguagem coloquial dos médicos, a forma usual é catéter no singular e catéteres no plural.
Havendo disputa entre os doutos, manda o
bom senso acolher a interpretação que mais se aproxima do uso e da tradição. O
que é preciso é abandonar o farisaísmo de pronunciar uma palavra de um modo e
escrever de outro, simplesmente por respeito ao que está no dicionário, esse
bicho-papão de todos nós. A meu ver, tanto neste caso como em outros
semelhantes, o uso deve prevalecer. Fiquemos, pois, com as formas catéter e catéteres, à semelhança do espanhol, e passemos a usá-las na
linguagem escrita com acento bem visível na segunda sílaba.
_________
1.
LIDDELL, H., SCOTT, - A greek-english lexicon,
, 1983.
2.
GALENO:
Oeuvres anatomiques, physiologiques et médicales., 1854, p.682
3.
MACHADO
FILHO, A.M.- Coleção "Escrever Certo", 1966, p.69
4.
GALVÃO,
B.F.R.- Vocabulário etymologico, ortographico e prosodico das palavras
portuguesas derivadas da língua grega, 1909.
5.
FIGUEIREDO,
C.- Vícios da linguagem médica, 1922, p. 225
6.
ALMEIDA,
N.M.- Dicionário de questões vernáculas, 1981.
7.
BARBOSA,
P.- Dicionário de terminologia médica portuguesa , 1917.
CEMENTO, CIMENTO
Os termos acima têm uma origem comum; ambos procedem
do latim caementum, pedra de alvenaria. Na antiguidade
utilizavam-se pedras fragmentadas, misturadas com lama, para construções,
especialmente para a base ou alicerce.
Do latim, caementum
passou para o francês, no século XII, como cément, e a partir de 1573,
também na forma paralela ciment. [1,2]
Em inglês há registro da forma cement,
com a datação histórica de 1489, para designar qualquer substância
destinada a unir superfícies sólidas e para o material utilizado nas obturações
de cáries dentárias. [3]
Em
espanhol, o Dicionário da Real Academia Espanhola registra cimiento, cimento
e cemento. Cimiento, forma mais antiga, designa alicerce, fundamento
de uma construção; cimento, pouco usado, é dado como sinônimo de cemento,
enquanto cemento aplica-se tanto ao revestimento da raiz dos
doentes, como a qualquer material ligante.[4]
Em italiano cemento e cimento
são considerados sinônimos.[5]
Em português o verbo cementar antecedeu
o substantivo cemento, para designar o ato do ourives de purificar o
ouro e outros metais preciosos. [6]
Domingos Vieira abona os dois
termos: cemento, na acepção de pedras quebradas, e cimento,
definido como “pó de telhas, de tijolos pisados, que se mistura com cal para
ligar as pedras das construções”. [7]
Em 1824, em Leeds, na Inglaterra, o
construtor Joseph Aspid inventou um processo de obter uma mistura de calcários
com argila que, depois de pulverizada e calcinada, transformava-se em um pó com
alto poder ligante, a que chamou cimento portland. O nome portland se
deve a sua aparência, semelhante a uma pedra cinzenta extraída na ilha (hoje
península) de Portland, no sul da Inglaterra.[8]
Em 1840, Sir Richard Owen, em sua
obra “Odontografia” descreveu e denominou de cemento a camada de
natureza óssea que reveste as raízes dos dentes e une as mesmas ao ligamento
periodontal. [9]
A Nomina Anatômica de 1895,
(conhecida por BNA por ter sido aprovada na cidade de Basileia, na Suíça)
denominou a citada camada de revestimento das raízes dentárias de substantia
ossea dentis, nome este que foi substituído por cementum na
edição da Nomina de 1955, conhecida por PNA (Parisiensia Nomina
Anatomica).
Conforme observou Marcovecchio [10]
houve um erro na escrita da palavra latina, que deveria ser caementum e não cementum, erro este que perdurou nas edições
posteriores da Nomina.
O
termo cemento é também usado em
histologia para designar a substância intersticial que une as células,
notadamente as células epiteliais (cemento intercelular). [11]
Diante
do exposto, podemos concluir que cemento e cimento são formas divergentes de uma mesma palavra latina:
caementum. Nas formas divergentes,
cada uma delas tende a adquirir significado próprio. É o que se verifica com cemento e cimento, não somente em português
como em francês.
A
tendência atual em português é de usar-se cemento para estruturas anatômicas
e cimento
para todo
produto artificial com propriedades de ligar, aderir, unir, colar, inclusive os
que se usam em tratamentos dentários. Esta distinção é nítida em toda a
literatura odontológica brasileira. Em inglês os termos equivalentes para
estabelecer a diferenciação são, respectivamente, cementum e cement.
Os Descritores em Ciências
da Saúde da BIREME adotam para a camada de revestimento das raízes dentárias cemento
dentário,
em português, cemento dental em espanhol e dental cementum em inglês; para o material
utilizado em tratamentos dentários, cimentos de ionômeros de vidro, em português, cementos de
ionômero vítreo, em espanhol, e glass ionomer cements, em inglês.[12]
De cemento derivam os cognatos cementócito, cementoma,
cementose, cementoblastos, cementoclasia e outros.
Dada a importância do cimento
portland,
quando se diz simplesmente cimento, subentende-se que estamos nos referindo a este
produto.
Em
ourivesaria e metalurgia permanecem cemento, cementar, cementação, em relação ao procedimento
de purificar um metal por meio de tratamento químico e aquecimento a altas
temperaturas, por serem tais termos de uso tradicional.
_________
1. BLOCH, Oscar , VON WARTBURG,
Walther - Dictionnaire étymologique de la langue française, 1986.
2.
DAUZAT, Albert, DUBOIS, Jean ,
MITTERRAND, Henri - Nouveau dictionnaire étymologique et historique, 1994.
3. OXFORD ENGLISH DICTIONARY
(Shorter), 1978.
4. REAL ACADEMIA ESPAÑOLA -
Diccionario de la lengua española, 1970.
5. SPINELLI, Vincenzi ,
CASASANTA, Mário - Dizionario completo italiano-portughese (brasileiro), 1985.
6. MORAES SILVA, Antonio de - Dicionário da
língua portuguesa., 1813.
7. VIEIRA, Frei Domingos -
Grande dicionário português ou Tesouro da língua portuguesa, 1871-1874.
8. ENCICLOPÉDIA DELTA-LAROUSSE (Grande). Rio de
Janeiro, 1972.
9. OWEN, R. Odontography or a
treatise on the comparative anatomy of the teeth.
10. MARCOVECCHIO, Enrico - Dizionario etimologico storico dei termini medici, 1993.
11. MANUILA, A., MANUILA,
L., NICOLE, M. , LAMBERT, H. Dictionnaire français de médecine et de biologie,
1970.
12. BIREME – Internet. Disponível em http://decs.bvs.br/ Acesso em 10/11/2009.
Em latim,
pescoço tanto era chamado de collum, i, como de cervix, icis. Cervix
referia-se especialmente à face posterior ou nuca, donde cerviz
De
Por analogia
com o pescoço, ambos os termos (collum e cervix) passaram a
designar a porção estreitada de um osso ou órgão. Na terminologia médica, collum
predominou sobre cervix, razão pela qual se diz hoje
colo do fêmur, colo vesical, colo da vesícula biliar, colo do útero, etc.
Cervix manteve-se na nomenclatura
anatômica para designar o colo uterino. Primitivamente cervix incluía também a
vagina, tendo sido Fallopius (1523-1563) quem restringiu o seu uso ao colo
uterino em seus limites anatômicos.[1] A denominação de cervix uteri dada por Fallopius foi adotada pela Nomina Anatomica
e mantida na atual Terminologia Anatômica.[2]
O genitivo uteri
(do útero) tornou-se dispensável em português e cervix passou a ser
sinônimo de colo uterino.
Alguns autores
preferem a forma vernácula cérvice a cérvix. Em trabalhos indexados pela
BIREME, escritos em português, predomina, entretanto, colo uterino, em lugar de
cérvix ou cérvice.
O
vocábulo em grego correspondente ao latim cervix é trákhelos, com o qual se
formaram diversos termos médicos, muitos deles relacionados com o pescoço,
enquanto outros se referem especificamente ao colo uterino. Ex.: traquelismo (espasmo dos músculos do pescoço),
traquelodinia (dor no pescoço), traquelocifose (curvatura anormal da
coluna cervical), traquelotomia
(incisão no colo uterino), traqueloplastia
(plástica cirúrgica do colo uterino), traquelorrafia
(sutura do colo uterino).
Para designar
a inflamação do colo uterino usa-se cervicite,
de preferência à traquelite.
Ao contrário
de outras vozes latinas semelhantes, como vertex e fornix, que são do gênero
masculino, cervix, em latim, é feminino.[3] Por esta razão é preferível a
manutenção do gênero feminino
__________
1.
SKINNER, H. - The origin of medical terms,
1961, p. 100.
2.
FEDERATIVE
COMMITTEE ON ANATOMICAL TERMINOLOGY - Terminologia anatomica , 1998, p. 65.
3.
SARAIVA,
F.R.S. - Novíssimo dicionário latino-português, 1993.
A denominação de
cesárea ou cesariana, dada à operação de abertura do útero para retirada do
feto, tem sido associada ao nome do imperador Júlio César, que teria assim
nascido, segundo Plinius.[1] Esta versão é questionável, porquanto a abertura
do ventre para retirada do feto com vida só era praticada na antiguidade, entre
os romanos, após a morte da parturiente, e a mãe de Júlio César, Aurélia, viveu
muitos anos após o nascimento do filho, conforme atestam diversas fontes
históricas.
Outra versão
inconsistente é a de que Nero, um dos doze césares, teria mandado assassinar
sua própria mãe, Agripina, e abrir-lhe o ventre para ver onde ele havia sido
gerado.
Muito antes de
Nero a operação cesariana já era bem conhecida, e os que nasciam por meio dela,
após a morte da mãe, eram chamados caesones, conforme se encontra nos
clássicos latinos (cesos ou cesões em português). Dentre os
personagens ilustres da História citam-se como cesões São Raimundo
Nonato e Cipião o Africano.
A cesárea após
a morte da parturiente já era praticada possivelmente entre os egípcios e
outras civilizações antigas.[2]
Na mitologia
grega, o próprio deus da Medicina, Asclépio, filho de Apolo e da ninfa Coronis,
teria nascido de uma cesárea após a mãe ter sido morta por Artemis, a pedido de
Apolo, que ficara enciumado com a infidelidade de Coronis. [3]
No reinado de
Numa Pompilius (
O primeiro
relato de cesárea em parturiente viva refere-se à realizada na Suíça, por Jacob
Nufer, um castrador de porcas, em sua própria esposa, no ano de
Em 1581,
Rousset publicou o seu Traité Nouveau de
L'hysterotomotokie ou Enfantement Césarien, no qual relata histórias de
casos operados por cirurgiões-barbeiros da época.[5] A partir do século XVII a
operação cesariana passou a fazer parte integrante da obstetrícia, porém com
elevada mortalidade materna e fetal. Langaard,
A
palavra cesárea e as expressões parto cesáreo e operação cesariana vinculam-se ao verbo latino caedo,
caesum, caedere, que equivale ao
grego témno, cortar. Dele derivam caesus, a, um, cortado; caeso,
onis, ceso ou cesão; caesura,
corte; e caesar, aris, com o
mesmo sentido de caeso, onis, isto é,
aquele que é tirado do ventre da mãe,
"qui caeso matris utero nascitur".[7]
Outros nomes,
formados de radicais gregos, já foram propostos em substituição a cesárea ou
cesariana, tais como hipogastrotomia,
tomotocia, histerotomia, metrotomia, láparo-histerotomia, gastro-histerotomia,
célio-histerotomia, histerotocotomia, histerotomotocia, e outros, porém não
lograram aceitação.[8]
Teria o nome de César algo a ver com o parto
cesáreo, como sugeriu Plinius? Parece que não, e existem três outras hipóteses
para explicar a origem do nome de Júlio César. A primeira remonta ao sânscrito Kesar, que quer dizer cabeleira; a
segunda dá o nome de César como sendo de origem púnica (de Cartago),
significando elefante, símbolo da força; e a terceira identifica-o ao etrusco,
com o sentido de deus.[9]
A origem etrusca
é a mais plausível e o sentido de divindade poderia ter levado Adriano (século
II d.C.) a adotá-lo como título, o qual, depois de Diocleciano (século III
d.C.) passou a designar o herdeiro presuntivo do trono, reservando-se ao
imperador o epíteto de Augustus.
Devemos
escrever cesárea com e, porquanto cesária com i designa um
instrumento de corte utilizado na encadernação de livros, mais conhecido entre
nós por cisalha.[10] Já cesariana escreve-se com i , pois a terminação –eano(a) constitui exceção em português e
emprega-se em reduzido número de adjetivos.[11] Também não se deve grafar
cesárea ou cesariana com z.
Tanto cesárea como cesariana eram primitivamente apenas adjetivos. Atualmente são
empregados também como substantivos, especialmente o primeiro. A substantivação
do adjetivo por elipse é um fenômeno comum da língua. O adjetivo, neste caso,
incorpora o significado do substantivo contíguo e passa expressar todo o
conteúdo do sintagma.[12]
_________
1.
PLINIUS
- Naturalis historia, vol. 2, VII.9, 1979, p. 537.
2.
DE LEE, J.B., GREENHILL, J.P. - Principles and
practice of obstetrics, 1947, p. 914.
3.
HAMILTON, E. - A mitologia, 1983, p.423.
4.
SKINNER, H.A.-
The origin of medical terms, 1961, p.84
5.
LEONARDO, R.A. - History of gynecology, 1944,
p. 91, 303
6.
LANGAARD,
T.J.H. - Dicionario de medicina doméstica e popular, 1873, p. 408.
7.
MAGNE,
A. - Dicionário etimológico da língua latina. Rio de Janeiro, INL, 1952.
8.
REZENDE,
J. - Aspectos etimológicos e semânticos do vocábulo cesariana. Rev. Gynec. Obst. 101: 7-10, 1957.
9.
PINTO,
P.A.- Vocábulos médicos e de outra natureza. Rio de Janeiro, 1944, p.11-22.
10. MORAIS SILVA, A.- Grande dicionário da
língua portuguesa, 1949.
11. JOTA, Z.S.- Dicionário das dificuldades
da língua portuguesa, 1960, p. 207.
12. ULLMANN, S.- Semântica. Uma introdução à
ciência do significado, 1964, p. 462.
CESURA, CISURA, CISSURA, INCISURA
INCISURA ANGULAR
Cesura provém do latim caesura, ‘corte’. A maioria dos
léxicos averba cesura com mais de uma acepção. Na terceira edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de
Aurélio Ferreira (1999), são registradas nada menos que sete, a saber:
"1. Ato
ou efeito de cortar; corte.
2. Incisão de
lanceta, lancetada.
3. Cicatriz
dessa incisão.
4. Primeira
parte do verso hexâmetro.
6. Limite
rítmico no interior de um verso.
7. Pausa na
sexta sílaba de um verso alexandrino".
Vemos, assim,
que cesura, como termo médico, pode
ser empregado para designar tanto a ação, como o efeito de cortar, ou seja, o
corte ou a cicatriz.
O termo cisura acha-se averbado em vários
dicionários como variante de cesura, enquanto outros não o registram.
Moraes, na
segunda edição de seu dicionário (1813) refere-se à cisura como termo de cirurgia e dá para cesura uma única acepção, relacionada com a metrificação dos versos
latinos.
Cisura aparece ainda com o significado de ‘fratura dos
ossos cranianos’ nos léxicos de Adolpho Coelho (1890) e Morais Silva (10. ed.,
1949). Os dicionários de termos médicos de Pedro Pinto (1962) e Céu Coutinho
(1977) consideram cisura variante de cissura.
Cissura tem sua origem no latim scissura, que significa
‘fenda, sulco, fissura’, sendo um termo de largo uso em anatomia para designar
várias formações, tais como cissuras pulmonares, cissura mediana, cissura de Sylvius etc.
É frequente o
emprego de fissura por cissura, visto que ambos os termos se
equivalem. O que não se recomenda é o uso de cisura em lugar de cissura,
o que pode ter sido resultado da influência do espanhol, já que em espanhol não
se emprega duplo s como
Incisura é vocábulo existente em latim com a mesma grafia do
português. Fora empregado por Plinius em mais de uma acepção; dentre elas
‘corte, linhas das mãos, traços, divisões, nervuras, contorno’.[2] O termo é
considerado sinônimo de incisão pela maioria dos léxicos de língua portuguesa.
A
palavra latina incisura foi
incorporada à Nomina Anatomica por ocasião do VI
Congresso Internacional de Anatomistas, realizado em Paris, em 1955, com o
sentido de depressão ou reentrância profunda na superfície de um órgão.[3]
A denominação
de incisura
angularis (incisura angular em
português) foi adotada na mesma ocasião para designar o ângulo formado entre a
porção vertical e a porção horizontal da pequena curvatura gástrica, ou seja, a
parte mais baixa da pequena curvatura, estando o paciente em posição ereta.
Tal expressão
não é encontrada nos livros clássicos de anatomia e só aparece na terminologia
médica após a introdução, na prática médica, do exame radiológico do estômago.
Mesmo em livros de radiologia ainda se encontram outras denominações
equivalentes, como a de porção angular do estômago ou sinus gástrico.[4] Em inglês usa-se notch com o mesmo sentido de incisura -
gastric notch.[5]
A nomenclatura
endoscópica preservou a denominação de incisura
angular, sendo, entretanto, errôneo o emprego de cisura por incisura.
_________
1. FIGUEIREDO,
C. - Vícios da linguagem médica, 1922, p. 63.
2. QUICHERAT, L., DAVELUY, A. - Dictionnaire
latin-français, 1876.
3.
MANUILA, A. et al. - Dictionnaire
français de médecine et de biologie, 1970.
4. TOLEDO,
P.A. - Radiologia clínica do aparelho digestivo, 1948, p. 232.
5. DORLAND'S ILLUSTRATED MEDICAL DICTIONARY. , 28th
ed. Philadelphia, W.B.
Saunders Co., 1994.
CICATRIZAÇÃO POR PRIMEIRA E SEGUNDA INTENÇÃO
Desde Hipócrates e Galeno que se consideram duas modalidades de
cicatrização de uma ferida: imediata
ou por primeira intenção, aquela que se dá pela união dos bordos da ferida quando
não há infecção nem grande perda de tecido; e mediata ou por segunda intenção, quando a cicatrização se
processa tardiamente, com formação de tecido de granulação e posterior
epitelização.[1]
Intenção provém do latim intentio, onis, do verbo intendo, ere, cujo sentido primordial é de estender,
dirigir, reforçar, sustentar.[2] Há também em latim a forma intensio, onis, considerada equivalente a intentio, onis,
e o verbo intento, are, com o sentido de estender
para, aproximar de. De intensio, onis deriva intensão
em português.
Na evolução semântica que se operou ao longo do tempo, o significado da
forma intenção, em português, restringiu-se a
propósito, desejo, intuito, fim, desígnio, enquanto intensão firmou-se como palavra apropriada para expressar o aumento
de tensão, do grau de força, energia ou atividade.
É evidente que ao nos referirmos à cicatrização por primeira ou segunda
intenção, o vocábulo intenção não tem
o significado atual; antes, exprime o fenômeno da reparação no qual o tecido
lesado se aproxima, se dirige, se estende em direção ao outro. Por essa razão,
Rebelo Gonçalves critica o equívoco etimológico que se encontra no dicionário
de Littré e Gilbert, onde se lê: "Intention
(intentio, propositum). Fin que l'on se propose".[3]
Para fugir a essa armadilha, aquele autor, embora reconhecendo
defensável a grafia intenção (com ç), preconiza o emprego da grafia intensão (com s). São suas as seguintes palavras: "Dando o latim uma base
para a escrita intensão, há vantagem em adotá-la por dois motivos essenciais:
porque se evita, por essa forma, uma colisão com o sentido nada científico em
que imediatamente faz pensar a escrita intenção; porque escrevendo intensão
obtém-se um paralelismo útil e racional com as palavras tensão, distensão,
extensão, baseadas semelhantemente em tensio, distensio, extensio,
e não em tentio, distentio, extentio, e que todas
três se podem empregar em sentidos pertinentes à medicina." [4]
O latim foi durante muito tempo o veículo de comunicação científica e
as expressões latinas referentes à cicatrização - per primam intentionem e per secundam intentionem -
eram escritas com t e não com s, de que resultou intention em francês; intention em inglês; intenzzione, em italiano; intención, em espanhol e intenção,
Além disso, acha-se consagrada a grafia com ç, tanto em textos médicos, como em léxicos especializados, sendo,
portanto, aconselhável a sua manutenção.
_________
1.
GOSSET, J. - Traumatismes
et leurs complications. In PATEL, J.
(Ed.), Nouveau précis de pathologie chirurgicale, 1949, t. I, p. 96.
2.
TORRINHA,
F. - Dicionário latino-português, 1942.
3.
LITTRÉ,
E., GILBERT, A. - Dictionnaire de médecine, de chirurgie, de pharmacie et des
sciences que s’y rapportent, 1908.
4.
GONÇALVES,
F.R. - Linguagem médica. Rev. Ass. paul.
Med. 10:50-79, 1937
CINTILOGRAFIA,
CINTIGRAFIA
CINTILOGRAMA, CINTIGRAMA
Trata-se de
mais um caso de duplicidade de um mesmo termo.
Em francês e
italiano existem igualmente as duas formas; scintigraphie
e scintillographie em francês;[1] scintigrafia e scintillografia em italiano.[2] Em espanhol o dicionário de Leon
Braier registra escintilografia ou centelleografia, e escintigrama,[3] porém a
maioria dos autores de artigos científicos utiliza cintigrafia e cintigrama.[4] Em inglês, usa-se scintigraphy e scintigram.[5]
A palavra cintilografia formou-se a partir do
latim scintilla, centelha, e do grego grapho, escrever,
registrar, enquanto cintilograma
formou-se de scintilla + gramma,
gráfico, registro. Ambas são, portanto, palavras híbridas.
A
cintilografia (ou cintigrafia) é um método de investigação clínica que consiste
na injeção endovenosa ou ingestão de uma substância radioativa com afinidade
eletiva para determinado órgão ou tecido, permitindo o estudo da distribuição
topográfica do isótopo radioativo nesse órgão ou tecido por meio de um detector
especial chamado câmara de cintilação
ou gama-câmara. O método tornou
possível o estudo anatômico e funcional de vários órgãos e tecidos, como a
tiróide, rim, fígado, pulmões e cérebro, bem como o trânsito no tracto
digestivo, especialmente no esôfago e estômago.
Cintigrafia e cintigrama
são formas sincopadas de cintilografia e cintilograma (síncope é o nome que se
dá em gramática à supressão de uma letra ou sílaba no meio da palavra).
Os léxicos
mais modernos divergem quanto à preferência por uma ou outra forma. O Michaelis (1998) só registra cintigrafia; Houaiss (2001) averba cintigrafia,
com remissão para cintilografia. Já o Dicionário contemporâneo
da Academia das Ciências de Lisboa (2001) procede de maneira inversa; averba cintilografia com remissão para cintigrafia. O Aurélio século XXI (1999)
e o Vocabulário Ortográfico da
Academia Brasileira de Letras (1999) aceitam as duas formas. Os dicionários
médicos de Paciornik (1975) e de Luis Rey (1999 só registram cintilografia.
A BIREME, em
seus descritores das ciências da saúde adota cintigrafia como qualificador em espanhol e cintilografia
Além das
formas citadas há ainda a considerar outras denominações menos usadas. Sendo a
radiação emitida pelos isótopos radioativos constituída de raios gama, foram
propostos os termos gamagrafia e gamagrama. A propriedade da radiação de
impressionar um filme radiográfico deu azo, por sua vez, ao surgimento de outra
denominação para o método: autorradiografia.
Em língua
inglesa são também usados os termos scintiscan
e scintiscanner, que se abreviam
em scan e scanner, para designar, respectivamente, cintigrama e gama-câmara. Embora sejam termos próprios da
língua inglesa, têm sido frequentemente usados em outros idiomas, com tendência
a se tornarem de uso universal.
Mesmo sem
adaptar scan e scanner ao português, a Academia Brasileira de Letras já
sacramentou o verbo escanear
A
lei do menor esforço e a influência da literatura médica norte-americana na
nomenclatura biomédica poderia favorecer a sobrevivência das formas contratas cintigrafia e cintigrama, porém já se delineia entre os médicos brasileiros
nítida preferência pela forma cintilografia.
As
denominações gamagrafia, gamagrama e autorradiografia devem ser descartadas. O correspondente vernáculo
de scan e scanner vem a ser cintilograma
(ou cintigrama) e câmara de cintilação ou gama-câmara.
_________
1.
ROBERT,
P. - Dictionnaire alphabétique et analogique de la langue française, 1987.
2.
GARNIER, M., DELAMARE, V. - Dizionario dei termini
tecnici di medicina, 1979.
3.
BRAIER, L. - Diccionario
enciclopédico de medicina, 1980.
4.
BIREME.
Internet: Disponível em
http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/ Acessado em 03/12/2009.
5.
DORLAND'S
ILLUSTRATED MEDICAL DICTIONARY, 1994.
6.
ACADEMIA
BRASILEIRA DE LETRAS - Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 1999.
CIRURGIA COMO
SINÔNIMO DE OPERAÇÃO
Cirurgia provém do latim chirurgia, que o tomou do grego kheirourgia, de kheír, mão + érgon, trabalho [1]. Etimologicamente, portanto, cirurgia
significa trabalho manual, arte, ofício, no qual se empregam as mãos para a sua
execução. Entende-se, assim, o seu uso em medicina para designar os
procedimentos terapêuticos que exigem trabalho manual.
Na
Idade Média, a cirurgia era considerada atividade menos nobre, o que deu ensejo
a que fosse exercida, até o século XVIII, por práticos sem nenhuma formação
acadêmica – os cirurgiões-barbeiros – os quais se ocupavam quase exclusivamente
de lesões e feridas externas. Esta a razão por que ainda se utiliza a
denominação de patologia externa como sinônimo de patologia cirúrgica.
A
partir do século XIX, a cirurgia tornou-se parte da medicina oficial, exigindo
daqueles que a exercem, além de formação acadêmica, adestramento especial. Com
o contínuo progresso da medicina, a cirurgia subdividiu-se em numerosas especialidades,
como cirurgia geral, cirurgia torácica, cirurgia plástica, neurocirurgia etc.
De
acordo com os melhores léxicos, especializados ou não em termos médicos,
define-se cirurgia como o ramo da medicina que se dedica ao tratamento das
doenças, lesões, ou deformidades, por processos manuais denominados operações
ou intervenções cirúrgicas.
Todo
procedimento cirúrgico, idealizado e padronizado em sua técnica por determinado
cirurgião, é habitualmente designado pelo seu epônimo. Ex.: operação de
Heller, operação de Duhamel, operação de Wertheim etc.
Verifica-se atualmente o uso, cada vez mais frequente, de cirurgia como
sinônimo de operação ou intervenção cirúrgica, com tendência a consolidar-se na
linguagem médica; já é comum dizer-se cirurgia de Heller, cirurgia de Duhamel,
cirurgia de Wertheim etc. Nas estatísticas hospitalares é comum referir-se
igualmente ao número de cirurgias realizadas
em determinado período, em lugar de operações.
Esta
inovação semântica não é exclusiva da língua portuguesa, podendo encontrar-se
também em outros idiomas. Na língua inglesa, em um comentário publicado na
revista Surgery, vol. 139, n. 2, os editores chamam a atenção para o
fato. Interrogam: "Does the patient undergo a surgery
or an operation?" e concluem: "The term surgery should be saved for
our respected overall practice, while operation defines only a part of what we
do (in operating room). Let's not denigrate our art by inappropriate use of the
word surgery to describe one specific but limited aspect of our art. The patient is evaluated
surgically, but undergoes an operation" [2].
Dizer
que a cirurgia tem por fim a prática de cirurgias, em lugar de operações, seria
o mesmo que dizer que a obstetrícia tem por fim a prática de obstetrícias (em
lugar de partos). Chama-se a isso de tautologia.
A
prevalecer o uso de cirurgia como sinônimo de operação, é de se prever o
aparecimento de um novo verbo - cirurgiar. Será, então, mais elegante dizer que
o doente foi cirurgiado do que operado.
Possivelmente, estamos diante do que os linguistas chamam de neologismo
semântico; a mesma palavra incorpora outro significado além do primitivo,
tradicional. Como a evolução semântica das palavras é imprevisível, bem pode
ser que tenhamos no futuro de acrescentar mais um significado à palavra
cirurgia. A boa linguagem, vernácula, correta, no entanto, como ensina Becker
em seu livro Nomenclatura biomédica no idioma português do Brasil [3],
não incorpora este novo significado de cirurgia e manda dizer operação,
reservando-se cirurgia para nomear o ramo da medicina que trata os enfermos por
meio de operações.
__________
1.
PEREIRA, I.- Dicionário grego-português e português-grego, 1969.
2. MARSHAW, A.I., SARR, M.G,
(Editors-in-chief). Surgery :139: 173, 2006.
3.
BECKER, Idel - Nomenclatura biomédica no idioma português do Brasil, 1968.
As palavras
gregas kíste, cesta, e kystis, bexiga, deram origem a cisto (quisto) em português; no caso de kystis através do latim cystis.
Ambas as
palavras se escrevem em grego com K (kappa) e não com X (khi). Como normal, a letra aspirada grega khi passa para o
português com som gutural, que se expressa por qu antes das vogais e e i
(ex.: quelóide, quemose, quiasma, quitina),
ao passo que a letra kappa, também gutural, mas não
aspirada, evolui para c, qualquer
que seja a vogal seguinte (ex.: carpo,
cefaleia, cifose, cirrose). Existem exceções que o uso consagrou, como cirurgia, que deveria ser quirurgia, a exemplo de outros derivados
da mesma raiz kheir, mão, tais como quirodáctilo,
quiromancia, quiroplastia etc.
De acordo com
a citada regra, tanto o vocábulo derivado de kíste, como de kystis,
só poderia ser cisto e não quisto.
Kystis, com o sentido de bexiga,
já é encontrado na Ilíada de Homero.[1] Com a acepção de tumor de conteúdo
líquido ou semi-sólido, é de uso mais recente. Nesta acepção encontramos cyst em inglês, cyste em alemão, cisti em
italiano, kyste e cyste em francê,
e quiste em espanhol.
É interessante
observar que, na língua francesa, todos os termos relacionados com a bexiga
urinária e com a vesícula biliar se escrevem de preferência com c, enquanto o tumor de conteúdo líquido
ou semissólido designa-se com a mesma raiz, porém com k.[2]
Em biologia o
termo cisto é ainda usado em duas
situações: 1. Para caracterizar qualquer cavidade no organismo animal ou
vegetal, revestida de paredes delgadas e contendo secreção líquida. 2. Para
designar uma célula ou cavidade contendo elementos reprodutivos (cisto
parasitário).
A terminologia
médica, tanto em Portugal como no Brasil, como é sabido, foi fortemente
influenciada pelo francês, influência esta que alcançou seu período áureo no
século passado e primeira metade do século XX. Como em francês se escreve kyste, nada mais natural que se adotasse
kysto em português (quisto na
ortografia atual).
Em 1909,
quando ainda se usava a letra k no
início da palavra, escrevia Ramiz Galvão: "Kysto... a palavra foi mal formada; mas o uso geral consagrou-a e
já não é mais possível corrigir".[3] Cândido de Figueiredo foi mais
categórico: "forma quisto, por muitos usada, não é portuguesa".[4]
Outros
lexicógrafos condenam a forma quisto.
Laudelino Freire (1957) no verbete quisto,
considera o vocábulo "forma imprópria de cisto". Pedro Pinto,
Alguns
dicionários registram as duas formas ou dão preferência a quisto. O Prof. Idel
Becker,
Aurélio
Ferreira, nas duas primeiras edições do seu dicionário, respectivamente de 1975
e 1986, refere que a forma cisto,
"tida por melhor, é relativamente pouco usada". Pelo menos no que diz
respeito à linguagem médica, aquela afirmativa não procede. Na bibliografia
brasileira de medicina, publicada pelo IBBD
e IBICT, acham-se indexados no período de 15 anos (1965-1979) 95 trabalhos
com a forma cisto e apenas um com a
forma quisto.[6][7] Nos arquivos da
BIREME foram indexados até presente 419 artigos com a palavra cisto no título e apenas dois com a
palavra quisto. Estes dados
demonstram, de maneira inquestionável, a preferência absoluta da classe médica
brasileira pela forma cisto.[8]
É possível que tenha contribuído para esta
opção a influência recente da língua inglesa na cultura médica, em substituição
à influência da língua francesa no século passado. De qualquer modo,
restabelece-se a forma vernácula cisto,
em substituição à quisto, tornando
viável a correção que Ramiz Galvão julgava impossível.
Na 3a.
edição do dicionário de Aurélio Ferreira, conhecida por Aurélio século XXI, (1999) não somente aquela afirmativa foi
retirada.
A palavra
cisto tem ainda outros significados, a saber:
1. Espécie de
cesta utilizada em rituais de festas pagãs dedicadas a divindades mitológicas.
2. Em arqueologia
denomina-se cisto a uma escavação na
rocha utilizada como sepulcro.
3. Gênero de
plantas da família das cistíneas. A espécie Cistus ladanifera,
encontrada em Portugal, é conhecida por esteva.
Neste caso, cisto deriva de outra
palavra grega, kistos, esteva; trata-se, portanto, de forma convergente.
A forma quisto é empregada na expressão
"quisto social", que define, em sociologia, um grupo com
características próprias, que não se deixa assimilar pela comunidade na qual
está inserido.
Quisto, com
sentido de querido, desejado, é usado nos compostos benquisto e malquisto.
Neste caso, quisto deriva do latim quaesitus, particípio passado do
verbo quaerere, buscar, desejar, querer. Trata-se, aqui também, de
forma convergente.
Aceita a forma cisto na terminologia
médica, é óbvio que também se escreverão com c todos os derivados de cisto,
dentre os quais encistado.
_________
1.
SKINNER, H.A. The origin of medical terms,
1961, p. 133.
2.
MANUILA,
A..et al. Dictionnaire français de médecine et de biologie, 1970.
3.
GALVÃO,
B.F.R. Vocabulário etymologico, ortographico e prosodico das palavras
portuguesas derivadas da língua grega, 1909.
4.
FIGUEIREDO,
C. Dicionário da língua portuguesa, 1949.
5.
BECKER,
I. Grande dicionário latino-americano português-espanhol, 1983.
6.
IBBD.
Bibliografia brasileira de medicina, 1965-1972.
7.
IBICT.
Bibliografia brasileira de medicina, 1973-1979.
8.
BIREME. Internet. Disponível em
://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/ Acessado em 03/12/2009.
Citologia exfoliativa consiste no exame
microscópico de células descamadas de um órgão ou cavidade, sendo um método
muito utilizado no diagnóstico precoce do carcinoma do colo uterino.
Os léxicos atuais abonam tanto exfoliativo
(com x), como esfoliativo (com s), ou
usam ambas as formas ao mesmo tempo, não havendo consenso entre eles.
O dicionário Michaelis registra esfoliação como termo de botânica, de
cirurgia e de geologia, e exfoliação como termo de medicina. (como se a
cirurgia não fizesse parte da medicina).[1] Os cognatos esfoliado, esfoliar e esfoliativo só aparecem
com s.
O Aurélio sec. XXI averba esfoliação, esfoliado, esfoliar e esfoliativo, e também exfoliação, exfoliado e exfoliativo.[2]
O Houaiss só registra a forma com x: exfoliação, exfoliado, exfoliante e exfoliar. Usa a forma com s unicamente no verbo esfolhear,
com o sentido de folhear as páginas de um livro.[3]
O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de
Letras registra ambas as formas.[4]
Qual seria a melhor opção?
A palavra é de origem latina, embora contenha o prefixo grego ex-. Em latim já se havia constituído o
verbo exfolio, are, do qual deriva o verbo exfoliar (ou esfoliar) em português.
Do verbo exfoliar formou-se o
adjetivo exfoliativo; o sufixo latino
-ivus
(-ivo em português) forma adjetivos a partir dos radicais de
particípios verbais, com noção de referência, modo de ser, ação. Ex.: afirmat-ivo, demonstrat-ivo, combat-ivo,
atrat-ivo.[5]
Na passagem do latim para as línguas neolatinas, o x antes de consoante
tornou-se s, porquanto a pronúncia ks
da letra x deixara de existir no latim vulgar.[6]
Nas palavras eruditas, porém, especialmente aquelas formadas com prefixo ex-,
que significa para fora, o x é pronunciado ora com o som de cs ou cz, ora como z ou s. Ex.: extrofia, exantema, exaustão, excreção.
Tratando-se de expressão própria do vocabulário médico, definidora de
uma modalidade de exame, mais correto será seguirmos a trilha das palavras
eruditas, tal como em espanhol, francês e inglês, que usam, respectivamente, exfoliativo, exfoliatif e exfoliative.
Assim, a melhor opção é, sem dúvida, exfoliativa, (com x), que
foi adotada por Rey em seu excelente Dicionário
de termos técnicos de medicina e saúde.[7] A própria morfologia da palavra,
escrita com x, faz acudir à nossa
mente o seu significado: ex, para fora + folium, folha, lâmina.
_________
1. MICHAELIS Moderno dicionário da língua
portuguesa, 1998.
2. FERREIRA. A.B.H. Novo dicionário da língua
portuguesa, 1999.
3. HOUAISS,
A., V.M.S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2001
4.
ACADEMIA
BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 1999.
5.
CUNHA,
A.G. Dicionário etimológico, 1982.
6.
WILLIAMS,
E.B. Do latim ao português. Rio de Janeiro, INL, 1961.
7. REY, L.
Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde, 1999.
A evolução
semântica de uma palavra em cada idioma independe de sua raiz etimológica.
Clear, em inglês, e claro,
em português, provêm, ambos, do adjetivo latino clarus. O verbo to clear,
em inglês, correspondente a clarear,
em português, tem, dentre suas múltiplas acepções, o sentido de eliminar,
remover, limpar, livrar-se ou desembaraçar-se de alguma coisa. Esta acepção
inexiste em português em relação ao verbo clarear,
que, segundo o Aurélio, tem os
seguintes significados:
1. Tornar claro,
iluminar, aclarar.
2. Abrir espaços
ou clareiras em; rarear.
3. Tornar
inteligível; facilitar a compreensão de.
4. Tornar mais
claro o tom de
5. Tornar (a voz)
mais límpida, mais nítida.
6. Fazer-se dia.
7. Passar (o
tempo, o dia) de nublado a claro.
8. Tornar-se
(mais) claro; aclarar-se.
9. Encher-se de
clareira, ou de lacunas.
10. Tornar-se
lúcido, penetrante, ou perspicaz; aclarar-se.
11. Tornar-se
inteligível.[1]
De clear, em inglês, derivam clearing e
clearance; de claro, em português, clareamento.
Em odontologia
o termo clareamento é corretamente
usado referindo-se aos diferentes processos e técnicas para clarear os dentes, torná-los mais alvos,
mais brancos. Corresponde a bleaching, em inglês, e não a clearing.
Clearing e clearance têm o sentido genérico de remoção, limpeza, eliminação,
desembaraço. Em linguagem médica, clearance
expressa a eliminação de determinada substância por unidade de volume e de
tempo. Assim, clearance da ureia, da
creatinina, do ferro etc. Com este sentido o termo clearance é também usado em outros idiomas, que o tomam de
empréstimo ao inglês.
Ultimamente,
tanto clearing como clearance vêm sendo indevidamente
traduzidos em português por clareamento.
Exemplifiquemos
com o refluxo gastroesofagiano. Em condições normais, quando ocorre o refluxo,
as contrações peristálticas do esôfago removem o líquido refluído, fazendo-o
retornar ao estômago. Esta limpeza do esôfago, que procura livrar-se do
conteúdo ácido, denomina-se em inglês esophageal
clearance (ou clearing), expressão que tem sido traduzida por clareamento do esôfago.
Booth e
col.[2] desenvolveram um teste para avaliar a eficiência do peristaltismo
esofagiano na manutenção do pH intra-esofagiano, conhecido em inglês por acid clearing test. Este teste é
frequentemente referido em português como teste
de clareamento ácido ou simplesmente teste
de clareamento.
Em outras
condições patológicas nas quais há eliminação progressiva de substâncias
estranhas ao organismo, tais como antígenos virais ou bacterianos, toxinas,
fármacos ou metabólitos, vem sendo igualmente utilizado o termo clareamento para expressar a eliminação
de tais substâncias do meio interno.
A tradução
vernácula correta de clearance ou clearing é depuração. Antes da hegemonia da medicina norte-americana eram
correntes as expressões depuração da ureia,
depuração da creatinina, depuração do ácido hipúrico etc. Depurar tem o
sentido de tornar puro, limpar.
No caso, por
exemplo, do tratamento da hepatite crônica em que se consegue a viragem
sorológica com eliminação do vírus, devemos nos referir à depuração do antígeno
e não ao clareamento do antígeno.
Mesmo se não
quisermos empregar o termo depuração
em determinadas situações, não nos assiste o direito de traduzir clearing ou clearance por clareamento,
um falso cognato que não encontra respaldo na lexicografia da língua
portuguesa.
No caso do
refluxo gastroesofagiano, em lugar de clareamento
do esôfago, teste de clareamento
ácido, fator de clareamento, tempo de clareamento, seriam mais apropriadas
expressões vernáculas como limpeza do
esôfago, teste, fator ou tempo de remoção do conteúdo ácido do esôfago.
A rigor,
quando nos expressamos em português, só é possível clarear o esôfago pela iluminação, como ocorre durante a
esofagoscopia.
Somente
o colonialismo científico em que vivemos justifica a adulteração semântica do
vernáculo com pseudotraduções como esta de clareamento.
Seria preferível usar-se, em destaque, a própria palavra inglesa. Apesar de
tudo, é bem provável que tenhamos de incorporar ao vocabulário médico este novo
termo, que vem enriquecer o nosso portuglês.
_________
1.
FERREIRA,
A.B.H. Novo dicionário da língua portuguesa, 1999.
2. BOOTH, D.J., KEMPERER, W.T., SKINNER, D.B. Arch. Surg. 96:731-734, 1968
As duas formas
são empregadas independentemente do sexo do animal. Gramaticalmente, a primeira
é do gênero masculino e a segunda do gênero feminino, ambas consideradas
substantivos epicenos. Para caracterizar o sexo usa-se macho e fêmea, tanto para cobaio
como para cobaia.
A maioria dos
léxicos registra cobaio como forma
variante de cobaia.
Cobaia é palavra de origem ameríndia,
havendo duas versões etimológicas, ambas com base em fontes autorizadas.
A primeira,
defendida por Lokotsch [1], é de que seria oriunda do caribe, língua primitiva
falada por alguns grupos indígenas da América Central, Venezuela, Colômbia,
Guianas e extremo norte do Brasil [2]; nesta língua o roedor era chamado de kobiai. A segunda versão, advogada por Friederici [3] e mais aceita
modernamente, admite sua procedência do tupi-guanari çabuia (sabuia),
com abandono da cedilha.
A palavra cobaya (com y) foi incorporada ao latim científico da nomenclatura binária para
designar uma espécie deste roedor, pertencente ao gênero Cavia. A descrição da
espécie-tipo é creditada a Pallas, 1766 [4], porém a denominação latina Cavia
cobaya fora antes utilizada por Marcgrave na obra conjunta com
Guilherme Piso Historia Naturalis
Brasiliae, de 1648 [5].
Posteriormente,
Guilherme Piso, na História Natural e
Médica da India Ocidental, de 1658, ao referir-se aos roedores
genericamente chamados pelos portugueses de ratos
do mato, descreve, separadamente, a cobaia
e a apereá:
"A quarta espécie", escreve Piso, "é a Çavia cobaia. Tanto excede em tamanho aos coelhos europeus, como os
supera na diversidade e beleza das cores. Os pelos são um tanto flexíveis, com
manchas brancas, negras, ruivas; as pernas um tanto curtas; as anteriores, com
seis dedos, as posteriores com cinco. Tem cabeça e dentes semelhantes aos dos
arganazes; quase nenhum vestígio de cauda. Nenhuma espécie de coelhos é tão
familiarmente domesticada nas casas como este; até é levada com sucesso para
outras regiões da Europa, onde igualmente é prolífica e engorda. Grunhindo,
como que mendiga o alimento às pessoas da casa, à maneira de uma cadelinha
doméstica. Não cede aos demais em qualidade da carne, sobretudo ainda selvagem.
É servida assada e cozida; é menos branca e seca que as de nossa terra; e tão
rica em humor, que lhe faz mal o beber muita água".
"A
quinta, chamada Apereá, pelos nossos
compatriotas Veldt-rat, é uma espécie de coelho pequeníssimo,
sem cauda, com pelos, cabeça, barba e andar de lebre. Vive como os coelhos e
participa-lhes da natureza; a não ser que gosta mais das cavernas pedregosas do
que das arenosas, donde pelos caçadores e viandantes é tirado e caçado com
auxílio de cães. É servido cozido, assado, condimentado. Pois a carne é tão
tenra e boa que facilmente supera a dos coelhos europeus". [6] Piso
ilustra ambas as descrições com desenhos representando os dois roedores. Na
ilustração referente à cobaia, usou c
cedilhado em ambos os nomes: Çavia çobaia.
Apereá é palavra tupi, que, por aférese da vogal inicial,
interpretada como artigo feminino, e síncope da segunda vogal, resultou em preá [7], nome popular que designa no
Brasil mais de uma espécie do gênero Cavia e também do gênero Galea.
O gênero Cavia compreende várias espécies, das quais as mais conhecidas
são: C. cobaya
Pallas 1766; C. aperea, Erxleben
Segundo os
historiadores, a cobaia já se encontrava domesticada por muitas populações
indígenas séculos antes da chegada dos colonizadores europeus. Há referência à
sua presença na Guiana Francesa, Colômbia, Equador, Brasil, Peru e Argentina.
Era utilizada pelos indígenas como animal de estimação, como alimento e em
ritos sacrificiais [4][9].
Foi levada
para a Europa a partir do século XVI pelos navegadores espanhóis, portugueses,
holandeses e franceses e espalhou-se por todos os continentes.
Os franceses
adaptaram a palavra ao seu idioma como cobaye,
no gênero masculino, que foi sancionado pela Academia Francesa em 1878 [10]. A
forma cobaio, em português, poderia ter sido resultante da influência tardia do
francês, razão pela qual foi considerada galicismo [11].
Embora alguns
léxicos brasileiros informem que também a forma cobaia provém do francês cobaye,
o inverso parece haver ocorrido, conforme atestam eminentes lexicógrafos
franceses, como os que citamos a seguir:
1.
Dauzat, Dubois e Mitterrand. "Cobaye. Bomare 1775, du tupi guarani sabuja, par le portugais" [12].
2.
Bloch e
Wartburg: "Cobaye. 1820, du tupi sabuja, à l’s duquel les
imprimeurs portugais ont
substitué d’abord un ç-, ensuite un c’-." [13].
1.
Robert, P.
"Cobaye n.m. du tupi guarani par le portugais" [14].
Na linguagem
popular, a cobaia recebeu diferentes nomes nos vários países para onde foi
levada. Em português, a cobaia é popularmente conhecida como porquinho da India, embora não seja
aparentada aos suínos e nem procedente da India. Assim também em italiano: porcellino d’India (porquinho da India).
Em francês é
chamada cochon d’Inde, sem o diminutivo (porco
da India). Já em espanhol é conejillo de
India (coelhinho da India). Em alemão o nome é Meerschwein (porco que vem do mar) [9]. Em inglês é chamada Guinea pig [15], (porco de Guiné), denominação bastante curiosa pela menção a um
país da África como local de sua origem.
A comparação
com porco talvez decorra da semelhança do grunhido emitido pelo roedor. A
referência à India poderia ser explicada pela denominação primitiva que se dava
na Europa ao Novo Mundo, de Indias Ocidentais, e também pelo comércio marítimo
com as "Indias", confundindo-se os navios procedentes do Oriente com
os do Ocidente. No Brasil o nome adotado poderia ter sido uma herança do
português de Portugal no período colonial.
O nome em
inglês tem suscitado muitas dúvidas, havendo, pelo menos três hipóteses: [9]
a) As pessoas
acreditavam que as cobaias fossem realmente de Guiné, porque os navios procedentes
da América do Sul faziam escala para abastecer na costa ocidental da África, no
litoral correspondente à antiga possessão portuguesa.
b) A cobaia era
vendida ao preço de um guiné cada. "Guinea" era uma antiga moeda
inglesa.
c) Guinea poderia
ser tão somente confusão com Guiana, de onde procediam as cobaias levadas para
a Europa pelos holandeses. Esta hipótese é considerada menos provável.
Em virtude de
suas características biológicas, a cobaia tornou-se um dos animais preferidos
para experimentos científicos na área biomédica, a tal ponto que a palavra cobaia adquiriu uma segunda acepção, de
"campo ou objeto de experiência" e passou a designar "qualquer
pessoa ou animal que se submete a experiências com fins científicos" [16].
J.L.Soares,
Esta
interpretação não encontra amparo nos antecedentes históricos e linguísticos da
palavra cobaia e deve ser vista
apenas como uma proposta do autor.
Considerando-se as origens da palavra cobaia
e sua adoção pelo latim científico da nomenclatura binária para designar uma
espécie de roedor, somos de parecer que a mesma deve prevalecer sobre cobaio.
_______
1.
LOKOTSCH, K. Etymologisches Wörterbuch der
amerikanischen (indianischen) Wörter im Deutschen, 1926. Apud Nascentes, A., 1932.
2.
KATZNER, K. The languages of the world, 1986
3.
FRIEDERICI, G. Amerikanistisches Wörterbuch.
4.
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5.
MAHADO,
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6.
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7.
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16.
MICHAELIS
- Moderno dicionário da língua
portuguesa, 1998.
17. SOARES, J.L. - Dicionário etimológico e
circunstanciado de biologia, 1993.
O termo cholecystokinine foi proposto por Ivy e
Oldberg, em 1928, para designar o hormônio produzido pela mucosa duodenal,
distinto da secretina, e dotado de ação sobre a vesícula biliar.[1] Do inglês o
termo passou para outros idiomas com as adaptações mórficas necessárias: cholécystoquinine em francês, cholecistochinina em italiano, colecistoquinina em espanhol.
Em português
temos as formas colecistocinina e colecistoquinina e devemos optar por uma
delas. A questão de usar-se c ou qu em determinadas palavras derivadas
do grego tem sido objeto de considerações por parte de muitos lexicólogos e já
foi discutida a propósito do termo anquilose.
Colecistocinina compõe-se dos seguintes elementos gregos: kholé,
bile + kýstis, bexiga (vesícula) + kine, do verbo kinéo,
mover + sufixo ina, utilizado para designar derivados químicos de várias
espécies.
Acha-se bem
estabelecido que as palavras que se escrevem em grego com K (kapa) devem grafar-se com C
em português, ao contrário daquelas iniciadas por X (khi), em que se preserva
o som de k ou ch, atualmente representado por qu.
Numerosos são
os termos formados a partir de palavras gregas iniciadas por K (kapa) que se escrevem com c
A maioria dos
autores propugna obediência a esta norma, advogando a padronização da escrita
para todos os casos em que a mesma se aplica. Assim, os derivados de kéras,
keratós (corno, chifre), como queratina, queratose, queratite,
deveriam escrever-se com c: ceratina, ceratose, ceratite etc. Do
mesmo modo, ancilose (do grego ágkylos,
curvo) deveria substituir anquilose.
Há palavras
que já não podem ser modificadas, por estarem ungidas pelo uso popular. É o
caso de querosene, derivado de kéros
(cera, gordura), e que deveria ser cerosene.
Nascentes se
insurge contra a generalização desta regra. "As formas modernas", diz
ele, "mantêm os sons do grego. É um absurdo querer fazê-las passar por uma
evolução que não tiveram".[2]
Em relação à colecistocinina, parece preferível a
grafia com a letra c, a exemplo de colecistocinético. Acresce notar que a
denominação de cininas é
correntemente empregada para designar um grupo de peptídios com ação vasodilatadora,
dos quais o protótipo é a bradicinina,
descoberta e assim batizada pelos pesquisadores brasileiros Rocha e Silva,
Beraldo e Rosenfeld.[3]
Por analogia,
teríamos de optar também por cinases, em
lugar de quinases. Teríamos condições
de fazer prevalecer enterocinase sobre
a antiga e consagrada forma enteroquinase?
E que dizer das quinases aldônicas,
como a hexoquinase, fosfoglicoquinase,
frutoquinase e outras enzimas do mesmo grupo?
Como diz
Nascentes, a língua é cheia de incoerências. Seria utópico desejar uma solução
única para todos os casos semelhantes. Continuaremos escrevendo anquilose, queratina, hexoquinase,
querosene, ao lado de cefaleia,
cistocele, ancilóstomo e colecistocinina
_________
1. IVY, A.C.,
OLDBERG, E. Am. J. Physiol. 86:599-613, 1928
2. NASCENTES, A. Dicionario etimológico resumido. Rio
de Janeiro, INL, 1966.
3. ROCHA E SILVA, M. et al. Am. J. Physiol. 156:216, 1949
Conta-se que
em uma reunião por ocasião de uma epidemia de cólera, os seus participantes
passaram a maior parte do tempo discutindo se deviam dizer "o cólera"
ou "a cólera". Se non è vero è
ben trovato.
A palavra cólera, em português, tanto
exprime o sentimento de ira, raiva, fúria, quanto designa a doença produzida
pelo vibrião colérico. Na primeira acepção a palavra é feminina; na segunda o
gênero tem sido motivo de interminável controvérsia.
Na primeira
acepção, a palavra cólera
tem sua raiz etimológica no grego kholé, bile, através do latim cholera,
pois se acreditava, conforme a doutrina da patologia humoral que norteou o
pensamento médico por mais de dois milênios, que o excesso de bile no organismo
tornava a pessoa de mau humor, irascível, donde os adjetivos colérico,
encolerizado e bilioso.
Na Ilíada, o
grande poema épico de Homero que narra a guerra de Tróia, já se encontram
referências ao vínculo entre a bile kholé e a cólera orgé,
no sentido de ira, como neste trecho: "O filho de Peleu, transido de dor
hesitou... se mataria o Átrida, ou se acalmaria a sua bilis e conteria a sua cólera"
(Canto I), ou nesta outra passagem: “Decerto que Aquiles não tem bile no
coração, ele deixa fazer de tudo" (Canto II). [1]
Embora a
maioria dos léxicos indique o mesmo étimo para cólera, no sentido de ira, e cólera,
doença, o nome da doença aparentemente não se vincula à bile. Três outros
étimos têm sido admitidos. São eles:
1. Do grego
kholás, ádos, intestinos. [2]
2. Do grego kholédra,calha para escoamento das águas. [3][4]
3. Do hebraico choli-ra,
doença terrível. [5]
É importante
mencionar que o termo kholéra, no sentido de doença, já existia no grego clássico
e foi usado por Hipócrates para designar o estado mórbido caracterizado por
intensa diarreia, vômitos e desidratação. Em sua obra Epidemias, livro
V, encontramos a seguinte descrição: "Em Atenas, um homem foi acometido de
cólera; ele tanto vomitava como evacuava; ele sofria; nem os vômitos nem as
evacuações podiam ser detidas; a voz estava débil; ele não podia sair do leito;
os olhos baços e escavados; ele tinha espasmos provenientes do ventre e soluços;
as evacuações alvinas eram muito mais abundantes que os vômitos". [6]
Observe-se a caracterização das fezes como alvinas.
Celsus (
A primeira
descrição da doença com carácter epidêmico, embora na maioria das obras de
referência seja atribuída a Garcia da Orta [8][9], na verdade se deve a Gaspar
Correia, em sua clássica obra Lendas da
India, e se refere à epidemia que
grassou em Goa, em 1543. Garcia da Orta certamente presenciara essa mesma
epidemia, o que lhe permitiu descrever um caso grave e os sintomas da doença a
que os nativos chamavam de morxi e os
colonos portugueses de mordexi. [10]
A denominação
de cólera asiático se deve à
epidemia que se iniciou na Índia em 1814 e estendeu-se por toda a Europa com
vários surtos entre 1830 e 1879. [11] Sua natureza contagiosa e transmissão
pela água foi sugerida por Parkin, em 1832, [12] e demonstrada na Inglaterra
por John Snow em 1849, [11] antes, portanto, da descoberta do vibrião colérico
por Koch em 1884.
Em latim, que
era a língua utilizada em comunicações científicas até o século XVIII, a doença
de caráter epidêmico era chamada cholera morbus, de que resultou cólera morbo
O gênero da
palavra cólera, doença,
tem dividido as opiniões dos mais abalizados linguistas e médicos. O mais
intransigente defensor do gênero feminino foi Cândido de Figueiredo, eminente
lexicógrafo que se preocupou com a terminologia médica.
Ao final do
século passado e início do século XX manteve ele acesa polêmica pela imprensa,
em Portugal e no Brasil, na defesa de seu ponto de vista. Chegava a ser
agressivo com os que defendiam o gênero masculino para cólera (doença), que ele atribuía à influência francesa na linguagem
médica. Seus argumentos e diatribes encontram-se reunidos em duas publicações: A cólera-morbo [15] e Vícios da linguagem médica. [16] Eis
algumas passagens coléricas de seus escritos:
"A França
pela boca de alguns médicos e pela pena de vários jornalistas que se não
preocupam com questões de linguagem, atirou cá para dentro com a beleza de o cólera; mas ainda estamos muito a
tempo de o enjeitar. Portanto, guerra a o
cólera como inimigo da língua portuguesa".
"O cólera foi provavelmente invenção de
médico pouco letrado".
"É certo que nenhum homem de letras aceita ou defende a moderna e errônea
costumeira de o cólera".
"A cólera
só existe nos corações desumanos e o
cólera nos míseros inimigos da higiene". "Se eu fosse desumano
não se me dava que a Providência brindasse com um ataque da cólera os míseros e mesquinhos que se envenenaram com o cólera".
Eminentes
filólogos, como Leite de Vasconcelos [17] e médicos que se destacaram por sua
cultura linguística, como Ramiz Galvão [18] e Pedro Pinto [19] também optaram
pelo gênero feminino para a palavra cólera
(doença).
Os léxicos da
língua portuguesa se dividem ao atribuir o gênero à palavra cólera (doença). Dão-lhe o gênero
masculino Constâncio (1845), Eduardo de Faria (1856), Domingos Vieira (1871),
Aulete (1881), Plácido Barbosa (1917), Nascentes (1961); adotam o gênero
feminino Lacerda (1874), Laudelino Freire (1957), Silveira Bueno (1963), Mendes
de Almeida (1981), Cegalla (1996), Aurélio Ferreira (1999); aceitam os dois
gêneros Rey (1999), Houaiss (2001), Borba (2002), e o Vocabulário Ortográfico
da Academia Brasileira de Letras (1999).
A maior
justificativa para optar-se pelo gênero masculino seria de ordem semântica. A
distinção entre duas acepções diferentes de uma mesma palavra pelo gênero
gramatical é um fenômeno comum, que se observa não apenas na língua portuguesa,
como em outros idiomas. Plácido Barbosa analisa detidamente o duplo gênero da
palavra cólera e cita vários outros exemplos semelhantes, como o cabeça e a
cabeça, o capital e a capital, o cura e a cura, o guarda e a guarda, o lente e
a lente, etc. Tal recurso, diz ele "não constitui erro, senão que é um
processo natural pelo qual as línguas vivas evitam, nesses casos, a ambiguidade
e a confusão." [20]
Em espanhol
encontramos a diferenciação semântica da palavra cólera pelo gênero gramatical.
Usa-se o feminino para o sentido de irritação, ira, e o masculino para a
doença. [21]
Em francês a
distinção é feita não somente pelo gênero como pela morfologia e acento tônico
da palavra. Escreve-se colère,
feminino, para a acepção de irritação, ira; e choléra, masculino, para designar a doença. [22]
Em italiano a
diferenciação é também completa. Grafa-se cóllera (com duplo l, proparoxítono e feminino) para a acepção de irritação, ira; e colera (com um único l, paroxítono
e masculino) para a doença. [23]
Parece, pois,
razoável e lógico admitir-se, também em português, o gênero masculino para a
doença, e o gênero feminino para o sentido comum de ira, raiva, fúria.
Nas
publicações oficiais tem sido usado de preferência o gênero masculino, como
ilustra o artigo inserido na Súmula 41,
publicação da Fundação Oswaldo Cruz, de abril de 1991, no qual foi noticiada a
reativação da Comissão Nacional de
Prevenção do Cólera, em virtude do reaparecimento da doença em
carácter epidêmico, atingindo os países sul-americanos.
Ultimamente,
por influência da mídia, vem prevalecendo o gênero feminino até mesmo em
publicações oficiais do Ministério da Saúde.
Em
________
1.
HOMERO.
A Ilíada. Publ. Europa-América Lda.,
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2.
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16. FIGUEIREDO, C. Vícios da linguagem
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orthographico e prosodico das palavras portuguesas derivadas da língua grega,
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19. PINTO, P.A. Dicionário de termos
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20. BARBOSA, P. Dicionário de terminologia
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21.
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http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/idb2008/Com_D0109.pdf Acessado em 18/11/2009.
Ambos os
termos são usados com frequência em trabalhos científicos. Diz-se, por exemplo:
"colheita de material para exame", "colheita de sangue",
"colheita de urina". Diz-se também "coleta de dados",
"coleta de amostras", "coleta de exemplares" (insetos,
plantas etc.).
São sinônimos?
Podemos empregar indistintamente colheita
e coleta?
Tanto um como
o outro vocábulo provêm do particípio passado plural do verbo latino colligere, que deu origem, em português, aos
verbos colher e coligir, o primeiro através do latim vulgar e o segundo por via
erudita.
Coleta, entretanto, já existia como substantivo no latim
clássico (collecta), significando tanto contribuição pecuniária, como
reunião de várias coisas.[1] A partir de coleta formou-se o verbo coletar com sentido análogo aos dois já
mencionados.
Colheita e coleta
são, portanto, formas divergentes, isto é palavras diferentes oriundas da mesma
palavra latina, no caso o verbo colligere.
As palavras
divergentes quase sempre adquirem significado próprio com a evolução da língua.
"Apesar da origem comum, tais formas não são geralmente sinônimas. A
diferença de aspecto mórfico importa quase sempre distinção de
sentido".[2]
Embora colheita e coleta possam equivaler-se em muitas situações, adquiriram ambos os
termos significados próprios. Usa-se colheita
tanto para expressar a safra agrícola de um determinado período, como o ato de
colher ou a apanha desses produtos. Em um sentido mais genérico, colheita é tudo aquilo que se obtém,
que se colhe. Coleta é usado com
referência a impostos, arrecadações para obras beneficentes ou despesas comuns.
Significa também o ato de recolher, sejam contribuições dadas espontaneamente
como auxílio para um determinado fim, sejam objetos, correspondências, votos
etc.
No tocante à
linguagem médica colheita é usado de
preferência quando se colhe alguma coisa individualmente (colheita de sangue,
colheita de urina, etc.) e coleta
quando se trata da obtenção de material, dados, amostras ou informações de uma
coletividade ou de arquivos que os contenham.
_________
1.
SARAIVA,
F.R.S. Dicionario latino-português, 1993.
2. COUTINHO,
I.L. Pontos de gramática histórica,
1962, p. 235.
As duas formas
são usadas para nomear o intestino grosso. Qual a preferível?
A palavra colo é exemplo do que se denomina em
gramática histórica de forma convergente, ou seja, de dupla origem, convergindo
ambas para a mesma grafia em português.
De um lado
provém do latim collum, com o sentido de pescoço[1], acepção que passou para o
português com ampliação do significado, servindo para designar a região
compreendida pela base do pescoço, face anterior do tórax e ombros. É muito
empregada nas expressões familiares "levar ao colo", "trazer ao
colo", referindo-se ao modo de portar uma criança, encostada ao peito. Por
extensão, adquiriu o mesmo sentido de regaço, ou seja, o espaço situado entre a
cintura e os joelhos de uma pessoa na posição sentada.
Talvez pela
semelhança com o pescoço, collum passou a indicar, em
terminologia médica, a porção estreitada de um órgão (colo uterino, colo da
vesícula biliar etc.).
De outro lado,
o vocábulo colo provém do grego kólon,
termo usado por
Aristóteles[2] e Galeno[3] como sinônimo de intestino grosso, e que nos veio
através do latim colum (com um único l).
Temos, assim,
dupla origem para colo, razão pela
qual alguns autores preferem manter separadamente as duas formas, com
significados distintos: colo para
designar a porção estreitada de um órgão, e cólon
para o intestino grosso.
Essa
preocupação, entretanto, não subsiste, se considerarmos que existem numerosas
palavras que se grafam da mesma maneira e têm significados distintos. É o seu
contexto na frase que lhe dá o verdadeiro sentido.
A terminação on, tônica ou átona, é avessa à índole
da língua portuguesa. Segundo Ramiz Galvão, "os nomes neutros da segunda
declinação grega, terminados em on, passam para o latim com a
terminação um e para o português com o
final, quando não mudam de significação".[4] Cita como exemplo vocábulos
como ísquio, hipocôndrio, bálsamo,
sésamo, polígono etc.
Em latim
coexistiram as formas colum e colon com o significado
de intestino grosso, o que pode, talvez, explicar a permanência do n final em português, como exceção à
regra.
Em espanhol,
ilaliano, francês e inglês usa-se colon,
o que constitui um forte argumento para aceitarmos esta mesma grafia em
português, em benefício da desejada uniformidade da terminologia científica.
Dos léxicos
mais modernos, somente o Aurélio século
XXI opta pela forma colo, [5]
enquanto os demais consultados registram colo,
com remissão para cólon, o que indica
preferência para esta última forma.
A preferência
da classe médica brasileira tem sido para cólon.
Em um levantamento de 101 artigos publicados em periódicos médicos nacionais e
indexados durante 20 anos (1965-1984), cólon
foi empregado 80 vezes e colo 21, o
que dá uma proporção de aproximadamente 4:1 a favor de cólon e seus compostos (megacólon, dolicocólon, etc.).[6-8]
Na contramão,
entretanto, a Sociedade Brasileira de Anatomia adotou colo como tradução do latim colon na terminologia anatomica
oficial.[9]
Em relação à
forma derivada adjetiva usa-se, de preferência, cólico (a) (artérias
cólicas, veias cólicas). Firmou-se, entretanto, para o exame endoscópico do
intestino grosso o termo colonoscopia,
em lugar de coloscopia.
_________
1. SARAIVA,
F.R.S. Novíssimo dicionário latino-português,
1993
2. ARISTÓTELES. De partibus animalium. The Loeb
Classical Library, 1983, p. 296
3. GALENO - On the natural faculties. The Loeb
Classsical Library, 1979, p. 313
4. GALVÃO, B.F.R.
Vocabulário etymologico, ortographico e prosodico das palavras portuguesas
derivadas da língua grega, 1909.
5. FERREIRA,
A.B.H. Novo dicionário da língua portuguesa, 1999.
6.
IBBD. Bibliografia brasileira de medicina, 1965-1972.
7.
IBICT - Bibliografia brasileira de medicina. Rio de Janeiro, 1973-1979.
8. BIREME.
Bibliografia brasileira de Medicina. São Paulo, 1980-1984.
9. SOCIEDADE BRASILEIRA DE ANATOMIA.
Terminologia anatômica. São Paulo, Ed. Manole, 2001, p.63.
Coma,
como termo médico, provém do grego kõma, que significa sono profundo. O
estado de coma é sempre patológico e difere do sono fisiológico por não se
reverter com os estímulos externos. Para o sono normal possui a língua grega
outra palavra, hýpnos, que deu
origem a vários termos médicos, como hipnose,
hipnoanálise, hipnógeno, hipnoanestesia, hipnoterapia etc.
A palavra
kõma
é anterior a Hipócrates e foi empregada por Homero na Ilíada e Odisseia.[1]
Hipócrates, em
seus livros Epidemías I e III e em Prórretikon, usou tanto a palavra kõma,
como seu derivado kõmatodes. [2]
Como termo
médico, a palavra coma foi
introduzida na língua francesa no século XVII; comateux, em 1616, por J. Duval, e coma, por Thévenin, em 1648.[3]
Em inglês foi
incorporada ao vocabulário médico em 1646, por Brown.[4]
Em português
já aparece registrada no dicionário de Constâncio, de 1845, com a definição de
sonolência letárgica.[5]
Há em grego duas
outras palavras semelhantes a kõma, de que resultaram formas convergentes em português.
A primeira
delas é kóme, cabeleira,
donde cometa, em alusão à
nebulosidade que envolve o seu núcleo e que se continua na cauda, à maneira de
uma cabeleira. Em linguagem poética, coma é usado com o sentido de cabelo
comprido, cabeleira. Também se usa em relação à crina de cavalo, juba de leão,
pelos ou penas que adornam a cabeça ou o pescoço de alguns animais.
O verbo latino
como,
comere,
traduz-se por pentear, compor o cabelo e não deve ser confundido com o verbo comedo,
comedere, que deu origem ao verbo comer
em português.[6]
Camões
empregou coma referindo-se à copa das árvores, no
que foi seguido por outros poetas: "As árvores agrestes que os outeiros
têm com frondente coma enobrecidos." [7]
A segunda
palavra grega é kómma (com duplo m),
cujo sentido é de fragmento, período curto de um discurso; donde coma, com o sentido de vírgula,
aspas, ou como notação musical.
O gênero
gramatical da palavra coma varia com a acepção. Como termo
médico, é do gênero masculino (o coma), enquanto nas demais acepções é do
gênero feminino (a coma), muito embora as palavras de origem grega terminadas
em ma sejam, de regra, do gênero
masculino.
_________
1.
LIDDELL, H.G., SCOTT, R. A greek-english
lexicon, 1983.
2.
HIPPOCRATES. The Loeb Classical Library, 1972.
3.
DAUZAT,
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4.
OXFORD
ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 1978.
5.
CONSTANCIO,
F.S. Novo dicionário crítico e etimológico da língua portuguesa, 1845.
6.
SARAIVA,
F.R.S. Novíssimo Dicionario latino-português, 1993.
7.
CAMÕES,
L. Obras completas. Os Lusíadas IX.57, 1970, p. 1352..
COMEDON (ES), COMEDÃO (ÕES), CÔMEDO (S)
Os termos
acima provêm do latim comedo, comedor, do verbo comedo,
edere, comer, alimentar-se. Comedo, em latim, designava,
primitivamente, larvas de moscas que se alimentam de carne. Os antigos autores
admitiam que a matéria esbranquiçada, de forma cilíndrica, que se forma nos
folículos pilossebáceos da pele, era resultante de um parasito das glândulas
sebáceas, razão pela qual foi o termo empregado por Hebra para designar tais
formações.[1]
Em inglês, o
termo comedo foi introduzido em
1866[2] e, em francês, comédon se
encontra registrado, com definição pormenorizada, no dicionário de Littré e
Robin, de 1873.[3]
Os comedones caracterizam o acne vulgar e
"são constituídos pelo acúmulo de gordura e células córneas dentro do
folículo pilossebáceo".[4]
Apresenta-se o
comedon como uma pequena saliência
branco-amarelada, em cujo vértice, às vezes deprimido, se distingue um ponto
negro, correspondente ao orifício do ducto excretor. Por esse aspecto é também
chamado, em inglês, de blackhead.
Espremendo-se a pele desprende-se um pequeno cilindro vermiforme, escuro ou
pardacento na sua extremidade externa e branco na sua extremidade interna. A
cor escura da extremidade externa se deve à oxidação da matéria córnea em
contato com o ar, e não à deposição de sujidades, como se acreditava.[5]
O
aportuguesamento do vocábulo corresponde a comedão
e comedões conforme se encontra
averbado nos dicionários médicos de Pedro Pinto[6] e Céu Coutinho.[7]
O Prof.
Francisco Rabelo, uma das maiores autoridades em dermatologia, contudo, grafa cômedo
Além das três
formas apontadas que integram o vocabulário médico, utiliza-se em linguagem
popular a denominação de cravo,
certamente pela disposição anatômica da formação sebácea, adentrando a derme à
semelhança de um cravo que penetra no tegumento cutâneo.
O termo cravo se presta à confusão por sua
polissemia. Além de designar um tipo especial de prego, uma variedade de flor,
uma especiaria e um instrumento musical, tem, em medicina, outro significado,
de vez que designa também a hiperqueratose que se desenvolve na região plantar
do pé, em forma de cone, que penetra profundamente a derme, causando dor.
Embora os comedones, comedões ou cômedos não sejam produzidos por
parasito, como se pensava, por vezes se encontram associados à presença de um
ácaro chamado Demodex foliculorum,
cujo habitat é o folículo sebáceo.[9]
Por mais
impróprio que seja o termo, dificilmente o mesmo será abandonado. Das três
formas em uso, a menos aconselhável é, sem dúvida, comedon. Dos léxicos modernos não especializados em termos médicos,
o Michaelis (1999) e o
dicionário Houaiss (2001) registram apenas comedão.
Assim também o Vocabulário da Academia Brasileira de Letras (1999).
A palavra final deve caber aos
dermatologistas.
_________
1. SKINNER, H.A. The origin of medical terms, 1961,
p. 126.
2.
3. LITTRÉ, E., ROBIN, Ch. Dictionnaire de
médecine, de chirurgie, de pharmacie, de l’art vetérinaire et des sciences qui
s'y rapportent, 1873.
4. PARDO
CASTELLÓ, V. Dermatologia y sifilografia, 1945, p. 44.
5. ROCHWEGER,
M. Acne. Clin. Terap. 11: 826-828, 1982.
6. PINTO, P.A.
Dicionário de termos médicos, 1962.
7. COUTINHO,
A.C. Dicionário enciclopédico de medicina, 1977.
8. RABELLO,
F.E. Nomenclatura dermatológica, 1974, p. 19.
9. PESSOA, S.B.
Parasitologia médica, 1958, p. 835.
10. MICHAELIS.
Moderno dicionário da língua portuguesa, 1998
11. HOUAISS, A., VILLAR, M. Dicionário Houaiss da
língua portuguesa. 2001.
12. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS .
Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 1999.
A
concordância do verbo com o sujeito da oração apresenta, por vezes, algumas
dificuldades com as quais tropeçamos na redação de artigos científicos.
Encontramos
nas gramáticas a orientação necessária baseada em exemplos colhidos em textos
de escritores clássicos.[1]
Julgamos útil,
entretanto, transpor para a linguagem médica as regras de concordância verbal
daqueles casos que geralmente nos trazem dúvidas.
A regra básica é
de que o verbo concorda com o sujeito em número e pessoa. Em determinadas
construções, no entanto, quando se trata de sujeito composto, a condição de
pluralidade depende de interpretação e, em muitos casos, admite-se a
concordância tanto no singular como no plural. Damos, a seguir, alguns exemplos:
1.
Os sujeitos na 3a. pessoa
ligados pela conjunção e exigem o
verbo no plural:
Ex.: Dieta e exercício são
essenciais ao diabético.
Tratando-se de palavras sinônimas ou que
expressam a mesma ideia, o verbo
deve ficar no singular.
Ex.: Habilidade e destreza revela o bom cirurgião
2
Quando os sujeitos forem resumidos em
uma palavra como tudo, nada, nenhum, o
verbo ficará no singular.
Ex.: As náuseas,
a febre, a dor na fossa ilíaca direita, o sinal de Blumberg positivo, tudo indicava
tratar-se de apendicite aguda.
3.
Quando os sujeitos vierem após o verbo,
admite-se a concordância com o mais próximo, no singular, ou com a totalidade,
no plural.
Ex.: No singular
– Na hemiplegia observa-se
contratura muscular, marcha ceifante e sinal de Babinski.
No plural – Confirmaram a hipótese diagnóstica a
ultra-sonografia e a tomografia computadorizada.
4.
Sendo o sujeito o pronome quem o verbo fica de preferência no
singular.
Ex.: No hospital
são as auxiliares de enfermagem quem mede
a temperatura
e toma a pressão arterial dos doentes
internados.
Admite-se também
a concordância com a palavra que antecede o pronome.
Ex.: Fui eu quem operei o paciente, em vez de fui eu
quem operou o paciente.
5.
Nos casos de sujeitos da 3a.
pessoa do singular, ligados pela conjunção nem,
o verbo poderá
ficar no singular ou no plural.
Ex.: No singular – Nem a intubação traqueal, nem a massagem cardíaca reanimou o paciente.
No plural – Nem os analgésicos comuns, nem os opiáceos aliviaram a dor.
6.
Nos casos de sujeitos ligados pela
partícula com, o verbo poderá ficar
no singular ou no plural. Usa-se o singular quando se pretende realçar a ação
do primeiro deles e o plural para indicar igualdade de cooperação entre os
sujeitos.
Ex.: No
singular – O professor com seus assistentes
operou o paciente.
No
plural – O professor com seus
assistentes operaram o paciente.
7.
Os sujeitos ligados por assim como, tanto...como, não só...mas
também pedem o verbo no plural.
Ex.: A anamnese,
assim como o exame físico são imprescindíveis em qualquer
especialidade.
Tanto a história clínica, como
a icterícia e o prurido cutâneo sugerem tratar-se de colestase extra-hepática.
Não
só os corticóides, mas também imunodepressores
como a azatioprina
estão indicados no tratamento da doença de Crohn.
8.
Estando os dois sujeitos ligados por bem como, o verbo concorda com o
primeiro
Ex.: Este
antibiótico, bem como todos os macrolídeos, é
eficaz nas infecções urinárias.
9.
Quando a expressão um e outro, uma e outra figura
como sujeito da frase, o verbo tanto pode estar no singular como no plural.
Ex.: No singular – Um e outro tratamento pode ser empregado.
No plural – Uma
e outra técnica foram usadas, ambas com bons resultados.
10. Quando
se trata do verbo ser, a concordância
se faz de preferência com o predicado,
salvo se o sujeito for uma pessoa. Neste caso o verbo fica no singular.
Ex.: A causa da
hipopotassemia foram os vômitos.
11. Com
o sujeito representado pela expressão mais
de um, mais de uma, é preferível o verbo no singular. Contudo,
também se usa no plural.
Ex.: No singular - Mais de um médico cuidou
deste paciente.
No plural – Mais de um pesquisador chegaram à mesma conclusão.
12. Com
a expressão um dos...que, uma das...que, o
verbo pode ser usado indiferentemente no
singular ou no plural.
Ex.: No singular – Carlos Chagas foi um dos
cientistas que mais contribuiu para a projeção da medicina
brasileira no exterior.
No plural – A descoberta dos raios-X foi um dos
acontecimentos mais notáveis que marcaram o início da era tecnológica da
medicina.
13. O
sujeito representado por um substantivo coletivo seguido de complemento no
plural admite o verbo indiferentemente no singular ou no plural.
Ex.: No singular – Grande número de publicações médicas
brasileiras não se encontra indexada.
A maioria dos estudantes tomou parte na manifestação de protesto.
No plural - Grande
parte dos recursos destinados à saúde
são mal aplicados,
A maioria dos médicos em atividade possuem algum tipo de emprego e trabalham em mais de um local.
14. Os
sujeitos ligados pela conjunção ou admitem
o verbo tanto no singular como no plural. O verbo ficará obrigatoriamente no
singular se os sujeitos forem sinônimos.
Ex.: A tripanossomíase
americana ou doença de Chagas é
endêmica nos países sul-americanos.
Há outras particularidades de concordância verbal que não
foram aqui incluídas.
Limitamo-nos aos casos mais comuns e de maior interesse
para a linguagem médica.
________
1. TORRES, A.A. Moderna
gramática expositiva da língua portuguesa, 1962, p.138-156.
CONCORDÂNCIA VERBAL NA VOZ
PASSIVA
Define-se voz
passiva aquela em que o sujeito da oração sofre ou recebe a ação em lugar de
praticá-la. A voz passiva pode ser analítica ou sintética.
Analítica quando se expressa mediante um verbo auxiliar, ser ou estar, seguido de um particípio. Ex.: as médias são
calculadas..., os resultados foram obtidos..., os valores estão representados,
etc.
Sintética quando se utiliza o pronome apassivador se em lugar do verbo auxiliar. Neste
caso, "conjuga-se o verbo principal na voz ativa, na mesma forma em que
estava conjugado o verbo auxiliar, que é retirado, dando lugar ao pronome se".[1]
Assim, mudando
os exemplos acima para a forma sintética, temos: "Calculam-se as
médias...", "Obtiveram-se os resultados...",
"Representam-se os valores...etc".
Tornou-se
comum, ultimamente, em linguagem técnica, usar-se a forma sintética com o verbo
no singular e o sujeito no plural. Os seguintes exemplos foram colhidos em
dissertações e teses de pós-graduação:
"Estabeleceu-se
os critérios", "utilizou-se procedimentos...", "obteve-se
cortes...", "descreveu-se infiltrados...", "encontrou-se
núcleos...", "visualizou-se as imagens...", "separou-se
dois grupos...", "observou-se outros sintomas",
"empregou-se duas diferentes técnicas...", "relacionou-se os
achados...", "desenhou-se as figuras...". "calculou-se os
índices...", "adotou-se as normas da ABNT...", etc.
Tal prática
parece indicar uma tendência da língua e é possível que, no futuro, seja
tolerada; até o presente, no entanto, não é admitida pelos gramáticos e
defensores do modelo culto da língua portuguesa, devendo ser evitada. O verbo,
nos exemplos citados, deve ir para o plural, concordando com o sujeito da voz
passiva, que vem depois do pronome se.
Deve
escrever-se, portanto: "estabeleceram-se os critérios",
"utilizaram-se os procedimentos...", "obtiveram-se
cortes...", "descreveram-se infiltrados...",
"encontraram-se núcleos...", "visualizaram-se as
imagens...", "separaram-se dois grupos...", "observaram-se
outros sintomas", "empregaram-se duas diferentes técnicas...",
relacionaram-se os achados...", "desenharam-se as figuras...", "calcularam-se
os índices...", "adotaram-se as normas da ABNT", etc.
_________
1. LEDUR, P.F. - Português Prático, 1990, p.97.
O adjetivo consistente vem sendo usado com frequência em laudos de exames radiológicos,
ultrassonográficos, histopatológicos, e outros, com o sentido de sugestivo,
compatível, congruente, concordante.
"Os
achados são consistentes com o diagnóstico de..." Esta frase termina quase
sempre os relatórios bem elaborados que procuram oferecer ao clínico um parecer
conclusivo sobre a afecção que está sendo investigada.
Segundo o Aurélio,[1] consistente significa:
1. Que é formado,
constituído; que consta, consiste.
2. Que se resume,
se cifra, se reduz.
3. Duro, sólido.
4. Espesso,
grosso.
Outros léxicos
dão ainda ao adjetivo consistente o
significado de constante, estável, duradouro, subsistente. [2][3]
Nenhum
dicionário da língua portuguesa averba o adjetivo consistente com o
sentido de sugestivo, compatível, congruente, concordante.
Já na língua
inglesa, consistent, além de suas
outras acepções, tem também este significado. No Webster's New Dictionary of Synonims [4] encontram-se registrados
como sinônimos de consistent os
adjetivos congruous, consonant,
compatible, congenial, sympathetic.
A influencia
dos textos médicos em língua inglesa e as más traduções conferiram ao adjetivo consistente um significado que ele
não tem na língua portuguesa. É mais um vocábulo que entra para o portuglês, dialeto médico que se vem
formando às custas da língua inglesa.
Melhor seria,
portanto, terminar os laudos com a frase "os achados são sugestivos
de"...ou "os achados são compatíveis com..." ou "os achados
são concordantes com..." em lugar de "consistentes com...".
_________
1.
FERREIRA,
A.B.H. Novo dicionário da língua portuguesa,1999.
2.
FREIRE,
L. Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa, 1957.
3. MICHAELIS Moderno dicionário da língua
portuguesa, 1998.
4. WEBSTER’S
NEW DICTIONARY OF SYNONYMS, 1978.
CORRENTE DE
INJÚRIA
CORRENTE DE LESÃO
Ambas
as expressões acima são usadas para designar a diferença de potencial que se
estabelece em consequência da redução do suprimento de oxigênio em determinada
área do miocárdio, que se traduz no eletrocardiograma por supra ou infra-,
desnivelamento do segmento S-T, na dependência da derivação utilizada. Esta
alteração é característica do infarto agudo do miocárdio.
A expressão current of injury é própria da língua
inglesa e tem sido traduzida em português ora por corrente de injúria, ora por corrente
de lesão. Os médicos habituados à leitura do inglês empregam frequentemente
corrente de injúria em lugar de corrente de lesão.
A palavra injury, em inglês, tem a acepção de dano
físico, ferimento, lesão, sendo usada em expressões como bodly injury ou personal
injury (lesão corporal), battle
injury (lesão em combate), minor
injury (ferimento leve).[1]
A palavra injúria em português tem sentido diverso
e é habitualmente usada para exprimir ofensa à dignidade de uma pessoa. Por
extensão, significa insulto, agravo, prejuízo, dano moral. Injuriar é assacar
contra a honra de uma pessoa. O Código penal brasileiro, em seu artigo 140,
estabelece para o crime de injúria pena de detenção de um a seis meses.[2]
Em medicina, a
palavra injúria por vezes é empregada no sentido de ferimento causado por
traumatismo. A expressão vernácula correspondente à current of injury, entretanto, não é corrente de injúria, como se vê em algumas traduções, e sim corrente de lesão, como se pode ler em
bons livros de autores brasileiros.[3][4]
_________
1.
SELL, L.L. English-portuguese comprehensive
technical dictionary. São Paulo,
Mc.Graw Hill do Brasil, 1974.
2.
CÓDIGO
PENAL, 1985, p. 154
3.
LENGYEL,
L. Eletrocardiografia clínica. São Paulo, Sarvier, 1974.
4.
TOCCHIO, H. Interpretação clínica do eletrocardiograma. São Paulo, Liv.
Atheneu, 1986.
CRASE
Na redação de textos médicos frequentemente surgem dúvidas quanto ao emprego da crase. Antes de particularizarmos devemos recordar algumas noções básicas e principais normas que regem o uso da crase.
A palavra crase origina-se
do grego krasis, através do latim crasis, com o sentido de mistura. [1] Consiste a crase na fusão de duas vogais idênticas. No caso
da fusão da preposição a com o
artigo definido a(s) ou com o
pronome demonstrativo a(s) a crase é
indicada por um acento grave (à).
Emprega-se igualmente o acento grave quando o pronome demonstrativo a(s) pode ser substituído por aquela.
Para
decidir se há ou não crase em determinadas locuções devemos ter em mente, em
primeiro lugar, as duas seguintes regras fundamentais:
2. Sempre que houver dúvida
devemos mentalmente substituir a palavra feminina por outra masculina; se a
partícula a se alterar em ao, usa-se o acento grave indicativo de
crase; se não se alterar trata-se da preposição a, que deve permanecer sem acento; se for substituída por o(s) trata-se de artigo definido, que também não comporta
acento.
Outras normas que poderão
nos orientar e que devemos observar: [2]
3.
Há palavras que não admitem a anteposição do artigo, tais como verbo, advérbio,
artigo indefinido (um, uma), pronome pessoal (ela, nós, vós), pronome demonstrativo
(esta, essa), pronome relativo (quem, cuja), pronome indefinido (cada, alguma,
alguém, toda, qualquer, ambas). Nestes casos, é óbvio que não há crase.
4. Diante de possessivos
femininos usados em função adjetiva (minha, tua, sua, nossa vossa), o acento é
facultativo.
5. Em locuções prepositivas
(à custa de, à espera de,) e locuções conjuntivas (à proporção que, à medida
que) precedendo nomes femininos, usa-se o acento.
6. Em locuções adverbiais
diante de nomes femininos (à vontade, às vezes, à vista) usa-se igualmente o
acento.
7. Usa-se acento diante de
palavras femininas após os verbos regidos pela preposição a (assistir a, responder a)
8. No caso do pronome
relativo qual, usa-se o acento sempre
que o antecedente for do gênero feminino. Quando o pronome é interrogativo, no
entanto, não há crase.
9. Usa-se acento antes de
adjuntos adverbiais de tempo e diante da palavra horas (à tarde, à noite, às 10 horas).
10. Constitui erro a
indicação de crase com o artigo no singular diante de um nome no plural.
Há outras particularidades de menor interesse
para a linguagem médica que se encontram nas gramáticas e publicações
especializadas.
Vistas estas noções básicas,
podemos listar algumas das locuções mais utilizadas e que, por vezes, geram
dúvidas: [3]
Com acento indicativo de
crase. Exemplos:
à direita
às
claras
à esquerda
às
expensas
à escolha
às
margens de
à evidência
às
ordens
à espera
às
vezes
à falta
chegar
à conclusão
à feição
dar
à luz
à força
estar
à altura
à frente
estar à
espera
à maneira
estar
à disposição
à medida
estar
à vista
à disposição
estar à
vontade
à primeira
vista
exceção à
regra
à proporção
faltar
às aulas
à raiz de
frente
à
à revelia
igual
à que
à risca
passar
à frente
à saída
saltar
à vista
à semelhança
à vontade
à vista
uma
à outra
a bem de
a
instância
a curta distância
a jusante
a pouca distância
a montante
a meia distância
de ponta a
ponta
a grande distância
de segunda a
sexta
a duas mãos
folha a
folha
a duras penas
frente a
comparecer a/à reunião face a/à
com respeito a/à
favorável a/à
contíguo a/à
junto
a/à
contrário a/à
graças
a/à
de encontro a/à
no tocante a/à
dar vazão a/à
próximo a/à
dirigir-se
a/à
rumo a/à
em frente a/à
semelhante a/à
_________
1. CUNHA, A.G. Dicionário etimológico Nova Fronteira
da Língua Portuguesa, 1986.
2. ANDRADE, A.L. A crase, 1958.
3. LUFT, C.P. Novo manual de português, 1995.
4. ACADEMIA BRASILEIRA DE
LETRAS - Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 1999.
_________
1.
ARISTÓTELES.
Historia animalium. The Loeb Classsical Library, 1979, ref. 513b, p.
374-377.
2.
SKINNER, H.A. The origin of medical terms,
1961, p. 35.
3.
MEYER-LUBKE, W.
Romanisches etymologisches Wörterbuch, 1972, p. 388.
4.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE ANATOMIA. Terminologia anatômica, 2001. p. 96.
A palavra cura já existia em latim com o
sentido primitivo de cuidado, atenção, diligência, zelo. Havia também o
verbo curo, curare, de largo emprego, com o significado de 'cuidar
de', 'olhar por', 'dar atenção a', 'tratar’.[1]
Como termo
médico, cura foi primeiramente usado na acepção de
‘tratamento’, conforme se lê em Celsus (séc. I DC) em seu livro III.9.1 : In hoc casu medici cura esse debet, ut
morbum mutet (Neste caso o cuidado
médico [ou do médico] é indicado para mudar o curso da
doença).[2]
A evolução
semântica da palavra cura,
tanto em latim, como nas línguas românicas, operou-se em várias direções,
sempre em torno da ideia de cuidar de, exercer ação
sobre’, tratar. Vejamos alguns exemplos:
Cura.
Pároco; cuida espiritualmente de seus paroquianos.
Curador.
Pessoa que cuida dos interesses de outrem ou de alguma instituição (donde curador
de menores, curador de família, curador de massa falida, conselho de curadores
etc.)
Curado
(queijo, peixe). Que recebeu um tratamento especial; o queijo, exposto ao ar
seco durante algum tempo; o peixe, exposto ao calor e à fumaça.
Curativo.
Limpeza e tratamento tópico de um ferimento.
Como termo de
medicina a mudança de significado decorreu do fato de que a cura, no sentido de
tratamento, na maioria das vezes, modifica o curso da doença e restabelece a
saúde do enfermo.
Deu-se, então,
a metonímia, na modalidade em que a mesma palavra passa a expressar tanto a
ação (no caso os cuidados médicos) como o resultado da ação (a recuperação da
saúde). A metonímia é um fenômeno comum de linguagem.
Assim, cura passou a significar
também o restabelecimento da saúde, a volta ao estado hígido, e esta nova
acepção sobrepôs-se à primitiva no entendimento geral e no próprio vocabulário
médico.
Em razão dessa
evolução semântica, curar pode ser
empregado tanto no sentido de tratar, cuidar de, como no sentido de debelar uma
enfermidade, de restituir a saúde, de sarar.
Sarar deriva do verbo latino sanare,
que se conservou intacto em italiano, e evoluiu para sanar em espanhol e sarar
Sarar é ficar são, recuperar a
saúde. Tanto pode ser empregado como verbo intransitivo (o doente sarou),
como transitivo direto (o médico sarou-a daquela doença) ou ainda na forma
pronominal (sarou-se do resfriado).[4]
_________
1.
SARAIVA,
F.R.S. Novíssimo Dicionario latino-português, 1993.
2.
CELSUS,
A.C. De Medicina, livro III.9.1. The Loeb Classical Library,
1971, p.266-8
3.
WILLIAMS,
E.B. Do latim ao português, 1961, p. 117
4. LUFT, C.P.
Dicionário prático de regência verbal, 1993, p. 475
DENGUE
A palavra dengue, de procedência espanhola,
tem pelo menos três acepções principais na sua língua de origem. O Diccionario de
No texto original lemos:
dengue. (De la onomat. deng, del
balanceo.) m. Melindre mujeril que
consiste en afectar delicadezas, males y, a veces, disgusto de lo que más se
quiere o desea.// 2. Esclavina de
paño, que llega hasta la mitade de la espalda, se cruza por el pecho, y las
puntas se sujetan detrás del talle. Es prenda de mujer.// 3. Pat. Enfermedad
febril, epidémica y contagiosa, que se manifiesta por dolores de los miembros y
un exantema semejante al de la escarlatina."[1]
Em seu
monumental Diccionario Crítico
Etimológico Castellano e Hispánico, Corominas y Pascual dão a palavra dengue como criação expressiva,
onomatopaica, com o sentido de meneio, balanço, e discutem o vínculo existente
entre as três acepções acima citadas. Interrogam
qual das duas primeiras acepções teria sido a primitiva e concluem por uma
equivalência semântica de ambas "puesto
que el melindre es achaque mujeril e la esclavina en cuestión es prenda de
mujer, la comparación pudo hacerse lo mismo en uno que en el otro sentido".[2]
A terceira
acepção, nome de doença, seria posterior, visto que as duas primeiras estão
documentadas no Diccionario de
A doença, de
caráter epidêmico, era já conhecida de longa data e recebeu, ao longo do tempo,
os mais variados nomes de cunho popular, conforme o país ou a região
considerados. Dentre eles, "febre da China", na Ásia;
"bouhou", na Oceania, "febre quebra-ossos", nos Estados
Unidos; "colorado", em colônias espanholas", "dandy
fever", em colônias inglesas, "dengue", nas Antilhas;
"polca", no Rio de Janeiro; patuleia", na Bahia.[3][4]
As duas
primeiras descrições da doença na literatura médica se devem a David Bylon, em
1780, quem descreveu uma epidemia de dengue ocorrida em Java em 1779, e
Benjamin Rush, em 1789, que descreveu o surto epidêmico ocorrido em Filadélfia,
nos Estados Unidos, em 1780.[5]
A partir de
então, a nomenclatura médica foi acrescida de novos nomes para a doença, tais
como "febre epidêmica", "febre reumatismal", "febre
epidêmica eruptiva" "febre articular exantemática", "febre
reumática eruptiva", "escarlatina reumatismal",
"artrodinia", e outras.[3]
As palavras e
os nomes têm o seu destino traçado por circunstâncias históricas fortuitas.
Dentre tantos nomes, dengue
sobrepôs-se aos demais, passou para o inglês e o francês e universalizou-se. Já
em 1839, foi o nome escolhido por Dickson [6] para o seu livro sobre a história,
patologia e tratamento da doença. E em 1869 foi adotado pelo Colégio Real de
Medicina de Londres.[7]
Os
conhecimentos sobre a doença só avançaram no início do século XX. Em 1906,
Bancroft [8] sugeriu tratar-se de doença transmitida por um vetor, provavelmente
o Aedes aegypti (então chamado Stegomyia fasciata). Em 1907, Ashburn e
Craig [9] demonstraram a natureza viral do agente etiológico e, em 1916,
Cleland, na Austrália, comprovou a transmissão do vírus pelo Aedes aegypti. [10] Em 1931, Simmons, em
estudos experimentais, identificou outro possível transmissor, o Aedes albopictus.[11] São reconhecidos
atualmente quatro tipos de vírus, designados abreviadamente por DEN-1, DEN-2,
DEN-3 e DEN-4.
A denominação
de dengue para a doença acha-se definitivamente
consagrada de vez que foi incorporada à Nomenclatura Internacional das Doenças,
do Conselho das Organizações Internacionais de Ciências Médicas (CIOMS) e da
Organização Mundial de Saúde.[12]
A explicação
aparentemente lógica de chamar-se dengue
à doença, dada por Schuchardt e aceita por Corominas y Pascual,[2] não é
partilhada por muitos filólogos e linguistas, os quais buscam outras fontes
etimológicas, as quais, ou teriam prioridade semântica, ou teriam produzido uma
forma convergente da palavra.
O campo da
etimologia é propício a divagações baseadas em semelhanças mórficas ou sônicas
das palavras e permite dar asas à imaginação.
Hobson-Jobson
e Dalgado julgam que dengue seria uma palavra ameríndia.[13] Como
a doença foi assinalada no Peru em
Para muitos, a
palavra dengue é de origem africana e teria sido
levada para o Caribe pelos escravos. Em quimbundo, ndenge quer dizer menino, que subentende birra, choro, manha.[13]
Outra versão
dá a palavra dengue oriunda do swahili, língua bantu da
costa leste africana, na qual a expressão ka
dinga pepo quer dizer "cãibras de início súbito".[14] Bloch e
Wartburg afirmam que tanto a doença como o seu nome procedem de Zanzibar, ilha
do Oceano Índico, que hoje integra o território da Tanzânia.[15]
Outras
hipóteses menos prováveis foram aventadas, como deverbal de denegar ou a origem do árabe, dániq. [2] Do espanhol a palavra dengue passou para o português,
inicialmente na acepção de melindre, manha, faceirice, afetação. Nesta acepção
encontra-se averbada nos dicionários de Constâncio (1845), Faria (1854), Vieira
(1873), Lacerda (1874), Aulete (1881).
Chernoviz, no
seu Dicionario de Medicina Popular refere-se à epidemia de dengue que ocorreu
no Rio de Janeiro a partir de 1846, quando a doença era chamada de polca, dança que se encontrava em
moda na época. Identificou-a, no entanto, corretamente, citando sua sinonímia,
inclusive dengue, nome pelo qual era conhecida nas
Antilhas.[3]
A incorporação
de dengue ao léxico da
língua portuguesa, na acepção de doença, encontra-se consignada na primeira
edição do Dicionário de Cândido de Figueiredo, de 1899.
A partir de
então, o termo passou a integrar o vocabulário médico do nosso idioma, a
exemplo do que ocorrera em inglês, francês e alemão.
Em relação ao
gênero gramatical de dengue,
sabemos que as palavras terminadas em e,
em português, podem ser masculinas ou femininas. Dengue pode ser
substantivo ou adjetivo. Na função adjetiva, os dois gêneros são admitidos. Na
função substantiva, não há unanimidade de opinião entre os lexicógrafos.
A maioria dos
léxicos adota o gênero masculino quando dengue é usado nas acepções de melindre feminino, afetação,
faceirice, birra de criança, manha, e o gênero feminino quando se trata da
doença, a exemplo do francês.
O "Novo
Aurélio", em sua segunda edição (1986) prescreve o gênero feminino para dengue, na acepção de doença, mas,
ao final do verbete, incoerentemente registra: "Dengue hemorrágico. O que é acompanhado de fenômenos
hemorrágicos...".
O editor de
termos médicos do referido dicionário, Dr. Deolindo Couto Jr., em entrevista
concedida em 1987 ao periódico Diálogo
Médico, [16] manifestara a intenção de retificar o gênero de dengue para masculino na terceira edição, o que efetivamente ocorreu.
O Vocabulário
Ortográfico da Academia Brasileira de Letras (1999) aceita os dois gêneros e
Nascentes (1961) adota o gênero masculino.
Nos
dicionários de termos médicos, Plácido Barbosa (1917) usa o gênero feminino;
Céu Coutinho (1977) e J.L. Soares, (1993) o gênero masculino, enquanto Pedro
Pinto (1962) aceita os dois gêneros.
Haveria uma só
justificativa para optar-se pelo gênero feminino, que seria a diferenciação
semântica pelo gênero gramatical, já que se usa o masculino na acepção comum de
faceirice, afetação.
A tradição
médica brasileira, no entanto, é de conferir à palavra dengue, também na acepção de doença, o gênero masculino, tal como
Em trabalhos
científicos veiculados nos últimos anos em periódicos médicos dos mais
representativos da imprensa médica brasileira, prevalece o uso do gênero
masculino - o dengue
[17-23]
O Ministério
da Saúde, que já usara o dengue em publicações anteriores, [24] tem
dado preferência ultimamente na campanha de combate ao Aedes aegypti, ao gênero feminino, acompanhando os meios de
comunicação de massa, o que certamente poderá contribuir para incrementar o uso
do gênero feminino na literatura médica.
Pessoalmente
sou favorável à manutenção do gênero masculino.
_________
1. REAL
ACADEMIA ESPAÑOLA. Diccionario de la lengua española, 1970.
2. COROMINAS, J., PASCUAL, J.A. Diccionario crítico
etimológico castellano e hispánico, 1984.
3. CHERNOVIZ, P.L.N. Dicionario de medicina popular,
1890.
4. SÃO PAULO, F. Linguagem médica popular no Brasil, 1970, p.295.
5. MORTON, L.T. A
medical bibliography (Garrison and Morton), 1983.
6. DICKSON, S.H. On
dengue; its history, pathology, and treatment, 1839.
7. GARNIER, M., DELAMARE, V.Dicionário de termos
técnicos de medicina, 1984.
8. BANCROFT,
T,L. Aust. med. Gaz. 25:17-18,
1906.
9. ASHBURN, P.M.,CRAIG, C.F.
Phillipp. J. Sci., 2:93-151, 1907.
10. CLELAND, J.B.
et al. Med. J. Aust. 2:179-184; 200-205, 1916.
11. SIMMONS, J.S.
et al. Philipp. J. Sci. 44:
1-251, 1931.
12. CIOMS.
International Nomenclature of Diseases. Vol. II. Part 3: Viral Diseases, 1983.
13. MACHADO, J.P. Dicionário etimológico da língua
portuguesa, 1977.
14. MACHADO FILHO, A.M. Coleção "Escrever
Certo", 2.ed., vol IV, 1966, p.247-251.
15. BLOCH, O.,VON WARTBURG, W. Dictionnaire étymologique de la langue
française, 1986.
16. COUTO Jr., D. Diálogo Médico 13: 22-29, 1987.
17. DIETZE, R. Dengue. Rev. bras. Clín. Terap.
15:234-237, 1986.
18. FIGUEIREDO, L.T.M. Rev. Soc. bras. Med. trop.
23: 13-18, 1990.
19. GADELHA, D.P., TODA, A.T. Rev. bras. Malariol.
Doenças trop. 37: 29-36, 1985
20. ISHAK, R. Brasília méd. 24: 5-10, 1987.
21. OSANAI, C.H. et al. Rev. Inst. Med.
trop.
22. TAUIL, P.L. Rev.
Soc. bras. Med. trop. 19: 1-3, 1986.
23. ZAGNE, S.M. et al. Rev. bras. Med.
52: 646-650, 1995.
24. SUCAM. - Ministério da Saúde. Combate aos vetores da
febre amarela e do dengue, 1987, 103 p.
Trata-se de
palavras híbridas, ou seja, formadas com elementos provenientes de mais de um
idioma. Densito- e densi- provêm do latim densitas,
atis, densidade + metria, do grego métron, medida + sufixo
-ia.
Em latim há
também o adjetivo densus, a, um, e o verbo denso, are, que deram origem, em português,
respectivamente, ao adjetivo denso e
aos verbos adensar e condensar, com
todos os seus cognatos.
Densimetria é de uso mais antigo, dada a utilização dos densímetros na determinação do peso
específico dos líquidos. Densitometria
foi introduzido posteriormente para expressar a medida da densidade óptica por
meio de um aparelho denominado densitômetro.[1] Do ponto de vista linguístico,
tanto densimetria como densitometria são vocábulos
corretamente formados.
Densiometria, ao contrário das anteriormente citadas, é palavra
inexistente e desnecessária na língua portuguesa. Decorre de um equívoco,
provavelmente fruto da analogia com tensiometria
(medida da tensão). Não há, entretanto, qualquer similaridade na formação
das duas palavras. Tensiometria
deriva do latim tensio, onis, o que justifica a presença do
ditongo io em português.
Assim sendo,
não é recomendável a inclusão do neologismo densiometria
no vocabulário médico para designar o método utilizado na determinação da
densidade dos tecidos. A expressão vernácula correta a ser usada será, de
preferência, densitometria ou,
alternativamente, densimetria; jamais
densiometria.
________
1. MANUILA et al.
Dictionnaire français de médecine et de biologie. Paris, Masson , Cie., 1970.
Há divergência
entre os linguistas quanto à origem do prefixo des- Segundo Coutinho, o prefixo des- originou-se da junção de de
+ ex.[1] Para Said Ali o prefixo des-
nada mais é que a romanização do prefixo latino dis-, "forma esta
que se manteve inalterada em certo número de vocábulos recebidos da língua-mãe,
mas cuja faculdade de criar novos termos dentro do domínio da língua portuguesa
se transferiu para a forma des-."[2]
Nunes admite
as duas possibilidades e ensina que o prefixo des- tanto pode resultar de dis-, como da junção das preposições
de e ex.[3]
O prefixo des- entra na formação de numerosos
substantivos, adjetivos e verbos,
para
expressar a ideia contrária a do termo primitivo, ao qual se antepõe.
No caso dos substantivos tem valor semântico de:
a) coisa oposta
ou falta daquilo que é denotado pelo termo primitivo
(ex.: desordem, desconforto, desatenção);
b) cessação de um
estado anterior (ex.: desengano, desilusão, desuso);
c)
coisa mal feita. (ex.: desgoverno,
desserviço).
Nos
adjetivos, o prefixo des- nega a
qualidade primitiva (ex.: desumano, desconexo,
desigual).
Em
relação aos verbos, denota:
a) ato contrário
ao expresso pelo verbo primitivo (ex.: desfazer, desembrulhar);
b) cessação de
uma situação anterior (ex.: desmamar, desempatar);
c) tirar ou
separar alguma coisa de outra (ex.: descascar, desfolhar);
d) mudança de aspecto (ex.: desfigurar);
e) pode ainda o prefixo des- ter função meramente expletiva (ex.: desgastar, desinquieto).
O prefixo latino de-, que não deve ser confundido com o anterior, e entra na formação de muitas palavras, exprime a ideia de:
a) origem (ex.: decorrer, deduzir);
b) direção para baixo (ex.: dejeção, defluxo);
c) afastamento (ex.: deportar);
d) separação (ex.: decapitar, depenar);
e) sentido contrário (ex.: decrescer);
f) privação (ex.: demente).
Algumas palavras oriundas do latim, iniciadas pelo prefixo de-, bem como outras em maior número, formadas em português com o prefixo des-, evoluíram para formas dúplices de idêntico valor semântico, grafando-se tanto com s como sem ele.
No vocabulário das ciências biomédicas são exemplos dessa duplicidade os seguintes verbos e seus cognatos: debridar e desbridar, decarboxilar e descarboxilar, decentrar e descentrar, decodificar e descodificar, defibrinar e desfibrinar, decorticar e descorticar, demineralizar e desmineralizar, depolimerizar e despolimerizar, denudar e desnudar, denervar e desnervar.
Considerando a importância de se buscar a desejada uniformidade da nomenclatura biomédica, seria aconselhável a adoção de uma só forma para os termos citados, sendo preferível a forma com s, que caracteriza o prefixo des-, cujo significado melhor se ajusta ao fim proposto de expressar ideia contrária a do termo primitivo.
Possivelmente tem contribuído para prosperar a forma sem o s a influência dos idiomas francês e inglês na terminologia científica.
__________
1.
COUTINHO,
I.L. Pontos de gramática histórica, 1962, p. 208.
2.
SAID
ALI, M. Gramática histórica de língua portuguesa, 1964, p. 250.
3. NUNES,
J.J. Compêndio de gramática histórica, 1975, p. 394.
Deve-se a
Araeteus (Sec. II d.C.) a denominação de diabetes dada à doença. Trata-se de
palavra de origem grega e a maioria dos léxicógrafos e dos autores que escrevem
sobre diabetes dão a esta palavra o
significado de sifão. A
doença recebeu este nome pela poliúria que a caracteriza (o líquido ingerido
passa rapidamente através dos rins, sendo eliminado na urina).
Na tradução
italiana do texto grego de Araeteus, de Francesco Puccinotti, uma das traduções
clássicas mais citadas, não há referência à palavra "sifão". Lê-se na citada tradução: "da
tale fenomeno a me sembra que abbia desunto la malattia il nome de Diabete,
come se tu appelassi ‘transitorio’ un umore che entro al corpo non
riname". (De
tais fenômenos parece-me que a doença tomou o nome de diabete, como se fosse
‘transitório’ um humor que entra no corpo e nele não permanece) [1]
Com o sentido
de sifão e fora da área médica, a
palavra diabetes foi pela primeira
vez empregada em latim por Columella.[2]
A comparação do diabetes com sifão aparece, entre parênteses, na
tradução inglesa de Adams: "Hence,
the disease appears to me to have got the name diabetes, as if from the greek
word diabetes (which signifies a siphon), because the fluid does not remain in
the body..." (Por esta razão acredito que a doença recebeu o nome de diabetes, da
mesma palavra grega diabetes (a qual significa sifão), visto que o líquido não
permanece no corpo...). [3]
O termo diabetes,
em grego, tem mais de uma acepção e
tanto pode significar sifão, como compasso, pela abertura de seus dois ramos.
Deriva de diabaino, cujo
significado principal, enunciado em primeiro lugar nos léxicos, é o de
"manter as pernas afastadas". [4]
Prof. José
Menegatti, autoridade em letras clássicas, admite que o termo diabetes pode estar relacionado com o
hábito de urinar em pé, com as pernas afastadas. [Comunicação pessoal]. Skinner faz menção igualmente a esta
hipótese, que teria sido proposta por um autor irlandês, descartando-a. [5] O
verbo diabaino também significa
"passar através", de dia, através + baino, passar, caminhar.
Em muitas fontes bibliográficas prevalece esta interpretação etimológica. [6-8]
Willis, em
1670, redescobriu o sabor adocicado da urina, [5] antes notado pelos hindus
[9], o que permitiu distinguir dois tipos de diabetes: mellitus e insipidus.
Segundo Arduino, o adjetivo mellitus teria
sido acrescentado por Cullen no século XVIII.[8]
A origem pancreática do diabetes mellitus foi comprovada por Mering e Minkowski, em 1889, pela
extirpação do pâncreas no cão, [5] enquanto a origem hipofisária do diabetes insipidus tornou-se conhecida
no início do século XX, graças aos trabalhos de Frank, Cushing, Limmonds e
outros.[10]
Em 1869, Paul Langherans havia descrito
a existência de grupos de células epitelióides distribuídas no tecido
interacinar do pâncreas, porém não atribuiu qualquer função às células por ele
descobertas; a denominação de ilhotas de Langherans foi dada por Laguèsse em
1893.[11]
Em 1913, Schaefer admitiu fossem as
ilhotas de Langherans responsáveis pela produção de uma secreção endócrina
capaz de atuar no metabolismo glicídico e propôs para a mesma, antes de sua
descoberta, o nome de insulina (do latim insula, ilha).[5] Como se sabe, a
insulina só foi isolada em 1921, por Banting e Best, no Laboratório de Mac
Leod, em Toronto, no Canadá.
As duas
doenças, portanto, só têm em comum a poliúria. Dada a importância e a alta
prevalência do diabetes mellitus, quando se diz
simplesmente diabetes, subentende-se
que se trata do diabetes pancreático ou dismetabólico. Existe, por
consequência, uma tendência de simplificação da linguagem, abandonando-se o
qualificativo latino mellitus ou seus equivalentes em
português (melito, sacarino ou açucarado).
Formas
especiais de diabetes recebem qualificativos próprios, como juvenil, do adulto, secundário, latente,
bronzeado, aloxânico (experimental), renal, etc.
Duas questões
controversas dizem respeito ao gênero e à grafia da palavra diabetes em português.
O termo é
masculino em grego e latim, tendo conservado o mesmo gênero em francês e
italiano. Em espanhol é do gênero feminino.
Em português,
alguns lexicógrafos, como Domingos Vieira e Antenor Nascentes registram tão
somente o gênero masculino, enquanto outros, como Cândido de Figueiredo e
Caldas Aulete admitem os dois gêneros.
Autoridades em
terminologia médica, como Plácido Barbosa, Ramiz Galvão e Pedro Pinto, advogam
o gênero masculino, que parece vitorioso na literatura médica brasileira, como
atestam muitas publicações especializadas, dentre as quais cumpre destacar o
livro de Francisco Arduíno e colaboradores, intitulado Diabetes Mellitus e suas
complicações.[8]
Quanto a
usar-se ou não o s final, seria mais conforme à índole do nosso idioma a forma diabete (sem o s final) ou, até mesmo, diabeta,
como queria o helenista português José Inez Louro. [12]
A forma diabetes é usada em inglês, alemão e
espanhol, ao passo que em francês e italiano houve apócope do s final.
No Brasil,
tanto se usa diabetes como diabete, porém com a forte influência
exercida pela literatura médica de língua inglesa na medicina brasileira,
observa-se ultimamente uma clara opção pela forma diabetes.
Apesar disso,
os modernos dicionários da língua portuguesa aceitam as duas formas (com s e sem s), assim como os dois gêneros. Houaiss (2001), além de admitir as
duas formas e os dois gêneros, ainda registra a forma diabeta, que não é averbada nem mesmo pelo dicionário da Academia
das Ciências de Lisboa. (2001).
A sociedade
brasileira da especialidade, fundada
Fiquemos,
pois, com o gênero masculino e com a letra s
final.
_________
1.
PUCCINOTTI, F. Areteo de Cappadocia. Delle causa
dei segni e della
cura delle malattie acute e croniche. Libro Otto, 1836, p. 96-98.
2.
MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico storico
dei termini medici, 1993.
3.
MAJOR, R.H. Classic descriptions of disease,
1954, p. 236.
4. BAILLY, A. Dictionnaire grec-français,
1950.
5.
SKINNER, H.A. The origin of medical terms,
1961, p. 139.
6.
LIEBERMAN, L.S. Diabetes. In KIPLE, K.F. The Cambridge World History of human diseases, p.
665-675.
7.
BARNHART, R. K. Chambers Dictionary of
etymology, 2001.
8.
ARDUINO,
F. Diabetes e suas complicações, 1973, p. 1-4.
9. MAJOR, R.H. A history of medicine, vol. 1,
1954, p. 74.
10. BLOTNER, H. Diabetes insipidus, 1951, p.
182-191.
11.
MORTON, L.T. A medical bibliography (Garrison
and Morton), 1983, p. 131.
12. LOURO, J.I. Questões de linguagem
técnica e geral, 1941, p. 108.
DIFICULDADES NO EMPREGO DO C CEDILHADO
Uma
das dificuldades para os que desejam escrever corretamente reside no emprego do
ç (c cedilhado). Devemos escrever torção ou torsão? Distensão ou distenção?
Maciço ou macisso? Exceção ou excessão? Açúcar ou assúcar?
Para
o entendimento da origem da cedilha na evolução das línguas neolatinas,
especialmente em português, torna-se necessária uma abordagem filológica da
questão.
A pronúncia do C no latim clássico era sempre K. Cicero, por exemplo,
lia-se Kikero. No latim vulgar e nos romances que a ele se seguiram e
que se transformaram nas línguas neolatinas, houve um abrandamento de pronúncia
do c antes de e e de i. Inicialmente
esta modificação prosódica era representada pela letra z colocada após o c.
Posteriormente, a letra z passou a ser escrita por baixo do c em menores
dimensões.[1]
Cedilha
(cedilla em espanhol, cédille em francês, zediglia em italiano) quer dizer exatamente pequeno zeta
(letra do alfabeto grego correspondentes ao z). O pequeno zeta
transformou-se finalmente no sinal que todos conhecemos e que mais se assemelha
a um pequeno c, virado para trás.
Este sinal foi introduzido na composição tipográfica por Geoffroy Tory
(1480-1533), escritor, gravador e impressor francês, que reformou a ortografia
da língua francesa sob o reinado de Francisco I.[2]
Em
textos arcaicos anteriores ao século XV encontra-se ç mesmo antes das vogais e
e i.[3] Com o passar do tempo a cedilha
deixou de ser usada, por desnecessário, nas palavras em que o ç antecede as vogais e
e i, conservando-se apenas antes das vogais a, o e u, naqueles casos em que houve abrandamento da pronúncia.
Em
espanhol o c cedilhado foi
substituído pela letra z. Em
português o c cedilhado adquiriu som
idêntico a ss, dando origem às
dificuldades de nossa escrita.
Quando usar c cedilhado em lugar de ss? De modo geral, os substantivos
terminados em –ção (-ssão) em português escrevem-se com ç ou ss, conforme derivem de palavras latinas terminadas em -tione
ou -sione. Ex.: exceptione, exceção; extensione,
extensão; punctione, punção; pressione, pressão; tensione, tensão; tortione, torção. Escrevem-se ainda com c cedilhado:
a) os derivados
do verbo ter. Ex.: contenção, retenção;
b) as palavras
formadas com os sufixos -aço, -aça, -iço, -iça, -uço.
Ex.: bagaço, couraça, caniço, cortiça,
dentuço;
c) depois de um
ditongo. Ex.: beiço, louça, equação;
d) depois de in e un. Ex.: distinção, função;
e) as palavras de
origem tupi. Ex.: açaí, maniçoba, cupuaçu, jararacuçu, Iguaçu, Uruaçu;
f)
as palavras de origem árabe. Ex.: açafrão. açoite,
açude, açúcar.
Existem outras regras para o emprego
correto do c cedilhado, que poderão
ser encontradas em obras especializadas. Devemos considerar ainda as palavras
homófonas, porém com grafia e sentido diversos, como apreçar e apressar; caçar e cassar; empoçar e empossar; laço e lasso;
maça e massa; paço e passo; ruço e russo; tenção e tensão.[4]
Nos
exemplos apontados no início destes comentários as formas corretas são: torção,
distensão, maciço, exceção e açúcar.
_________
1.
VIEIRA,
D. Grande dicionário português ou Tesouro da língua portuguesa., vol.2, 1873,
p. 159.
2.
PORTA,
F. Dicionário de artes gráficas, 1958, p. 71.
3.
NUNES,
J.J. Crestomatia arcaica, 1970, p. 25.
4.
SOUSA,
M. Dicionário de fonografia, 1960, p. 49-67.
DIFICULDADES
NO EMPREGO DO S E DO X
Palavras como espontâneo, estertores, estender, estranho, extensão, extrato, extenuante, expectante e outras similares, constituem verdadeiros tropeços em
nossa escrita rotineira, quando por vezes titubeamos entre s ou x. Sobretudo em
relação ao primeiro dos exemplos citados é frequente o uso de x em substituição ao s – expontâneo em lugar de espontâneo.
Como regra
geral, as palavras que em latim se iniciam por ex, mantiveram a mesma
grafia ao passarem para o português. Ex.: expectorare, expectorar; expansione, expansão; expellere, expelir;
experimentu,
experimento; expiratione, expiração; extensione, extensão; extrinsecu, extrínseco.
Já as palavras
que se iniciavam por s em latim deram origem a derivados
com es
Há, contudo,
exceções: algumas palavras que se escreviam com ex em latim evoluíram
para es
Convém
ressaltar a incongruência de se escrever estender
com es, e extensão com ex.
Assim, entretanto, foi consagrado pelo uso e se encontra averbado nos melhores
dicionários.
Os termos
médicos derivados de palavras gregas iniciadas por s também se escrevem com es
Também se deve
distinguir estrato (do latim stratu),
com o sentido de camada, de extrato ( do latim extractu), aquilo que se
extraiu de alguma coisa.
Na dúvida
melhor será consultar um bom dicionário.
___________
DIFICULDADES NO EMPREGO DO S E
DO Z EM PORTUGUÊS
Em latim, o s
intervocálico tinha valor fonético equivalente ao ss do português, tal como
Não raro,
lemos em escritos médicos expressões como estas: "hérnia hiatal por
deslisamento", "retardo de esvasiamento", "extravazamento
de líquido", "atrazo na eliminação do contraste", e outras
semelhantes.
Analisemos os
exemplos citados:
Deslizamento - Derivado do verbo deslizar. Há em português o verbo deslisar, com s (des + liso + ar), com o mesmo sentido de
alisar, tornar liso, e deslizar, com z,
que significa escorregar, resvalar, passar de manso.[1]
O verbo deslizar, de origem incerta e de
formação mais antiga que deslisar, já se encontra registrado no dicionário de
Moraes (1813). Em espanhol, o verbo deslizar também se escreve com z enquanto liso se escreve com s, fato este que, segundo Nascentes
indica origens diversas para ambos os vocábulos.[2] Para outros, o vocábulo
teria vindo para o português através do espanhol, o que explicaria a grafia com
z.[3]
Esvaziamento - Derivado de esvaziar, que por sua vez, origina-se
de vazio, do latim vacivus,
vago, desocupado. Neste caso, entende-se mais facilmente porque vazio se deve grafar com z. Segundo a fonética histórica, os
grupos ti e ci, do latim vulgar, evoluíram naturalmente
para z. Ex.: judiciu, juízo; cinícia, cinza; ratione, razão. Somente em palavras introduzidas
posteriormente pelas camadas mais cultas da população, ti evoluiu para ç. Ex.: gratia, graça; capitia,
cabeça.[4]
Extravasamento - Embora vazio e vazar se escrevam com z, extravasar, do mesmo modo que
envasar, deve grafar-se com s. Todos
os léxicos relacionam estes verbos com vaso, do latim vasum.
Atraso - Deverbal de atrasar,
formado de atrás + ar. Atrás por sua
vez, formou-se da preposição a + trás, que se escreve com s,
ao contrário de traz, do verbo
trazer, que se escreve com z. É
óbvio, portanto, que atraso e todos
os seus cognatos devem ser escritos com s
e não com z.
Muitas outras
palavras existem em que vacilamos entre s
e z. Na dúvida, o melhor é recorrer
a um bom dicionário ou, se possível, a mais de um, pois muitas vezes há
divergências até mesmo entre os lexicógrafos.
Nos exemplos
citados as formas corretas são: "hérnia hiatal por deslizamento",
"retardo de esvaziamento", "extravasamento de líquido" e
"atraso na eliminação do contraste".
_________
1.
FERREIRA,
A.B.H. Novo dicionário da língua portuguesa, 1999.
2.
NASCENTES,
A. Dicionário etimológico da língua portuguesa, 1932.
3.
CARVALHO,
J.M. Dicionário prático da língua nacional, 1957.
4.
COUTINHO,
I.L. Pontos de gramática histórica, 1962, p.149.
DIGESTIVO E
DIGESTÓRIO
Há em latim duas palavras semelhantes que
diferem apenas quanto ao sufixo: digestivus,
a, um e digestorius, a, um. Ambas
podem ser empregadas com o mesmo significado: relativo à digestão ou aos órgãos
da digestão.
Digestivus sempre foi a forma
preferida na linguagem médica em latim, quando o mesmo era usado nas
comunicações científicas. Os dicionários médicos em latim de Blancard (1718) e
de Kraus (1844) averbam unicamente digestivus,
não mencionando digestorius.[1][2]
Nas
línguas de cultura como francês, inglês, espanhol e italiano sempre se usou digestivus com as adaptações
morfológicas do sufixo a cada idioma.
Em
francês há registro de digestif, ve,
desde 1290 até o presente, e não há menção a "digestoire", que corresponderia a digestorius em latim, tal como "circulatoire"
corresponde a circulatorius.[3]
Em inglês, digestive foi introduzido como
substantivo em 1390 e como adjetivo em 1425 em uma tradução de um livro em
francês sobre cirurgia, de Chauliac.[4]
Em
espanhol, digestivo está documentado
desde 1440 [5] e o Dicionario da Real Academia Española só averba digestivo e dá como exemplo tubo digestivo e funções digestivas.[6]
Em italiano, segundo
Marcovecchio, digestivo aparece pela
primeira vez em um poema medieval do século XIII na seguinte frase: "Favorirà il potere digestivo dello stomaco e
del fegato". Digestorio só foi introduzido no léxico a partir da Nomina Anatomica de 1895 (conhecida por BNA por ter sido aprovada em Basileia,
na Suiça)), que optou por digestorius em
lugar de digestivus.[7] Em edições
posteriores da Nomina, o gênero
masculino de digestorius foi trocado
pelo gênero neutro digestorium.
Também em português, digestório era praticamente desconhecido até o século XX. Os
dicionários de Moraes (1813), Constâncio (1845), Faria (1956), Vieira (1871),
Lacerda (1874), Aulete (1881) só averbam digestivo.
[8-13]
Digestório aparece pela primeira vez no
dicionário de Cândido de Figueiredo, de 1899, e desde então em léxicos do
século XX.[14]
Embora
a opção da Nomina Anatomica tenha sido por digestorius, um, já havia uma
tradição consolidada em favor de digestivus, que se manteve em todos os idiomas
citados, inclusive em português.
Em
Portugal ainda prevalece a denominação de Aparelho
digestivo em lugar de Sistema
digestório e o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa em edição
recente nem sequer averba digestório. [15]
A
Comissão de Terminologia Amatômica da Sociedade Brasileira de Anatomia, ao
traduzir Systema digestorium da atual Terminologia Anatomica,
do latim para o português, não levou em conta o uso tradicional de digestivo e optou por digestório [16], talvez pela
identificação morfológica e sônica com a palavra latina ou por analogia com
"circulatório" e "respiratório".
A
tradução literal nem sempre é a mais aconselhável e, a propósito, convém mencionar que Systema digestorium da Terminologia Anatomica foi traduzido
para o inglês por Alimentary System
[17] e não por Digestory system, como
seria natural se prevalecesse a tradução literal ou a analogia com Respiratory Systema.
Desnecessário
dizer que as modificações introduzidas na nomenclatura se referem unicamente a
estruturas anatômicas e não se estendem ao idioma
Aqueles
que desejarem seguir a nomenclatura anatômica oficial da Sociedade Brasileira
de Anatomia deverão referir-se ao Sistema
digestório em vez de Sistema
digestivo ou Aparelho digestivo,
porém não estão impedidos de usar digestivo,
tanto como substantivo como adjetivo em expressões que não dizem respeito à
anatomia. Exemplos:
Como
substantivo:
"receitei-lhe
um digestivo"
"este medicamento é um
bom digestivo"
Como
adjetivo:
"
a função digestiva da bile..."
"queixas
digestivas, sintomas digestivos"
"hemorragia
digestiva"
"cirurgia
digestiva"
Tem
havido ultimamente certa confusão a respeito. Em uma pesquisa realizada no site de busca Google no dia 03/03/2006
encontramos as seguintes ocorrências de digestório em lugar de digestivo em
expressões que não dizem respeito a estruturas anatômicas.
"hemorragia
digestória" - 21 ocorrências
"sintomas
digestórios" - 12
"
"função
digestória"
- 10 "
"doenças
digestórias"
- 3 "
"cirurgia
digestória"
- 3 "
"ação
digestória da ptialina" -
2 "
Acertadamente ou não, digestório foi incorporado ao
vocabulário médico para substituir digestivo
na nomenclatura anatômica, mas não na língua portuguesa. A língua não se
faz por decreto, portarias, normas ou decisões de uns poucos, por mais ilustres
que sejam; ela tem os seus próprios caminhos
na formação e na evolução diacrônicas das palavras.
__________
1. BLANCARD, S. Lexicon medicum graeco-latino-germanicum, 1718.
2. KRAUS, L. A. Kritisch-etymologisches mediciniches Lexikon, 1844.
3. ROBERT, P. Dictionnaire alphabétique et analogique de la langue
française, 1987.
4. BARNHART, R. K. Chambers Dictionary of etymology, 2001.
5. COROMINAS,
J. Breve diccionario etimológico de la lengua castellana, 1980.
6. REAL
ACADEMIA ESPAÑOLA Diccionario de la
lengua española, 1970.
7. MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico storico dei termini medici,
1993.
8. MORAES SILVA, A.
Dicionário da língua portuguesa. Lisboa, 1813.
9. CONSTANCIO, F. S. Novo
dicionário crítico e etimológico da língua portuguesa, 1845.
10. FARIA, E.
Novo dicionário da língua portuguesa, 1856.
11. LACERDA, J.M.A.A.C.
Dicionário enciclopédico ou Novo dicionário da língua portuguesa, 1874.
12. VIEIRA, D. Grande
dicionário português ou Tesouro da língua portuguesa, 1871-1874.
13. AULETE, F.J.C.
Dicionario contemporaneo da língua portuguesa. Lisboa, 1881.
14. FIGUEIREDO, C. Novo
Dicionário da Língua Portuguesa, 1899.
15. ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE
LISBOA. Dicionário da língua portuguesa contemporânea, 2001
16. SOCIEDADE BRASILEIRA DE
ANATOMIA. Terminologia anatômica, 2001.
17. FEDERATIVE COMMITTEE ON ANATOMICAL TERMINOLOGY. Terminologia anatomica. 1998, p.47.
Dissecção (ou dissecação)
significa o ato de dissecar, de separar as partes de um corpo ou de um órgão.
Emprega-se tanto em anatomia (dissecção de um cadáver ou parte deste) como em
cirurgia (dissecção de uma artéria, de uma veia, de um tumor etc.)
Dissecar
origina-se do verbo latino disseco, are, que também se escreve deseco, are, cujo sentido é o de
cortar dividindo, separando as partes. O substantivo correspondente, desectio,
onis, traduz-se por corte,
talho.[1]
Segundo
Marcovecchio, dissecare, como termo médico, fora já empregado por Plinius, no
século I d.C.[2]
Dissection, originado do latim dissectio,
onis, foi introduzido na
linguagem médica, tanto em francês como em inglês, no século XVI. [3][4]
Dissection foi adaptado para dissección, em espanhol; dissezione,
em italiano, e dissecção, em
português.
Dissecação é palavra criada na língua portuguesa, como deverbal
de dissecar. [5]
Os léxicos da
língua portuguesa têm demonstrado indecisão entre dissecção e dissecação.
Moraes (1813) registra somente dissecção,
no que é seguido por Constâncio (1845) e Faria (1856). Já Vieira (1871) e
Lacerda (1874) abonam apenas dissecação.
Os dicionários
mais modernos consignam ambas as formas. Dentre eles citam-se o de Silveira
Bueno (1963) e o de Aurélio Ferreira. (1999) O Michaelis (1998) e o Vocabulário
Ortográfico da Academia Brasileira de Letras (1999) arrolam três formas
distintas: disseção, dissecção e
dissecação.
Dentre os
dicionários médicos, Paciornik (1975) e Rey (1999) registram somente dissecção;
Pedro Pinto (1962) e Céu Coutinho (1977) as duas formas.
Entre os
anatomistas, ambas as formas são empregadas. Um dos livros didáticos utilizados
pelos alunos do curso médico em nossas faculdades, para estudo prático de
anatomia, de autoria de Baptista Netto, intitula-se Manual de dissecção. [6]
No conhecido
compêndio de anatomia de Gardner e col., traduzido para o português sob a
supervisão de um professor de anatomia, lê-se à página 3: "Do ponto de
vista etimológico, o termo dissecação (dis-
significa separadamente e secare, (cortar) é o equivalente
latino do grego anatome". [7]
Vê-se, pois,
que ambas as formas têm livre curso. Não obstante, dissecação é forma redundante e desnecessária, de vez que a língua
portuguesa já possui o termo dissecção,
muito mais próximo de sua origem latina e dos termos equivalentes de outros
idiomas.
Como bem
argumenta o Prof. Idel Becker ninguém pensaria em usar ressecação em lugar de ressecção.
[8] Por que, então, dissecação em vez
de dissecção?
Na literatura
médica brasileira predomina a forma dissecção.
Em 118 artigos indexados pela BIREME, nos quais o termo aparece no título, 111
(94,1%) utilizaram dissecção e apenas
sete a forma dissecação. [9]
Um caso
adicional indexado como dissecação
refere-se, na realidade, à dessecação,
cujo significado é inteiramente diverso de dissecação.
[10]
_________
1.
SARAIVA,
F.R.S. Dicionario latino-português, 1993.
2.
MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico storico
dei termini medici,1993.
3.
OXFORD
ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 1978.
4.
BLOCH,
O., VON WARTBURG, W. Dictionnaire étymologique de la langue française, 1986.
5.
BUENO,
F.S. - Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa.,1963.
6.
BAPTISTA
NETTO. Manual de dissecção, 1983.
7.
GARDNER, E. et al. Anatomia, 1988, p. 3
8.
BECKER,
I. Nomenclatura biomédica no idioma português do Brasil. 1968, p, 211
9.
BIREME.
Internet. Disponível em
http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/
Acessado em 05/12/2009.
10. ROSSETO, E.S. Tolerância à ressecação
uma estratégia de plantas para sobreviver à falta de água. – Lecta USF
6:127-35, 1998.
Muito embora
os prefixos dis- e des- sejam ambos oriundos do prefixo
latino dis-, não é indiferente o emprego de um ou de outro na formação
de palavras em português.
O prefixo dis-,
de origem latina, não deve ser confundido com o seu homônimo derivado do grego dys-,
que denota dificuldade, mau funcionamento, e é comumente utilizado na formação
de termos médicos como disfagia,
disritmia, discinesia, dispneia, disúria etc.
O significado
da palavra em português pode modificar-se conforme o prefixo empregado seja dis-
ou des-, como no caso de dispensa e
despensa, distrato e destrato, discriminar e descriminar, dissecar e dessecar.
O mesmo se
verifica em relação às palavras distorção
e destorção.
Conforme
ensinam os léxicos, distorção é o ato
de distorcer, de deformar o sentido, a imagem ou o som, de desvirtuar, de
alterar a realidade, de mudar a versão de um fato. Como termo técnico é
comumente usado em óptica, audiometria e métodos de obtenção de imagens.
Destorção é o ato de destorcer, de desfazer uma torção, de
retornar ao lado oposto, de dar voltas em sentido contrário.
Assim sendo, é
incorreto referir-se a distorção de
alças intestinais.
No tratamento
conservador do volvo da sigmóide, por exemplo, usa-se o método de desfazer a
torção por via endoscópica após o esvaziamento da alça distendida, método este
por vezes referido como distorção, como
nos exemplos seguintes:
"O uso da
distorção endoscópica"..."quando bem indicado, proporciona a
transformação de patologia cirúrgica de urgência em procedimento
eletivo".[1]
"Indica-se
a distorção endoscópica para todos os casos de volvo de sigmóide sem suspeita
de sofrimento intestinal".[2]
Nestes casos
trata-se de destorção e não de distorção.
__________
1.
CARLOS-MAGNO,
J.C. Vólvulo do sigmóide: abordagem, diagnóstico e terapêutica. Rev. Bras. Cir. 75:143-149. 1985.
2.
SILVA,
F.P., HATANAKA, M. Volvo sigmóide: estudo de 52 casos. Rev. Col. Bras. Cir. 18:247-251, 1991 .
Dose
provém do grego dósis, ação de dar;
aquilo que se dá; o que pode ser dado.[1][2]
Como termo médico,
dose expressa a porção ou quantidade
de um medicamento que se administra ao paciente de cada vez ou em determinado
período de tempo.
De dose formou-se o verbo dosar, cujo sentido é o de estabelecer a
dose ou quantidade de uma substância.
Dosagem é composto de dose
+ sufixo -agem. Este sufixo,
largamente utilizado em português origina-se do latim -aticum, através do
francês -age. Indica coleção, estado,
ação ou o resultado da ação. Em algumas palavras provém diretamente do latim,
como em imagem (imago, ginis).[3-5]
No caso de dosagem, o sufixo -agem denota ação, isto é, o ato de dosar. Por extensão, além desse
sentido genérico, designa também a operação química destinada a quantificar uma
dada substância contida em determinado meio. Ex.: dosagem da glicose, dosagem
da ureia, da creatinina etc.
É comum em
escritos médicos o emprego de dosagem
como sinônimo de dose, o que é
incorreto. Os melhores léxicos da língua portuguesa estabelecem claramente a
distinção entre dose e dosagem.
Dose refere-se a uma dada porção ou quantidade e dosagem à operação de dosar. Como
assinala o mestre Pedro Pinto, "não se aplica ao doente, ao animal de
laboratório, uma dosagem, mas uma dose, certa porção, dada quantidade".[6]
_________
1.
MACHADO,
J.P. Dicionário etimológico da língua portuguesa, 1977.
2.
BAILLY, A.Dictionnaire grec-français, 1950.
3.
SAID
ALI, M. Gramática histórica de língua portuguesa, 1964, p. 235.
4.
VASCONCELOS, C.M. Lições de filologia portuguesa,1959, p. 77.
5.
GOES,
C. Dicionário de afixos e desinências, 1937.
6.
PINTO,
P.A. Dicionário de termos farmacêuticos, 1959.
DROGA, FÁRMACO, MEDICAMENTO, REMÉDIO
Os termos
acima são frequentemente empregados com o mesmo significado. São sinônimos?
Droga designava primitivamente toda substância orgânica
ou inorgânica empregada como ingrediente de tinturaria, química ou farmácia.
As drogas
usadas em medicina eram chamadas drogas medicinais, compreendendo as de origem
animal, vegetal ou mineral. As mais comuns eram as de origem vegetal.
Os árabes
manipulavam com eficiência as drogas medicinais, tendo introduzido ou
aperfeiçoado várias operações químicas, como a filtração, a evaporação, a
destilação.
O termo droga, entretanto, só começou a ser
usado na Idade Média e a sua origem é controversa. Várias possibilidades têm
sido admitidas; as mais verossímeis são:
1. Do baixo
alemão droghe vate, expressão que
designava o recipiente onde se guardavam as ervas secas.[1]
2. Do neerlandês droog, que quer dizer seco.[2]
3. Do céltico,
com a acepção de má qualidade. Falam a favor desta hipótese os vocábulos droug em bretão, e droch em irlandês.[3]
Qualquer que
seja o seu étimo, o termo droga, de
acordo com a maioria dos léxicos, designa a substância ou matéria da qual se
extrai ou com a qual se prepara determinado medicamento. Pedro Pinto, professor
de farmacologia e profundo conhecedor de nosso idioma, assim define droga:
"Farmacógeno. Depois de certa manipulação, ou de manipulações, se
transmuda em medicamento, ou em profármaco.[4]
De droga formou-se drogaria. É interessante seguir ao longo do tempo a evolução
semântica de palavra drogaria.
Drogaria significava inicialmente uma coleção de drogas.[5]
De coleção de drogas passou a designar o local onde se guardavam as drogas e,
finalmente, o comércio de drogas.[6] Atualmente chamamos drogaria ao
estabelecimento comercial onde se vendem medicamentos e outros produtos
acabados, como cosméticos e perfumarias, prontos para serem usados.
Torna-se,
assim, compreensível a mudança de significado que está ocorrendo com a palavra droga.
Droga também
quer dizer coisa de pouca valia. Esta acepção é bem antiga em nossa língua, o
que traduz, sem dúvida, a sabedoria popular.
No século XX a
palavra droga ganhou um novo
significado, passando a ser empregada como sinônimo de tóxico. O verbo drogar e o seu particípio passado, drogado, expressam, respectivamente, o
uso de tóxicos alucinógenos e o estado decorrente da ação deste.
O termo fármaco é a tradução do grego phármakon,
que tanto designa medicamento como veneno, ou seja, qualquer substância capaz
de atuar no organismo, seja em sentido benéfico ou maléfico. Este duplo sentido
demonstra a arguta percepção dos gregos.
Fármaco, como sinônimo de medicamento, é pouco empregado em
linguagem comum, estando ausente da maioria dos dicionários contemporâneos. Em
linguagem médica tem sido utilizado de preferência com sentido restrito, para
designar uma substância única, orgânica ou inorgânica, de composição conhecida.
Nesta acepção não pode ser considerado sinônimo de medicamento.
De phármakon
derivam várias palavras, tais como
farmacologia, farmacognosia, farmacotécnica,
farmacodinâmica, farmacopeia, farmacoquímica e muitas outras.
Farmácia veio do grego pharmakía, através do latim pharmacia.
Significava originalmente a arte de preparar medicamentos e, por extensão,
passou a designar os estabelecimentos onde se preparam e se vendem
medicamentos. Em sua grande maioria são estabelecimentos comerciais em tudo
semelhantes às drogarias, das quais se distinguem apenas por serem de menor
porte.
Medicamento provém do latim medicamentum, vocábulo que tem o
mesmo tema de médico, medicina, medicar, etc., e que se liga ao verbo medeor,
que significa cuidar de, proteger, tratar.
Medicamentum, em latim, tinha
também o sentido de beberagem mágica, bruxaria, feitiço.[7]
Remédio provém do latim remedium, aquilo que cura. Remédio e
medicamento também não são sinônimos perfeitos. "Remédio tem um sentido
mais amplo que medicamento. O remédio compreende tudo que é empregado para a
cura de uma doença... O exercício, pode ser um remédio, porém nunca é um
medicamento".[6] "Remédio é termo mais extensivo que medicamento, é o
gênero de que este é a espécie".[8]
Remédio é termo de uso predominantemente popular e
literário, pouco empregado em linguagem científica.
Terminando estas considerações podemos
concluir que cada um dos termos assinalados possui significado próprio e só de
modo genérico podem ser considerados equivalentes. Percebe-se, contudo, nos
textos médicos atuais, uma clara tendência de conferir à palavra droga o mesmo significado de fármaco, sobretudo quando se trata de
substância química sintetizada pela indústria farmacêutica.
_________
1.
SKINNER, H.A. The origin of medical terms, p.
146
2.
BLOCH, O.,VON WARTBURG, W. Dictionnaire
étymologique de la langue française, 1986.
3.
COROMINAS, J. Breve
diccionario etimológico de la lengua castellana, 1980.
4.
PINTO,
P. A. Dicionário de termos farmacêuticos, 1959.
5.
MORAES
SILVA, A. Dicionário da língua portuguesa, 1813.
6.
VIEIRA,
D. Grande dicionário português ou Tesouro da língua portuguesa, 1871-1874.
7.
SARAIVA,
F.R.S. Dicionario latino-português, 1993.
8. LACERDA, J.M.A.A.C. Dicionário enciclopédico
ou Novo dicionário da língua portuguesa, 1874.
Êmbolo
origina-se diretamente do grego. Embole, em grego, expressa a "ação de lançar, de arremessar
em", e émbolo tem o sentido de cunha,
tampão [1-3].
O
termo embolia foi introduzido no
vocabulário médico por Virchow, em seus trabalhos publicados entre
Como a embolia pode ser causada por
outro material que se introduz na corrente sanguínea, criou-se o termo tromboembolia para especificar que se
trata de um coágulo sanguíneo. Trombo
é a forma vernácula da palavra grega thrómbos, que significa coágulo.[1]
Os termos embolismo e tromboembolismo são
variantes de embolia e tromboembolia.
Surge, então, a pergunta:
quando se deve empregar o sufixo -ia ou
-ismo na formação de termos médicos?
Não
há nenhuma regra sobre isso e a palavra, uma vez formada e posta em circulação,
é legitimada pelo uso. Ambos os sufixos são usados em nomes de doenças,
sintomas e condições patológicas diversas. Exemplos:
Com
o sufixo -ia: alergia, anorexia, apraxia, blenorragia, difteria, dispepsia,
esquizofrenia, hemicrania, histeria, leucemia, miopia, tetania.
Com
o sufixo -ismo: albinismo, estrabismo, impaludismo, meningismo, nanismo, ofidismo,
parasitismo, priapismo, ptialismo, reumatismo, timpanismo.
Em
poucos casos coexistem as duas formas para o mesmo termo e não raro uma delas
adquire um significado peculiar, como, por exemplo, no caso de histerismo, definido como uma forma
frusta de histeria.[5]
Em
relação aos termos embolia e embolismo, os dicionários, de maneira
geral, os consideram como sinônimos, o
mesmo ocorrendo com tromboembolia e tromboembolismo.
Marcovecchio é um dos poucos
autores que estabelece distinção semântica entre embolia e embolismo.
Segundo ele, o termo embolia designa
"o fenômeno da passagem de um êmbolo na corrente sanguínea", indo ocluir
a luz de um vaso, enquanto embolismo,
sensu strictu, seria "o
estado oclusivo consequente à embolia."[6]
Em
inglês praticamente só se usa embolism e
thromboembolism, enquanto em francês,
com raríssimas exceções, só se usa embolie
e thromboembolie.
Em
alemão predomina Embolie e Thromboembolie sobre Embolism e Thromboembolism.
Em italiano a preferência é
igualmente para embolia e tromboembolia.
Em
espanhol e português dá-se um fato curioso. Conforme se pode verificar nos
trabalhos veiculados pela Internet, a ocorrência de embolia supera a de embolismo
na proporção de 2:1 em espanhol e 16:1
Muito
embora sejam considerados sinônimos, tromboembolia
parece mais apropriado, pelo menos na língua portuguesa, para descrever um
evento singular. Exemplo: "O paciente apresentou tromboembolia pulmonar no
pós-operatório".
Já
tromboembolismo tem um sentido mais
geral, amplo, adequado a uma descrição nosológica, ou como indicativo da
ocorrência frequente de tromboembolias. Exemplos:
1. "As
principais causas do tromboembolismo são..."
2. "O
tromboembolismo é frequente na cardiopatia chagásica crônica", o que equivale a dizer que as tromboembolias são frequentes na cardiopatia chagásica crônica.
Contudo,
não se pode condenar o uso de um ou de outro termo em qualquer eventualidade,
já que são considerados sinônimos pelos léxicos da língua portuguesa.
_________
1.
BAILLY, A.
Dictionnaire grec-français, 1950.
2.
HAUBRICH, W. S.
Medical meanings. A glossary of word origins, 1997.
3.
SKINNER, H. A. The origin of medical terms,
1961.
4.
VIRCHOW, R.L.K. Thrombose und Embolia.
Frankfurt., 1856, p.219-786. Apud
MORTON, L.T. - A medical bibliography,1983, p.401.
5.
FERREIRA,
A.B.H. Novo dicionário da língua
portuguesa, 1999.
6. MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico
storico dei termini medici, 1993.
Os termos epidemia e endemia são dos mais antigos
Quando se
indaga sobre a diferença entre epidemia e
endemia, ocorre-nos, imediatamente, a
ideia de que a epidemia se
caracteriza pela incidência, em curto
período de
tempo, de grande número de casos de uma doença, ao passo que a endemia se traduz pelo aparecimento de
menor número de casos ao longo do tempo.
A distinção
entre epidemia e endemia não pode ser feito, entretanto, com base apenas na maior ou
menor incidência de determinada enfermidade em uma população. Se o elevado
número de casos novos e sua rápida difusão constituem a principal
característica da epidemia, para a
definição de endemia já não basta o
critério quantitativo. O que define o caráter endêmico de uma doença é o fato
de ser a mesma peculiar a um povo, país ou região.
A própria
etimologia da palavra endemia denota
este atributo. Endemos, em grego clássico, significa "originário de um
país, indígena", "referente a um país", "encontrado entre
os habitantes de um mesmo país".[3] Esse entendimento perdura na definição
de endemia encontrada nos léxicos de
vários idiomas, especializados em terminologia médica, como os que citamos a
seguir:
Dicionário de termos médicos, de
Pedro A. Pinto (1962): "doença que reina habitualmente numa região, de
causa local".
Dicionário etimológico e circunstanciado de biologia, de J. L. Soares
(1992): "doença habitualmente comum entre pessoas de uma região, cuja
incidência se prende à ocorrência de determinados fatores locais".
Diccionario
terminológico de ciencias médicas,
de L.
Cardenal (1954): "Enfermedad, generalmente infecciosa que reina
constantemente en épocas fijas en ciertos países por influencia de una causa
local".
Dictionnaire
français de médecine et de biologie,
de A. Manuila et al.(1970): "Présence habituelle d¢une maladie dans une région geographique donnée. En distingue: 1. les
endemies infectieuses, telles que le trypanosomiasis en Afrique, le choléra
dans l¢ Inde... et les endemies
dyscrasiques, telles que le goître et certaines avitaminoses liées à de facteurs
climatiques et à l¢ alimentation".
Dizionario dei termini
tecnici di medicina, de M. Garnier e V. Delamare (tradução italiana)
(1979) : "malattia particolare de una regione, sia che vi regni
constantemente, sia che ritorni ad epoche determinate".
Churchill¢s medical dictionary (1990): "a disease
which occurs persistently in an area or among a given population or
group".
Dorland's
illustrated medical dictionary (1994): "any endemic disease; present or
usuallly prevalent in a population or geographical area at all times".
Pandemia, palavra de origem grega, formada com o prefixo
neutro pan e demos, povo, foi pela primeira vez
empregada por Platão, em seu livro Das
Leis. [2] Platão usou-a no sentido genérico, referindo-se a qualquer
acontecimento capaz de alcançar toda a população. No mesmo sentido foi também
utilizada por Aristóteles. [3]
Galeno
utilizou o adjetivo pandêmico em
relação a doenças epidêmicas de grande difusão. [4]
A incorporação
definitiva do termo pandemia ao
glossário médico firmou-se a partir do século XVIII, encontrando-se o seu
registro em francês no "Dictionnaire universel français et latin", de
Trévoux, de 1771. [5]
Em português
foi o vocábulo dicionarizado como termo médico por Domingos Vieira, em 1873.
O conceito
moderno de pandemia é o de uma
epidemia de grandes proporções, que se espalha a vários países e a mais de um
continente. Exemplo tantas vezes citado é o da chamada "gripe
espanhola", que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, nos anos de
1918-1919, e que causou a morte de milhões
de pessoas em todo o mundo.[6]
Epidemiologia, etimologicamente, significa estudo das epidemias.
Com o tempo, epidemiologia adquiriu
uma segunda acepção. A nova acepção de epidemiologia
acha-se muito bem exposta no dicionário de Manuila e colaboradores, já
citado:
"Epidemiologie
f. 1.
Traditionellement étude des maladies épidemiques. 2. Actuellemente, discipline
qui étudie l¢ influence de divers facteurs, tels que millieux ambiant et social,
mode de vie, constitution bioanthropologique et autres facteurs individuels,
sur les maladies (infectieuses ou non) et notamment sur leurs fréquence,
distribution et étiologie, ainsi que sur tout autre phenomène biologique ou
social determiné".
Nesta segunda
acepção, Epidemiologia, na definição
de Rouquayrol, deve ser conceituada como "a ciência que estuda o processo
saúde-doença na comunidade, analisando a distribuição e os fatores determinantes
das enfermidades e dos agravos à saúde coletiva, sugerindo medidas específicas
de prevenção, de controle ou de erradicação".[7]
Neste sentido,
a epidemiologia estuda tanto as epidemias como as doenças e condições
morbígenas não epidêmicas.
_________
1.
HIPPOCRATE. Oeuvres completes (trad. Littré),
1934.
2.
MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico storico
dei termini medici., 1993.
3.
BAILLY, A. Dictionnaire grec-français, 1950.
4.
LIDDELL, H. G., SCOTT, R. A greek-english
lexicon, 1983.
5.
DAUZAT,
A. et al. Nouveau dictionnaire étymologique et historique, 1964.
6.
CHIEN LIU. Influenza. In HOEPRICH, P.D. (Ed.): Infectious diseases, 1983, p. 323.
7,
ROUQUAYROL, M.Z. Epidemiologia e Saúde, 1986, p.1
Enquanto é conjunção subordinativa
temporal que indica contemporaneidade passada, presente ou futura, na
dependência do tempo verbal. Traz em si a ideia de condição ou situação de
duração transitória. Equivale a “quando”,
“no tempo em que”, “durante o tempo em que”.[1]
Exemplos:
“Enquanto fui diretor nada disso
acontecia”.
“Devo
estudar enquanto não estou
trabalhando.”
“Enquanto viver, lutarei por esta causa.”
Também se emprega enquanto como conjunção adversativa em
substituição a “ao passo que”.
Exemplo: “Este projeto é bem fundamentado, enquanto
o outro apresenta falhas.”[1]
Em
alguns dicionários encontram-se ainda exemplos do emprego de enquanto com o sentido de “sob o aspecto de”, “considerado
como”.[2][3]
Também se emprega, sobretudo
no campo das ciências políticas e sociais, bem como na linguagem cotidiana dos
meios de comunicação, o uso de “enquanto” em lugar de “como”, “na condição de”, na qualidade de”, para caracterizar
relações atemporais ou atributos permanentes.
Exemplos:
“A
televisão, enquanto meio de
comunicação...”
“A
antropologia enquanto ciência...”
Nesta acepção, enquanto não
deve ser usado em linguagem médica para evitar ambiguidade. Exemplos:
“O doente, enquanto tuberculoso,
apresentou sintomas de depressão”.
Ficamos sem saber se o
doente apresentou sintomas de depressão por estar tuberculoso ou quando era
tuberculoso. A linguagem científica exige clareza e precisão e não deve
incorporar modismos como este em seu código linguístico.
Mesmo
em linguagem literária alguns autores condenam o uso de enquanto nessa
acepção. Eduardo Martins, em seu excelente Manual
de Redação e Estilo, recomenda: “Evite (por se tratar de sentido erudito
que se está tornando modismo) o uso de enquanto
como sob o aspecto de em frases
deste tipo: Fez um retrato do escritor enquanto intelectual...Falou sobre a filosofia
enquanto ciência.”[4]
Também
Ledur e Sampaulo, em seu interessante livro “Os pecados da Língua”,
dão o seguinte exemplo: A política enquanto ciência é construtiva, e comentam: “É comum
autores de textos usarem enquanto em
vez de como, talvez por terem enjoado
de como e enquanto parecer mais rebuscado. Cuidado! Enquanto implica contemporaneidade, tempo, não podendo ser usado no
sentido de como. Por isso: A política como ciência é construtiva”.[5]
_________
1.
ALMEIDA, N.M. Dicionário de Questões vernáculas,
1981.
2.
FERREIRA, A.B.H. Novo dicionário da língua
portuguesa, 1999.
3. HOUAISS, A., VILLAR, M.S. Dicionário
Houaiss da língua portuguesa, 2001
4. MARTINS, E. Manual de redação e estilo,
1997, p. 107.
5. LEDUR, P.F., SAMPAULO, P. Os pecados da
língua., 3º vol, 1995, p. 37
ENTUBAÇÃO, INTUBAÇÃO
Os prefixos en e
in, ambos oriundos do prefixo latino
in,
se equivalem na acepção de “movimento para dentro”. [1]
No dicionário Houaiss
encontramos a seguinte definição de entubação:
“entubação s.f. (1926 cf. Pinto Med) 1.
ato ou efeito de entubar. 1.1. Med
introdução de tubo em um canal ou cavidade do organismo. f. geral não pref. intubação.
e. gástrica Med passagem de um tubo
através do nariz ou da boca até o estômago para alimentar o paciente ou aspirar
o conteúdo gástrico. e. traqueal Med
passsagem de um tubo através do nariz ou da boca até a traqueia para permitir a
circulação de ar em pacientes sob anestesia geral ou com parada respiratória.
Etim. entubar + ção, ver tub(i/o).”[2]
Houaiss é um dos poucos lexicógrafos que preferem a
forma entubar a intubar,
como termo médico, citando como fonte de sua opção a primeira. edição do
Dicionário de Termos Médicos de Pedro A. Pinto, de 1926.
O dicionário de Pedro Pinto teve oito edições,
a última das quais publicada em 1962. Tivemos oportunidade de compulsar a
segunda, a quinta e a oitava edições. Em todas elas manteve o autor como
entrada a palavra entubagem,
que considerava o mesmo que entubação ou intubação e definia como
"introdução de tubo numa cavidade, ex. no larinje através da glote; no
duodeno pela boca".[3-5]
Vemos, portanto, que o autor-fonte
citado por Houaiss admitia a equivalência de entubação e intubação,
que considerava variantes de entubagem.
Os léxicos mais recentes, além do
Houaiss, estabelecem significados diferentes para entubação e intubação. Os dicionários de
Aulete-Garcia (1980), Michaelis (1998) e Aurélio sec. XXI (1999) averbam como
termos médicos somente intubação e o verbo intubar. Conferem à entubação e ao verbo entubar
a única acepção de “dar a feição de tubo a”.[6-8]
Os
dicionários especializados em terminologia médica, como o de Paciornik (1975) e
o mais moderno de Luís Rey (1999) só registram intubação.[9-10]
Em outras línguas neolatinas, usa-se o
prefixo in: espanhol, intubación; francês, intubation; italiano, intubazione.
Na literatura médica
brasileira dos últimos anos a preferência quase absoluta é para intubação. Na base de dados da BIREME
encontramos 723 ocorrências para intubação e somente 30 para entubação.
Considerando apenas os títulos dos trabalhos, intubação foi empregado em
92 artigos e entubação em apenas
quatro.[11]
Diante de todos estes dados, em que pese
à autoridade de Houaiss, sou de opinião que deve prevalecer intubaçâo e intubar
como termos médicos, ficando entubação e entubar com a acepção de
"dar a forma de tubo".
_________
1.
COUTINHO, I.L. Pontos de gramática histórica, 1962.
2. HOUAISS, A., VILLAR,
M.S. Dicionário
Houaiss da língua portuguesa., 2001
3. PINTO, P.A. Dicionário de termos médicos, 1938.
4. PINTO, P A. Dicionário de termos médicos, 1949.
5. PINTO, P.A. Dicionário de termos médicos, 1962.
6. AULETE, F.J.C., GARCIA,
H. Dicionário contemporâneo da língua
portuguesa, 1980.
7. MICHAELIS - Moderno
dicionário da língua portuguesa., 1998.
8. FERREIRA, A.B.H. Novo
dicionário da língua portuguesa, 999.
9. PACIORNIK, R. Dicionário médico, 1975.
10. REY, L. Dicionário de termos técnicos de medicina
e saúde, 1999.
11.
BIREME Internet. Disponível em http://www.bireme.br/, em 15/03/2004.
ENVELOPE VIRAL
Os vírus são
constituídos basicamente de um núcleo de DNA ou RNA, circundado por uma camada
proteica, denominada capsídio ou cápside, formada de unidades chamadas capsômeros. Determinados vírus possuem
ainda uma segunda capa de revestimento externo, a que se denomina em inglês e
francês, de envelope, de natureza
proteica, glicoproteica e lipídica, derivada principalmente da membrana das
células do hospedeiro.[1][2]
Deveríamos
manter, também em português, a denominação de envelope?
A palavra envelope, de origem francesa (enveloppe), foi introduzida em português
no final do século passado, como um galicismo desnecessário, competindo com sobrescrito e sobrecarta. Os léxicos de Moraes Silva (1813), Constâncio (1845),
Faria (1856), Domingos Vieira (1871), Lacerda (1874) e Aulete (1881) não a
registram. Adolpho Coelho (1890) a menciona como um termo francês "a que
se deve preferir sobrescrito". Aparece em 1940 no Dicionário de Galicismos, de Carlos Goes, que opta por
sobrecarta.[3]
Apesar da
resistência dos puristas da língua, a palavra envelope foi assimilada e adaptada ao português, substituindo sobrescrito e sobrecarta. "Atualmente
não há que pensar em galicismo no uso desta palavra", conclui Mendes da
Almeida.[4]
O seu
significado, no entanto, restringe-se ao de sobrecarta.
Outra única acepção foi registrada por Laudelino Freire
Do francês, a
palavra enveloppe passou para o
inglês no início do século XVIII, tendo sido incorporada e adaptada ao léxico
deste idioma, com a grafia de envelope ou
envelop. Tal como em francês, a
palavra envelope, em inglês,
caracteriza-se por sua polissemia, com múltiplas acepções, sendo usada em
sentido genérico como sinônimo de camada, capa, cobertura, envoltório, invólucro.
Em biologia é empregada para designar qualquer estrutura que recobre outra,
seja substância química, matéria orgânica, membrana, túnica, tegumento etc.
Assim, ao ser
descrita a camada de revestimento externo que envolve o capsídio, nada mais natural
que fosse a mesma chamada, em inglês, de envelope.
A simples
transposição, neste caso, do vocábulo envelope
para o português é uma falsa tradução. É um exemplo típico do que se
convencionou chamar nas traduções de falsos
cognatos - palavras morfologicamente semelhantes nos dois idiomas, porém
diferentes do ponto de vista semântico.
Envelope, em inglês, não é apenas envelope, mas também invólucro, receptáculo, capa, cobertura
externa, bolsa, adverte Agenor Soares dos Santos
No livro Virologia, de D. Falke, traduzido do
alemão para o português, e revisto pela Profa.. E. Kirchner, do Instituto de
Medicina Tropical da Universidade de São Paulo, foi usado envoltório, em lugar de envelope.[2]
A menos que se
queira enriquecer o portuglês, que
hoje domina a linguagem médica, ou atribuir à palavra envelope uma nova acepção, transformando-a em termo de biologia com
significado específico no campo da virologia, a melhor tradução será envoltório ou, como alternativa, invólucro.
Outra
denominação que poderia ser usada, muito mais científica e universal, adaptável
a todos os idiomas de cultura, é a de peplos,
proposta por Lwoff e Tournier.[6] Peplos é uma palavra grega que
significa manto.(7) À semelhança do capsídio, o peplos também seria formado de unidades - os peplômeros.
O termo peplos encontra-se registrado em dicionários médicos da atualidade, em
inglês, como o Dorland’s (1994) e o
Stedman (1996)
_________
1.
DEBRÉ,
R., CELERS, J. Clinical virology., 1970,
p. 7.
2.
FALKE,
D. Virologia, 1979, p. 4.
3.
GOES,
C. Dicionário de galicismos, 1940.
4.
ALMEIDA,
N.M. Dicionário de questões vernáculas, 1981.
5.
SANTOS,
A.S. Guia prático de tradução inglesa, 1981, p. 175.
6.
LWOFF, A.,TOURNIER, P. The classification of
viruses. Ann. Rev. Microbiol. 20:45-74, 1966.
7.
BAILLY, A. - Dictionnaire grec-français, 1950.
Talvez por
influência do inglês involvement, a
palavra envolvimento e o verbo envolver vêm sendo abusivamente
empregados em textos médicos, e com tal abrangência que praticamente excluem
outros recursos de que dispõe o nosso idioma para expressar a ideia de comprometer,
acometer, alcançar, atingir, afetar, estender-se a etc.
Envolver tem várias acepções, porém, em linguagem médica, é
quase sempre usado em apenas duas: a de revestir, dispor em volta, circundar; e
a de comprometer, atingir, afetar etc.
Em determinadas
construções o sentido se torna ambíguo. Ex.: "O rim foi envolvido pelo
processo inflamatório". O processo inflamatório alcançou, afetou, atingiu,
comprometeu o rim, ou se dispôs em torno do órgão?
Envolver deriva do verbo latino involvo, ere,
que se traduz por enrolar, enroscar, dispor ao redor, cobrir, rodear.[1]
Somente por extensão semântica envolver passou
a ter em português sentido mais abrangente. Ex.: "Envolveu-se com o
caso"; "esteve envolvido no crime"; "o seu envolvimento com
o narcotráfico..."
Em linguagem
médica, contudo, não é apropriado usar-se envolvimento
a torto e à direita, como se vê com frequência. As seguintes frases,
colhidas de textos médicos, exemplificam o uso abusivo e inadequado de tais
vocábulos.
"O
envolvimento da pele é multiforme..."
"O
envolvimento renal se traduz por proteinúria e hematúria..."
"As
lesões vasculares podem envolver apenas determinadas artérias..."
"O reto
pode ser envolvido pela radiação..."
"Os sinais de
envolvimento das suprarrenais podem manifestar-se desde o início..."
"Esses envolvimentos se
devem à liberação de toxinas..."
É evidente que a nossa maltratada
língua oferece outras possibilidades de expressão, que substituem com vantagem
o anfibológico envolvimento e o verbo
envolver.
_________
1.
SARAIVA,
F.R.S. Dicionario latino-português, 1993
Em 1876, o
pesquisador alemão Willy Kuhne criou o termo enzyme (do grego zýme, fermento) para designar os
fermentos solúveis, cuja ação independe da presença de micro-organismos.[1]
Nesta acepção, a palavra passou intacta para o inglês e o francês, e com a
grafia de enzima para o italiano,
espanhol e português.
O gênero da
palavra enzima tem sido motivo de controvérsia, não somente em português como
em outras línguas. Em francês predominou, de início, o gênero masculino. Em
Em italiano
firmou-se o gênero masculino, enquanto em espanhol prevaleceu o gênero
feminino.
Em português,
a quase totalidade dos lexicógrafos adota o gênero feminino, com o respaldo da
Academia das Ciências de Lisboa [3] e da Academia Brasileira de Letras.[4] Faz
exceção Silveira Bueno, que consigna o gênero masculino
Afrânio do
Amaral, que estudou a questão em profundidade, advoga ênzimo em lugar de enzima.[5]
A forma enzima, entretanto,
encontra-se consolidada e definitivamente aceita por todas as sociedades
científicas e pela maioria dos médicos brasileiros e portugueses.
Existe dúvida,
também, em relação ao adjetivo derivado de enzima. Seria enzímico ou enzimático?
A preferência
dos linguistas é para a primeira forma, considerando ser a única corretamente
formada. Os adjetivos de origem grega, com a terminação -ático em português, derivam do genitivo de nomes neutros da
terceira declinação (Ex.: sôma, atos, somático). Zyme, es é da 1ª declinação e, de acordo com as regras de derivação,
o adjetivo correspondente deveria ser enzímico.
Mendes de
Almeida culpa o uso da terminação ma, na palavra enzima, pelo aparecimento
do derivado enzimático, que deve ser
corrigido para enzímico. E diz
textualmente: "Nessa confusão não incorrem outros idiomas: francês enzyme, enzymique; inglês enzyme,
enzymic".[6] Tal assertiva,
entretanto, não corresponde à realidade dos fatos. O adjetivo enzymatique é usado em francês e
encontra-se averbado no Dictionnaire
Français de Médecine et de Biologie, de Manuila e col.,[2] sem dúvida um
dos mais abalizados léxicos no gênero. Do mesmo modo, enzymatic é de uso corrente na literatura médica de língua inglesa,
estando registrado no Dorland's
Illustrated Medical Dictionary,[7] assim como no Webster's Third International
Dictionary,[8] onde, além do adjetivo enzymatic,
ainda se encontra o advérbio enzymatically.
Estamos, pois,
diante de um fato linguístico consumado. Os dois adjetivos constam do Vocabulário Ortográfico da Academia
Brasileira de Letras e vão conviver por algum tempo, até que um deles ganhe a
preferência geral. E tudo indica que enzimático
já é a forma preferida. Na literatura médica em língua em português e espanhol
indexada pela BIREME há 593 ocorrências de enzimático e apenas seis de enzímico.[9]
_________
1.
SKINNER, H.A. The origin of medical terms,
1961, p. 162.
2.
MANUILA,
A. et al. Dictionnaire français de médecine et de biologie, 1970.
3.
ACADEMIA
DAS CIÊNCIAS DE LISBOA Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 1940.
4.
ACADEMIA
BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 1999.
5. AMARAL, A.
Linguagem Científica, 1976, p.201-225.
6. ALMEIDA, N.M.
Dicionário de questões vernáculas, 1981.
7.
DORLAND'S
ILLUSTRATED MEDICAL DICTIONARY, 1994.
8.
WEBSTER’S THIRD NEW INTERNATIONAL DICTIONARY,
1966.
9.
BIREME
– Internet. Disponível em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/
Acessado em 05/12/2009.
A
propósito do termo erucismo,
praticamente desconhecido na terminologia médica, consultamos algumas fontes
bibliográficas e chegamos à conclusão de que o mesmo, embora não esteja
dicionarizado, é um termo correto, que expressa com propriedade a ação tóxica
de larvas peçonhentas como a lagarta do gênero Lonomia.
É
um neologismo híbrido, formado com a raiz latina eruca + sufixo grego ismo.
O sufixo ismo,
conforme assinala Houaiss em seu dicionário, é usado em medicina “para designar
uma intoxicação de um agente obviamente tóxico”.[1]
Horácio,
o clássico escritor e poeta latino do século I a.C., deu o nome de eruca a uma planta cultivada na Europa (Eruca sativa), usada como comestível, cujas folhas têm a superfície
aveludada.
Com
o significado de larva, o termo eruca encontra-se
registrado no Lexicum Latinum de
Calepinus, de 1758, com a referência histórica de que o mesmo fora empregado
por Columela no século I d.C., em seu livro Rei
Rustica 1.II (...genus vermis qui
in olerum folia repit).[2] Provavelmente Columela deu este nome à larva
por seu corpo recoberto de cerdas, lembrando o aspecto das folhas da planta
descrita por Horácio.
Outras
fontes, como o Dicionário
Latino-Português, de Saraiva, atribuem a acepção de larva a Plinius, em sua
clássica obra Naturalis Historiae.[3]
Consultando o texto original
dessa obra, no livro XI.xxxvii, verificamos que Plinius, na verdade, não usou eruca e sim uruca (inde porrigitur
vermiculus parvus et triduo mox uruca).[4]
A
existência de variantes da palavra eruca é
explicada por Ernout et Meillet,
Aceita esta explicação, parece evidente que
deve prevalecer a forma eruca na
formação de compostos como eruciforme e
erucismo, o primeiro dos quais já
averbado nos léxicos.
Erucismo
pode ser comparado a outros tipos de envenenamento por peçonha de origem
animal, a exemplo de ofidismo, escorpionismo, aracnidismo ou aracnoidismo. Uma
vez legitimado pelo uso, certamente o termo erucismo
irá integrar o acervo lexical não somente da língua portuguesa, como de outros
idiomas de cultura, com as adaptações mórficas apropriadas a cada um deles. Em
inglês, por exemplo, seria erucism, tal
como em ophidism, scorpionism e arachnidism.
___________
1.
HOUAISS, A., VILLAR, M.S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2001
2.
CALEPINUS. Lexicon Latinum, 1758.
2. CALEPINUS. Lexicon Latinum, 1758.
3. SARAIVA, F.R.S.
Dicionário latino-português, 1993.
4 PLINIUS. Naturalis historiae, 1979, p. 502.
5 ERNOUT, A., MEILLET, A. Dictionnaire
étymologique de la langue latine. Histoire des mots, 1979.
6. BAILLY, A. - Dictionnaire
grec-français, 16. ed. Paris, Lib. Hachette, 1950.
Carta ao Editor: Rev. Soc.
Bras. Méd. Trop. 37:424, 2004
Sempre que se
nos oferece mais de uma opção em matéria de linguagem médica, a nossa escolha
se torna mais fácil quando dispomos de elementos de juízo que nos permitam
fundamentar a razão de nossa preferência.
Espinhal e espinal
derivam ambos do latim spinalis, e, adjetivo de
formação posterior a spina, ae, espinha. O uso de spina em latim, com o sentido de
coluna vertebral, data de Virgílio, portanto do século I a.C.[1] Celsus (século
I d.C.) empregou a expressão spina dorsi, que corresponde à
espinha dorsal.[2]
Spina, em
latim, deu origem a spine, em inglês;
épine, em francês; espina, em espanhol; spina, em ital
iano, e espinha, em português.
Na passagem do
latim para o português, as terminações -inu, -ina, evoluíram
inicialmente para - io,
- ia, a que sucedeu a palatal nh
para evitar o hiato. "A nasalação produzida pelo n intervocálico é um dos principais característicos fonéticos do
português".[3]
Por sua vez, o
grupo inicial sp- recebeu um i
prostético, posteriormente substituído por e.
Assim, temos: spina>ispia>espinha.[4]
Parece óbvio
que o adjetivo relativo a espinha deve ser espinhal,
seja ele derivado do latim spinalis, seja formado diretamente
do substantivo em português.
A propósito,
assim se expressa Cândido de Figueiredo: "Evidentemente, espinal não é
forma portuguesa... Espinal é um derivado que pressupõe o substantivo espina; e
este substantivo nunca existiu em português: do latim spina veio-nos o termo
espinha, e ninguém hoje chamará espina à espinha dorsal. Ora, assim como o
latim spina se traduz por espinha, o latim spinalis deve traduzir-se
por espinhal".[5]
Pedro Pinto dá
como derivados de espinha, espinhal e
espinal. A primeira forma "sem razão dada como ruim".[6]
Carlos Goes
considera "espinal melhor português que espinhal"[7] e Nascentes
aceita espinhal como derivado semierudito do latim spinale.[8]
Ambas as
formas são antigas em português, havendo, contudo, certa preferência por
espinhal. Moraes (1813) refere-se à medula espinal ou espinhal. Constancio
(1845) e Faria (1856) registram apenas
espinhal, enquanto Vieira (1871) e Lacerda (1874) consignam espinal, com
remissão para espinhal.
Espinhal tem
sido a forma preferida por autores clássicos da língua portuguesa, tanto em
obras literárias como em publicações científicas.
Aloysio de
Castro,
Os Descritores
em Ciências da Saúde, da BIREME, no entanto, adotaram espinal, não só em
espanhol, como também em português, o que tem favorecido o crescente emprego de
espinal na literatura médica brasileira.[11]
Em que pese às
opiniões em contrário, parece-me que a preferência deve recair em espinhal.
_________
1.
QUICHERAT, L.,DAVELUY, A. Dictionnaire
latin-français, 1876.
2.
SKINNER, H.A. The origin of medical terms,1961.
p.380.
3.
COUTINHO,
I.L. Pontos de gramática histórica,1962, p. 133.
4.
WILLIAMS,
Edwin B. Do latim ao português. 1961, p.82.
5.
FIGUEIREDO,
C. Vícios da linguagem médica, 1922, p. 178.
6.
PINTO,
P.A. Dicionário de termos médicos, 962.
7.
GOES,
C. Dicionário de raízes e cognatos da
língua portuguesa, 1936.
8. NASCENTES, A. Dicionario etimológico
resumido,1966.
9. CASTRO, A.
Tratado de semiótica nervosa., 1914.
10. ROMEIRO, J.V. Semiologia médica, 1943, p. 487.
11. BIREME. Internet.
Disponível em http://decs.bvs.br/ Acessado em 05/12/2009.
Embora, com
frequência, sejam usados com idêntico significado, os termos estádio e estágio não são sinônimos e têm, cada um deles, significado
próprio.
Estádio provém do grego stádion, através do
latim stadium. Stádion, em grego, era inicialmente uma medida itinerária equivalente a
125 passos, ou 1/8 de milha, ou ainda
A medida de um
stádion era utilizada na delimitação de uma
pista destinada a competições de corrida, ginástica e outras modalidades de
atletismo. Por metonímia, stádion passou a designar o próprio
local em que se realizavam essas práticas esportivas. Esta acepção passou para
o latim e perpetuou-se em todas as línguas modernas até os nossos dias.
Uma terceira
acepção foi acrescentada posteriormente à palavra stadium, que adquiriu o
significado de período, fase, época, estação, sem que se possa precisar como se
deu essa transição semântica.[3] Segundo Marcovecchio,[4] stadium foi tomado em
sentido figurado para expressar trajeto, carreira, percurso, e cita como
exemplo uma passagem de Cicero em que o grande tribuno incentivava os
principiantes a se exercitarem na arte oratória, como os que se iniciavam nas
corridas (eis qui ingrediuntur in stadium).
Stadium, em latim, evoluiu para stade, em francês; stadio em italiano, estadio em
espanhol, e estádio em português.
No sentido de
período, fase, o termo foi incorporado à linguagem médica para designar o curso
de uma doença ou as etapas de um fenômeno biológico. Na definição de Manuila et
al.,[5] o termo expressa "cada uma das fases ou cada um dos períodos
sucessivos que se pode distinguir em um fenômeno, por exemplo, durante o
desenvolvimento de um animal ou de uma planta, na evolução de uma espécie, no
curso de uma doença".
Segundo Bloch
e Wartburg,[6] stade, como termo
médico, entrou para o vocabulário francês em 1810. Em português, estádio já se encontra averbado no
dicionário de Domingos Vieira (1874) e foi empregado em textos médicos do final
do século dezenove, como ilustra o seguinte trecho de Torres Homem, extraído de
seu livro Estudo clínico das febres do
Rio de Janeiro, de 1886: "A observação demonstra entre nós que dos
três estádios de um accesso de febre intermitente, qualquer que seja o typo, o
primeiro é o que falta com mais frequência".[7]
Nas doenças infecciosas
tornou-se comum o emprego de estádio
como sinônimo de fase ou período para caracterizar o seu curso, conforme as
manifestações clínicas.
Na
embriologia, o termo é utilizado na descrição dos diferentes períodos de
desenvolvimento do embrião.
Em
parasitologia designa os intervalos que medeiam as sucessivas mudas na evolução
das larvas dos nematóides.[8]
Em oncologia,
o conceito de estádio é utilizado
para caracterizar a progressão de uma neoplasia e deu origem à classificação
dos tumores malignos conhecida internacionalmente como TNM.[9]
De estádio formou-se o verbo estadiar e, deste, um novo substantivo, estadiamento, que vem a ser o ato de
estadiar, já que o sufixo -mento,
neste caso, denota ação.[10]
Estágio, segundo a maioria dos
etimologistas, provém do francês stage, ou do seu ancestral estage, por sua vez oriundo do latim medieval stagium. Para Nascentes
(1932), entretanto, stage deriva de staticu,
que quer dizer "obrigação de residência", através do baixo latim stagiu.
Primitivamente,
referia-se ao período de treinamento de um sacerdote para o exercício de seu
mister.[11] Era também utilizado em direito feudal para ressaltar o dever do
vassalo de permanecer nas vizinhanças do castelo de seu senhor a fim de
colaborar na defesa deste em caso de guerra.[6]
Por extensão, estágio passou a designar todo período
de aprendizagem ou treinamento em uma profissão, cargo ou função. Expressa
ainda qualquer situação transitória ou cada uma das etapas de um trabalho.
Na língua
inglesa, a palavra stage, importada
do francês, adquiriu no vocabulário médico o mesmo sentido de estádio, muito embora exista nesse
idioma a palavra stadium. Dada a
grande influência das publicações de língua inglesa na área biomédica e o pouco
cuidado com que são feitas as traduções, stage,
em inglês, tem sido traduzido por estágio
com o significado de estádio e, desse
modo, estabeleceu-se a confusão entre os dois termos.
O Prof. Luis
Rey, em seu excelente Dicionário de
termos técnicos de medicina e saúde define com exatidão os dois termos: estádio e estágio. Nada melhor para encerrar estes comentários do que
transcrever as definições contidas no citado dicionário.[12]
"Estádio s.m. 1. Fase, período, época ou estação. 2. Cada uma das fases evolutivas através das quais se dá o desenvolvimento
de um organismo. 3. Intervalo entre
cada duas mudas consecutivas das formas larvárias de um nematóide ou de um
artrópodo; instar. Inglês: stage."
"Estágio s.m. 1. Aprendizado, exercício, prática. 2. Tempo de aprendizado, capacitação ou especialização empregado
por alguém, por um período determinado, em uma escola, laboratório, serviço
médico, dentário etc. Inglês: training.
3. Cada uma das sucessivas etapas
nas quais se realiza determinado trabalho. Inglês: step.”
Não se deve,
portanto, confundir os dois termos e empregar estágio por estádio, como
se vê com frequência.
_________
1.
BAILLY, A. Dictionnaire grec-français, 1950.
2.
SARAIVA,
F.R. S. Novíssimo Dicionario latino-português, 1993.
3.
MACHADO
FILHO, A.M. A palavra é de ouro, 1979, p.92.
4.
MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico storico
dei termini medici. 1993.
5.
MANUILA,
A. et al. Dictionnaire français de médecine et de biologie, 1970.
6.
BLOCH,
O., VON WARTBURG, W. Dictionnaire étymologique de la langue française, 1986.
7.
TORRES-HOMEM,
J. V. Estudo clínico sobre as febres do Rio de Janeiro, 1886, p. 64.
8.
PESSOA,
S. B. Parasitologia médica, 1958.
9.
UNIÃO
INTERNACIONAL DE COMBATE AO CÂNCER. TNM- Classificação dos tumores malignos,
1989.
10. GOES, C.
Dicionário de afixos e desinências, 1937.
11. ROBERT, P.
Dictionnaire alphabétique et analogique de la langue française,
1987.
12. REY, L.
Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde, 1999.
O método da exsanguinotransfusão foi idealizado por Hart, em 1925, para
o tratamento da icterícia grave do recém-nascido, recebendo em inglês a
denominação de exchange transfusion.[1]
Diamond, em 1948, desenvolveu a técnica da exsanguinotransfusão, preconizado-a
como tratamento da eritroblastose fetal. Em seu trabalho referiu-se a replacement transfusion.[2]
O método consiste na substituição de quase todo o sangue do paciente
pelo sangue de um doador, o que se consegue pela retirada e transfusão de
sangue, realizadas simultaneamente. Por esta razão, foi também chamado de substitution tansfusion, em inglês,[3] e
de Austauschtransfusion, em
alemão.[4]
Há em latim o verbo sanguino, are, que se traduz em português
por sangrar, perder sangue. Exsanguis, e, em latim, que também
se escreve exanguis, e, quer dizer anêmico, no sentido
etimológico do termo, privado de sangue, e corresponde a exangue
Para melhor expressar a ideia da retirada total ou quase total do
sangue usam-se os termos exsanguinar e exsanguinação (em inglês: exsanguinate, exsangunation).
A realização simultânea da exsanguinação e da transfusão, ou seja a
substituição do sangue, resulta na formação da palavra composta exsanguinotransfusão (em inglês: exsanguinotransfusion).
Não se pode tachar de incorreta a forma exanguinotransfusão, também usada em espanhol - exanguinotransfusion. [5] Contudo,
tratando-se de termo de formação erudita é conveniente a manutenção da letra s - exsanguinotransfusão.
O termo é hoje universalmente aceito, com as adaptações mórficas
adequadas a cada idioma, sendo que o s
foi mantido em italiano, francês, inglês e alemão.
O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras averba exsanguinitransfusão. [6] Houaiss deriva
a palavra do latim ex + sanguis, inis + transfusão
e registra exsanguinotransfusão com
remissão para exanguinitransfusão, o
que pressupõe preferência para esta última forma. [7] Julgo preferível, no
entanto, a forma exsanguinotransfusão, já consagrada em terminologia médica.
_________
1.
MORTON, L.T. A medical bibliography, 1983, p. 414.
2. DIAMOND, L. K. Replacement transfusion as a treatment for
erythroblastosis fetalis. Pediatrics 2:
520-524, 1948 .
3. CHURCHILL'S MEDICAL DICTIONARY, 1989.
4. PSCHYREMBEL, W. Klinisches
Wörterbuch, 1977.
5. BRAIER, L. Diccionario enciclopédico
de medicina, 1980.
6. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS.
Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 1999.
7. HOUAISS, A., VILLAR, M.S. Dicionário
Houaiss da língua portuguesa, 2001.
Vemos
com frequência em textos médicos o emprego de fácies no gênero
masculino. “O paciente tem um fácies
característico...”.
Facies
é palavra latina do gênero feminino, com o mesmo sentido de face
Na Terminologia
Anatomica,[1] redigida em latim, tanto designa a face em sua
estrutura anatômica, como indica a superfície de determinadas partes do corpo,
como ossos e vísceras: facies anterior, facies posterior, facies
medialis, facies lateralis, facies parietalis, facies visceralis.
Nesta acepção deve traduzir-se por face:
face anterior, face posterior, face
medial, face lateral, face visceral.
Em
Semiologia, a palavra facies adquiriu outro significado,
expressando o aspecto geral do rosto do paciente, onde se espelham sinais
sugestivos de determinadas doenças ou situações clínicas. Nesta acepção a
palavra facies é intraduzível e se mantém como latinismo em todas as
línguas de cultura.
Na
medicina clínica do passado foram descritas dezenas de facies; algumas típicas, como facies hipocrática, facies renal, facies
basedowiana, e outras menos características, que têm, atualmente, apenas
interesse histórico.
Sendo feminina em latim, deve preservar o mesmo gênero
em todas as línguas neolatinas. Em espanhol e italiano manteve-se o gênero
feminino. Em francês, no entanto, adotou-se o gênero masculino, o que influenciou
os autores médicos de língua portuguesa.[2][3]
No dizer de Silveira Bueno “deve ser combatido o erro
dos médicos que dão a esta palavra o gênero masculino. É feminino”.[4]
Muito
embora o Vocabulário Ortográfico da
Academia Brasileira de Letras aceite os dois gêneros,[5] é recomendável a
manutenção do gênero feminino original do latim.
A
incorporação do vocábulo ao vernáculo justifica o acento tônico na primeira
sílaba adotada no citado Vocabulário
e em alguns outros léxicos.
_________
1. FEDERATIVE COMMITTEE ON ANATOMICAL
TERMINOLOGY. Terminologia
anatomica,
1998.
2. BARBOSA, P.
Dicionário de terminologia médica portuguesa, 1917.
3. PINTO, P.A.
Dicionário de termos médicos, 1962.
4. BUENO, F.S.
Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa, 1963.
5.
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa,
1999
Frequentemente devemos nos referir ao
resultado de um exame laboratorial como falsamente positivo ou negativo e usamos
as expressões falso positivo e falso negativo.
Quando se trata de uma determinada
reação ficamos em dúvida sobre a forma correta: Falso positiva ou falsa
positiva? Falso negativa ou falsa negativa? A dúvida é ainda maior quando
devemos usar a expressão no plural: Falso positivos ou falsos positivos? Falso
negativos ou falsos negativos?
Antes de mais nada devemos indagar a
que classe gramatical pertence cada uma das palavras. Obviamente à classe dos
adjetivos. Trata-se de um adjetivo composto. Neste caso, se os dois adjetivos
estiverem unidos por um hífen, a decisão torna-se mais fácil, pois a gramática
nos ensina que, quando os compostos são formados de dois adjetivos, só o último
deve flexionar. Escreveremos, então, falso-positivo,
falso-positiva, falso-positivos, falso-positivas, falso-negativo,
falso-negativa, falso-negativos, falso-negativas.
Não usando o
hífen, temos dois adjetivos independentes, o primeiro dos quais assume função
adverbial. "É propriedade de nossa língua usar o adjetivo como voz invariável
com força de advérbio"... "O rigor gramatical não admitiria uma
justaposição de dois adjetivos, um dos quais precisa e determina o outro; o
determinativo deve então assumir a forma de advérbio", ensina Mário
Barreto.[1]
Portanto,
falso, adjetivo, substitui falsamente, advérbio, nas expressões falso positivo,
falso negativo e congêneres.
Tendo função
adverbial, o primeiro adjetivo deveria permanecer invariável nas flexões de
gênero e número e as formas corretas seriam semelhantes às mencionadas com o
uso do hífen. Entretanto, em virtude de uma atração gramatical, é frequente
flexionar-se o primeiro adjetivo, como se o mesmo não tivesse função de
advérbio.
A forma
flexionada - é ainda Mário Barreto quem nos ensina - "por ser do uso vivo
da língua e da pena dos mestres, tem direito a andar imune da censura dos
gramáticos". [1]
Assim,
podemos admitir como corretas todas as formas, com ou sem flexão do primeiro
adjetivo, desde que não se empregue o hífen. Usando-se o hífen, o primeiro
adjetivo deve permanecer invariável.
Resta-nos
saber se é lícito o uso do hífen neste caso. Conforme estabelece o Acordo
Ortográfico promulgado pelo decreto 6.583, de 29 de setembro de 2008
“emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição... cujos elementos
de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal,constituem uma unidade
sintagmática e semântica e mantêm acento próprio...”[2]
Tudo depende,
portanto, de interpretação. Se considerarmos falso-positivo como uma nova
unidade semântica justifica-se o uso do hífen; caso contrário, não. O uso do
hífen em compostos sempre foi e continuará sendo assunto bastante controverso.
_________
1. BARRETO, M.
Novíssimos estudos da língua portuguesa, 1980, p. 318.
2. ACADEMIA
BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 1999.
3. BRASIL -
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Decreto 5.583, de 29 de setembro de 2008.
FALSOS COGNATOS
Denominam-se falsos cognatos ou falsos amigos "palavras semelhantes em duas línguas, mas de sentidos diversos".[1]
Um bom tradutor, além
de dominar o assunto do texto a ser traduzido, deve conhecer bem a língua do
autor e, melhor ainda, a sua própria, o que, de modo geral, não se observa em
livros médicos traduzidos no Brasil do inglês para o português.Dentre as muitas
dificuldades de tradução estão os falsos cognatos. O tradutor despreparado
deixa-se levar pela semelhança gráfica e sônica da palavra nos dois idiomas,
adapta morfologicamente o termo ao português, mantendo a acepção original do
inglês e conferindo-lhe um significado inexistente em nosso idioma.[2]
Somando-se a isso os erros gramaticais
e as impropriedades sintáticas fica fácil entender o aparecimento de um novo
dialeto médico em formação, misto de português e inglês, que poderíamos chamar
de portuglês.
O
fato é mais raro nas traduções literárias, porquanto nessa área os tradutores
são mais bem preparados.
Vejamos alguns exemplos mais comuns de
falsos cognatos da língua inglesa encontrados em traduções de textos médicos:
Assign (v.) - traduz-se por designar e
não assinar
Actually - traduz-se por realmente e
não atualmente
Adherence - adesão e não aderência (ao
tratamento)
Adhesion - aderência e não adesão
(visceral)
Advert - aludir, mencionar e não
advertir
Aperture – abertura, orifício, e não
apertura, estreitamento
Appoint (v.) - marcar e não apontar
(consulta)
Application - inscrição, matrícula e
não aplicação
Clearence - depuração e não clareamento
College - Faculdade e não Colégio
Confidence - confiança e não
confidência (estatística)
Counterpart – similar e não contraparte
Defer (v.) - adiar e não deferir
Devolve (v.) - transferir e não
devolver
Discrete - distinto, separado e não
discreto
Divert (v.) - desviar e não divertir
Entail (v.) - acarretar e não entalhar
Exit - saída e não êxito
Injury - lesão e não injúria (dano a um
órgão ou tecido)
Lecture - conferência, preleção e não
leitura
Library - biblioteca e não livraria
Offensive - desagradável, repugnante e
não ofensivo (odor)
Paper - trabalho publicado e não papel
Parents - pais e não parentes
Policy - política, programa e não
polícia
Prejudice - preconceito e não prejuízo
Process - protuberância e não processo
(anatomia)
Prospect - perspectiva e não prospecto
Provocative - indutor e não provocativo
(teste diagnóstico)
Realise (v.) - perceber, compreender e
não realizar
Reassure – tranquilizar e não
reassegurar
Recipient - ganhador, beneficiário e
não recipiente
Record (v.) - registrar e não recordar
Relapse - recaída, recidiva e não
relapso
Relatives - parentes e não relativos
Requirement - condição, requisito e não
requerimento
Resume (v.) - retomar, continuar e não
resumir
Severe - grave, intenso, acentuado e
não severo
Subtle - sutil, tênue e não súbito
Outra
dificuldade das traduções reside na polissemia. Denomina-se polissemia a
multiplicidade de significados para a mesma palavra. Se o tradutor não dominar
o assunto que está traduzindo, cairá em verdadeiras armadilhas. Vejamos alguns
exemplos:
Affection - Tem o sentido de afecção e
também o de afeição
Affiliate (v.) - tanto pode significar
filiar-se (a uma sociedade,) como determinar a paternidade.
Ambulant (patient) - paciente de
ambulatório, ou capaz de caminhar.
Assume (v.) - assumir e também admitir,
aceitar
Anecdotic - significa não documentado e
também anedótico, no sentido de pilhéria, de narrativa jocosa.
Aspect - além de aspecto significa
também lado, face
Casuality - casualidade e também
acidente, desastre
Consistent - pode ser consistente e também
compatível, congruente
Elegant - além de elegante significa
precisão científica (pesquisa)
Envelope - envelope (sobrecarta) e
invólucro, envoltório
Fatality - traduz-se por fatalidade ou
morte por acidente
Figure - traduz-se por figura e também
por número
Forceps- Pode ser pinça de modo
genérico, ou fórceps obstétrico
Fluid - traduz-se por líquido ou
fluido, dependendo do contexto
Inoculate (v.) - tanto expressa
inocular, como propagar, disseminar
Medicine - tanto quer dizer medicina
como remédio
Sequel - tanto pode ser sequela, como
sequência
Subject - tanto significa sujeito, como
tema, matéria
Succeed - não é apenas suceder; significa
ter êxito, ser bem sucedido
Alguns
falsos cognatos já estão arraigados no vocabulário médico em suas
pseudotraduções, tais como aderência (ao tratamento); assumir, com o sentido de
admitir; injúria, em lugar de lesão; clareamento, em vez de depuração;
consistente significando compatível, sugestivo; provocativo, em lugar de
indutor, para os testes diagnósticos que produzem determinados efeitos; severo,
em substituição a grave, intenso, acentuado; envelope como termo de biologia em
lugar de invólucro, envoltório; fluido, como sinônimo de líquido, e muitos
outros.
________
1. RÓNAI, P. A tradução vivida, 1981,
p.37.
2 .SANTOS, A.S. Guia prático de tradução
inglesa, 1981.
FAMILIAR,
FAMILIAL
Familiar, adjetivo, tem mais de uma acepção
Familial é neologismo criado na França, no século passado,
segundo Bloch-Wartburg em 1865, para caracterizar as doenças de natureza
hereditária que acometem mais de um membro da mesma família.[2] Do francês o
termo familial passou para o inglês e para outros idiomas, dentre os quais o
português.
Gonçalves
Viana, linguista de grande autoridade, condenou acrimoniosamente a forma familial. São suas as seguintes
palavras: "Dantes, todos os autores se contentavam com a primeira destas
formas (familiar), a única verdadeira, do latim familiare. Modernamente os
franceses, que já tinham familier, da mesma origem, porque este adjetivo
adquiriu a acepção de trivial, e também a de confiado, que não usa deferência
ou cortesia, inventaram outro adjetivo incorretíssimo, familial, impossível em
latim, visto haver já l no vocábulo radical e deram-lhe o sentido de relativo à
família".[3]
A norma linguística
a que se refere Gonçalves Viana acha-se bem explicada
Em linguagem
médica esta regra pode ser observada em numerosos termos de uso comum. Com a
terminação em -ar podemos citar: anular, alveolar, articular, axilar, biliar,
capilar, clavicular, cuticular, ganglionar, glandular, jugular, lobular,
mamilar, muscular, ocular, orbicular, ovular, pulmonar, pupilar, radicular, tonsilar,
tubular, vascular, ventricular,
vesicular. Observa-se a presença de l em todas as raízes.
Com a
terminação em -al encontramos: acromial, anal, arterial, braçal, braquial,
bucal, dorsal, cubital, escrotal, esfenoidal, espinhal, fecal, fetal, frontal,
intercostal, intestinal, hormonal, humoral, medicinal, menstrual, mitral,
neural, occipital, parietal, perineal,
puerperal, ventral, cujas raízes não possuem a letra l.
Em todos os
exemplos citados a formação dos adjetivos obedeceu à norma citada, cuja origem
parece provir da própria eufonia da língua. Constituem exceções, entretanto, epitelial, lacrimal, luminal, umbilical,
em cujas raízes encontramos o som de l. Deve-se distinguir luminal, referente à luz de uma víscera,
de luminar, que tem o sentido de
expoente, pessoa de grande saber.
O neologismo familial teve por finalidade evitar
ambiguidade de sentido na caracterização de uma doença. Doença familiar tanto
poderia ser uma doença de caráter hereditário, como indicar a forma habitual e
comum de determinada enfermidade.
Familial substituía, assim, a expressão antes comumente empregada de heredo-familiar, indicativa de
transmissão hereditária.
O neologismo familial foi incorporado à linguagem
literária, à linguagem jurídica e à sociologia. Encontra-se registrado como
sinônimo de familiar em vários léxicos contemporâneos, embora falte em muitos
deles. O dicionário Houaiss (2001) define familial
simplesmente como "relativo à família".
Aparentemente,
não foi incorporado ao espanhol; nesta língua prevalece familiar como forma única, a julgar pelo dicionário da Real
Academia Espanhola. Este dicionário, em sua 19a. ed., registra 16 acepções para
o vocábulo familiar, das quais a de número 5 refere-se a "cada uno de los caracteres normales o
patológicos orgánicos o psíquicos que presentan varios individuos de una misma
familia, transmitidos por herencia".[5]
Em linguagem
médica o neologismo francês foi defendido no Brasil por Plácido Barbosa:
"...em português, tudo justifica a adoção também de um adjetivo familial,
diferente de familiar, para as acepções em que se emprega o termo
correspondente francês".[6] O termo foi igualmente aceito por Pedro Pinto,
que o averbou
A palavra familial soa em português como um caso
de lambdacismo, que o ouvido rejeita, e a nossa tendência instintiva é de
substituí-la por familiar, muito mais
eufônica e natural.
Tudo indica,
entretanto, que a forma familial é
definitiva, dada a forte influência, inicialmente do francês, e atualmente do
inglês, na terminologia médica.
_________
1. CUNHA, A.G. Dicionário etimológico Nova Fronteira
da Língua Portuguesa, 1986.
2. BLOCH, O., von WARTBURG, W. Dictionnaire
étymologique de la langue française, 1986.
3. VIANA, A.R.G. Apostilas aos dicionários portugueses,
1906, p. 435-436.
4. SAID ALI, M. Gramática histórica de língua
portuguesa, 1964, p. 236.
5. REAL
ACADEMIA ESPAÑOLA Diccionario de la lengua española, 1970.
6. BARBOSA, P. Dicionário de terminologia médica
portuguesa, 1917.
FARINGE E LARINGE
As línguas que
não possuem o gênero neutro, como a portuguesa, devem necessariamente nomear
cada coisa atribuindo-lhe o gênero masculino ou feminino.
À exceção dos
seres sexualmente diferenciados, o gênero dos substantivos é inteiramente
convencional e fixado arbitrariamente ao longo da evolução histórica de cada
língua.
Um mesmo
substantivo, frequentemente, difere, quanto ao gênero, de uma língua para
outra. Mar, em francês, por exemplo,
é feminino. Lua, em alemão, é
masculino, enquanto sol é feminino.
O gênero pode
ainda modificar-se dentro da mesma língua com o transcurso do tempo. Assim, por
exemplo, linguagem, tribo, árvore,
pirâmide, já foram, em português, do gênero masculino, enquanto planeta, mapa, fim, já pertenceram ao
gênero feminino.[1]
Há palavras
que têm o gênero ambíguo, a elas se aplicando tanto o masculino como o
feminino. Ex.: linotipo (o linotipo,
a linotipo).
Há nomes que
são chamados comuns de dois, por se aplicarem a ambos os sexos. Ex.: chefe (o chefe, a chefe). E há ainda os
epicenos, que designam ambos os sexos sob um único gênero. Ex.: criança, pessoa.
A desinência
da palavra pode definir o gênero, constituindo o gênero gramatical. Assim, em
português, a terminação em a, na
maioria das vezes, é indicativa de feminino, e a terminação em o, de masculino. Há numerosas exceções,
entretanto, como as palavras derivadas do grego e terminadas em ma,
que são masculinas, tais como problema,
dilema, sofisma, plasma, mioma etc.
As palavras
terminadas em e podem pertencer
tanto ao gênero masculino, como ao feminino. Ex.: vale, fonte, mate (chá), parede.
Faringe e laringe
derivam do grego phárygx, yggos, e lárygx,
yggos, respectivamente, através
do latim científico pharynx, yngis e larynx,
yngis.
Existe
concordância quanto ao gênero feminino de faringe, que se conservou desde o
grego até ao português. Em francês, contudo, pharynx é do gênero masculino, o que explicaria o uso indevido de
faringe, em português, como substantivo masculino. Segundo Ramiz Galvão "o
manusear constante dos livros franceses tem feito dar a este vocábulo o gênero
masculino, quando assim não é senão naquela língua".[2]
Também Plácido
Barbosa é da mesma opinião: "Imitando o francês, damos habitualmente a
esta palavra o gênero masculino, mas o certo é dar-lhe o gênero feminino, que é
o etimológico".[3] "Não se admite o gênero masculino para esta
palavra", conclui Silveira Bueno.[4]
Em relação à
laringe já não há o mesmo consenso. Moraes (1813) atribuía à laringe o gênero
masculino, no que foi seguido por outros lexicógrafos como E. Faria (1856),
Laudelino Freire, (1957), J.P. Machado (1977) e Antenor Nascentes.(1961)
O gênero
feminino, por sua vez, foi abonado por Lacerda, (1874) Adolfo Coelho (1890),
Cândido de Figueiredo (1949), Silveira Bueno, (1963) Mendes de Almeida, (1981)
e pela Academia das Ciências de Lisboa (2001).
Adotando uma
posição eclética, os dicionários de Aurélio Ferreira (1999), Michaelis (1998), Houaiss (2001) e o
Vocabulário da Academia Brasileira de Letras (1999) admitem os dois gêneros
para laringe. Segundo Cândido de Figueiredo (1949) o gênero masculino é mais
usado no Brasil, ao contrário de Portugal onde laringe é palavra feminina.
A mesma
divergência verifica-se nos dicionários médicos: Ramiz Galvão (1909), Plácido Barbosa (1917) e Pedro Pinto (1962)
optaram pelo gênero masculino, enquanto Paciornik, (1975), Céu Coutinho (1977)
e Luís Rey (1999) consideram laringe do gênero feminino.
O gênero
masculino da palavra laringe, segundo a maioria dos autores, remonta ao grego.
Este argumento, contudo, não é irretorquível, como se depreende do seguinte
trecho de Pedro Pinto, que transcrevemos a seguir: "Mostrou-me Ramiz
textos em grego onde aparece larinje, masculino, e outros onde estava essa
palavra como feminina. Por vezes viam-se os dois gêneros na mesma
obra".[5] A ambiguidade de gênero, por conseguinte, acompanha o termo
laringe desde a sua origem.
A tradução em língua portuguesa da 5a.
edição da Nomina Anatomica adotou o
gênero feminino tanto para faringe como para laringe.[6] Na literatura médica brasileira
dos últimos anos predomina o gênero feminino, embora ainda se encontrem
publicações nas quais laringe aparece no gênero masculino.
Parece de todo conveniente buscar-se a
desejada uniformidade adotando-se o gênero feminino tanto para faringe como
para laringe, conforme a Nomina Anatômica.
Coelho de Souza, quem desenvolveu um estudo sobre este mesmo tema, chegou à
idêntica conclusão.[7]
_________
1.
COUTINHO,
I.L. Pontos de gramática histórica, 1962, p. 276.
2
GALVÃO,
B.F.R. Vocabulário etymologico, orthographico e prosodico das palavras
portuguesas
derivadas
da língua grega , 1909.
3.
BARBOSA,
P. Dicionario de terminologia médica portuguesa, 1917.
4.
BUENO,
F.S. Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa, 1963.
5.
PINTO,
P.A. Dicionário de termos farmacêuticos, 1959, p. 25.
6.
SOCIEDADE
BRASILEIRA DE ANATOMIA. Nomina Anatomica (trad.), 1984.
7.
SOUZA,
J.C.de A laringe. "O faringe"?
Brasília Médica 30:43-44, 1993.
Causa
estranheza os léxicos registrarem o adjetivo femoral com o na penúltima sílaba, quando fêmur se escreve com u. À primeira vista poderia parecer que
a forma correta deveria ser femural, de fêmur + sufixo -al.
Femur
é palavra latina usada por escritores clássicos para designar a coxa. Celsus
chamou femur ao osso da coxa, comparando-o ao úmero, enquanto a
palavra coxa referia-se ao osso da anca ou quadril.[1] O uso consagrou femur,
em latim, para nomear o osso da coxa, o que foi sancionado pela Nomina
Anatomica.
O
adjetivo femoral não se formou em português pela adição do sufixo -al ao substantivo fêmur. O adjetivo já
existia em latim sob a forma femoralis e como tal passou para as
línguas modernas com as adaptações próprias a cada idioma. Assim, temos femoral em inglês e espanhol; femorale em italiano, e fémoral ou fémorale em francês.Vê-se que em todas as línguas citadas foi
mantida a vogal o na segunda sílaba.
O
termo femoral, além de atender ao
ideal de uniformidade internacional da nomenclatura anatômica, encontra-se
averbado em praticamente todos os léxicos, desde o de Eduardo Faria (1856) até o Aurélio
século XXI (1999).
_________
1. CELSUS. De
Medicina, VII. 1. The Loeb Classical Library, 1971, vol. 3, p. 490.
Há palavras que, em lugar de enriquecer, empobrecem o nosso léxico. São como ervas daninhas que surgem e crescem em um jardim e vão aos poucos substituindo as demais plantas que o ornamentavam.
Tal
é o caso da palavra ferramenta.
Nascida do latim como plural neutro de ferramentum, significava originalmente
um “conjunto de instrumentos ou utensílios de ferro.” [1] São exemplos
familiares e tradicionais de ferramentas: na lavoura, a enxada, a foice, o
machado; na marcenaria, o martelo, o serrote, o formão; na oficina mecânica, a
chave de fenda, o alicate, a chave inglesa, etc.
Por
extensão semântica, ferramenta passou a designar qualquer instrumento ou
utensílio utilizado pelo homem para trabalhos manuais ou mecanizados.
Mais
recentemente, ferramenta deixou de representar apenas substantivos concretos,
objetos materiais, para abranger qualquer meio utilizado para alcançar
determinado fim. Para essa neologização muito deve ter contribuído a tradução
sistemática da palavra inglesa tool
por ferramenta.
Como
resultado, o termo ferramenta passou a ser usado em linguagem técnica com tal
frequência e abrangência que praticamente ocupou o lugar de todos os outros
meios de expressão equivalentes, tais como instrumento, método, técnica, norma,
procedimento, processo, programa, condição, conduta, requisito, recurso, e
outros.
Uma fórmula química, uma equação, um método de exame, uma
reação sorológica, uma norma, já não são considerados como tais e sim como
ferramentas.
Vamos
citar alguns exemplos colhidos em textos médicos de artigos indexados pela
BIREME,[2] seguidos de uma redação alternativa que poderia ter sido usada
substituindo-se a palavra ferramenta por outra mais apropriada, com
evidente ganho estilístico.
1. Avaliação de riscos como ferramenta para a
vigilância ambiental em saúde.
Avaliação de riscos como condição
para a vigilância ambiental em saúde.
2. Uma ferramenta
para treinamento na avaliação de imagens mamográficas via Internet
3. Termografia
infravermelha computadorizada: uma nova ferramenta na quantificação da resposta
fisioterapêutica
Termografia
infravermelha computadorizada: um novo processo na quantificação
da
resposta fisioterapêutica.
4.
Comunicação de riscos ambientais - uma ferramenta para a tomada de decisão:
Comunicação de riscos ambientais – um norma para a tomada de decisão.
A Internet como instrumento da
prática médica atual.
6. O implante coclear como ferramenta de desenvolvimento linguístico da
criança surda
O implante coclear como meio de
desenvolvimento linguístico da criança surda.
7. Uma ferramenta computacional
de aprendizagem baseada em redes semânticas
Um programa computacional de
aprendizagem baseada em redes semânticas.
8. Conforto térmico do
recém-nascido em ambiente com umidade controlada: uma nova ferramenta e testes
preliminares
Conforto térmico do recém-nascido em
ambiente com umidade controlada: uma nova conduta e testes preliminares.
9. O NOi (óxido nítrico inalatório) é uma ferramenta
útil no manuseio desta complicação, refratária ao tratamento convencional..
O NOi (óxido nítrico inalatório) é um recurso
útil no manuseio desta complicação, refratária ao tratamento convencional.
10. Cotidiano do cuidar de
enfermagem em cirurgia cardíaca: a interação como ferramenta do cuidado.
Cotidiano do cuidar de enfermagem em cirurgia cardíaca: a interação
como requisito do cuidado.
Em algumas construções, o termo
ferramenta é inteiramente dispensável e pode ser suprimido sem prejuízo do
sentido da frase. Exemplos:
1. Norma
técnica: ferramenta para garantir a qualidade nos serviços de diagnóstico por
imagem.
4. Teste de AMES
como uma ferramenta para detecção de citotoxicidade e mutagenicidade causadas
por metais pesados e radicais livres.
Teste de AMES para detecção de citotoxicidade
e mutagenicidade causadas por metais
pesados e radicais livres.
4. Ferramenta de descrição da
família e dos seus padrões de relacionamento: genograma, uso em saúde da família.
Descrição da família e dos padrões de
relacionamento: genograma, uso em saúde
da
família.
5.
Sob
a ótica da Teoria das Representações Sociais, utiliza a ferramenta do Discurso
do Sujeito Coletivo
Sob
a óptica da Teoria das Representações Sociais, utiliza o Discurso do Sujeito
Coletivo
__________
1. SARAIVA,
F.R.S. Dicionario latino-português, 1993.
2. BIREME – Internet.
Disponível em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/ Acessado
em 8/12/2009.
FÍGADO
O fígado de animais sempre foi apreciado
como alimento de primeira qualidade e com ele se preparavam e se preparam
muitas iguarias. Uma delas, que enriquece a cozinha francesa, é o paté de foie gras, pasta preparada com o
fígado gordo de gansos mantidos em regime de superalimentação.
O
figo (fruto) também sempre foi usado como alimento pelo homem. Além disso, dele
se utilizava na antiguidade para a ceva e engorda de aves e outros animais.
Em
grego clássico o fígado era designado por hépar e, em latim, por jecur
(o j com o som de i, iecur), ambos os
termos oriundos do indo-europeu yekurt.[1]
Na
literatura grega aparece a expressão hépar sykótos, [2] que corresponde,
na literatura latina, a jecur ficatum, ambas as expressões
com a mesma significação culinária: fígado preparado com figos.
A
interpretação mais aceita para as citadas expressões é a de que se trata de
fígado de ganso engordado com figos, conforme a versão da sátira 2.8.88, de
Horácio: pinguibus et ficis pastum jecur anseris albae (pasta de figado
de uma gansa branca engordada com figos). [3][4] Outra interpretação,
mencionada por Ernout et Meillet, é de que se refere a um prato preparado com
fígado, guarnecido com figos. [5]
Do
grego hépar, hépatos, derivam os termos científicos atualmente em
uso, relativos ao fígado, como hepatologia,
hepático, hepatomegalia, hepatite etc.
Nos clássicos latinos o órgão era sempre designado por jecur (iecur), como se lê em Celsus.[6] Do adjetivo correspondente jecoralis, e com o mesmo sentido de hepático, deriva jecoral em português, adjetivo pouco empregado atualmente em linguagem médica, porém ainda mantido nos léxicos contemporâneos.
No
latim vulgar a expressão jecur ficatum foi paulatinamente
sendo substituída pelo último termo, ficatum, que passou a designar não
somente o "fígado preparado com figos", como o próprio órgão.
Tecnicamente, houve elipse do primeiro nome. Exemplo clássico de elipse é o da via
strata, que deu origem à palavra estrada.
Conforme ensina o Prof. Idel Becker atua
neste caso a lei da economia, fenômeno linguístico que tende à simplificação do
enunciado, tal como no caso de chémin de
fer métropolitain, que se reduziu
em francês a métro, hoje usado em
outras línguas, inclusive o português (metrô)".[7]
A
contiguidade de nomes pode levar à mudança semântica do vocábulo remanescente.
"As palavras que aparecem repetidas vezes juntas podem exercer influência
umas sobre as outras".[8] Dessa maneira, ficatum passou a ter o
mesmo significado de jecur.
Segundo
G. Paris, citado por Leite de Vasconcellos [9], no latim vulgar existiam as
formas ficatum, fecatum, fécatum e fícatum. Desta última
resultou fígado em português, o que
explica não somente a morfologia da palavra como o seu acento tônico.
Do
latim vulgar derivam igualmente os termos equivalentes das demais línguas
neolatinas: espanhol, hígado;
italiano, fegato; francês, foie; rumeno, ficat.
Já nas línguas anglo-saxônicas os termos empregados para designar fígado têm outra etimologia. Liver, em inglês, segundo Mayne, citado por Skinner, [10] tem a mesma origem de life, vida. Assim também em alemão: Leber (fígado) e Leben(vida).
_________
1. HAUBRICH, W.S. Medical meanings. A glossary of word origins,
1997, p. 127.
2. LIDDELL, H.G.,
SCOTT, R. A greek-english lexicon, 1983.
3. MARCOVECCHIO, E.
Dizionario etimologico storico dei termini medici, 1993, p. 357.
4. HORACE. Satires and epistles. Transl. Niall Rudd,
1997, p. 125.
5. ERNOUT, A.,
MEILLET, A. Dictionnaire étymologique de la langue latine, 1979, p. 232.
6. CELSUS, A.C. De
Medicina IV.1 The Loeb Classical Library, 1971, p. 356.
7. BECKER, I. Nomenclatura biomédica no idioma
português do Brasil, 1968, p. 290.
8. ULLMANN, S. Semântica. Uma introdução à ciência do
significado, 1964, p. 462.
9. VASCONCELOS, J.L. Lições de filologia portuguesa,
1959, p. 360.
10. SKINNER, H.A.
The origin of medical terms, 1961, p. 255.
Denomina-se
forma frusta de uma doença aquela em que os sintomas são atenuados e o
quadro clínico se apresenta de modo incompleto.
Não
se deve confundir frusta com frustra, feminino de frustro, o
mesmo que frustrado, particípio do verbo frustrar, cujo sentido é
o de malograr, falhar, não obter o resultado esperado.
Frusto (sem o r) tem sua origem no
latim frustum, que quer dizer pedaço, fragmento. Os nossos léxicos
averbam pelo menos duas acepções para frusto(a):
1)
Medalha ou escultura cujos caracteres acham-se desgastados pelo tempo.
2)
Forma benigna ou incompleta de uma doença.
O Novo Aurélio século XXI [1] e outros
léxicos incorrem no equívoco de definir frustro
como termo médico, em lugar de frusto,
conforme se lê à página 946 do referido dicionário:
"frustro
[Der. regress. de frustrar.] Adj 1. V. frustrado. 2. Med. Diz-se da forma
benigna ou incompleta de uma doença."
Como
termo utilizado em numismática e arqueologia, teria sido empregado inicialmente
em italiano, razão pela qual os lexicógrafos dão o termo como procedente do
italiano. Como termo médico, entretanto, Francisco de Castro, em sua clássica
obra Tratado de Clínica Propedêutica,
[8] revela-nos a sua origem francesa.
Segundo
Castro, foi Trousseau o primeiro a dele fazer uso para indicar uma forma
desfigurada da escarlatina, a que chamou de fruste.
Trousseau assim justificou o emprego desse adjetivo:
"Sabem
todos o que se entende em arqueologia por inscrição frusta: é aquela em que uma
parte mais ou menos considerável se encontra apagada, da qual resta apenas uma
linha, uma letra ou somente um ponto. Por comparação dizemos que as doenças
podem ser frustas, isto é, o médico irá ler apenas uma palavra da frase
sintomática e com esta palavra deverá reconstruir a frase completa, tal como o
arqueólogo e o numismata descobrem a inscrição desfeita sob as letras que
restam. O médico se compara ao arqueólogo; este, no início de seus estudos, tem
necessidade de aprender a ler em medalhas bem conservadas, em pedras intactas;
aquele necessita encontrar em uma doença que se lhe apresenta, todo o conjunto
de sintomas que a caracteriza. Mais tarde, porém, do mesmo modo que o
arqueólogo, por meio de uma palavra ou de uma letra, decifra uma inscrição
perdida, assim também o médico experiente descobrirá, por uma única
manifestação, a doença inteira".
(Traduzido do texto original francês,
que se encontra transcrito no livro do Prof. Francisco de Castro).
_________
1. FERREIRA, A.B.H. Novo dicionário da língua
portuguesa, 1999.
8. CASTRO, F. Tractado de clinica propedêutica, 1896,
p. 29.
HAJA VISTA
Do noticiário:
"O número de casos de AIDS está
aumentando além das previsões; haja visto os casos notificados nos últimos três
meses".
A expressão haja visto é incorreta.
Deve-se dizer haja vista, conforme o
entendimento dos gramáticos e estudiosos da língua portuguesa.
Rui Barbosa, citado como paradigma, usou esta expressão
em várias passagens de suas obras:
"Haja vista as minhas cartas de Inglaterra (1)
"Haja vista os Estados Unidos" (2)
"Haja vista o artigo 182, que abrange quatro páginas
(3)
Na definição de Napoleão Mendes de Almeida "haja
vista é uma locução invariável, perifrástica, transitiva, equivalente a veja, que tem como objeto direto a
palavra ou palavras que se lhe seguem" (4).
Para Cândido Jucá (filho) trata-se de uma "expressão
verbal relativamente moderna para significar veja, verbi-gratia, a saber, por
exemplo..." (2).
Segundo Pedro Pinto equivale à expressão "tenha-se
em vista, sob os olhos" (3).
É o mesmo que "considere-se, leve-se em conta",
ensina Francisco da Silva Borba (5).
Machado Filho considera haja vista uma expressão petrificada, que equivale pura e
simplesmente a veja (6).
Há divergência quanto à flexão do verbo haver. Para
alguns autores, o verbo deve concordar com o substantivo que vem a seguir.
Assim, se o substantivo estiver no plural, o verbo também deve ser usado no
plural. Ex.: "Hajam vista as demonstrações" (7,8). Esta
interpretação, entretanto, não é compartilhada por outros linguistas, que
admitem possa o verbo haver permanecer invariável: "Haja vista as
demonstrações" (9).
Todos estão de acordo em um ponto: na condenação da forma
haja visto.
Haja vista a advertência que
se encontra no Novo Aurélio: "Evite-se a construção haja visto, incorreta"
(10).
__________
1. MARTINS FILHO, E.L. Manual de Redação e Estilo,
1992, p. 180.
2. JUCÁ (filho), C. Dicionário Escolar das
Dificuldades da Língua Portuguesa, 1965, p. 337.
3. PINTO, P.A. Regências de verbos na Réplica de Rui
Barbosa, 1952, p. 84.
4. ALMEIDA, N. M. Dicionário de Questões Vernáculas,
1981, p. 134.
5. BORBA, F. S. Dicionário Gramatical de Verbos do
Português Contemporâneo
do Brasil,
1990, p.807.
6. MACHADO FILHO, A.M. Novas Lições de Português.
Coleção "Escrever Certo", 2.ed.,
vol. II,1966, p.145.
7. CALBUCCI, E. Questiúnculas de Português, 1953,
p.41.
8. BERGO, V. Erros e Dúvidas de Linguagem, 1959, p.
196.
9. LEDUR, P.F. Português Prático, 1990, p.101.
10. FERREIRA, A.B.H. Novo Dicionário da Língua
Portuguesa.
HEMATIA, HEMÁTIA, HEMÁCIA, HEMÁCEA
Silveira
Bueno,
Perdoe-me o
ilustre professor, mas creio que não é mais possível os médicos corrigirem a
forma e pronúncia da palavra hemácia,
a qual já se encontra definitivamente incorporada ao vocabulário médico.
A palavra hemácia (ou hematia) nos veio do francês hématie,
vocábulo introduzido na linguagem médica em 1812, por Gruitheisen.[2] O termo
não prevaleceu entre os médicos de língua inglesa, que continuam preferindo red blood cell ou erythrocyte. Em italiano usa-se emazia
e emazie, e em espanhol hematíe, no gênero masculino.
A maioria dos
léxicos, tanto em português como em francês, ensinam que a palavra é derivada
do grego haîma, atos, sangue.
Esta etimologia, contudo, pode ser questionada.
José Inez
Louro, helenista e autoridade em Linguística médica, admite que a palavra tanto
pode ser tirada do genitivo haimatos, como do diminutivo haimátion,
gota de sangue.
Tanto num como
noutro caso, o vocábulo hematia é
incorreto. Entende este autor que os substantivos concretos formados com o
sufixo -ia são proparoxítonos e cita
como exemplos artéria, amônia, acácia, etc. Em sua opinião a palavra hemácia
corresponde à forma plural do diminutivo haimátion (haimátia), devendo,
portanto, manter o acento grave em português.
A troca do t
do grupo ti (ou tei) grego ou latino para c em português encontra exemplo em
palavras como profecia, acrobacia, egípcio, sincício etc.[3]
Mangabeira
Albernaz esposa a mesma ideia de que a palavra hemácia deriva diretamente do diminutivo haimátion, e não do
genitivo haimatos.[2]
Em dois dos
mais acreditados léxicos de grego, o Dictionnaire
grec-français, de Bailly, e o Greek-english
lexicon, de Liddell e Scott, encontra-se o vocábulo haimátion, diminutivo de haîma,
com o significado de "um pouco de sangue".[4][5]
Vemos, por
conseguinte, que se pode defender a forma hemácia
com argumentos de ordem linguística. O argumento maior, entretanto, está na
ampla aceitação de hemácia pela
classe médica. É excepcional o uso, nos textos médicos atuais, da forma hemátia e, menos ainda, da forma hemat(í)a.
Alguns
dicionários de língua portuguesa averbam hemácia
como forma paralela de hemátia. O dicionário
de Aulete-Garcia (1980) registra a forma hemácia,
assinalando ser a mesma preferível no Brasil. O dicionário Michaelis (1998) e o Dicionário
da Academia de Ciências de Lisboa (2001)
abonam hemátia com remissão para hemácia, o que pressupõe preferência
para esta última forma. O léxico de Francisco Borba (2002), de usos do
português no Brasil, bem como o Dicionário
de termos técnicos em medicina e
saúde, de Luis Rey (1999), só registram hemácia.
A forma hemácea tem sido empregada ultimamente
em alguns poucos textos, especialmente de natureza não científica, sem qualquer
justificativa. A mesma não é encontrada nos principais léxicos de língua
portuguesa e tampouco no Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de
Letras, que, de modo geral, registra todas as variantes de uma palavra em uso.
Em uma
pesquisa na base de dados LILACS da BIREME, encontramos predomínio absoluto da
forma hemácia. A única menção à hematia encontra-se na
denominação de um substrato e o artigo está redigido em inglês.[6]
Hemácia – 282 vezes
Hemácea - 0
Hematia - 1
Hemátia - 0
Julgamos que a
forma hemácia está consagrada na
literatura médica em português e seria inútil querer ressuscitar as formas hematia ou hemátia, ou defender a forma hemácea.
_________
1.
BUENO,
F.S. Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa, 1963.
2.
MANGABEIRA-ALBERNAZ,
P. Questões de linguagem médica, 1944, p. 31-41.
3.
LOURO,
J.I. Questões de linguagem técnica e geral, 1941, p. 81-83.
4.
BAILLY, A. Dictionnaire grec-français, 1950.
5.
LIDDELL, H.G., SCOTT, R. A greek-english
lexicon, 1983.
6.
INTERNET.
Disponível em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/ Acessado em
12/01/2010.
O verbo grego poiéo
significa criar, produzir,
fazer, e primitivamente tanto
se aplicava à criação intelectual como ao trabalho artesanal. Poiesis
expressa a ação de criar, produzir, fazer; e poietes, o agente da
ação, ou seja, o autor, criador ou artesão.[1]
Segundo Ernout
et Meillet [2] a transmissão oral do grego ao latim resultou na palavra latina poesis,
is,
com perda da vogal i e com o significado de criação literária em versos, que se
manteve em português na palavra poesia.
Do mesmo modo, de poietes, em grego, originou-se poeta, ae,
em latim, e poeta em português.
Hematopoiese (do gr. haîma, atos, sangue + poiesis)
quer dizer, portanto, formação de sangue, e é termo bem antigo no vocabulário
médico. Riolan o empregou em 1650 na seguinte passagem, escrita em latim como
era de praxe na época: "Hepar sit primarium viscus haematopoeticum, lien secundarius", (o fígado é a principal víscera onde o
sangue é formado, vindo a seguir o baço). [3] Pensava-se, então, que o fígado e
o baço eram os principais órgãos hematopoiéticos.
A descoberta
da função hematopoiética da medula óssea foi feita independentemente por Giulio
Bizzozero, na Itália, e Ernst Neumann, na Alemanha. Ambos publicaram sua
descoberta no ano de l868.[4]
Tanto se usa hematopoiese como hemopoiese. O primeiro termo, entretanto, deve ser preferido por
sua formação regular a partir do genitivo.[5]
Na verdade, o
termo mais apropriado seria hemocitopoiese,
pois somente as células sanguíneas são formadas na medula óssea.[6]
A questão
linguística que se apresenta é saber se devemos escrever hematopoiese, respeitando a grafia original do segundo elemento
grego formador da palavra, ou se optamos pela forma hematopoese, de procedência latina.
Em alemão
escreve-se Haematopoiesis e em inglês
hematopoiesis.
Era de se
esperar que as línguas neolatinas acompanhassem o latim com a forma poesis,
o que não ocorreu. Em francês, Littré et Robin [7] recomendaram esta forma nos
verbetes hemopoèse e hematopoèse,
a qual, entretanto, não prevaleceu, cedendo lugar à hemopoïèsee hematopoïèse.
Em italiano
usa-se emopoiesi e ematopoiesi, consoante o trabalho
original de Bizzozero: "Sulla
funzione ematopoietica del midollo delle ossa".[4] Em língua espanhola
escreve-se hematopoyesis, substituindo-se
a letra i por y.
Somente em
português encontra-se dicionarizada a terminação poese nos vocábulos hematopoese,
hemopoese e correlatos. O dicionário Aurélio
século XXI (1999) e o Houaiss, (2001) averbam hemopoiese e hematopoiese, porém, com remissão para hemopoese e hematopoese, o
que pressupõe preferência para a forma sem o i. O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de
Letras (1999) registra as duas formas, com e sem i., em ambas as variantes do termo.
Tratando-se de
termo científico formado diretamente de elementos gregos, sem passagem pelo
latim, e atendendo ao ideal de uniformidade internacional da terminologia
médica, julgo preferível a forma hematopoiese
(com a manutenção da vogal i).
Logicamente,
da mesma forma se escreverão todos os derivados e cognatos, tais como hematopoiético, hemopoiético,
hemocitopoiese, eritrocitopoiese, leucocitopoiese etc.
_________
1.
BAILLY, A. Dictionnaire grec-français, 1950.
2.
ERNOUT,
A., MEILLET, A. Dictionnaire étymologique de la langue latine, 1979.
3.
SKINNER, H. A. The origin of medical terms,
1961, p. 200.
4.
MORTON, L.T. A medical bibliography (Garrison
and Morton), 1983.
5.
GALVÃO,
B.F.R. Vocabulário etymologico, ortographico e prosodico das palavras
portuguesas derivadas da língua grega., 1909.
6.
REY,
L. Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde, 1999.
7.
LITTRÉ,
E., ROBIN, Ch. - Dictionnaire de médecine, de chirurgie, de pharmacie, de l’art
vetérinaire et des sciences qui s'y rapportent,
1873.
Hipertensor é termo já consagrado e averbado nos dicionários da
língua portuguesa, com o significado de "medicamento que aumenta a pressão
arterial". Obviamente, por extensão semântica, aplica-se a todo agente
capaz de elevar a pressão de um sistema.
Quanto à hipertensivo já não se dá o mesmo. Embora conste do Vocabulário Ortográfico
da Academia Brasileira de Letras (1999), o termo não é encontrado em muitos de
nossos léxicos, inclusive nos mais modernos, como o Michaelis (1998) e o Aurélio
Século XXI (1999). Faz exceção o dicionário Houaiss (2001), que registra hipertensivo
como sinônimo de hipertensor.
Contudo, hipertensivo integra o vocabulário
médico, não somente em português como em outras línguas.
Em espanhol, hipertensivo é usado como sinônimo de hipertensor. [1]
Em francês,
Garnier e Delamare dão o seguinte significado a hipertensive: "que se acompanha de hipertensão ou que a
provoca".[2]
Na língua
inglesa, hoje hegemônica nas comunicações científicas, encontramos no Dorland’s a seguinte definição para hipertensor e hipertensivo:
"Hypertensor.
A pressor agent".
"Hypertensive.
1. Characterized by or causing increased tension, as abnormally high blood
pressure.
O sufixo -ivo em português dá origem a adjetivos
e substantivos com noção de:
a) referência; b) estado, qualidade,
modo de ser; c) ação ou efeito. [4] Exemplos (termos mais próximos do
vocabulário médico):
a) referência: auditivo, olfativo,
instintivo, cognitivo;
b) estado, qualidade, modo de ser; compulsivo, emotivo, subjetivo, inofensivo,
introspectivo;
c) ação ou efeito: abortivo, corrosivo, digestivo, laxativo, sedativo.
O mesmo
adjetivo pode expressar mais de uma noção. É o caso de hipertensivo. Em "retinopatia
hipertensiva", o adjetivo refere-se às alterações da retina
encontradas na hipertensão arterial. A retina em si não é hipertensiva, nem
causa hipertensão. É uma noção de referência.
Na patologia
esofagiana há uma condição denominada "esfíncter
hipertensivo", que traduz maior tonicidade do esfíncter inferior do
esôfago; o adjetivo, neste caso, expressa um estado ou modo de ser do
esfíncter.
Quando dizemos
que o feocromocitoma é um tumor
hipertensivo, queremos significar
que este tipo de tumor pode causar elevação da pressão arterial. É uma noção de
ação e efeito.
À vista do
exposto, conclui-se que hipertensivo
é um adjetivo com função mais ampla e abrangente do que hipertensor, podendo ser usado em
mais de um sentido. Talvez por esta razão, hipertensivo aparece na literatura médica com uma frequência
muito maior do que a de hipertensor,
em uma proporção de aproximadamente 20:1. Já era tempo dos nossos lexicógrafos
terem tomado conhecimento deste fato. Falta-lhes, talvez, assessoria
especializada para os diferentes setores da área biomédica.
_________
1.
CARDENAL,
L. Diccionario terminológico de ciencias médicas, 1954.
2.
GARNIER,
M., DELAMARE, V. Dicionário de termos técnicos de medicina, 1984.
3.
DORLAND'S
ILLUSTRATED MEDICAL DICTIONARY, 1994.
4.
GOES,
C. Dicionário de afixos e desinências, 1937.
ICTERÍCIA
Icterícia provém do grego íkteros, através do latim
icteritia.
A palavra grega já era usada ao tempo de Hipócrates para designar a coloração
amarelada da pele e das mucosas, causada pela deposição de pigmento biliar.
De íkteros
deriva o adjetivo ikterikós, donde ictericus em latim e ictérico em português.
Para indicar a
cor amarela de modo genérico possui a língua grega outro vocábulo - xanthós.
Íkteros
designa especificamente a tonalidade amarelo-esverdeada, própria da
icterícia.
Existe um
pássaro de plumagem dourada, com reflexos esverdeados, que recebeu em grego o
nome de ikteros. [1] A ele se atribuía o dom de curar a icterícia.
Bastaria o doente encarar o pássaro e ficaria instantaneamente curado, enquanto
a ave morria.
Plinius
identifica este pássaro pelo nome latino de galgulus, que corresponde
ao gênero Oriolus, do qual existem várias espécies espalhadas por toda a
Europa.[2] A espécie mais comum, O. oriolus,
é conhecida em Portugal pelos nomes de verdilhão
e papa-figos; na Espanha, por oropéndula, e na França por loriot.
Não se sabe se
a doença recebeu o nome por causa da ave, ou, inversamente, se o nome da ave
procede da doença.
Na
classificação ornitológica atual Icterus designa um gênero da
família Icteridae, que é exclusiva do continente americano. Ao gênero Icterus
pertence o nosso sofrê ou corrupião.[3]
Plinius
refere-se também a uma pedra de cor amarela, denominada em grego ikterías,
à qual se atribuíam efeitos benéficos no tratamento da icterícia.[2]
A existência
de mais de um tipo de icterícia não escapou à arguta observação de Hipócrates.
Ensinava ele que a icterícia associada ao endurecimento do fígado era de mau
prognóstico (Aph. 6.42).[4] Na medicina romana a icterícia era também chamada morbus
arquatum (doença do arco-íris),
pela variação de tonalidade, e de morbus regium (doença real). A razão desta última denominação nos é
dada por Celsus quando se refere ao tratamento dos enfermos ictéricos: "O
doente, em um leito e quarto confortáveis, será distraído por jogos,
divertimentos e prazeres, que dispõem o espírito às ideias alegres, e é por
isso, sem dúvida, que esta doença recebeu o nome de real".[5]
Poderia
parecer que o repouso fazia parte do tratamento da icterícia. Entretanto, no
mesmo texto, Celsus recomenda exercício, massagens, banho no inverno e natação
no verão (Per omne vero tempus utendum est exercitatione, fricatione, si hiemps
est, balneo, si aestas, frigidis natationibus...). [5]
A denominação
de doença real e a crença na cura
pelo poder mágico da ave dourada perduraram até o século XVI, como se depreende
dos versos de Camões, na poesia "Carta a uma dama".[6]
"Quem da
doença real
De longe
enfermo se sente
Por segredo
natural
Fica são vendo
somente
Um volátil
animal".
Afrânio
Peixoto,
Em latim há
uma outra palavra para indicar a cor amarelo-esverdeada, que é galbinus.
De galbinus
provém jaune em francês, donde jaunisse, com o mesmo sentido de ictère. [8] Do antigo francês jaunice deriva jaundice em inglês.[9]
__________
1.
1. LIDDELL, H.G., SCOTT, R. A greek-english
lexicon, 1983.
2. PLINIUS. Naturalis Historia, XXX. 93. The Loeb Classical Library, 1979,
vol.8, p. 339.
3. SICK, H. Ornitologia brasileira, 1985, p. 646.
4. HIPPOCRATE. Aphorismes. Oeuvres completes, trad. Littré, 1839-1861, t.I, p.
280.
5. CELSUS De Medicina III 24.5,
The Loeb Classical Library, 1971, vol. 1, p. 341-2.
6. CAMÕES, L. Obras completas, 1970, p. 724.
7. PEIXOTO, A. Ensaios camonianos, 1981, p. 172.
8. BLOCH, O., VON WARTBURG, W. Dictionnaire étymologique de la langue
française, 1986.
9. OXFORD ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 1978.
São três
palavras semelhantes, com acepções distintas. Íleo tem um duplo
significado em português; tanto se refere ao segmento distal do intestino
delgado, como à síndrome de oclusão intestinal.[1] Trata-se de uma forma
convergente, resultante da tradução vernácula de duas palavras latinas: ileum
e ileus,
enquanto ílio procede de outra palavra latina, ilium.[2]
Tanto ileum como ileus, em latim, provêm do grego eileós,
do verbo eiléo, na acepção de
enrolar, torcer, dar voltas.[3]
Ileum designa o segmento distal do
intestino delgado. Admite-se que esta denominação provém da disposição
anatômica deste segmento, com numerosas voltas, como se estivesse torcido, ao
passo que o segmento proximal do delgado recebeu o nome de jejunum (jejuno) por
apresentar-se sempre vazio à autópsia. [4]
A introdução
de íleum,
em latim, como termo anatômico relativo ao intestino, data do século XVII. Até
então não se dividia o intestino delgado em jejuno e íleo. O termo aparece pela
primeira vez em um livro de autor anônimo, intitulado Anonymi introductio anatomica, publicado em 1618,
Ileus refere-se à síndrome de
oclusão intestinal. É termo bem antigo, que remonta aos livros hipocráticos. No
aforismo 3.22, de Hipócrates, há
referência a eileós, (ileus) como uma das doenças que
ocorrem no outono e no verão.[5] A descrição dos sintomas desta entidade
aparece no livro sobre patologia interna, onde há menção a duas modalidades de eileós:
com e sem icterícia. O quadro clínico descrito, porém, não coincide com o da
oclusão intestinal.[6]
Somente em
Galeno (130-200 d.C.) encontramos bem configurado o quadro clínico da obstrução
intestinal, no seguinte trecho do livro IV, capítulo II: "Também ocorrem
dores muito fortes na parte mais alta dos intestinos, dores que torturam os
doentes de tal modo que eles vomitam e ao final chegam a vomitar os
excrementos; raramente escapam desta afecção. Alguns médicos a chamam eíleós e outros, khordapsós, quando aparece um tumor na região dos
intestinos".[7]
Celsus
(25a.C.-50d.C.), em sua obra De medicina, redigida em latim,
procurou diferenciar a obstrução do intestino delgado da obstrução do cólon. No
livro IV.20, lemos:
"Duas
doenças têm sede nos intestinos; uma no delgado, outra no grosso. A primeira é
aguda; a segunda pode tornar-se crônica. Diocles de Caristo chamou a doença do
intestino delgado khordapsós e a do
grosso, eíleós. Vejo que ultimamente a primeira é chamada eileós
e a segunda kolikós. A primeira produz dor tanto acima como abaixo do
umbigo e nenhum movimento ou gás passa para baixo".[8]
Deve-se a
Celsus a introdução no vocabulário médico da palavra volvulus com o mesmo
sentido de ileus.
Na Idade Média
e na Renascença, os casos de oclusão intestinal, independentemente de sua
causa, eram rotulados de ileus, volvulus, ou recebiam
denominações equivalentes, como miserere mei ou iliaca passio.[9]
Morgagni
(1682-1771), o fundador da anatomia patológica, assegurava que o ileus
poderia ser causado por diferentes entidades patológicas, além da intussuscepção,
hérnia ou inflamação.[10]
Somente no
século XIX os autores passaram a classificar o ileus de acordo com sua
etiologia. Treves, em seu livro Intestinal
obstruction, publicado em 1884, separou definitivamente a oclusão devida a
causas mecânicas do ileus adinâmico.[10] Desde então, ileus passou a ser
empregado de preferência para o ileus paralítico ou adinâmico, por
atonia intestinal, e volvulus (volvo) para a torção de
uma alça, que ocorre mais comumente no cólon sigmóide.
O outro termo
que estamos analisando, ílio, designa o osso da bacia, cuja
individualidade só se observa no feto. No adulto é a maior das três partes em
que se divide o osso ilíaco.
A denominação
latina de os ilium foi introduzida em osteologia por Vesalius em 1543 e
preservada na Nomina Anatomica. Há pelo menos duas
hipóteses plausíveis para a escolha de ilium por Vesalius. A primeira é de
que o termo se vincule ao latim ilia, com o sentido de ilhargas,
flancos, ventre, tomando em consideração a situação topográfica do osso; a segunda
é de que o termo signifique realmente "osso torcido". [4,11]
Alguns autores
sugerem que o nome de ilium foi dado ao osso por estar o
mesmo em contato e, de certo modo, protegendo o íleo. Esta explicação
não condiz com o fato histórico de que a denominação de ilium, dada ao osso, teria sido anterior à
denominação de ileum, atribuída ao intestino.
De qualquer
modo, independentemente da filiação etimológica dos três termos latinos, ileum,
ileus e ilium se transferiram às línguas modernas com significado
específico e morfologia própria, como se vê a seguir:
Latim
ileum
ileus
ilium
Português íleo
íleo
ílio
Espanhol íleon
íleo
ilion
Italiano
ileo
ileo
ilium
Francês iléon
iléus
ilion
Inglês
ileum
ileus
ilium
Alemão
ileum
ileus
ilium
Palavras
homógrafas com significados diferentes devem ser evitadas na linguagem
científica. O ideal é que cada coisa seja designada por um só termo e que cada
termo designe uma só coisa.[12] Em português, assim como em italiano, usa-se íleo tanto para o segmento intestinal
como para a síndrome de oclusão intestinal.
Seria de todo
conveniente a manutenção em português da forma latina ileus para designar a
síndrome de oclusão intestinal, a exemplo do inglês e alemão, ficando íleo como termo anatômico restrito ao
segmento distal do intestino delgado.
Em espanhol
usa-se ileo em lugar de ileus para a oclusão intestinal, mas não
há homografia, porquanto o intestino se denomina íleon.
De início
houve certa vacilação em português, antes que se consolidasse a terminologia
atual, e encontramos em dicionários do século passado o registro de ileon como termo anatômico, à semelhança
do espanhol, e ileos, como sinônimo
de íleo, para nomear a síndrome de
oclusão intestinal.
A forma latina
ileus,
transposta para o vernáculo, é encontrada em escritos médicos, sobretudo de
autores portugueses, em lugar de íleo, e encontra-se averbada no Dicionário enciclopédico de medicina, de
Céu Coutinho (1977).
O ideal seria
usar íleo somente como termo
anatômico para designar a parte distal do intestino delgado e ileus para a síndrome de oclusão
intestinal, evitando-se a homonímia, que é sempre inconveniente em terminologia
científica. A terminação latina em us não é estranha ao nosso idioma,
pois já temos em português exemplos de várias palavras que conservaram esta
terminação em sua passagem para o vernáculo, tais como íctus, ônibus, ônus, lúpus, vírus etc.
__________
1. REY, L . Dicionário de termos técnicos
de medicina e saúde, 1999.
2. SARAIVA, F.R.S. Novíssimo Dicionário
latino-português, 1993.
3. LIDDELL, H.G.,
SCOTT, R. A greek-english lexicon, 1983.
4. SKINNER, H.A.
The origin of medical terms, 1961.
5. HIPPOCRATES.
Aphorisms (III.22). Loeb Classical Library, vol. IV 1967, p.131.
6. HIPPOCRATES.
Internal affections (44.45). Loeb Classical Library, vol. VI, 1988, p. 214-215.
7. GALENO. Oeuvres anatomiques, physiologiques et
médicales, 1854, p.671.
8. CELSUS, A.C.
De Medicina. The Loeb Classical Library, 1971, p.426.
9. BLANCARD, S. Lexicon
medicum graeco-latino-germanicum, 1718.
10.
BALLANTYME, G.H. The meaning of ileus. Its changing definition over three
millenia. Am. J. Surg. 248:252-256, 1984.
11. HAUBRICH, W.S.
Medical meanings. A glossary of word origins, 1997.
12. BECKER, I. Nomenclatura biomédica no idioma
português do Brasil, 1968.
ÍNDICE E
SUMÁRIO
Os primeiros escritores portugueses
utilizaram a expressão Tabuada da matéria
ou Tábua da matéria para indicar
as principais partes ou capítulos de uma obra e sua localização no texto,
segundo a numeração das páginas. Encontramos em francês a expressão equivalente
Table des matières, utilizada com o
mesmo fim. Em inglês havia a expressão Table
of contents, a qual, obedecendo ao espírito sintético desta língua
simplificou-se para Contents, atualmente
em uso.
A palavra Índice, derivada do latim Index,
icis, de há muito vem sendo
usada em substituição à Tabuada da
matéria ou Tábua da matéria e,
nesta acepção, a encontramos averbada nos melhores léxicos da língua
portuguesa.
O
termo Sumário, por sua vez, há muito
vem sendo empregado para designar um pequeno resumo que se oferece ao leitor,
quer no início da obra, quer no início de cada capítulo, com o fim de
informá-lo sobre o conteúdo do texto. Sumário
provém do latim Summarium, derivado de Summa,
"a parte mais importante, a parte essencial".
Portanto,
as duas palavra, Índice e Sumário são antigas e de uso corrente em
português; a primeira para indicar a relação da matéria e sua localização no
texto, e a segunda para designar um pequeno resumo destinado a orientar o
leitor.
É
possível que a confusão entre as duas tenha surgido em consequência da
apresentação de sumários tão resumidos a ponto de conterem apenas os títulos
dos artigos ou dos capítulos.
O
próximo passo para dar ao Sumário a
feição de um Índice seria dispor os
assuntos em linhas separadas. Este elo intermediário da metamorfose pode ser
encontrado em algumas publicações periódicas. A partir daí, bastaria colocar o
número da página à frente de cada assunto para transformar o Sumário em Índice. Só assim podemos compreender o emprego da palavra Sumário em lugar de Índice.
O
fato teria ocorrido primeiramente em francês, segundo o Prof. Idel Becker [1],
e a seguir
O
que se não entende é que a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT)
tenha encampado tal distorção e oficializado Sumário com o sentido de Índice.
Em
seu livro Problemas de Comunicação da
Informação Científica, o Prof. Nery
da Fonseca, renomado especialista desta área e Professor da Faculdade de
Estudos Sociais Aplicados da Universidade de Brasília, procura defender a
posição da ABNT e afirma que a referida Associação fora assessorada pelo Prof.
Antônio Houaiss, reconhecida autoridade em Linguística e questões de
vernáculo.[2]
Segundo
consulta que fizemos em carta ao Prof. Antônio Houaiss, a questão não é
propriamente de linguística e sim de normalização, visto que a ABNT teve por
objetivo evitar a duplicidade de índices,
deixando a palavra Índice para
nomear apenas o Índice alfabético,
habitualmente colocado ao final do livro.
Para
o grande enciclopedista, membro da Academia Brasileira de Letras, filólogo e
autor da importante obra Elementos de
Bibliologia, os "índices, stricto
sensu, são sempre alfabéticos, enquanto as tábuas só serão por acaso,
porque o princípio que as informa é o da estruturação orgânica da obra"
(comunicação pessoal). No referido livro, o Prof. Houaiss preferiu a forma
clássica Tábua da matéria em lugar de
Índice ou Sumário.[3]
Seguindo o exemplo do grande mestre, adotamos
também Tábua da Matéria, em lugar de Sumário, neste livro.
A
decisão da ABNT, em lugar de colaborar para a desejável uniformidade das publicações biomédicas brasileiras,
especialmente dos periódicos, veio, ao contrário, propiciar maiores
divergências.
Em
um levantamento que procedemos em 1981, na Biblioteca Central da Universidade
Federal de Goiás, com o auxílio do bibliotecário José Vanderlei Gouveia,
tivemos oportunidade de compulsar 184 periódicos da área biomédica editados no
Brasil e publicados durante os 10 anos anteriores.
Tomando
por base o número mais recente disponível de cada periódico, verificamos que 84
(45,7%) adotaram Sumário; 71 (38,6%)
continuam usando Índice; 11 (6,0%)
preferem Conteúdo, e 17 (9,2%)
apresentam a matéria sem qualquer designação. Um periódico usa Roteiro e outro usa simultaneamente Sumário e Índice, cada um em seu exato sentido.
Excluindo-se
desse total 29 periódicos das áreas de Farmácia, Odontologia, Enfermagem e
Ciências Biológicas, e analisando os 155 periódicos restantes, de interesse
estritamente médico, encontramos os seguintes números: Índice - 66 (42,6%), Sumário -
65 (41,9%), Conteúdo - 9 (5,8%), Roteiro - 1 (0,6%), sem designação 14
(9,0%). Estes dados parecem indicar maior resistência dos editores da área
médica à recomendação da ABNT.
A
confusão se torna ainda maior quando se trata de um índice bilingue ou trilingue
e o tradutor, pouco afeito à questão, traduz a palavra Sumário por Summary, em
inglês, e por Resumé, em francês,
como se vê em algumas revistas médicas.
Summary, em inglês, e Resumé,
em francês, são as versões corretas de Sumário
em português, em sua verdadeira acepção, e não em seu novo significado
conferido pela NB 85 da Associação Brasileira de Normas Técnicas.
É
óbvio que o sentido das palavras jamais pode ser fixado por decreto. Uma língua
forma-se com o passar do tempo, lentamente, e as palavras adquirem um
significado, exprimem uma ideia, que só o tempo e a tradição podem modificar.
_________
1. BECKER, I. Nomenclatura
biomédica no idioma português do Brasil 1968, p 271-280.
2.
FONSECA, N. Problemas de comunicação da informação científica, 1973, p. 95-100.
3.
HOUAISS, A. Elementos de bibliologia, p. XVII, 1967.
Embora de uso
corrente, sobretudo fora dos meios acadêmicos, enfarte não é o mesmo
que infarto. Idel Becker e Mangabeira-Albernaz, ambos médicos e filólogos,
estudaram detidamente esta questão e concluiram pelo que acabamos de
afirmar.[1][2]
O termo infarto já existia na língua portuguesa
muito antes de enfarte, constando dos
dicionários de Vieira (1871) e de Lacerda (1874). Somente a partir de 1881, com
a publicação do dicionário de Caldas Aulete (1881) começa a aparecer a forma enfarte com o mesmo sentido de infarto.
Infarto vem do latim infarctus e não de fartar ou
enfartar, como entendem alguns autores. Pedro Pinto, que grafa enfarto em lugar de infarto, diz: "É errônea a terminação e adotada a conta de étimo fantástico. Não se liga ao verbo
enfartar e sim ao latim infarctus".[3]
Dentre os
léxicos brasileiros, um dos poucos que define corretamente enfarte e infarto é o de
Silveira Bueno.(1963) Nele encontramos:
"ENFARTE
- s.m. Engorgitamento, repleção excessiva".
"INFARTO
- s.m.. Área necrosada de um tecido por falta de circulação".
Também o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa,
editado pelo Ministério da Educação, esclarece suficientemente a questão. Lê-se
no citado dicionário:
"ENFARTE,
s.m. Ingurgitamento; inchação, o mesmo que enfartação e enfartamento; (Med.)
divulgou-se amplamente essa designação para mencionar a necrose em consequência
de supressão da circulação de um território vascular, que mais propriamente se
deverá dizer infarto".
"INFARTO,
s.m. (Med.) Área hemorrágica ou necrótica por falta de circulação. Embora o
Vocabulário da Academia Brasileira de Letras consigne somente enfarte, é de se
adotar para este sentido exclusivamente a forma infarto, que corresponde
exatamente ao quadro histopatológico que se quer designar, ao passo que enfarte
significa ingurgitamento, inchação".[4]
Quando o latim
era a língua adotada em textos científicos, o termo infarctus designava uma
consolidação de humores em uma parte do corpo.[5] Foi somente após os trabalhos
de Virchow sobre trombose e embolia (1856) que infarto passou a ser empregado
para caracterizar a lesão necrótica do tecido causada por uma obstrução
vascular.
A trombose e o
infarto podem ocorrer em qualquer órgão, porém, dada a importância da trombose
coronariana, quando se diz simplesmente infarto subentende-se infarto do
miocárdio.
Segundo Major,
o primeiro autor a descrever a trombose da artéria coronária foi Hammer, em
1878. Dock, em 1896, empregou a expressão infarto
agudo do coração e Osler, em 1910, referiu-se ao infarto agudo do miocárdio (acute infarct of myocardium).[6]
Posteriormente,
autores de língua inglesa passaram a usar myocardial
infarction.[7]
O termo enfarte é de uso bem antigo em
português, porém sempre com o sentido de aumento de volume, enchimento,
repleção, tumefação.
Veja-se, por
exemplo, o que se encontra no Dicionário
de Medicina Popular, de Chernoviz: [8]
"Enfarte
do baço - V. Hipertrofia".
"Enfarte
do estômago - V. Embaraço do estômago".
"Enfarte
do fígado - V. Hipertrofia".
"Enfarte
do testículo - Inflamação crônica do testículo. V. orquite crônica".
No passado
usou-se enfarte do estômago como
sinônimo de indigestão. A dificuldade no diagnóstico diferencial entre
distúrbios gástricos e cardíacos, na era que antecedeu ao advento do
eletrocardiografia, poderia, talvez, levar ao uso generalizado de enfarte para ambas as condições. No
presente só se justifica o uso de enfarte
e seus cognatos, como enfartar,
enfartado, enfartamento, com o sentido de ingurgitamento, tumefação,
aumento de volume, repleção. Ex.: enfartamento ganglionar; gânglios enfartados.
A forma infarto
está definitivamente consagrada na literatura médica brasileira. Em 1.574
trabalhos indexados na BIREME com a palavra no título do artigo, encontram-se
apenas seis com a forma enfarte, duas com enfarto e duas com infarte.[9]
A forma enfarte está
sendo usada atualmente apenas na imprensa leiga.
__________
1.
BECKER,
I. Nomenclatura biomédica no idioma português do Brasil, 1968, p. 212-213.
2.
MANGABEIRA-ALBERNAZ,
P. Enfarte ou infarto? A polêmica continua
3.
PINTO,
P.A. Dicionário de termos médicos, 1962.
4.
BUENO, F.S-MEC/FENAME. Dicionário escolar da língua portuguesa, 1980.
5.
SKINNER, H.A. The origin of medical terms,
1961.
6.
MAJOR, R.H. Classic descriptions of disease,
1945, p. 424-434.
7.
FRIEDBERG, C.K. Diseases of the heart, 1950, p.
401-500.
8.
CHERNOVIZ,
P.L.N. Dicionário de medicina popular, 1890.
9.
BIREME.
Internet. Disponível em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/ Acessado em
06/12/2009.
INFLUENZA E GRIPE
A terminação –enza não é própria da língua
portuguesa. Segundo Houaiss é encontrada em apenas 12 verbetes, a maioria dos
quais regionalismos derivados de línguas africanas. (1) São exceções “licenza”
e “influenza”, de origem italiana, que fazem parte das chamadas “palavras sem
fronteira” (2) usadas igualmente em outros idiomas. Não faz sentido a
proposição do lexicógrafo José Pedro Machado de usar-se influença em
português.(3)
Influenza,
em italiano, tem o mesmo significado geral de influência, porém, como termo
médico, tornou-se sinônimo de gripe. O termo provém do latim medieval influentia,
do verbo influo, influere, correr para, penetrar.
A questão linguística que se levanta é saber as razões
que levaram ao emprego dessa palavra na nosografia médica. O que estaria
exercendo influência no aparecimento da enfermidade? Vinda de onde e qual a sua
natureza?
Marcovecchio,
Inicialmente usada para mais de uma enfermidade,
indistintamente, influenza restringiu-se posteriormente a uma só doença
bem caracterizada, que corresponde à gripe viral da atualidade. Utilizada por
Thomas Syndenham, em 1675, em sua obra em latim, seu uso generalizou-se após a
epidemia que ocorreu na Itália em 1743. (4) Em inglês foi empregada pela
primeira vez em 1750 por John Husham em seu livro On Essay on the fevers (1750).
Atualmente usa-se em inglês uma forma abreviada em flue ou simplesmente flu.
(5) Em 1782 o termo passou intacto para o francês (6) e em 1890 para o
português. (1)
Mas, voltemos à questão inicial. O que influenciaria o
aparecimento da enfermidade em sua forma epidêmica?
A interpretação mais aceita é de que a influência
vinda dos céus procede dos astros, na dependência da configuração dos planetas
e das estrelas.(7,8,9)
Em que pese ao grande prestígio da astrologia na Idade
Média, devemos nos lembrar que as grandes epidemias do passado sempre foram
consideradas flagelos inflingidos por Deus à humanidade como castigos por seus
pecados. Coincidentemente, o termo influenza surgiu no mesmo século da
peste negra, a maior e mais mortífera das epidemias da História.
Assim, parece razoável interpretar a “influência
oculta dos céus” como força sobrenatural advinda do poder de Deus e não dos
astros. A ortodoxia imperante no cristianismo medieval favorece esta
interpretação.
Há ainda duas outras explicações, que se atêm a causas
terrenas, sobre o emprego de influenza como termo médico. Uma delas se
fundamenta no fato de que, em italiano, até o século XV, usava-se a palavra
para definir o contágio de uma doença, ou seja, a influência que uma pessoa
doente exercia sobre outra na propagação da enfermidade.(10). A outra, que conta com um número maior de
adeptos e é a única citada no Aurélio (11), relaciona os surtos da
doença com as variações climáticas e tem como argumento a maior incidência da
doença no inverno e nas regiões de clima frio e úmido. Conforme o historiador
Moacyr Scliar “ela (a doença) era associada ao frio. O termo influenza, que é
usado como sinônimo para gripe, fala disso. Vem do italiano ‘influenza di
freddo’ (12)
Gripe provém do francês grippe, palavra
existente neste idioma desde o século XIII com outras acepções. Como termo
médico foi empregado a partir de 1743. Segundo Bloch e Wartburg, a doença foi
assim chamada por seu início súbito. (13) Para Corominas, entretanto, o termo
vincula-se ao suíço-alemão grupen, acocorar-se, tremer de frio, estar
mal. Do francês gripe passou para o português em 1881 e para o espanhol em
1897. (14)
Na linguagem popular usa-se, de preferência, gripe,
em lugar de influenza. Na literatura médica brasileira, no entanto,
predomina influenza, conforme documenta o acervo de artigos indexados
pela BIREME. Em 403 trabalhos publicados, 328 usaram influenza no título
e somente 75 optaram por gripe. (15)
_________
1. HOUAISS, A., VILLAR, M.S.
Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2001.
2. CORREA DA COSTA, S.
Palavras sem fronteiras, 2000.
3. MACHADO, J.P. In MORAIS SILVA, A. Grande dicionário da língua portuguesa,
10.ed., 1949-1959.
4. MARCOVECCHIO, E. Dizionario
etimologico storico dei termini medici,
1993.
5. MORTON, L.T. A
medical bibliography (Garrison and Morton), 1983, p. 284.
6. ROBERT, P. Dictionnaire alphabétique et analogique de la
langue française,1987.
7. HAUBRICH, W.S. Medical
meanings. A glossary of word origins, 1997.
8. SKINNER, H. A.
The origin of medical terms, 1961.
9. TUOTO, E.A. A origem dos termos “Influenza e
gripe”. Internet. Disponível em
http://historyofmedicine.blogspot.com/2009/08/origem-dos-termos-
influenza-egripe.html
Acesso em
30/08/2009.
10. SOCA, R. Influenza. Internet. Disponível em http://www.elcastellano.org/palabra.php?q=influenza
Acesso em
30/08/2009
11. FERREIRA, A.B.H. Novo dicionário Aurélio da língua
portuguesa, 2004.
12. SCLIAR, M. A fúria da gripe espanhola. Internet.
Disponível em
http://historia.abril.com.br/fatos/furia-gripe-espanhola-433549.shtml
Acesso em 30/08/2009.
13. BLOCH, O., VON WARTBURG,
W. Dictionnaire étymologique de la langue française, 1986.
14. COROMINAS,
J. Breve diccionario etimológico de la lengua castellana,1980.
15. BIREME. Internet.
Disponível em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/
Acessado
em 30/08/2009
Na língua
portuguesa, institucionalização é o
"ato ou efeito de institucionalizar". Institucionalizar, por sua vez, é "dar o caráter de
instituição, adquirir o caráter de instituição";[1] "dar forma
institucional".[2] Assim, o idoso institucionalizado
é aquele a quem se dá ou que adquire o caráter de instituição, que se
transforma em instituição, o que, obviamente, não faz sentido.
Na língua inglesa, o verbo
correspondente a institucionalizar, to
institutionalize, tem uma acepção a
mais, a de colocar ou confiar alguém aos cuidados de uma instituição
especializada (alcoólatras, epilépticos, delinquentes, idosos).[3]
Nos países de fala portuguesa, as
instituições que normalmente abrigam pessoas idosas são classicamente chamadas
de asilos ou albergues. Os idosos são neles recolhidos por não terem parentes
que os assistam ou porque seus familiares não podem ou não querem cuidar dos mesmos.
Por sua
conotação pejorativa de abandono, de pobreza ou rejeição familiar, as
denominações de asilo e albergue têm sido substituídas por outras mais
eufêmicas, como Casa dos idosos,
Lar dos idosos etc, tanto em
instituições de caridade, como em estabelecimentos públicos ou privados.
Uma
denominação genérica englobando todas estas instituições poderia ser gerocômio ou gerontocômio, termos sancionados pela Academia Brasileira de Letras (do grego géron, gérontos, velho + koméo,
cuidar), a exemplo de nosocômio (nósos, doença) e manicômio (manía, loucura). A duplicidade de termos (gerocômio e gerontocômio)
resulta da utilização ou do nominativo ou do genitivo na formação da palavra.
Gerocômio e gerontocômio encontram-se averbados em
vários léxicos como sinônimos. Ramiz Galvão (1909) e Aulete-Garcia (1980)
consideram gerocômio preferível a gerontocômio e Nascentes (1961) não
registra gerontocômio. Rui Barbosa,
porém, usou gerontocômio. [4]
Gerontocômio é palavra que já existia em grego clássico (gerontokomeion);
[5] do grego passou para o latim (gerontocomium) [6] e do latim para o
português - gerontocômio. Os dicionários, tanto em latim como em
português, referem-se a gerontocômio
como hospício, hospital, asilo, abrigo ou albergue para velhos. É necessário
lembrar que hospício, no passado, não era somente manicômio; significava também
abrigo ou albergue.
Segundo dados
históricos, as primeiras instituições filantrópicas destinadas a abrigar
pessoas idosas surgiram no Império Bizantino no século V da era cristã.[7] O
Código Justiniano, que regulamentou a legislação do Império no ano de 534 faz
referência aos gerontocômios e é
comumente citado como fonte de datação histórica do termo.[8]
No ocidente, o
primeiro gerontocômio foi fundado
pelo Papa Pelágio II (520-590), que transformou sua própria casa em hospital
para idosos.[9]
Em espanhol,
em que por vezes também se usa institucionalización com o sentido de
recolhimento do idoso em instituição, gerocomio encontra-se averbado no dicionário terminológico de Cardenal
(1954) e, tanto gerocomio como gerontocomio, no dicionário de León
Braier (1980). Em italiano, Marcovecchio consigna as duas formas, ressaltando
que "la forma preferita nel
linguággio medico moderno é gerontocomium", que ele define como "ospedale specialistico per
vecchi". [8] Encontramos registro também em alemão: "Gerontokomium - Ort wo alte Leute verpflegt
werden" (local onde as pessoas idosas são cuidadas).[10]
Em inglês, o
termo caiu em desuso, porém acha-se consignado no dicionário de Duglinson, de
1893, como gerocomeum, gerocomium e gerontocomium.
Por estes
dados, vemos que gerocômio e gerontocômio são termos bem antigos e
têm suas raízes no universo greco-latino. Embora possam ser imputados de
arcaismos e não estejam sendo usados na atualidade na maioria dos países, à
exceção da Itália, são, sem a menor dúvida, os mais apropriados para designar,
de maneira genérica, qualquer instituição do tipo abrigo, asilo, albergue, casa
ou lar dos idosos. Sendo sinônimos, a opção por um deles é uma questão de
preferência.
Para expressar
o recolhimento do idoso a um gerocômio,
seja por solidariedade humana, seja mediante pagamento, teríamos de encontrar
uma palavra correspondente a institutionalization
Com a marcante
influência da literatura médica de língua inglesa em nosso vocabulário médico,
possivelmente os geriatras vão continuar a preferir o neologismo importado do
inglês, mantendo os idosos institucionalizados,
em lugar de abrigados, albergados, asilados, internados ou recolhidos a um
gerocômio. Neste caso, caberá aos lexicógrafos acrescentar nas próximas edições
de suas obras mais uma acepção para o verbo institucionalizar
_________
1. FERREIRA, A.B.H. Novo
dicionário da língua portuguesa, 1999.
2. MICHAELIS. Moderno dicionário da língua
portuguesa, 1998.
3. WEBSTER’S THIRD NEW INTERNATIONAL
DICTIONARY, 1966.
4. BARBOSA, R. Réplica n. 485. Obras
completas, vol. 29, t. III, 1953, p. 413.
5.
LIDDELL, H.G., SCOTT, R. A greek-english lexicon, 1983.
6.
GAFIOT, F. Dictionnaire illustré latin-français, 1934.
7.
MILLER, T.S. Birth of the hospital in the
8.
MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico storico dei termini medici, 1993.
9. ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA
(Grande), 1935-1958.
10. GUTTMANN, W. Medizinische Terminologie,
1923.
11. PLÁCIDO E SILVA, D. Vocabulário Jurídico,
1986.
Os novos
termos criados em inglês com a terminação em on sempre trazem dificuldade para sua adaptação à língua
portuguesa. Veja-se, por exemplo, ion, e os seus derivados anion e cation. Até hoje,
decorridos 150 anos da descoberta de Faraday, ainda não se chegou a um consenso
sobre a forma mais apropriada ao nosso idioma.
Há uma
corrente ortodoxa que não admite a terminação n em palavras da língua portuguesa e a ela se filia o eminente
obstetra Jorge de Rezende, quem grafa hime em lugar de hímen [1].
Ramiz Galvão,
a propósito da palavra cólon, diz
textualmente: "O gênio da nossa língua rejeita essa desinência (n)" e averba colo
(sem o n) [2].
Lopes Baião
afirma que "em nossa língua não há palavras terminadas em n" [3].
Assim,
deveríamos também escrever hife em vez de hífen.
Uma coisa é a
teoria e outra a realidade da língua. Queiram ou não os puristas, as palavras
terminadas em n vão se
firmando aos poucos e crescendo
Uma das mais
recentes aquisições nesse grupo de palavras é interferon, termo criado
pelo microbiologista suíço Jean Lindenmann, em 1957, quando trabalhava no National Institute of Medical Research,
No Dicionário de Biologia, de J. L. Soares
(1993) encontra-se o seguinte étimo: “Interferon:
"Do ing. interfer(ence); +
suf. on, indicativo de partículas
fundamentais como em cístron, múton, récon, próton, etc".
Tratando-se de
uma proteína que interfere com a
replicação viral, o nome parece adequado. O que não parece adequado é comparar
uma proteína complexa como o interferon com as partículas elementares da
matéria para justificar o emprego do sufixo on.
A adaptação do
termo à língua portuguesa comporta as seguintes possibilidades:
Interferônio - A terminação ônio, resultante do acréscimo do sufixo
io (latim ium) ajustou-se
perfeitamente aos gases raros: argônio,
criptônio, radônio, xenônio e, por
analogia, ozônio, que deveria ser ozona (inglês, ozone).
Na
terminologia médica estão consolidados os termos hormônio, neurônio, axônio, porém nefrônio não teve a mesma sorte e prevaleceu néfron. Acredito que interferônio
teria o mesmo fim de nefrônio.
Interferão - A terminação ão soa como arcaismo lusitano e não é
bem aceita entre nós. Quem diria hoje eletrão,
neutrão, positrão, mesão, fotão, como fora outrora recomendado.
Até a Academia das Ciências de Lisboa,
Interferona – Além de conferir à palavra o gênero feminino, a terminação ona em português corresponde a one e não à on, em inglês. É o caso de acetona,
cortisona, progesterona, que em inglês se escrevem acetone, cortisone, progesterone. Talvez por isso os portugueses
usam, com razão, hormona, em lugar de
hormônio, que, em inglês, se escreve hormone. Não é o caso de Interferon.
Interferom - Talvez a melhor adaptação
vernácula fosse a troca do n
final por m. Contentaria a
todos, com a vantagem de nos aproximar da terminologia científica internacional.
Tudo indica,
entretanto, que Interferon,
como tantos outros termos técnico-científicos emigrados do inglês para o
português, veio para ficar na sua forma original e aqui vai permanecer sem a
desejável adaptação linguística.
A prova disso
é que interferon já se encontra averbado na 3a.
edição do Aurélio (1999) e no Vocabulário da Academia Brasileira de
Letras (1999). Neste ultimo está ainda consignada a variação prosódica do
termo, que ora se pronuncia como proparoxítono (intérferon), à moda inglesa, ora como oxítono (interferon).
_________
1.
REZENDE,
J. Obstetrícia, 1987.
2.
GALVÃO,
B.F.R. Vocabulário etymologico, ortographico e prosodico das palavras
portuguesas derivadas da língua grega, 1909.
3.
BAIÃO,
J.L. Através do dicionário, 1972.
4.
HAUBRICH, W.S. Medical meanings. A glossary of
word origins 1997.
5.
ACADEMIA
DAS CIÊNCIAS DE LISBOA. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa,
1940.
Usa-se
correntemente no vocabulário médico intervenção
como sinônimo de operação. Esta
acepção não aparece nos dicionários mais antigos da língua portuguesa, porém se
encontra nos léxicos modernos.
Aos
substantivos operação e intervenção correspondem,
respectivamente, os verbos operar e intervir. O verbo operar é transitivo direto (o
cirurgião operou o doente) e também intransitivo (este cirurgião opera bem). Diversamente, o verbo intervir é transitivo indireto e pede
complemento com a preposição em (o cirurgião vai intervir no [em o] paciente). É ainda usado como
intransitivo para expressar uma intercorrência não esperada (interveio a febre).
É incorreto
usar-se o verbo intervir com objeto
direto (o cirurgião vai intervir o
paciente). Também não se deve usar a voz passiva (o paciente foi intervindo ontem), que é própria dos verbos
transitivos diretos. "A voz
passiva repugna aos verbos transitivos indiretos", ensina Machado
Filho.[1]
No dizer do
mestre Mário Barreto "a construção passiva é, as mais das vezes, pedra de
tocar para comprovar o caráter transitivo do verbo".[2] Citam-se raras
exceções de verbos intransitivos ou transitivos indiretos que aceitam a voz
passiva, como aludir, apelar, obedecer, perdoar, responder.
O eminente
cirurgião Prof. Ruy Ferreira Santos chamou-nos a atenção para a maneira
incorreta com que frequentemente se emprega entre nós o verbo intervir, e observou que médicos de fala
castelhana de países sul-americanos, provavelmente por equívoco, usam a voz
passiva com o verbo intervenir (el enfermo ha sido intervenido), o que
não deve servir de exemplo para o nosso idioma.[3]
Outra confusão
que deve ser evitada é a referente à conjugação do verbo intervir, cujo paradigma é o verbo vir e não ver. Assim,
para exemplificar, temos na primeira pessoa do singular: intervenho, intervinha, intervim, interviera, intervirei, interviria,
intervenha, interviesse, intervier. O gerúndio e o particípio são iguais: intervindo. Por conseguinte, são
incorretas as construções abaixo indicadas:
"Eu intervi neste paciente".
"Ele interviu
naquele paciente".
"Se o cirurgião intervisse atempo...".
As terminações -vi, -viu, -visse são próprias do verbo ver e seus
derivados e não do verbo vir. Deve
dizer-se, portanto:
"Eu intervim neste paciente".
"Ele interveio neste paciente"
"Se o cirurgião interviesse a tempo...".
Também é errôneo
dizer: "Se o cirurgião houvesse
intervido a tempo..." O particípio passado do verbo intervir é igual ao gerúndio - intervindo - e não intervido.
Na dúvida, o
melhor mesmo, para não errar, é usar o verbo operar - operei, operou, operasse, operado.
_________
1.
MACHADO
FILHO, A. M. Coleção "Escrever Certo", vol. 2, 1966, p. 94.
2.
BARRETO,
M. De gramática e de linguagem, 1982, p. 324.
3.
FERREIRA-SANTOS,
R. Comunicação pessoal.
O prefixo
latino in- deu origem em português às formas prefixais in-
e en-. Estas formas transmudam-se em im- e em- antes de b e p, enquanto in- altera-se em ir- antes de r e em il- antes de l.[1]
In-, em latim, representa, na
realidade, dois prefixos distintos. O primeiro, usado habitualmente em
formações adjetivas, tem o sentido de negação. Ex.: indócil, imberbe, impúbere,
ilegal, irregular. O segundo, muito mais produtivo, traduz o surgimento de
um estado novo (ex.: empalidecer) ou
de uma situação de movimento (ex.: imergir,
investir, inverter).
Intumescer deriva do verbo latino intumescere, formado, por
sua vez, do prefixo in- e do verbo tumescere, inchar, crescer.
Em português
são usadas as formas sincréticas intumescer,
entumescer e entumecer. A forma intumecer (com i na primeira sílaba e sem a letra s na penúltima sílaba) não se encontra dicionarizada.
É interessante
assinalar que a vacilação quanto à forma já é encontrada em dicionários do
século XIX e persiste nos léxicos mais modernos, nos quais se encontram
averbadas duas ou três formas.
Silveira Bueno
(1963) registra entumecer e menciona
que a verdadeira grafia deve ser entumescer.
Por que, então, não a teria adotado? Paralelamente, averba intumescer e intumescência.
O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras (1999) registra entumecer e entumescer, porém com remissão para intumescer, optando, assim, por esta forma, que é a que mais se
aproxima do vocábulo latino e deve, por isso mesmo, ser preferida.
Obviamente
todos os cognatos devem manter a mesma estrutura mórfica: intumescência, intumescimento, intumescente, intumescido.
________
1.
ROMANELLI,
R.C. Os prefixos latinos, 1964.
ÍON, ÂNION, CÁTION
Quando
Faraday, em 1834, descobriu o fenômeno da eletrólise, teve necessidade de novos
termos para designar os fatos por ele descobertos. Por sugestão do Rev.
Whewell, professor da Universidade de Cambridge, criou, dentre outros, os
seguintes neologismos:
a) anode, do grego ánodos, caminho para cima, subida
(de aná,
para cima + hodós, caminho);
b) cathode, do grego káthodos, caminho para baixo,
descida (de katá, para baixo + hodós, caminho);
c) ion, do grego ión, particípio presente do verbo eimi,
ir; significa, portanto, o que vai, o que caminha;
d) anion, do grego aná, para cima + ión;
que se desloca para cima;
e) cation, do grego katá para baixo + ión;
que se desloca para baixo.
Faraday
comparou a direção da corrente elétrica com a trajetória do sol, denominando anode ao polo onde nasce a corrente, e cathode ao polo oposto para onde flui a
corrente. Os átomos dotados de carga elétrica negativa, que migram contra a
corrente, foram chamados anions, e
aqueles dotados de carga elétrica positiva, de cations.[1]
Do ponto de
vista científico, as coisas ficaram muito bem definidas. As novas palavras
criadas em inglês por Faraday passaram para outras línguas com as adaptações
que se fizeram necessárias. Em francês mudou-se apenas a sílaba tônica: ion, anion, cation, conforme a prosódia
dessa língua. Em espanhol manteve-se a mesma grafia, acentuando-se a última
sílaba em anión e catión. Em italiano houve modificação
para ione, anione, catione. Em
português surgiram nada menos de seis formas para ion, sete para anion e
oito para cation (íon, ion, iono, iônio, ionte, ião; ânion,
aníon, anion, aniono, aniônio, anionte, anião; cátion, catíon, cation, catiom,
cationo, catiônio, cationte, catião).
Não há acordo
entre os linguistas e os nossos lexicógrafos demonstram indecisão, tanto em
relação à sílaba tônica, como no tocante à forma.
A forma iônio foi proposta por Cândido de
Figueiredo e a terminação ônio é
recomendada por Mendes de Almeida para todas as palavras provindas do grego e
terminadas em on.[2]
A forma iono foi defendida por Plácido Barbosa,
em lugar de ionte, que, em sua
opinião, "não se justifica por nenhuma necessidade, regra, uso ou
analogia".[3]
Contudo,
encontramos adeptos da forma ionte
dentre renomados mestres, como Adolfo Coelho, Pedro Pinto, José Inez Louro e
José Lopes Baião. Este último autor recomenda proscrever a forma íon, consagrada pelo uso, "pois em
nossa língua não há palavras terminadas em n".[4] Na realidade, pelo menos duas
são bem aceitas: hífen e hímen.
José Inez
Louro, em trabalho extenso e bem fundamentado, admite quatro soluções para as
palavras derivadas do grego com terminação em on, a saber:
1. Derivados
de substantivos neutros da segunda declinação (tema em o), correspondendo à
segunda declinação latina (terminação em um). Tais palavras devem
simplesmente perder o n desinencial.
Ex.: gânglio, filtro, metro, léxico. Do mesmo modo deve dizer-se ísquio, íleo,
epiploo.
2.
Derivados de palavras gregas pertencentes à terceira declinação (tema em
consoante, nominativo em on, genitivo em onos). Correspondem aos
substantivos latinos em o (ou on), genitivo em onis,
também da terceira declinação. Neste caso convém a terminação portuguesa ão, que corresponde ao acusativo latino
one
(m). Ex.: sabão, sifão, anfitrião.
3. Derivados
de substantivos também da terceira declinação, os quais diferem dos do grupo
anterior apenas por terem a penúltima sílaba átona. Passam para o latim em o
(ou on), genitivo onis. Pertencem a este grupo os
vocábulos cotilédone, autóctone, cânone.
4. Derivados de particípios verbais
empregados substantivamente. Têm o genitivo em ontos, de que resultou ontis
em latim e onte
Ion, anion e cation
se incluem no último grupo, pois são derivados do particípio verbal ion,
genitivo em ontos, do verbo grego eimi, ir. Portanto, segundo o citado
autor, a forma correta deverá ser ionte,
anionte, cationte.[5]
A forma ião, mais utilizada em Portugal do que
no Brasil, foi defendida por Rodrigo de Sá Nogueira como solução correta para o
aportuguesamento da palavra ion.[6] Todavia, a Academia das
Ciências de Lisboa, já em 1940, registrava íon, aníon, catíon com a seguinte observação: "melhor que ião,
anião, catião".[7]
Estranhamente,
o recente dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, publicado em 2001,
averba três formas para íon (ião, íon e
ionte); uma única para ânion (anião) e duas para cátion (catião e cationte).[8]
O Vocabulário Ortográfico da Academia
Brasileira de Letras (1999) consigna três formas para íon (íon, iônio, ionte), quatro para ânion (anião, aníon, ánion, anionte) e cinco para cátion (catião, cátion, catíon, cation e catiom),
excluindo as formas aniônio e catiônio. [9]
No dicionário Aurélio século XXI (1999) vamos
encontrar íon e ionte; ânion, anion e anionte; catião, cátion e catiom (com m). No léxico Michaelis (1998)
encontramos íon, ionte; aníon, anionte; catião, cátion e cationte.
O dicionário Houaiss (2001) averba ião, íon, iônio, ionte (com a observação
de que a forma ionte seria
preferível, embora menos usada); anião,
aníon, ânion, anionte; catião, cátion, cationte.
Nos três
últimos dicionários citados, a definição semântica dos vocábulos encontra-se
nas formas íon, ânion e cátion.
As formas
vernáculas, por excelência, seriam as terminadas em ão. Silveira Bueno, no
entanto, discorda desse ponto de vista e assim se expressa
A cada dia aumentam
os termos técnicos com o final em on, que são incorporados à língua
portuguesa sem a necessária adaptação, tais como néfron, plâncton, vírion,
elétron, nêutron, próton, mícron, etc.
Ion, anion, cation são termos técnicos
internacionais. De ion deriva o verbo
ionizar e o substantivo ionização. De ionte teríamos iontizar e
iontização, que seriam diferentes dos
termos equivalentes em outras línguas e poderiam suscitar dúvidas aos menos
esclarecidos.
Verifica-se,
na atualidade, uma tendência em privilegiar as formas íon, ânion e cátion, que
são as únicas consignadas no Dicionário
de termos técnicos em medicina e saúde, de Luis Rey.(1999) e constantes dos
Descritores em Ciências da Saúde da BIREME.
_________
1.
SKINNER, H.A. The origin of medical terms, p.231.
2.
ALMEIDA,
N.M. Dicionário de questões vernáculas., 1981
3.
BARBOSA,
P. Dicionário de terminologia médica portuguesa, 1917.
4.
BAIÃO,
J.L. Através do dicionário. Belo Horizonte, 1972, p. 194
5.
LOURO,
J.I. Questões de linguagem técnica e geral, 1941, p. 166-169.
6.
OLIVEIRA,
J. Medicina e gramática, 1949, p. 240-242.
7.
ACADEMIA
DAS CIÊNCIAS DE LISBOA. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 1940
8.
ACADEMIA
DAS CIÊNCIAS DE LISBOA. Dicionário da língua portuguesa contemporânea, 2001.
9.
BIREME.
Internet. Disponível em http://decs.bvs.br/ Acessado em 05/12/2009.
IPSOLATERAL, IPSILATERAL
Ipsolateral (ou ipsilateral)
é uma palavra híbrida, formada com o pronome demonstrativo latino ipse,
a, um, e o adjetivo lateral,
do latim lateralis, e. É
sinônimo de homolateral e significa "que fica do mesmo lado",
"que se manifesta do mesmo lado."
Na declinação
do pronome ipse, ipso corresponde ao ablativo do
singular, nos gêneros masculino e neutro, enquanto ipsi corresponde ao
dativo nos três gêneros do singular, e também ao nominativo plural.[1]
Em locuções
latinas em que se emprega o nominativo, usa-se a forma ipse para o masculino singular: ipse dixit, (ele mesmo
disse); ipsa para o feminino singular: ipsa senectus morbus est
(a própria velhice é uma doença - Cícero); ipsi para o masculino plural: ipsi
se curare non possant, (eles mesmos não podem
cuidar-se - Cícero); ipsae, para o feminino plural: valvae
se ipsae aperuerunt (as
portas abrem-se por si mesmas - Cícero). [2][3]
Em latim, o
dativo expressa o objeto indireto, enquanto o ablativo é empregado como adjunto
adverbial.[4] Há várias expressões latinas em que o pronome ipse
antecede o nome no singular (substantivo ou adjetivo), nas quais sempre se
utiliza o ablativo ipso. Ex.: ipso facto,
ipso
jure, eo ipso die, ipso minor etc. Não há exemplo de expressões análogas no singular com o
dativo ipsi, cuja função sintática é de objeto indireto.
No plural não
haveria maior dificuldade, já que há uma forma única para o dativo e o
ablativo, que é ipsis, comumente usado nas locuções ipsis verbis, ipsis literis (nos mesmos termos, com as mesmas
letras).
Por ser de
origem latina, ipsolateral (ipsilateral) tornou-se um termo comum a
várias línguas de cultura, além do português, como o espanhol, francês,
italiano, inglês e alemão. As únicas alterações morfológicas verificadas, de
adaptação a esses idiomas, consistem na acentuação da penúltima sílaba em
francês (ipsolatéral ou ipsilatéral) e no acréscimo da vogal e
em italiano (ipsolaterale ou ipsilaterale).
Em face dos argumentos apresentados, não
padece dúvida de que a forma correta deve ser ipsolateral e não ipsilateral.
Contudo, uma pesquisa realizada por
computador em textos médicos divulgados pela Internet nos últimos três anos
revelou os seguintes dados relativos ao número de ocorrências de uma e outra
forma.
Idioma
Ipsolateral
Ipsilateral
____________________________n______________________n________
Português
5 37
Espanhol
14
89
Italiano
0
16
Inglês
19
6.876
Alemão
0
54
Diante dessa
realidade de nada valem argumentos de ordem acadêmica. Acreditamos que se trata
de um fato linguístico irreversível e que devemos aceitar ipsilateral como forma alternativa, apesar de incorreta.
É
interessante assinalar que a 3a. edição do Aurélio, de 1999, já registra
ipsilateral, ao contrário da 2a.
edição do mesmo dicionário, do Michaelis
(1998) e do Vocabulário da Academia
Brasileira de Letras (1999), que só averbam ispsolateral.
_________
1.
FARIA,
E. Gramática superior da língua latina,1958.
2.
QUICHERAT, L. & DAVELUY, A. Dictionnaire
latin-français, 1876.
3.
SARAIVA,
F.R.S. Novíssimo Dicionário latino-português, 1993.
4.
ALMEIDA,
N.M. Gramática latina, 1980.
As
duas expressões acima são de uso frequente, tanto em linguagem literária como
em linguagem técnica. Apesar da semelhança existente entre elas, têm
significados diversos e opostos.
Ir ao encontro de é ir em direção a, é
antecipar-se ao encontro. Ex.: “Fui ao encontro do Diretor.” Como metáfora
expressa conformidade, concordância, identidade de pontos de vista. Ex.: “As
observações clínicas e epidemiológicas vão ao encontro da hipótese de que se
trata de infecção viral.”
Ir de encontro
a é ir
contra, contrapor-se, chocar-se. Ex.: “O carro foi de encontro ao poste”. Como
metáfora expressa discordância, divergência, oposição. Ex. “As experiências de
Pasteur iam de encontro às ideias de geração espontânea, vigentes na época”.
Não
se deve, portanto, como se vê frequentemente, empregar ir de encontro a em lugar de ir
ao encontro de. Este equívoco muda radicalmente o sentido da frase, que
passa a expressar exatamente o oposto do que se deseja afirmar.
__________
Textos abreviados
do juramento de Hipócrates têm sido utilizados em diferentes países e idiomas,
tendo em vista a extensão do texto original para leitura durante uma solenidade
festiva como a da conclusão do curso médico.
No Brasil, a
maioria das Faculdades utiliza um modelo simplificado, tradução de um texto latino
que, segundo o Prof. Edmundo Vasconcelos, chegou a ser usado na Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo.[1] A tradução vernácula desse texto é do
seguinte teor:
Prometo que, ao exercer a arte de curar,
mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da
ciência.
Penetrando no interior dos lares, meus olhos serão
cegos, minha língua calará os segredos que me forem revelados, o que terei como preceito de honra.
Nunca me servirei da profissão para corromper os
costumes ou favorecer o crime.
Se eu cumprir este juramento com fidelidade, goze
eu, para sempre, a minha vida e a minha arte, com boa reputação entre os
homens.
Se o infringir ou dele afastar-me, suceda-me o
contrário.
Uma variante
desse texto tem livre curso
Prometo que, ao exercer a arte de curar,
mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da
ciência.
Penetrando no interior dos lares, meus olhos serão
cegos, minha língua calará os segredos que me forem revelados, os quais terei como preceito de
honra.
Nunca me servirei da profissão para corromper os
costumes ou favorecer o crime. Se eu cumprir este juramento com fidelidade,
goze eu, para sempre, a minha vida e a minha arte, com boa reputação entre os
homens.
Se o infringir ou dele afastar-me, suceda-me o
contrário.
Comparando-se
as duas versões, vê-se que a única diferença está no segundo parágrafo e
consiste na substituição da locução pronominal o que pela locução os quais.
Na primeira
versão, o que refere-se ao
enunciado na frase anterior, ou seja, expressa a intenção do médico de guardar sigilo
em relação ao que vê e ao que ouve no interior dos lares.
Na segunda
versão, a locução pronominal os quais, no plural, tem como
antecedente "os segredos que me forem revelados". Ora, não faz o
menor sentido fazer "dos segredos que me forem revelados"
"preceito de honra." É fora de dúvida que esta construção está
gramaticalmente incorreta e deve ser abandonada em favor da primeira.
Em face do
exposto, cumpre alertar as Comissões de Formatura de nossas Faculdades que usam
os
quais, em lugar de o que, para que façam a devida
correção e utilizem a versão gramaticalmente correta.
_________
VASCONCELOS, E. Juramento de
Hipócrates. Rev. Paul. Med. 83:196-204, 1974.
LAUDAR, LAUDADO
Laudar é um
verbo inexistente nos léxicos da língua portuguesa, assim como o seu particípio
laudado em função adjetiva.
Simônides Bacelar, em seus estudos
sobre expressões e termos médicos, chama a atenção para o uso de ambos os
termos na linguagem médica atual: laudar na acepção de emitir um laudo,
e laudado para caracterizar o exame que já foi analisado e se acompanha
do respectivo laudo. Trata-se de neologismos como ele bem acentuou [1]
Etimologicamente, laudo
provém do verbo latino laudo, laudare, que significa elogiar,
enaltecer, exaltar. De laudare derivam louvar, em
português, lodare, em italiano; louer, em francês, e as formas
divergentes loar e laudar, em espanhol.
Herdamos também do latim os adjetivos laudável,
laudatório, laudativo, laudatício e outros cognatos de louvar.
Do presente do
indicativo do verbo latino laudo (eu louvo) procede o substantivo
laudo. Houaiss define laudo como “texto
contendo parecer técnico (de médico, engenheiro etc.) e, por metonímia,
“suporte (p.ex., folha de papel, documento) em que está exarado tal
parecer.”[2]
Qual
seria a razão de uma palavra latina que exprime louvor, elogio, encômio, adquirir,
na sua passagem para o português, a acepção de parecer, sentença, opinião?
O elo oculto entre as duas acepções
talvez possa ser encontrado na linguística
diacrônica.
O primeiro registro da palavra laudo, segundo Houaiss, data de 1858.[2] Os
dicionários mais antigos (Domingos Vieira, 1874; Caldas Aulette, 1881; Cândido
de Figueiredo, 1899; Simões da Fonseca, 1926) definem laudo como parecer, voto,
decisão do juiz louvado.
O juiz encarregado de julgar, de dar uma sentença, era
chamado de juiz louvado ou simplesmente louvado. Por extensão
semântica, a qualificação de louvado estendeu-se aos árbitros e peritos, em
geral, conforme se documenta na 10ª. edição do Dicionário de Moraes Silva, de 1954.
“Louvado. Indivíduo nomeado especialmente para
avaliar e examinar qualquer coisa e dar o seu laudo ou informação; perito,
árbitro.” [3]
Esta sinonímia perdura até o presente e é abonada em
muitos léxicos, dentre os quais o Aurélio, em sua última edição, onde se lê:
[4]
“Laudo
1. Parecer do louvado ou
árbitro; louvação, louvamento.
2. Peça escrita, fundamentada, na
qual os peritos expõem as observações e
estudos que fizeram e registram as conclusões da perícia.”
Em linguagem jurídica denomina-se louvado ao perito
escolhido pelas partes em litígio. [5]
Parece razoável, assim, deduzir porque o documento
produzido por um louvado seja chamado de laudo (eu louvo).
Voltando ao silogismo, verifica-se que o mesmo tem
sido usado principalmente em relação aos exames de imagem e registros gráficos.
Embora não tenha se incorporado ao vocabulário das publicações científicas, sua
aceitação vem se expandindo na linguagem informal e nos meios de comunicação.
Em toda a literatura médica indexada pela BIREME até o
presente, há 206 ocorrências da palavra laudo,[6] e apenas uma do verbo laudar.[7]
Em compensação, no site de busca GOOGLE, a expressão exames laudados aparece
em 749 referências, todas no português do Brasil.[8] No português de Portugal
ainda não há registro do verbo laudar no vocabulário médico.[9]
A possibilidade de sobrevivência deste neologismo e
sua incorporação definitiva à linguagem médica tem a seu favor dois fatores
importantes: o primeiro deles é que o mesmo obedece às normas de derivação de
palavras oriundas do latim; o segundo é a lei da economia ou do menor esforço,
que leva à simplificação da linguagem. É muito mais simples dizer laudar um
exame, do que dar ou emitir o laudo de um exame; referir-se a um exame
laudado do que a um exame com o respectivo laudo.
Referências
bibliográficas
1. BACELAR, Simônides. Questões de
linguagem médica. Exame laudado. Rev. Paraense Méd. 21(3): 81, 2007.
2. HOUAISS, Antônio, VILLAR, Mauro de Salles –
Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001
3. MORAIS SILVA, Antonio de.
Grande dicionário da língua portuguesa, 10.ed., vol. 6, Lisboa, Confluência,
1954.
4. FERREIRA, Aurélio Buarque
de Holanda. Novo dicionário Aurélio da l´´ingua portuguesa, 3.ed. Curitiba, Ed.
Positivo, 2004.
5. PLÁCIDO E SILVA, De. Vocabulário Jurídico,
9.ed., Rio de Janeiro, Forense, 1986.
6. BIREME. Disponível em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/
Acessado em 28/04/2010.
7. SEMENTILLI, Ângelo, et al.
Patologia do transplante renal: achados morfológicos principais e como
laudar as biópsias J. bras. patol. med. lab, 44(4):293-304,
2008.
8. INTERNET. GOOGLE. Disponível em http://www.google.com.br/advanced_search?hl=pt-BR Acessado em 28/04/2010.
9.
Idem, ibidem.
A União
Internacional de Química, em sua reunião em Cambridge, em 1923, adotou os
termos lipide, protide e glucide para designar, respectivamente,
substâncias do grupo das gorduras, das proteínas e dos hidratos de carbono.
Se do ponto de
vista bioquímico trata-se de simples questão de nomenclatura, do ponto de vista
linguístico a questão se torna mais complexa ao se adaptarem os referidos
termos à língua portuguesa, visto que surgiram nada menos de quatro formas em
relação aos lipídios e protídios e oito formas em relação aos glicídios. São
elas: lipídios, lipídeos, lípides,
lipidos; protídios, protídeos, prótides, protidos; glicídios, glicídeos,
glícides, glicidos; glucídios, glucídeos, glúcides, glucidos.
Em relação aos
glicídios, além da variação desinencial, temos a duplicidade de formas para a
primeira sílaba, o que decorre da origem da palavra glicose.
Glicose provém do grego glykys, doce + ose, indicativo de
açúcar. A vogal grega u (ípsilon) passa para o latim e o
português com o som de u ou de i (y em latim). O som de u ocorre principalmente quando existe
ditongo, como
Em francês, em
que a vogal u tem som semelhante ao
ípsilon grego, usa-se tanto glucose
como glycose, apesar da recomendação
de Littré e Robin para se usar somente glycose.[2]
Em português é
preferível a transliteração para o som de i.
Por conseguinte, devemos optar por glicose
em lugar de glucose, preservando-se o
som de i em todos os termos
cognatos, como glicina, gliconato,
glicídio etc.
A forma
proparoxítona com a terminação em e
(lípides, prótides, glícides) resulta
de uma adaptação prosódica ao português dos termos originalmente criados em
inglês.
A forma com a
terminação em o, tal como em
espanhol, encontra adeptos em Portugal, sendo raramente empregada no Brasil.[3]
As formas com
os sufixos -ídeo e -ídio merecem discussão mais aprofundada.
O sufixo -ídeo, segundo a
maioria dos léxicos, deriva do grego eídos (semelhante a ), que deu
origem também ao sufixo -óide.
O sufixo -ídeo tem sido usado para designar famílias de animais,
correspondendo equivocadamente à terminação -idae da nomenclatura
científica latina. Conforme ensina Ramiz Galvão, esta terminação "foi
tomada do sufixo patronímico latino idae, idarum", cujo
equivalente em português deveria ser -idas e não -ídeos.
Assim, segundo o renomado mestre, a forma correta seria, por exemplo, múridas,
félidas, bóvidas, équidas e não murídeos, felídeos, bovídeos, equídeos.[4]
Para o
helenista José Inez Louro o sufixo -ídeo (plural -ídeos) não poderia ter-se originado
diretamente do grego eídos, a não ser por acréscimo do sufixo -eo (plural -eos) que, nos substantivos, pode
ser substituído pelo sufixo -io. Este sufixo (latim -ium,
do grego -ión), primitivamente um diminutivo, perdeu essa função e apenas
substantiva a palavra, sem alterar-lhe o significado.[1]
Parece claro,
portanto, que, tratando-se de substantivos, são corretas e apropriadas as
formas em -ídio, que devem prevalecer sobre as demais
O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira
de Letras (1999) registra todas as variantes possíveis: lipídio, lipídeo, lípide e lipido; protídio, protídeo, prótide e prótido; glicídio, glicídeo, glícide e
glicido. De maneira incoerente, entretanto, considera lipídeo a um só tempo substantivo e adjetivo, enquanto glicídeo e protídeo são dados apenas como substantivos. Consigna ainda as
variantes glucídio e glúcide, excluindo as formas paralelas glucídeo e glucido.
Almeida, a
propósito do sufixo -ídio, taxa de arbitrárias as formas lípide, prótide e glícide e conclui que "o assunto exige modificações que nos
apresentem amanhã um vocabulário coerente",[5] tendo como terminação única
o sufixo -ídio.
O final em -io
em lugar de -eo também se justifica pela tendência fonética de se
converter o ditongo crescente -eo em -io como se verifica nas palavras crânio, peritônio, etc.
A preferência
dos médicos brasileiros tem sido para a forma lipídios. Na literatura médica indexada pela BIREME observa-se a
seguinte proporção entre as variantes utilizadas pelos autores nos títulos de
165 artigos: [6]
Lipídios 43,0%
Lipídeos 23,0,%
Lípides 34,0%
Não foi
possível fazer o mesmo levantamento para glicídios
e protídios em razão do pequeno
número de trabalhos indexados sob esses títulos.
Em face do
exposto parece preferível a forma com o sufixo -ídio, estendendo-se o seu uso a todos os
vocábulos similares, tais como glicosídios,
glicerídios, sacarídios etc.
_________
1.
LOURO, J. - O grego aplicado à linguagem científica,
1940, p. 133.
2.
LITTRÉ, E., ROBIN, Ch. - Dictionnaire de médecine,
de chirurgie, de pharmacie..., 1873.
3.
VILLAR, M. - Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro,
1989.
4.
GALVÃO, R. - Estante clássica da Revista Língua
Portuguesa, vol. X, 1922, p.103-104.
5.
ALMEIDA, N.M. - Dicionário de questões vernáculas,
1981.
6.
BIREME -
Internet. Disponível em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/
Acessado em 25/11/2009.
Todas as
formas acima têm sido empregadas em textos médicos. Qual seria a mais
recomendável?
À primeira
vista parece ser uma questão simples, dependente do correto emprego de mal e mau. Como ensinam as gramáticas, mal é antônimo de bem e mau se opõe a bom. Em latim havia o substantivo malum, i,
o advérbio male e o adjetivo malus, a,um, de que resultaram, em português, mal (substantivo), mal (advérbio)
e mau (adjetivo).[1]
O substantivo
é modificado pelo adjetivo, enquanto o advérbio modifica o verbo, o adjetivo e
o próprio advérbio; por conseguinte, antes de absorção, que é palavra
substantiva, deve ser usado um adjetivo e não um advérbio, ou seja má absorção e não mal absorção ou malabsorção.
Entretanto, temos vários exemplos na língua portuguesa que fogem a esta regra,
tais como malcriação, malformação,
malquerença, malsonância, malversação, etc.
Na língua
inglesa, muitos termos científicos se formaram com a anteposição de mal, à maneira de prefixo, significando
imperfeição, defeito, alteração. Ex.: malformation,
malnutrition, malocclusion, malrotation,
maldigestion, malabsortion, malassimilation.
Por influência
da língua inglesa, maloclusão já é
palavra consagrada em Odontologia.[2]
A forma malabsorção vem ganhando adeptos em
nosso vocabulário médico também por influência da língua inglesa, na qual
encontramos a maioria das publicações sobre o assunto. À força de ler malabsorption terminamos por aceitar malabsorção.
Os dicionários
de língua portuguesa, inclusive os mais modernos, não registram malabsorção, nem mesmo o Vocabulário da Academia Brasileira de Letras
(1999), que prima por sua liberalidade em incorporar anglicismos ao nosso
léxico.
O Prof.
Martins Campos, autor de numerosas publicações sobre absorção intestinal,
propôs, em
Uma pesquisa
na Internet, realizada em 26/11/2009, revela-nos em um total de 45.800
ocorrências em língua portuguesa, a seguinte proporção das três formas em
uso: [4]
Má absorção (com e sem hífen) 91,0%
Malabsorção
8,6%
Mabsorção
0,4%
Cabe à classe
médica, neste como em qualquer outro caso de terminologia médica, a decisão
final. A meu ver, a questão de usar ou não hífen, vai depender do contexto da
frase. Quando dizemos, por exemplo, que "nos gastrectomizados à Billroth
II existe má absorção de ferro", devemos escrever má absorção sem hífen.
Ao nos referirmos, entretanto, à "síndrome de má-absorção" entendo que se deve usar hífen, pois, neste caso,
trata-se de um nome composto que designa uma síndrome bem definida em patologia
digestiva, tal como se encontra conceituada no Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde, de Luis Rey.[5]
_________
1.
FARIA,
E. - Dicionário escolar latino-português, MEC/FENAME, 1975.
2.
SCARTEZZINI,
C. – Dicionário odontológico, 1964.
3.
CAMPOS,
J.V.M. - Mabsorção intestinal. In DANI, R., CASTRO, L. P. -
Gastroenterologia Clínica, 1988, p. 624.
4.
INTERNET:
http://www.google.com.br/ Acessado em 26/11/2009.
5.
REY,
L. Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde, 1999.
MACULO
Maculo
é o nome de uma doença que grassava entre os escravos africanos no Brasil
colonial e que, eventualmente, podia acometer também os indígenas e os
colonizadores brancos.
A doença tem uma variada sinonímia, entre
denominações populares e científicas: Popularmente era chamada de "achaque do bicho", "enfermidade do
bicho", "corrupção do bicho",
ou simplesmente "corrupção",
"mal-do-sesso", "relaxação do sesso". Os indígenas a
chamavam de Teicoaraíba, e, entre os
hispanoparlantes, era conhecida por "el
bicho", "mal del
culo", "bicho del culo", "enfermedad del guzano".
Dentre as denominações eruditas encontramos ulcus
et inflammatio (Piso), inflammatio
ani (Martius), Retite gangrenosa
epidêmica (Manson).
Consistia em uma retite inflamatória, com
afrouxamento do esfíncter externo do ânus, eliminação de muco fétido,
ulcerações e prolapso do reto, além de manifestações sistêmicas como febre,
cefaleia, dores no corpo, quebrantamento geral e, por vezes, sintomas
neurológicos de torpor, sonolência, delírio e coma, terminando com o óbito do
paciente.
Complicava-se, por vezes, com a miíase do
ânus e do reto, consequência, certamente, da falta de higiene e do hábito de
defecar na superfície do solo, em meio à vegetação, ao alcance das moscas
varejeiras. Nesse caso, a doença evoluía com gangrena do reto e morte do
doente. Conforme esclarece Eustáquio Duarte, "era tradicional entre os
índios o processo de espremer o sumo de folhas do petume (tabaco) e de outras
plantas "acres" sobre feridas e chagas em que se criavam tapurus,
nome que emprestavam às larvas parasitas dos dípteros". [1]
Guilherme Piso considerava a
doença como uma entidade peculiar ao Brasil: "Não sei de ninguém que tenha
observado este mal em outro lugar da Terra, além do Brasil." [2]. Estava
mal informado, porquanto, antes dele, Jacob Bontius havia descrito em seu livro
Methodes Medendi uma doença idêntica ao maculo, na Indonésia, então
possessão holandesa [1].
A propósito do livro O que é o achaque do bicho, um dos três
primeiros livros escritos no Brasil, de autoria de Miguel Dias Pimenta e
publicado em Lisboa em 1707, Eustáquio Duarte fez um estudo exaustivo sobre o
maculo, com revisão de toda a literatura mundial existente sobre o mal,
chegando à conclusão de que não se tratava de doença peculiar ao nosso país e
nem de uma doença africana importada com o tráfico de escravos, como sugerira
Langaard [3]. Tratava-se de uma infecção bacteriana disentérica, de ocorrência
universal, que poderia ou não complicar-se de miíase do ânus e do reto [1].
A maior prevalência
registrada no Brasil devia-se, sem dúvida, às condições precárias em que viviam
os escravos "nos barracões de nefasta memória", onde "sucumbiram
centenares de vítimas" [4].
Patrick Manson, em 1903,
batizou a doença de retite gangrenosa
epidêmica, denominação erudita pela qual a mesma ficou conhecida nos meios
acadêmicos e ainda é citada nos livros e tratados sobre doenças infecciosas e
parasitárias. Esta denominação não é a mais apropriada, de vez que a doença era
endêmica e não epidêmica, e nem sempre evoluía com gangrena do reto. Manson
jamais vira um caso e baseou-se nas informações de um médico de Curaçau, Dr.
Ackers, que também não tinha experiência pessoal com a doença. [5]
A ocorrência do maculo foi
ainda registrada entre os seringueiros da Amazônia, por Murilo Campos: "a
moléstia aparece no início das águas, tanto nos seringais, como nas vilas,
especialmente nas de Diamantino e Rosário". "Na região do noroeste
são muito atacados os seringais de Santana, perto de Arroz Sem Sal, e os de S.
Manoel de Piratininga. Não faz a moléstia distinção de raças – são atingidos
tanto os pretos e caboclos como os estrangeiros."[6]
O tratamento do maculo era
principalmente local, feito com clisteres, banhos e introdução no reto de
pedaços de limão, supositórios preparados pela maceração de folhas de
determinadas plantas, especialmente da erva-do-bicho", pimenta malagueta,
pólvora, sob a forma de massas (pírolas) ou de tiras de pano, ou fios de
algodão, embebidos nessas preparações (sacatrapos). Também se usavam clisteres
de água de Labarraque (solução de carbonato de sódio saturada de cloro),
canforada, fenicada ou creosotada. Nos seringais da Amazônia, as "pírolas
eram preparadas com sabão, pólvora e pimenta."
A origem do termo maculo tem sido erroneamente
interpretada como procedente do espanhol. Como na Venezuela e em outros países
hispano-parlantes da América Latina, a doença é conhecida por mal de culo, Silva Lima, um dos integrantes da chamada
"escola tropicalista", pioneiro nos estudos sobre esta doença no
Brasil, em 1894 perfilhou esta interpretação: Referindo-se à denominação em
espanhol de mal de culo, acrescenta
"donde proveio, por contração, maculo"
[7]
Como nos esclarece Jacques
Raimundo, em sua obra O elemento
afro-negro na língua portuguesa, a palavra maculo já existia na língua
quimbundo (makulu), falada em Angola e Guiné, tanto no litoral, como no
interior [7]
Por sua vez José Maria
Bomtempo, médico da corte de D. Pedro I, relata ter sido acometido, quando
residia na África, do mal "chamado na língua do Paiz – maculo , o qual corresponde a uma
enfermidade semelhante e endêmica nesta cidade (Rio de Janeiro) e em toda a
América, desde o Equador até a latitude de 23º C, onde tem o nome de
Corrupção." [8].
É de supor-se que tenha
ocorrido exatamente o inverso: o espanhol mal
del culo é que seria uma adaptação de maculo,
dada a localização da enfermidade e a semelhança morfológica das palavras. O
dicionário etimológico de Nascentes, de 1966 [9] e os dicionários modernos já
abonam a origem africana do termo maculo.
__________
1.
ANDRADE, G.O., DUARTE, E. In Morão, Rosa e Pimenta, 1956, p. 375-460.
2.
PISO, G. História natural do Brasil ilustrada, 1948, p. 166 e 374.
3.
LANGAARD, Theodor J.H.: Dicionário de medicina doméstica e popular, 1873.
4. SOARES, A.J.M. Dicionário Brasileiro
da Língua Portuguesa. Elucidário etimológico crítico, 1955, p.3-4.
5.
MANSON, P. Maladies des pays chauds (trad.), 1904, p. 389-391.
6.
CAMPOS, M. Notas do interior do Brasil. Arq. Bras. Med., 1913.
7.
RAIMUNDO, J. O elemento afro-negro na língua portuguesa, 1933, p. 138.
8.
SÃO PAULO, F. Linguagem médica popular no Brasil, 1970, 218-222.
9.
NASCENTES, A. Dicionario etimológico resumido, 1966.
A palavra malformação, de largo uso em biologia e
medicina, tem sido apontada como mal formada pelos guardiães da língua
portuguesa. O argumento utilizado é sempre o mesmo: mal é advérbio e antes de um substantivo deve vir um adjetivo e não
um advérbio; portanto, em lugar de mal
deve usar-se o adjetivo feminino má -
má formação, palavra que também
aparece escrita de duas outras maneiras: má-formação
e maformação.
É óbvio que a
norma gramatical alegada é correta e deve ser observada. Contudo, a questão não
é tão simples como parece à primeira vista e merece uma análise mais detida.
Em primeiro
lugar, apesar de suas raízes latinas, o termo não teve o seu berço na língua
portuguesa. Fosse este o caso e certamente a citada regra teria sido obedecida.
A introdução
da palavra no vocabulário médico se deu na língua inglesa em 1800, segundo o Oxford english dictionary,[1] e na
língua francesa em 1867, segundo Robert. [2]. Em ambas estas línguas a palavra
tem a mesma representação gráfica - malformation.
Nenhum
dicionário da língua portuguesa do século XIX registra malformação ou má formação
e os lexicógrafos do século XX dão o termo como uma adaptação do francês ou do
inglês.
No dicionário
de Aulete-Garcia (1980), lê-se o que segue:
"Malformação
- (med.). O termo vem do inglês malformation
e este do latim mal(a) + formatio, donde
ser artificial a variante má-formação,
pretendida por alguns".
Malformação não é a única palavra da língua portuguesa em que
aparece mal em lugar de má. Temos, consagradas, malcriação, malfeitoria, malsonância, malquerença, malversão ou
malversação e malandança. Em nenhum dos casos pode-se afirmar que mal entrou na composição da palavra como
advérbio.
Malcriação, segundo Pedro Pinto, é resultante de uma forma arcaica malaformação.[3] Embora a maioria dos nossos lexicógrafos ainda não
tenha tomado conhecimento do fato, malcriação
já não é o mesmo que má criação na
linguagem popular e tornou-se sinônimo de malcriadez,
que é pouco usado, ou seja, expressa resposta desaforada a um superior, ação ou
dito descortês, indelicado, grosseiro.[4]
No caso de malfeitoria admite-se que a palavra seja
derivada de malfeitor, que a
precedeu. Do mesmo modo se explica malsonância,
derivada do adjetivo malsonante. Malversão e malversação são deverbais de malversar,
do latim male versari (comportar-se
mal). Malquerença é igualmente um
derivado pós-verbal de malquerer. No
caso de malandança, não poderia
tratar-se de um l eufônico para evitar o encontro vocálico a-a ?
Assim, cada
exceção à regra tem sua razão de ser e não surgiu por acaso ou por ignorância.
No Brasil, o
termo malformação aparentemente era
pouco empregado no início do século XX. Basta dizer que o mesmo não figura na
obra especializada Noções de teratologia,
publicado na Bahia, em 1914, pelo Prof. Guilherme Rebello, quem utilizou anomalia e aberração em lugar de malformação.[5]
Aos poucos o
termo malformação foi sendo
incorporado à linguagem médica e, já em 1938, Pedro Pinto comentava que o mesmo
estava sendo utilizado "pelos melhores escritores médicos de nosso
tempo".[3]
Os léxicos da
língua portuguesa, editados a partir de 1950, têm assumido posições divergentes
entre si no tocante ao termo malformação.
Poderíamos catalogá-los, conforme o critério adotado, nos seguintes grupos:
1. Os que averbam
as duas formas, malformação e má formação, não fazendo distinção entre
elas. (MORAIS SILVA, 1949-1959; SILVEIRA BUENO, 1963; ACADEMIA BRASILEIRA DE
LETRAS, 1999).
2. Os que
registram as duas formas, com preferência para malformação. (PACIORNIK, 1975; AULETE-GARCIA, 1980; AURÉLIO, 1986).
3. Os que
registram as duas formas, com preferência para má formação. (CUNHA, 1982; CEGALLA. 1996; AURÉLIO, 1999).
4. Os que averbam
as duas formas, com maior abrangência semântica para malformação. (LAUDELINO FREIRE, 1957; MELHORAMENTOS, 1975;
MICHAELIS, 1998)
5. Os que
consignam apenas malformação.(NASCENTES,
1961, REY, 1999)
6. Os que ignoram
ambas as formas. (MACHADO, 1977; SEGUIER, 1981).
Observe-se a
mudança de posição do Aurélio, que
estava no grupo 2 na segunda edição e passou para o grupo 3 na terceira edição.
Aqui, como em
tantas outras questões linguísticas, deve prevalecer, acima das regras
gramaticais, o bom-senso e o respeito ao uso e à tradição, sobretudo quando não
há unanimidade de pontos de vista entre os doutos e letrados.
Convém lembrar
que esta discussão se refere unicamente à linguagem médica e não à linguagem em
geral. É bem de ver que na linguagem literária, a expressão má formação emerge naturalmente na
exposição de uma ideia, fato ou evento, sempre que se procura caracterizar a
gênese imperfeita, a variante anômala ou incompleta do ser ou do objeto em
referência.
Como termo
técnico, no entanto, malformação tem
significado preciso e acha-se definitivamente integrado no vocabulário
biomédico.
De acordo com
o banco de dados da BIREME, disponíveis através do programa LILACS, foram publicados
nos últimos 20 anos (
O único reparo
que se poderia fazer diz respeito à expressão malformação congênita ou, o que é mais comum, malformações congênitas, no plural.
Já em 1898,
Littré definia claramentre o caráter congênito das malformações, reservando a
denominação de deformações para os
defeitos adquiridos.[8] Subentende-se, portanto, que toda malformação é
congênita.
_________
1.
OXFORD ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 1978.
2.
ROBERT, P. Dictionnaire alphabétique et analogique
de la langue française, 1987.
3.
PINTO, P.A. Dicionário de termos médicos, 1938.
4.
CABRAL, T. Novo dicionário de termos e expressões
populares, 1982.
5.
REBELLO, G.P. Noções de teratologia. Bahia, Liv.
Catilina, 1914.
6.
REY, L. Dicionário de termos técnicos de medicina e
saúde., 1999.
7.
BIREME. Internet. Disponível em
http://www.bireme.br/cgi-in/wxislind.exe/iah/online/
Acessado em 22/10/2002.
8.
LITTRÉ, E. - Dictionnaire de médecine, de chirurgie,
de pharmacie..., 1898.
Mastóide designa a apófise situada na parte petrosa, ou
rochedo, do osso temporal. Etimologicamente, mastóide procede do grego mastós, mama, e eîdos, semelhante a. Por
conseguinte, mastóide quer dizer
semelhante à mama, em forma de mama.
Não vem ao
caso, no momento, discutir a possível semelhança entre a apófise e a mama. As
denominações dadas aos elementos anatômicos pelos primeiros anatomistas foram,
em sua maioria, inspirados
Tais palavras,
inicialmente adjetivos, passaram, em muitos casos, a ser usadas como
substantivos, levando à formação de novos adjetivos deles derivados. Assim, de mastóide, substantivo, formou-se novo
adjetivo, cuja grafia e pronúncia têm sido objeto de divergência entre os
autores.
Três formas
têm sido usadas para o novo adjetivo: mastóideo,
mastoídeo e mastoideu. Conforme ressalta o Prof. Idel Becker, a pior das três,
que deve ser de pronto rejeitada, é mastoídeo,
fruto de um equívoco etimológico, pois, neste caso, não se trata do sufixo -ídeo.[1]
A Nomina
Anatomica,
que procura dar uniformidade à terminologia anatômica, registra, em latim, mastoideus
e mastoidea, que se pode traduzir por mastóideo e mastóidea, ou
mastoideu, mastoideia.
O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras
(1999) registra as três formas, com destaque para mastóideo e mastoideu. O
dicionário Houaiss (2001) averba mastóideo e mastoídeo, com preferência para a primeira forma, enquanto o Michaelis (1998) e o Aurélio século XXI (1999) consignam
somente mastóideo.
A Sociedade
Brasileira de Anatomia, em tradução para o português da última revisão da
nomenclatura em latim, optou por mastóideo,
mastóidea.[2]
No caso de
esfenóide e etmóide, os adjetivos adotados em latim são sphenoidale e ethmoidale,
que correspondem, em português, à esfenoidal
e etmoidal.
_________
1.
BECKER,
I. - Nomenclatura biomédica no idioma português do Brasil., 1968, p. 183-184.
2.
SOCIEDADE
BRASILEIRA DE ANATOMIA. Terminologia anatômica, 2001.
Uma das
especialidades médicas reconhecida pela Associação Médica Brasileira e pelo
Conselho Federal de Medicina é a que se dedica a cuidar dos atletas, desde a
sua formação e condicionamento físico até à assistência e recuperação de
traumatismos resultantes de jogos e competições. Envolve, por isso mesmo,
conhecimentos que abrangem vários setores da biomedicina, como a biomecânica,
fisiologia cardiorrespiratória, metabolismo e nutrição, neurofisiologia,
psicologia, ortopedia e traumatologia, cirurgia, fisiatria, etc.
Se o seu campo
de ação se encontra bem estabelecido, o mesmo não ocorre com a sua denominação.
Emprega-se tanto medicina desportiva como
medicina esportiva. Por vezes ambas
as denominações são usadas em um mesmo texto, como ocorreu no Jornal do CFM, de
abril de
Em Portugal,
de longa data se publica a Revista
Portuguesa de Medicina Desportiva.
Qual seria a
forma mais apropriada?
A dualidade de
formas decorre, obviamente, da vacilação existente em relação aos substantivos
dos quais derivam os adjetivos desportivo
(a) e esportivo (a). Desportivo
provém de desporto ou desporte, enquanto esportivo deriva de esporte.
Desporto é palavra bem antiga em português, já encontrada em
documentos do século XV com o sentido de divertimento, jogo.[2] Segundo alguns
léxicos origina-se do italiano dipòrto,
e segundo outros, do francês antigo desport.
Desporte, equivalente a desporto, é forma também aceita como
vernácula.[3] Usou-se ainda, no passado, a forma deporte, idêntica ao castelhano, e considerada etimologicamente
ligada ao italiano dipòrto.[4]
Esporte, hoje de uso generalizado, é anglicismo de introdução
mais recente na língua portuguesa, resultante da difusão de alguns jogos
cultivados na Inglaterra, dentre eles o futebol (foot ball).
A palavra
inglesa sport, por sua vez, formou-se
por aférese de um vocábulo anterior,
disport, oriundo do antigo francês
desport e que se tornou arcaica.[5] Pode-se admitir, portanto, que o
francês antigo desport tenha dado
origem a todos os termos atualmente em uso em outros idiomas: inglês, sport; espanhol, deporte; italiano, dipòrto; português, desporto.
O termo inglês sport difundiu-se pelo mundo e passou a
ser adotado em várias línguas de cultura, inclusive o francês e o alemão.
Ao se criar no
Brasil, em
À semelhança
da CBD, fundou-se, em
Esta opção por desportos foi posteriormente
incorporada à linguagem oficial pelo Decreto-lei 3.199, de 11 de abril de 1941,
que criou o Conselho Nacional de
Desportos (CND), vinculado ao Ministério
da Educação e Cultura.[7] Foi, assim, oficializado o termo desportos, muito embora a preferência popular seja por esportes.
A entidade
médica de âmbito nacional que confere o título da especialidade intitula-se Federação Brasileira de Medicina Desportiva.
Entretanto, o Conselho Federal de Medicina, tanto
Já em
A nomenclatura
oficial distanciou-se da linguagem popular e chegamos a esse impasse. Deve o
Conselho Federal de Medicina manter a denominação de Medicina Esportiva ou submeter-se ao figurino oficial?
Com a palavra
os interessados, ou seja, os médicos especialistas
_________
1.
GALVÃO,
R., RICÃO, R. Medicina esportiva atinge estágio de 1o. mundo. Jornal do CFM, abril de 1994, p. 9.
2.
MACHADO,
J.P. Dicionário etimológico da língua portuguesa, 1977.
3.
BARBOSA,
P. Dicionário de terminologia médica portuguesa, 1917.
4.
MORAES
SILVA, A. Dicionário da língua portuguesa, 1813.
5.
OXFORD
ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 1978.
6.
NASCENTES,
A. Dicionario etimológico resumido, 1966.
7.
GRANDE
ENCICLOPÉDIA DELTA-LAROUSSE, 1972, p. 2.148.
8.
EDITORIAL
Medicina Desportiva pede manutenção de médicos. Jornal da APM, no. 335, julho de 1985, p. 13.
MÉDICO CLÍNICO
Ao
tempo de Hipócrates a palavra grega que designava médico era iatrós,
com a qual se formaram os nomes de algumas especialidades médicas como pediatria, psiquiatria, fisiatria,
geriatria.
Iatrós
é termo
bem antigo na língua grega, já mencionado na Ilíada [1] e encontrado na coleção
hipocrática na sua forma jônica ietrós.[2]
Era comum, na época, o atendimento de doentes
acamados em seus domicílios e o médico (iatrós) que os atendia recebia o
nome de klinikós, de kline, leito [3]
Segundo
várias fontes, a denominação de klinikós aparece pela primeira vez
nos escritos de Galeno (séc. II d.C.), referindo-se aos médicos que visitavam
os doentes em seus leitos. [3]
Do
grego a palavra klinikós passou para o latim na forma clinicus e do latim para
as línguas modernas.[4] Assim, temos, como substantivo, clínico em português, espanhol e italiano; clinicien, em francês; clinician,
em inglês, e kliniker, em
alemão; como adjetivo, clínico em português, espanhol e
italiano; clinique, em francês; clinical em inglês, e klinische, em alemão.
É
interessante assinalar que o mesmo não ocorreu com iatrós, que foi
substituído em latim por medicus, i, derivado do verbo medeor,
eri, oriundo, por sua vez, do verbo grego medéo, com o sentido de
cuidar, tratar, proteger.[4]
Na
Idade Média o médico recebeu ainda, em latim, o epíteto de physicus, do grego physikós,
de physis,
natureza, equiparando-o aos estudiosos da natureza, ou seja, aos filósofos
naturalistas.[5] A denominação de "físico" dada ao médico perdurou
até o século XVIII e sobreviveu na língua inglesa em physician.
A palavra klinikós atravessou
incólume todas as idades, escrita de diferentes maneiras conforme o idioma, até
chegar à idade moderna. Seu significado, entretanto, modificou-se com a
evolução da medicina. Clínico já não
é somente o médico que visita os doentes no leito.
Todos
sabemos o que vem a ser um médico clínico, porém, ao procurar caracterizar seus
atributos e funções na conjuntura da medicina atual encontramos dificuldades
conceituais. O que distingue o médico clínico do especialista? É válida a
dicotomia entre medicina clínica e cirúrgica? Pode o médico ser considerado
clínico se a sua atuação se restringe ao âmbito de uma única especialidade?
Deve a Clínica Médica ser considerada em si mesma uma especialidade? É
procedente a diferenciação entre o clínico e o chamado "clínico
geral"?
Buscando
em várias fontes uma definição para "médico clínico" ou simplesmente
"clínico", vemos que não há consenso entre os autores. A maioria das
definições são inadequadas ou incompletas. Vejamos alguns exemplos:
1. "Clínico - médico que exerce a
clínica". Tautologia que transfere a definição para clínica. E, na
definição de clínica: "exercício ou prática da medicina". [6]
2. "Clínico - médico que exerce
a medicina clínica" ou "médico que se dedica a qualquer das
especialidades clínicas"[7]. Nos verbetes medicina e clínica não
consta o que seja medicina clínica ou
especialidades clínicas..
3. "Clínico - médico que exerce a clínica.
Médico que estuda as doenças por meio da observação direta e exame dos
doentes".[8] Com esta definição, o otorrinolaringologista, por exemplo,
também é um clínico, apesar de ser também cirurgião especializado.
4.
"Clínico - profissional de saúde empenhado nos cuidados dos
pacientes". [9] Neste caso o enfermeiro também seria um clínico, pois ele
é um profissional da saúde e está empenhado nos cuidados dos pacientes.
5. "Clínico - médico práctico, o que enseña la medicina a la
cabecera del enfermo" [10]. Médico prático não qualifica a condição de clínico e
ensinar medicina à cabeceira do leito, por ser um método didático, pode ser
adotado em qualquer especialidade médica ou cirúrgica.
6. "Clinicien - médecin
qui se consacre directement au traitement des malades, qu'il ait une clientèle
ou qu'il travaille dans un hôpital".[11]. Com esta definição qualquer
médico seria um clínico, desde que se dedique ao tratamento dos doentes, que
tenha clientela ou que trabalhe em um hospital.
7. "Clinicien - médecin qui étudie les maladies et établit ses
diagnostics par l'examen direct des malades" [12]. Pelo exame direto do
paciente, o médico nem sempre estabelece o diagnóstico e sim a hipótese
diagnóstica, a ser confirmada por exames complementares.
8. "Clinician - an expert clinical physician and teacher". [13] Assim, o médico tem que
ser também professor para ser "clinician".
9. "Clínician - a practising physician as opposed to the laboratory
worker or investigator" [14]. Ora, o médico pode ser ao mesmo tempo um clínico e
um pesquisador. Uma atividade não exclui a outra.
A dicotomia comumente feita
entre clínico e cirurgião também não satisfaz. Muitos médicos que não operam
não são clínicos.
No site da Sociedade
Brasileira de Clínica Médica não há uma definição para clínico, certamente
considerada desnecessária, pois todos sabem o que é um clínico. Isto nos faz lembrar a anedota do mineiro:
-O que vem a ser uai?
-Uai é uai, uai!
A Clínica Médica é também
chamada Medicina Interna, uma denominação antiga que se contrapunha à Medicina
Externa, correspondente à prática da cirurgia na época anterior à anestesia
geral e à antissepsia.
No livro Anamnese, Ética, Tecnologia, Sérgio
Ibiapina Costa nos dá uma clara conceituação do que seja Medicina Interna como
especialidade médica: “Especialidade que permite proporcionar uma atenção
clínica integrada e completa, baseada em um profundo conhecimento científico,
dedicada aos adolescentes e adultos portadores de enfermidades não
cirúrgicas”[15].
O que distingue essencialmente o clínico, a
nosso ver, é a sua formação, que o capacita a investigar as doenças pela
anamnese e exame físico do paciente, a formular hipóteses diagnósticas com
grande probabilidade de acerto; a utilizar com discernimento os exames
complementares indicados para confirmar ou esclarecer o diagnóstico,
interpretando criticamente os resultados; a conduzir o tratamento com
clarividência, prescrevendo e acompanhando o curso da enfermidade e,
finalmente, a reconhecer prontamente os casos que necessitam tratamento
cirúrgico ou especializado, encaminhando-os ao cirurgião ou ao especialista
mais indicado.
Com esta visão, propomos a
seguinte definição: "Clínico é o médico com capacidade de diagnosticar ou
formular, com grande probabilidade de acerto, hipóteses diagnósticas com base
na anamnese e exame físico do paciente, com discernimento para solicitar os
exames complementares indicados para confirmação ou esclarecimento da
enfermidade e interpretar criticamente os resultados, cabendo-lhe prescrever e
acompanhar o tratamento e, sempre que necessário, encaminhar o paciente ao
cirurgião ou ao especialista mais indicado."
_________
1. MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico
storico dei termini medici, 1993.
2. HIPPOCRATES - Peri ietrós. The
Loeb Classical Library, vol. II, p. 310.London, W. Heinemann Ltd., 1972.
3.
DURLING, R.J. A dictionary of medical terms in Galen, 1993, p. 205.
4.
SARAIVA, F.R.S. Dicionario latino-português, 1993.
5. COROMINAS, J., PASCUAL, J.A. -
Diccionario crítico etimológico castellano e hispánico, 1984.
6. PACIORNIK, R. Dicionário médico, 1975.
7. HOUAISS, A., VILLAR, M.S. Dicionário Houaiss
da língua portuguesa, 2001.
8. REY, L. Dicionário de termos técnicos de
medicina e saúde. Rio de Janeiro, 2.ed. Ed.Guanabara
Koogan S.A., 2003.
9. STEDMAN
DICIONÁRIO MÉDICO, 1996.
10. CARDENAL, L.
Diccionario terminológico de ciencias médicas, 1954.
11. MANUILA, A., MANUILA,
L., NICOLE, M. , LAMBERT, H. Dictionnaire français de médecine
et de biologie, 1970.
12. ROBERT, P. Dictionnaire
alphabétique et analogique de la langue française, 1987.
13. DORLAND'S ILLUSTRATED
MEDICAL DICTIONARY, 1981.
14. SKINNER, H.A.
The origin of medical terms, 2.ed. Baltimore, Williams , Wilkins, 1961, p. 113.
15. COSTA, S.I.F. Anamnese, Ética e Tecnología, 2006,
p. 118.
MORBIDADE, MORBILIDADE
Os dois termos
acima têm sido utilizados com o mesmo significado e com duas acepções: “1.
Capacidade de produzir doença num indivíduo ou num grupo de indivíduos. 2.
Relação entre o número de pessoas sãs e o de doentes, ou de doenças, num dado
tempo e quanto à determinada doença.”[1]. Nesta segunda acepção constitui um
índice epidemiológico, o índice de
morbidade, que se desdobra nos coeficientes de incidência e de prevalência.[2]
Estamos diante
de duas formas paralelas para designar o mesmo fato. Qual seria a forma
preferível?
Ambas provêm
da palavra latina morbus, i, que significa tanto doença
física, enfermidade, como doença do espírito, paixão.[3] De morbus + diminutivo illus formou-se morbillus,
i, nome primitivo da varíola e
que passou a designar sarampo. De morbilli deriva morbiliforme em português, que quer dizer com o aspecto de sarampo, semelhante ao sarampo. Dentre os cognatos
de morbus
em latim está o adjetivo morbidus, a, um, que corresponde a mórbido em português.
Parece óbvio
que o vocábulo formado em português com a raiz morbi- e o sufixo -dade
só poderia ser morbidade. A
introdução da sílaba li faz lembrar morbilli, relativo ao sarampo. Entretanto, uma
coisa é a lógica e outra os fatos da língua. Talvez a forma com o acréscimo da
sílaba li, morbilidade, tenha surgido por analogia com mortalidade, uma vez que ambos os termos andam sempre juntos. Ou
tratar-se-ia de um recurso eufônico?
Em italiano
usa-se morbilità e em espanhol morbilidad ou morbididad. Em inglês encontramos morbidity e morbility, este
último termo pouco usado. Do mesmo modo, em alemão temos morbididät e morbilität. Em
francês prevaleceu morbidité. Em
português devemos optar entre morbidade e
morbilidade.
Conforme
ressaltou Plácido Barbosa, "morbidade é de formação mais conforme à
estrutura do étimo morbidus, no qual não existe l".[4]
Os nossos
léxicos titubeiam entre uma e outra forma. Averbam somente morbidade Pedro Pinto (1962), Antenor Nascentes (1966) e Aurélio
Ferreira, (1999); abonam apenas morbilidade
Silveira Bueno (1963) e Aulete-Garcia, (1980); aceitam as duas formas
Cândido de Figueiredo (1949) e o Vocabulário
Ortográfico da Academia Brasileira de
Letras (1999). Rey,
O Glossário de Epidemiologia, publicado como suplemento dos Arquivos
da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo, registra
apenas morbidade.[5] Por sua vez, os
Descritores em Ciências da Saúde da BIREME optaram por morbidity em
inglês, morbilidad em espanhol e morbidade em português, que me
parece a forma que deve prevalecer.
__________
1.
FERREIRA, A.B.H, Novo dicionário da língua portuguesa, 1999.
2. ROUQUAYROL, M.Z. Epidemiologia e Saúde, 1986.
3. SARAIVA, F.R.S. Novíssimo Dicionario latino-português, 1993.
4. BARBOSA, P. Dicionário de terminologia médica portuguesa, 1917.
5. REY, L. Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde, 1999.
6. SCHMID, A.W. Arq. Fac. Higiene e Saúde
Pública Univ. São Paulo 10:1-10, 1956
NECROSAR,
NECROTIZAR
NECROSANTE, NECROTIZANTE
Os dois verbos
são sinônimos e significam "sofrer ou produzir necrose".
Nékrosis é uma palavra grega,
conhecida desde os tempos homéricos, formada de nekrós, que primitivamente
significava cadáver, + sufixo -sis.
O termo foi
introduzido no vocabulário médico por Aereteus, no século I d.C. e usado por
Galeno no século II d.C. no sentido de mortificação de tecidos, de gangrena.
Galeno também empregou o adjetivo nekrotikós. O termo nékrosis
foi trasladado do grego para o latim por Caelius Aurelianus no século V
d.C.[1][2]
Na formação de
um verbo a partir de um nome, usa-se a flexão verbal –ar ou o sufixo –izar,
oriundo do grego –izein.[3] No caso de
necrose os dois processos foram utilizados, resultando em formas paralelas
do verbo, ambas de uso corrente - necrosar
e necrotizar.
Explica-se
dessa maneira porque devemos escrever necrose com s e necrotizar com z.
A mudança do s em t, que se verifica desde o grego, na formação de adjetivo derivado
de substantivo terminado em -ose,
como em necrótico, poderia ser
explicada pelo fato de que o sufixo –sis era primitivamente –tis.
(4)
Os dicionários
Michaelis (1998) e o Novo Aurélio século XXI (1999) averbam
somente necrosar, enquanto o
dicionário Houaiss (2001) e o Vocabulário Ortográfico da Academia
Brasileira de Letras (1999) abonam ambas as formas. Houaiss deriva o verbo necrotizar diretamente do adjetivo necrótico.
Dos verbos necrosar e necrotizar formaram-se os adjetivos necrosante e necrotizante, os
quais denotam a ação de produzir necrose.
Qual das
formas deve merecer a nossa escolha?
Na literatura
médica indexada pela BIREME predomina a forma necrotizante sobre necrosante.[5]
Em 293 artigos em que a palavra aparece no título, 107 usaram necrosante e
__________
1.
MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico storico
dei termini medici, 1993.
2.
DURLING, R.J. A dictionary of medical terms in
Galen, 1993, p. 244.
3.
CÂMARA
Jr., J.M. História e estrutura da língua portuguesa, 1979.
4. LOURO,
J.I. O grego aplicado à linguagem científica, 1940, p.239.
5. BIREME. Internet. Disponível em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/
Acessaado em 26/11/2009.
NEMATÓIDES,
NEMATÓDEOS, NEMATODES, NEMATODOS
Na
nomenclatura zoológica, a classe Nematoda
(Rudolphi, 1808) reúne os helmintos de corpo cilíndrico, fino e alongado, de
vida livre ou endoparasitos. Pertencem a esta classe os enteroparasitos humanos
mais comuns, como Ascaris lumbricoides,
Ancylostoma duodenale, Necator americanus, Strongyloides stercoralis, Enterobius
vermicularis, Trichocephalus trichiurus etc.
Nematoda é o plural neutro em latim
correspondente à nematodes,
palavra que já existia em grego, formada de Nema, atos, fio + sufixo -odes, que tem o
sentido de "à maneira de", "desta maneira",
"semelhante a" (1, 2).
A
palavra nematóide surgiu em data
posterior nas línguas ocidentais, formada do mesmo tema, acrescido do sufixo -óide, do grego -eidos, que expressa "forma", "aspecto",
"semelhança". Nematóide, inicialmente
adjetivo, foi substantivado, convertendo-se em forma paralela a nematodes.
Não sabemos se Rudolphi, ao nomear esta
classe de helmintos, tinha em mente a palavra grega já existente ou o composto
formado com o sufixo -eidos.
Em
inglês, usa-se nematoda para designar
a classe e nematodes para os helmintos
a ela pertencentes (3, 4, 5).
Em francês prevalece a forma
nematodes, porém a palavra é tida
como formada com o prefixo -eidos
(6). O dicionário de Manuila et al. averba nematodes
para o que os autores consideram "ordem" de helmintos, em lugar
de classe, e nematóide apenas como
adjetivo, com a definição de "semelhante ao verme" (7).
Em espanhol, a preferência
absoluta é para nematodo, não se
empregando nematoide a não ser muito
raramente como adjetivo.
Em português, percorrendo os
nossos léxicos, verificamos haver diferentes interpretações e posicionamentos
em relação aos termos de que nos ocupamos.
Começando pelos dicionários
médicos, Ramiz Galvão, em seu clássico Vocabulário
das palavras derivadas da língua grega,
propõe nematóideos para a classe de
helmintos e define nematóide como
adjetivo, "que tem a forma de fio" (8).
Pedro Pinto segue Ramiz
Galvão, substituindo a terminação -ideos
por -idios – nematóidios (9).
Céu Coutinho mantém nematoda para a classe e nemátodos (proparoxítono) para os parasitos. Averba nematóide como adjetivo,
"semelhante a um fio ou referente a um parasita nemátodo" (10).
Paciornik averba nematóides para a classe e nematóide para o verme (11).
Luis Rey mantém nematoda para a classe e nematóides para os helmintos, dando como
sinônimo nematódeos (12).
Os dicionários não
especializados da língua portuguesa divergem entre si quanto aos termos
averbados e nos apresentam um leque de opções, como veremos a seguir.
1. Silveira Bueno
(1963) averba nemátodes (proparoxítono)
como substantivo e nematóide como
adjetivo.
2. Antenor
Nascentes (1966) adota nematódios como
substantivo e nematóide como
adjetivo.
3. José Pedro Machado (1977)
consigna apenas nematóide como
adjetivo.
4. Caldas
Aulete-Hamilcar de Garcia (1980) registram nematóide
como substantivo e adjetivo.
5. O
dicionário MICHAELIS (1998) averba nematódeos
e nematóides para a classe e nematóide como adjetivo e substantivo,
tendo por sinônimos nematóideo e nematódeo.
6. Aurélio
(1999) designa a classe por nematódeos,
o helminto por nematódeo e atribui a nematóide somente função adjetiva:
"semelhante ao fio de linha" ou "pertencente ao verme".
7.
Houaiss-Villar (2001) registram como substantivos nematódeos e nematóides, considerando
nematóides a forma menos correta,
embora mais usada.
No referente à etimologia,
indicam como fonte a palavra original grega nematodes, formada do
radical nema, atos + sufixo odes, Barnhart (5), Nascentes (1966)
e a Academia das Ciências de Lisboa. Os demais léxicos mencionam o sufixo
grego -eidos na etimologia de todas as formas
substantivas ou adjetivas.
A forma nematódeos resultou do acréscimo à palavra grega do sufixo latino eo(s), com a noção de relação,
semelhança (14).
Na literatura médica em
português, as duas formas mais usadas como substantivos são nematóides e nematódeos. Na base de dados
LILACS da BIREME, encontra-se, nos artigos indexadosm a ocorrência de nematóides 348 vezes (60,7%) e nematódeos 225 vezes (39,3%), o que dá
uma proporção de 1,5:1 (15).
Apesar
disso, e em que pese à opção do grande parasitologista brasileiro Samuel Pessoa
(16), compartilhamos do parecer exarado no dicionário Houaiss, segundo o qual a
forma nematódeos é preferível a nematóides.
Nematódeos é a própria palavra grega latinizada pelo sufixo eo(s). Nematóide deve ser empregada apenas como
adjetivo, seja por comparação a um fio fino, seja ao próprio verme. Acresce
mencionar que nematóide é também um
termo de Botânica (14).
__________
1.
PEREIRA, I. Dicionário Grego-Português
e Português-Grego,1990.
2. BAILLY A. Dictionnaire
grec-français,1950.
3. DORLAND'S ILLUSTRATED MEDICAL DICTIONARY, 1994.
4. CHURCHILL'S ILLUSTRATED MEDICAL DICTIONARY, 1989.
5. BARNHART RK. Chambers
dictionary of etymology, 2001.
6. ROBERT P. Dictionnaire
alphabétique et analogique de la langue française, 1987.
7. MANUILA A. et al. Dictionnaire
français de médecine et de biologie,1970.
8. RAMIZ GALVÃO, B.F. Vocabulário etymologico,
ortographico e prosodico das palavras
portuguesas derivadas da língua grega,1909.
9. PINTO, P.A. Dicionário de termos médicos, 1962.
10. COUTINHO A. C. Dicionário enciclopédico de medicina,
1977.
11. PACIORNIK, R. Dicionário médico, 1975.
12. REY L. Dicionário
de termos técnicos de medicina e saúde, 1999.
13. ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA. Dicionário da língua portuguesa
contemporânea, 2001.
14. CUNHA, A.G.
Dicionário etimológico Nova Fronteira
da Língua Portuguesa, 1986.
15. BIREME. Internet. Disponível em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/. Acessado em 18/8/2007.
16. PESSOA, S.B. Parasitologia médica, 1974.
Sempre que um
mesmo órgão ou elemento anatômico é designado por mais de um nome devemos optar
por um deles, em busca da uniformidade que deve existir na linguagem
científica. A opção não deve ser a da preferência pessoal de cada um; deve
basear-se em algum fundamento histórico ou linguístico, ou em normas de
validade internacional. Exemplo típico é o do décimo par dos nervos cranianos,
ora chamado vago, ora pneumogástrico. Por que vago?
Vago, em português, é forma convergente de dois étimos
latinos. Do latim vagus provém vago, na
acepção de errante, incerto, inconstante, confuso, desordenado. Do latim vacuus
resultou vago, com o sentido de
vazio, desocupado, não preenchido.
O nervo
recebeu em latim a denominação de vagus, que vagueia, que vai ao
acaso, errante. O nervo foi descrito por Marinus, no ano 100 d.C., porém a
denominação de vagus foi dada por Domenico de Marchetti (1626-1688), da
Universidade de Pádua, que o redescreveu, dividindo-o em 16 partes. Tudo indica
que Marchetti teve sua atenção despertada para as variações de trajeto de seus
ramos e inspirou-se neste fato para batizá-lo com o nome de vagus.[1]
Johann Meckel
(1724-1774), anatomista alemão, referiu-se posteriormente ao vago como o nervo
do pulmão e do estômago, conceito que François Chaussier, em 1807, transpôs
para o francês, cunhando o termo pneumogastrique
(pneumogástrico, em português).[2]
Embora o nervo
não seja apenas do pulmão e do estômago, a denominação de pneumogástrico,
mais erudita, passou a competir com o nome mais antigo de vago.
Contudo, a Nomina Anatomica
manteve a denominação latina de nervus vagus, desde a BNA (Basle Nomina Anatomica), de 1895,
[3] até a atual Terminologia Anatomica, da Federação Internacional de Associações de Anatomistas.[4]
Assim sendo, a opção deve ser por vago e
não pneumogástrico.
_________
1.
SKINNER, H.A. The origin of medical terms,
1961, p. 417.
2.
MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico storico
dei termini medici, 1993.
3.
PROVENZANO, S. Nomina Anatomica, 1951, p.199.
4.
FEDERATIVE COMMITTEE ON ANATOMICAL TERMINOLOGY.
Terminologia Anatomica, 1998.
A palavra
grega neûron deu origem aos radicais neur- e nevr-,
utilizados na formação de numerosos termos médicos relacionados ao sistema
nervoso. A vogal u (ípsilon), em grego, tem som semelhante ao u em francês (som intermediário entre i e
u). Já em latim, a letra u,
ora tem a função de vogal (u), ora de consoante, conforme sua
posição na palavra. O som consonantal do u latino evoluiu para v nas línguas românicas.
A
consonantização do u em v pode ocorrer em palavras de origem
grega, como no caso do antropônimo Evaristo,
primitivamente Euaristo, formado de eu, bem + áristos, ótimo.[1]
Este fato
poderia explicar, à primeira vista, a duplicidade de formas existentes,
principalmente em francês e português, para as palavras formadas com o elemento
grego neûron.
Convém
ressaltar que os termos médicos contendo o referido elemento só foram
introduzidos em época relativamente recente. À exceção de nevrologia (neurologia), nevralgia
(neuralgia) e nevrose (neurose), já
em uso no vocabulário médico do século XVIII, os demais compostos foram
introduzidos na linguagem médica a partir do século XIX.
O termo nevralgia (neuralgia), formado de neûron,
nervo + algo, dor + sufixo -ia teria sido usado pela primeira
vez pelo cirurgião francês André, em 1756.[2]
Hipócrates
usou a palavra neûron para designar qualquer estrutura anatômica esbranquiçada
de aspecto fibroso, fossem nervos, tendões ou ligamentos. Erasístrato e, a
seguir, Galeno, limitaram o uso do termo somente aos verdadeiros nervos.[3]
Restou-nos, entretanto, aponevrose
(aponeurose) como remanescente desse primitivo conceito.
Em linguagem
popular ainda perdura o sentido abrangente dado por Hipócrates à palavra neûron,
como se verifica na expressão carne com
muito nervo utilizada para designar a carne com muito tecido fibroso.
Em latim clássico
havia a palavra nervus, i, de sentido igualmente abrangente.
Nervosus,
em latim, tinha o significado de musculoso, forte, vigoroso, acepção esta que
se estendeu até ao português arcaico.[4]
Outra
explicação possível para o uso de v em lugar de u seria por metátese na
palavra nervo.
Qualquer que
seja a interpretação que se queira dar à existência dessa duplicidade de
formas, convém nos fixarmos em apenas uma delas, em favor da desejada
uniformidade da nomenclatura biomédica.
Os léxicos
mais antigos, como o de Domingos Vieira (1871), registram com v todos os vocábulos formados a partir
de neûron,
existentes na época. Ramiz Galvão (1909), para alguns derivados, como nevralgia, nevrite e nevrose, registra apenas a forma com v; para outros cognatos, como neural, neuraxe, neuroglia, apenas a forma com u; finalmente para outros como neurologia, neurilema e neurônio,
as duas formas. Já os léxicos contemporâneos, na maioria das vezes, consignam
as duas formas, porém dando preferência à grafia com u.
O Vocabulário Ortográfico da Academia
Brasileira de Letras (1999), registra 74 vocábulos formados com nevro-
e nada menos que 479 formados com neuro-, o que indica que os termos científicos de criação mais recente
formaram-se com o radical neuro-.
Percebe-se que
as palavras grafadas com v
resultaram da influência exercida na terminologia médica pela língua francesa,
a qual, aos poucos, vai cedendo lugar à influência atual da língua inglesa.
Nesta só se empregam as formas com u.
A Nomina Anatomica
consigna em latim a forma neuro- para os termos anatômicos
formados com este tema, como neuroglia e neurofibra.[5]
Seria
desejável que todas as palavras que utilizam o elemento grego neûron
fossem grafadas com u,
proscrevendo-se as formas com v. Diríamos neuralgia, neurite,
aponeurose, etc.
Com a palavra
os neurologistas.
_________
1.
MACHADO,
J.P. Dicionário onomástico etimológico da língua portuguesa, s/d.
2.
SKINNER, H.A. The origin of medical terms,
1961, p.291.
3.
MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico storico
dei termini medici., 1993, p. 578.
4.
DURLING, R.J. A dictionary of medical terms in
Galen, 1993, p.244.
5.
FEDERATIVE COMMITTEE ON ANATOMICAL TERMINOLOGY.
Terminologia anatomica, 1998,
p.104.
Desde o Crátilo, de Platão, que se discute sobre
a propriedade ou impropriedade das palavras. A História e a Linguística indicam
que o significado das palavras é mera convenção e que a língua segue o seu
curso, indiferente aos ensinamentos dos filólogos e às normas estabelecidas.
Como instrumento de comunicação e expressão, a língua vai se adaptando às
necessidades de cada época, de cada país, de cada profissão ou atividade
humana, criando palavras novas ou conferindo novas acepções às já existentes,
ampliando ou restringindo o seu significado. Por isso os dicionários devem ser
revistos periodicamente.
As
especialidades na área médica surgiram em função da evolução da medicina e
passaram a exigir a criação de novos nomes. Nem sempre as denominações
escolhidas são as mais apropriadas. Uma vez aceitas, entretanto, desvinculam-se
de suas origens, de suas raízes etimológicas, adquirem autonomia semântica e se
revestem de uma denotação que lhes garante a sobrevivência.
Em abono deste
ponto de vista daremos alguns exemplos relacionados a alguns setores da
atividade médica.
Ortopedia (do grego orthós,
reto + paidós, criança + sufixo –ia) foi o nome criado e empregado
pela primeira vez por Andry, em 1741, em um livro intitulado: L'orthopedie ou l'art de prévenir et de
corriger dans les enfants les difformités du corps.[2] Referia-se, portanto, à correção das deformidades em crianças e
não
Enfermagem passou a designar a profissão de enfermeiro somente no início do
século XX, [3] sem que se saiba ao certo como surgiu o nome. O sufixo -agem, em português, designa ação, estado, coleção, mas não ocupação ou
atividade profissional. Pedro Pinto,
Pergunto: quem
já usou nosocomia, além do autor da
proposta? As escolas de enfermagem no País jamais tomaram conhecimento da
impropriedade linguística.
O tratamento
de queimados tornou-se ultimamente uma atividade médica especializada. Em
Goiânia há um hospital especializado em queimaduras, com vários especialistas.
Seu antigo proprietário, já falecido, Dr. Nelson Piccolo, consultou o maior
linguista do Brasil, Prof. Antônio Houaiss, sobre como deveria chamar-se a nova
especialidade. Houaiss sugeriu Causiologia (do grego khaûsis, eos, queimadura).
O especialista no ramo seria um causiologista (a palavra soa mais como um termo
jurídico). A dificuldade surgiu quando se pensou em fundar uma sociedade
nacional da especialidade. Como deveria chamar-se? Sociedade Brasileira de
Causiologia? Optaram por Sociedade
Brasileira de Queimaduras, deixando de lado a denominação proposta por
Houaiss. Melhor teria sido Sociedade
Brasileira para estudo das queimaduras, já que as queimaduras não poderiam,
a rigor, formar uma sociedade.
Muitas
especialidades têm denominação insuficiente para indicar todo o seu campo de
atuação.
A gastroenterologia, por exemplo,
não se restringe ao estômago e ao intestino, como o nome sugere; abrange outros
órgãos do aparelho digestivo, como o esôfago, fígado, pâncreas, vias biliares.
A cardiologia não cuida apenas do coração; do contrário os cardiologistas não
poderiam tratar a hipertensão arterial.
Os proctologistas, para não deixar
dúvida quanto aos limites de seu feudo, decidiram antepor o cólon à antiga
denominação de sua especialidade, que passou a chamar-se coloproctologia.
Os otorrinolaringologistas, apesar da
extensão quilométrica do nome de sua especialidade, costumam acrescentar um
subtítulo explicativo: "Doenças do nariz, ouvido e garganta", como a
dizer que lárygx, em grego,
além de laringe, quer dizer também garganta.
Os ginecologistas, que em sua maioria
também fazem partos, preferem manter acopladas as denominações de ginecologia e obstetrícia,
como uma fruta inconha. Alguns abreviam para gineco-obstetrícia, de
muito mau gosto.
O sistema
urinário deu origem a uma curiosa dicotomia: quando a abordagem é clínica, a
especialidade se chama nefrologia; quando exercida por cirurgião, urologia, como se o clínico não tratasse uma
cistite ou o cirurgião não operasse o rim.
Anestesista passou a ser simplesmente
aquele que aplica a anestesia. Para elevar o status da especialidade e do especialista ao nível dos demais, foi
necessário acrescentar o lógos grego, com sua magia - anestesiologia e, consequentemente, anestesiologista.
O mesmo se deu
em relação aos oculistas,
que trocaram o latim pelo grego e passaram a oftalmologistas.
Os dentistas
não fizeram por menos; os que se prezam e têm diplomas na parede passaram a ser
odontólogos.
Os
radiologistas já não se contentam com a antiga denominação vinculada aos
ultrapassados raios-X e estão propondo um novo nome para a especialidade – imaginologia - para incluir outros métodos de imagem como a ultrassonografia, a
tomografia computadorizada e a ressonância nuclear magnética. É óbvio, no
entanto, que há outros tipos de imagem que pertencem a outras áreas, como a
medicina nuclear e a endoscopia.
Os pediatras e psiquiatras foram mais modestos.
Dispensaram a marca da erudição e preferiram ser chamados de iatrós,
no sentido clássico da práxis
médica: aquele que trata, que cuida, que medica.
Os geriatras seguiram o exemplo dos
pediatras (afinal são os dois extremos da vida) e deixaram gerontologia para o ramo das ciências médicas que estuda o envelhecimento,
embora em alguns países só se empregue gerontologia em
ambos os sentidos.
Algumas
especialidades mais novas ainda não fizeram sua opção definitiva. É o caso da patologia clínica, para a qual têm
sido sugerida a denominação de medicina
laboratoria. O especialista em patologia clínica (patologista clínico) desfruta, a
meu ver, de uma posição invejável; a de alguém cujo saber se estende da
patologia à clínica; um misto de cientista e médico, capacitado a confirmar ou
modificar uma hipótese diagnóstica. A troca do nome da especialidade para medicina laboratorial deixaria o especialista em
desvantagem, que passaria a ser simplesmente médico laboratorista, ou
então deveria ser chamado por um nome de mais alta hierarquia, como laboratoriologista (pobres das
secretárias!)
Ultimamente tem sido usada a expressão imprópria de medicina
diagnóstica para o conjunto de exames complementares ao exame clínico, como
se o diagnóstico dependesse exclusivamente de tais exames. Tal denominação
espelha, sem dúvida, a extrema dependência da medicina atual dos métodos de
imagens, exames de laboratório e outros procedimentos técnicos.
Como bem
assinala Manuila et al., muitas palavras afastam-se de tal maneira de seu
sentido original que sua etimologia passa a ter interesse apenas para os
historiadores e linguistas.[5]
_________
1.
BRÉAL,
M. Ensaios de Semântica (trad.), 1992, p. 123.
2.
ANDRÉ, [ANDRY], N. Apud MORTON, L.T. - A medical bibliography (Garrison and
Morton), 1983, p. 575.
3.
HOUAISS,
A., VILLAR, M.S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2001.
4.
PINTO,
P.A. Vocábulos médicos e de outra natureza., 1944, p. 27.
5.
MANUILA,
A. (Ed.) Progress in medical terminology, 1981, P. 107.
Os dois verbos acima por vezes são usados um pelo outro, indiferentemente, como sinônimos. Muito embora Houaiss admita a sinonímia,[1] outros lexicógrafos estabelecem uma diferença semântica entre eles.[2-4]
Historicamente,
ambos são de introdução relativamente recente na língua portuguesa, sendo que normalizar é mais antigo do que normatizar. Mesmo sendo o mais
antigo ele não é mencionado nos dicionários do século XIX, nos quais
encontramos tão somente o adjetivo normal
e, a partir de 1873, com o dicionário de Domingos Vieira, também o adjetivo normativo, uma adaptação do
francês normatif. [5]
O verbo normalizar só aparece no
século XX, a partir do léxico de Simões da Fonseca, [6] até os atuais.
Normatizar, por sua vez, somente é
encontrado nos dicionários mais recentes, como o Houaiss, Aurélio séc. XXI, Michaelis, e o de Francisco Borba.
À
exceção do Houaiss, que, dentre as acepções de normalizar inclui a
de normatizar, os três outros léxicos citados
estabelecem significados diversos para os dois verbos. Vejamos o que se lê em
cada um deles:
Normalizar [De normal + izar]. V.t.d. 1. tornar normal; fazer voltar à
normalidade; regularizar. 2. Submeter a norma ou normas; padronizar. 3. Int.
Retornar à ordem. 4. Voltar ao estado normal (Cf. normatização).
Normatizar [Do lat. normatus, p.p. de normare + sufixo izar. V.t.d.
Estabelecer normas para. Submeter a normas (Cf. normalizar).
MICHAELIS
Normalizar (normal + izar) vtd. 1. Tornar normal, regularizar. 2. Reentrar na
ordem, voltar à normalidade.
Normatizar (norma + izar). Estabelecer normas para (cf. normalizar).
F.
BORBA
Normalizar V.[Ação-processo] 1.
tornar normal; regularizar; 2. reentrar na normalidade.
Normatizar V.[Ação-processo] estabelecer normas para.
No português de Portugal
usa-se o verbo normativizar,
em lugar de normatizar, aparentemente derivado de normativo + sufixo izar. [7]
Vê-se que somente o verbo normatizar tem a
acepção explícita de estabelecer normas.
Em
biblioteconomia, por influência da Associação Brasileira de Normas Técnicas
(ABNT) usa-se normalização
em lugar de normatização. [8]
É
preferível, no entanto, empregar o verbo normalizar e seus cognatos somente na acepção tradicional de
tornar normal, de voltar à normalidade, e normatizar para expressar a ação de estabelecer normas,
regras, regulamentos, rituais etc.
Em
um levantamento dos artigos científicos indexados pela BIREME nos últimos 20
anos, encontramos 48 que utilizaram, no título, corretamente, o termo normatização e 17 que empregaram normalização com duplo sentido, sendo 12 no sentido
de “voltar ao normal” e cinco na acepção de “estabelecer normas”, em
substituição a normatização.[9]
Assim,
em um total de 53 trabalhos publicados (48 + 5), somente 9,4 % usaram normalização por normatização.
Estes
dados nos permitem concluir que a literatura médica brasileira incorporou
acertadamente a diferenciação semântica entre os dois verbos.
___________
1. HOUAISS, A., VILLAR, M.S. Dicionário Houaiss da
língua portuguesa, 2001.
2. FERREIRA, A.B.H. Novo
dicionário da língua portuguesa, 1999.
3. MICHAELIS. Moderno
dicionário da língua portuguesa, 1998.
4. BORBA, F. S. Dicionário
de usos do português do Brasil. São Paulo, Editora Ática, 2002.
5. VIEIRA, D. Grande
dicionário português ou Tesouro da língua portuguesa, 1871-1874.
6. FONSECA, S., RIBEIRO, J. Novo diccionario
encyclopedico illustrado da lingua portugueza, 1926.
7. ACADEMIA DAS CIÊNCIAS
DE LISBOA. Dicionário da língua portuguesa contemporânea,
2001.
8. INSTITUTO BRASILEIRO DE DOCUMENTAÇÃO CIENTÍFICA.
Normalização da documentação
no Brasil. Rio de Janeiro, IBBD, 1966.
9. BIREME – Internet. Disponível em
http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/
Acessado em 31/12/2004.
A palavra obeso provém do latim obesus,
em que a vogal e tem som aberto (é).
Questiona-se qual deve ser a pronúncia em português: obeso (é) ou obeso (ê)?
A maioria dos
léxicos consigna o termo sem menção à pronúncia, enquanto outros advertem que a
vogal e tem som aberto. Dentre estes podemos citar o de Cândido Jucá
(filho) (1965) e o de Aurélio Ferreira, em sua primeira edição (1975).
Em algumas
obras especializadas encontra-se igualmente a informação de que se trata de e
aberto. Assim, Ernani Calbucci diz textualmente: "Obeso - Este
vocábulo que significa gordo, barrigudo, pronuncia-se com o e aberto: obéso. A grafia é
obeso".[1]
Vittorio Bergo
registra: "Obeso - gordo, barrigudo. Tem o e aberto, rimando com rezo".[2]
Autuori e
Proença Gomes dão como errônea a pronúncia com o e fechado (obêso).[3]
Portanto,
parece haver consenso entre os linguistas quanto ao som aberto da segunda
sílaba. Como exceção, encontra-se no Dicionário
de Rimas de Visconde de Castelões, a palavra obeso rimando com aceso e
surpreso.[4]
Em linguagem
poética, entretanto, são permitidas tais liberdades prosódicas, de que temos exemplo
na maior obra poética da língua portuguesa - Os Lusíadas. Na estrofe 120 do
Canto III, ao narrar o drama de Inês de Castro, Camões rima sossego com cego.[5]
"Estavas,
linda Inês, posta em sossego
De teus anos
colhendo doce fruito
Naquele engano
da alma, ledo e cego."
Apesar de
todas estas considerações, cada vez mais se firma na linguagem médica a
pronúncia de obeso com e fechado (obêso). As mudanças fonéticas
e semânticas das palavras ocorrem naturalmente com o passar do tempo e seguem o
seu curso indiferentes às normas e regras da língua. Acredito que estamos
diante de um fato linguístico irreversível, pois dificilmente os médicos
deixarão de dizer obeso (ê). Esta
mudança, como tantas outras, veio para ficar.
_________
1.
CALBUCCI,
E. Léxico de dúvidas de linguagem, s/d.., p. 18.
2.
BERGO,
V. Erros e dúvidas de linguagem, 1986., p. 267.
3.
AUTUORI,
L.G., GOMES. O.P. Nos garimpos da linguagem, 1956, p.43.
4.
CASTELÕES,
V. Dicionário de rimas, s/d., p. 294.
5.
CAMÕES,
L. Obras completas, 1970, p.1.207.
OFICINA
Oficina é palavra de origem latina que
existe em português desde o século XIV. [1]
Designa o local onde se produzem ou se reparam
manufaturas ou produtos industriais, tais como oficina mecânica, oficina de marcenaria, oficina tipográfica etc.
Por extensão passou a significar fábrica, loja de confecções, estúdio,
laboratório.
Outra
acepção é a de oficina pedagógica,
que se refere a centros, estabelecimentos ou organizações destinados a promover
o desenvolvimento de aptidões e habilidades mediante atividades laborativas
programadas. [2]
Em
espanhol usa-se oficina
principalmente como sinônimo de local de trabalho, escritório, repartição
pública, departamento. Ex.: Oficina
Sanitaria Panamericana, Oficina Internacional de Trabajo etc.
Ultimamente,
o termo oficina vem sendo usado em
nosso idioma, sobretudo em eventos e publicações oficiais, para designar
reuniões destinadas a debater determinado assunto em busca de maior
entendimento e consenso entre os seus participantes. É um neologismo semântico,
como tantos outros, introduzido pelos tecnocratas na linguagem pseudoerudita da
modernidade, e aceito nos meios acadêmicos.
Para
melhor distinguir o neologismo de outras oficinas,
acrescenta-se de trabalho, o que nos
parece pleonástico, pois toda oficina
é de trabalho, ao contrário de reunião,
que pode ou não ter o objetivo de trabalho.
Existe
a ideia de que o termo oficina, na
acepção de "reunião de debates" é um espanholismo.
Embora seja usado em espanhol nesta acepção, o Dicionario da Real Academia
Española, em sua 22a edição (2001), não a menciona como tal.[3]
"Oficina
1.
Local
donde se hace, se ordena o trabaja algo
2.
Departamento
donde trabajan los empleados públicos o particulares
3. Laboratorio de
farmacia
4. Parte o lugar
donde se fragua o dispone algo no material
5.
pl.
piezas bajas de las casas, como bóvedas y los sótanos."
Seria influência de workshop em inglês? Workshop designava
antes somente o local ou o estabelecimento onde se desenvolvia o trabalho
manual ou de pequena indústria [4], equivalente, portanto, à oficina
Diante
da influência da língua inglesa nos demais idiomas de cultura, seria natural
conferir também à oficina este outro
significado, o que daria maior coerência à nova linguagem tecnocrática. Como
atualmente as ideias, a experiência, os novos métodos e novos procedimentos são
chamados de ferramentas, o local mais
adequado para manusear ferramentas
seria mesmo na oficina.
É interessante assinalar que no verbete workshop de dois dicionários de inglês
encontra-se o termo seminar como
sinônimo de workshop na acepção de
"grupo de discussão". [6,7].
Possuímos
em português a palavra vernácula seminário,
muito mais apropriada do que oficina para
nomear o evento em que um grupo de participantes qualificados se reunem para
debater um assunto em busca de consenso. Vejamos a definição de seminário em nossos mais modernos
léxicos:
MICHAELIS
[8]
Seminário - Reunião de estudos sobre determinado assunto...caracterizada
por debates.
HOUAISS [9]
Seminário - Congresso científico ou cultural, com exposição seguida de debate.