JOÃO MAIMONA

A Nelson Mandela
(Descer os degraus da Humanidade. Ver o mar escuro do fenómeno
errante do atrito de armas. Sentir com as palavras presas nos lábios
o perfume da discriminação distribuído a preço derrisório em Durban,
Pretória, Soweto...Olhar na propagação de sinais sombrios o desenho
da desunião e de outras dores inspiradas que nos vigiam enquanto
os homens degrau a degrau sobem o horizonte cruel. E assim surgimos
na árvore do quotidiano, quotidiano vivo, ingrediente da nossa tragédia.)
Poema para Carlos
Drummond de Andrade


No meio do caminho tinha uma pedra.


C.D.A.
É útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio de teu caminho.

Memória

Baloiçando nos escombros de teu itinerário
saberás que os gados constroem estradas.
E quando a mão deslizar pela margem
das cicatrizes que se afundam na noite
saberás que a tua mão viaja para a
colina dos dias sem escombros
e saberás que no berço da noite jaz a luz
drogada e ouvida pela cruz sobre quem viajaste.


Prostitutas Misérias entre
Mar e Janelas


no quadragésimo aniversário da explosão de Hiroshima

1. Nascemos quase pelas horas quase iluminadas pelas cortinas que ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da presença humana. A palavra sentida há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a estreita oração que nos ensinou a bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas cantam e dizem lagartos para escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de crescer a flor. Os leões inventam microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os ouvidos de dois mundos que se ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar ao pé das janelas. E crepúsculo estará na neve do crepúsculo que há de vir congregado em pedras do crepúsculo.

2. O velho continente acordou e deixou de sonhar com as estátuas de cinza. A América se levantou e se contorce de recessão espacial nos pastos que enchem os peitos do gado com o qual havemos de alimentar os silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da escravatura. E África coleciona lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui os dias caem no chão e ninguém os quer contar. Mas de noite cantamos os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a noite vai. A carne, a flor, o sal, o sangue e a água se misturam para soprar felicidade ao mar e às janelas. Temos de conhecer o mar. Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do crepúsculo que há de vir congregado em pedras de crepúsculo.