| DANIEL FELIPE |
| Desnecessária Explicação |
| Que
importa a melodia, se acaso aos outros dou, com pávida alegria, o pouco que me sou? Que importa ao que me sabe estar só no meu caminho, se dentro de mim cabe a glória de ir sozinho? Que importa a vã ternura das horas magoadas, se ao meu redor perdura o eco das passadas? Que importa a solidão e o não saber onde ir, se tudo, ao coração, nos fala de partir? |
| Trespasse |
| Quem
tiver sonhos, guarde-os bem fechados com naftalina num baú inútil. Por mim abdico desses vãos cuidados. Deixai-me ser liricamente fútil! Estou resolvido. Vou abrir falência. (Bandeira rubra desfraldada ao vento: "Hoje, leilão!") Liquida-se a existência por retirada para o esquecimento ... |
| Recado Para a Amiga Distante |
| Dorme
Menino dorme teu sonho quieto lúdico enquanto longe estoura a bomba no atol Que outra coisa Menino poderemos fazer ante o inominado desconhecido crime que de entre as chamas nasce no silêncio da noite? Que palavra inventada que rubro gládio pode definir o temor do começo do mundo? Que estranho abjeto ritmo em cogumelo alastra sobre o teu sono puro Menino sobre a esperança? (Um tigre humano vem a cada esquina oculto no rumor da manhã saciar-se de sangue) |
| No Exato Automóvel |
| No
exato automóvel, viajamos. Em corpo e nervos, sal, angústia, grito. Suor, temor da noite, aonde vamos? Direita, esquerda? (Cruzamento) . Hesito. Onde? Por onde? Somos dois, calados. A chuva alaga o universo à volta. A beira d'água, acenam-nos soldados. Soam no escuro os passos de uma escolta. Finco as mãos no volante. Derrapagem ou medo apenas do que vai comigo? Já está próximo o termo da viagem. Apertamos as mãos. "Saúde, amigo". |