Olhar e Ver, eis a Questão

Da riqueza do imprevisível, esse reduto do indecifrável acontecer, pouco se diz. A pobreza, a repetição enfadonha do quotidiano, os hábitos cristalizados a que nos apegamos, ou se apegam a gente, limitam-nos para a capacidade de ver o novo que nos desafia a cada momento. O panorama do certo, do que se espera acontecer, nos dá esse cinzento tom à vida e a torna pouco a pouco essa coisa enfadonha e repetitiva que veste nossos dias.

Mas há esse fundo inexplicável, onde se entretecem teias, que nos ligam e conduzem a coisas novas. Um encontro casual, que não esperamos, nem provocamos, uma palavra, uma frase que nos conduz no meio da comunicação com os outros à descoberta de metas paralelas, de universos partilhados; um gesto inesperado que nos revela algo, todo esse fundo não pré-concebido, onde nos movemos onde se cozinham as coisas, aparentemente insignificantes, que podem alterar o curso de uma vida.

O que falta é essa capacidade atentiva para decifrar o código do aparentemente vulgar, de vermos o novo onde só víamos o mesmo. Ver de novo, de novo sentir vem afinal da capacidade de se abrir à revelação, diante de nós a cada instante.

Não é o apelo ao deixar-se ir na corrente, é antes o ser capaz de perceber que há uma corrente. Não é a apologia da passividade, ao puro entregar-se do acontecer, é saber que continuamente estamos mergulhados no acontecer. O homem define-se pela acção, pela escolha, pela assunção de caminhos, que levam à total expressão da sua individualidade.

Imperioso será a abertura da alma, a disponibilidade do coração, desse olhar interior quantas vezes impedido de ver pela ganga com que nos revestimos, pela presença quotidiana da norma, de que não nos podemos descartar; pelo cumprimento de horários, o frenesim que não nos deixa tempo para parar, respirar fundo e voltar a sentir como isso é bom; o ficar só olhando com olhos abobalhados qualquer coisa sem estar olhando em direcção nenhuma, simplesmente sendo levado pelo pensamento, parar e escutar alguém que de repente ao nosso lado começa a falar, gente que não conhecemos mas que naquele momento nos escolhe para dizer algo, porque precisa falar, ou antes ser escutado.

Deixamos de ter tempo...sofregamente o tempo tomou conta da gente. E Deus meu como precisamos parar, aquietar nossos passos em constante correria, dar férias ao nosso coração que começa a dar sinais de estar farto da batida acelerada a que o obrigamos, de parar num jardim numa manhã de sol e sentir a vida á solta por ali; segurar a mão do filho e leva-lo a um lugar qualquer onde ainda pule a fantasia e embarcar junto com ele na viagem. Como precisamos urgentemente de parar, de regressar ao centro de nossa vida para fazermos de novo a viagem pelo lado de dentro das coisas que deixamos de ver e sentir.

Ler os sinais por aí á solta, e esperar despertar com eles e para eles, quem sabe não é um caminho. Talvez que as lentes com que a vida olhamos estejam desajustadas a nossa visão. Quem sabe se o segredo não residirá tão só em a voltar a olhar tudo com o olhar de um menino, como se pela primeira vez o mundo nos entrasse pelos olhos da alma.

 

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