Spring Cleaning

Há dias em que se acorda com o ímpeto da limpeza e ordenação do espaço que nos rodeia. De repente nos damos conta do que ao longo do tempo sem têm acumulado ao nosso redor, silenciosamente e já sem utilidade, papeis e objetos.

E sem saber como nem porquê, despertamos para as coisas mais ou menos inúteis que por esquecimento, preguiça, ou pelo simples hábito de as ver naquele lugar, fomos deixando invadir o nosso espaço, isso que agora só vemos como lixo.

Até as idéias viram lixo e nesses momentos em que a irreprimível vontade de colocar as coisas no seu lugar reaparece, sentimos que é necessário agendar, priorizar, limpar os gavetões mesmo os da memória e da vida.

Abrindo os armários, damos conta de que aquele vestido já não condiz com a cor que trazemos por dentro, e aquele amontoado de papeis com informação, só foi útil num determinado momento; aquele outro objeto que alguém nos ofereceu, juntamente com outros que fomos acumulando, ao longo do tempo, hoje os olhamos e sentimos estarem somente ocupando espaço, fora da gente.

Até o odor de coisas velhas assoma, e no ambiente que nos rodeia parece estar faltando alguma coisa. Dá vontade de queimar incenso, colocar flores por toda a casa.

E olhando as estantes onde repousam meus livros, meus velhos discos de vinil e os modernos Cds, me pareceu não ser aquele o local ideal para os deixar e logo ali imaginei o espaço ideal para onde gostaria de transladá-los. Assim acontece a quem compartilhando o espaço onde vive, precisa se habituar a todos esses objetos que não chegam pela sua própria mão ou escolha. Conviver é ceder e a partilha de espaço nos obriga a respeitar a forma como os outros o ocupam também.

Organizar o espaço...ordenar a vida. Naquele momento isso me pareceu importante movida pela vontade de refrescar e renovar. Aqui onde estou a desorganização, é um estado quase permanente. Me incomoda a organização excessiva. É como se um certo "fora de ordem" se tenha tornado imprescindível ao meu equilíbrio. A organização rígida é algo que afronto dentro de mim. Inconscientemente vejo nessa excessiva ordenação das coisas, um modo de ficar presa aos lugares, e eu sei que ainda não piso o lugar onde quero criar raízes. Vivo numa dimensão "inter-espacial", entre o lugar real e o lugar das projeções. Entre os dois procuro lançar a ponte que torne o espaço da projeção nesse outro o lugar : o da realidade vivida.

E porque de limpeza, de ordenação de refrescar, se pretendia aludir, me vem á memória a muito comum frase entre os ingleses : "Spring Cleaning", a refrescada geral a dar a tudo com o anuncio da Primavera. Tudo isto vem ao caso, porque neste lado do mundo, já se sente que a Primavera em breve se anunciará e com ela chegará o emergir silencioso das coisas em germinação, aguardando o momento de irromperem.

"Spring Cleaning", poderia ser esse o nome a dar a esse ímpeto que despertou comigo, hoje: refrescar, renovar, retirar do caminho objetos que nos prendem ao ontem, sobretudo ao ontem que murchou, desimpedir o caminho de impecilhos que nos tolhem o caminhar , mudar atitudes, romper com indecisões, olhar as pessoas nos olhos, colocar os pingos nos "is", escrever preto no branco e mais importante que tudo : cumprir o inadiável, com a mesma força misteriosa com que irrompem as coisas acoitadas no seio da terra, que explodem com a chegada da Primavera.

 

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