Às Voltas Com o Tempo

Ao longo da avenida, numa tarde soalheira de Inverno, anunciando já o seu fim, aqui e ali a cidade se polvilha de gente. As praças e jardins se enchem de pessoas que desfrutam de amenas conversas aproveitando o tempo que se ameniza.

Só as pequenas cidades ainda oferecem isso que vai rareando em nossos dias: o contacto das pessoas que se cruzam diariamente, na rua, em um café ao dobrar de uma esquina, no mercado, esse lugar vivo onde a compra e venda se faz de forma direta, com as pessoas trocando impressões, discutindo preços.

Desses encontros ainda se faz a vida cotidiana das gentes que não foram submergidas pela azafama das grandes metrópoles, que não vivem a tortura da pressa, a ameaça dos "salteadores" modernos , espreitando uma oportunidade para o saque do dia, e que vivem o tempo a um outro compasso, de forma tal que não reiteram a permanente queixa da modernidade: a falta de tempo.

O Tempo parece ter-se tornado um bem escasso. Não temos mais tempo para ir num cinema, não temos tempo para ficar parados uns minutos que sejam e escutar a voz do silencio; deixamos de ter tempo para saborear a leitura de um bom livro; não temos tempo para nossas crianças, reclamando atenção, emitindo sinais de que deixamos de dar conta, sabe Deus a que preço.

Na correria e falta de tempo, que se lhe associa, vamos também perdendo a memória e esquecemos que há dias especiais, porque marcam momentos únicos e irrepetíveis em nossas vidas. É aquele dia que guardávamos como "o dia em que conheci você"; a data marcada na agenda para o encontro dos colegas de formatura; o aniversário do amigo de longa data. Lembramos depois. Tantas vezes tarde demais, ao folhear a agenda cujo prazo expirou no ano transato. Deixamos de ter tempo, e vamos perdendo a memória das coisas importantes, as que são importantes para nós e para aqueles que amamos, datas, acontecimentos, pessoas que deveriam estar vivos em nós e não adormecidos numa agenda ultrapassada.

O nosso tempo é também ele caraterizado por uma certa amnésia, a que nos convém, porque a memória abre feridas, e aquela outra que nos causam, pelo adormecimento das mentes, o entorpecimento do corpo, pelo acenar do fácil e do "el dorado" que alguém oferta a troco de" nada", na aparência, mas que para além de nos esvaziar a alma nos esvazia do resto.

É verdade que as conversas são como as cerejas, umas puxam as outras, e por isso mesmo tergiversei sobre a vida moderna, quando queria mesmo era falar de como ainda é possível encontrar nichos de mundos quase perdidos. Mundos de comunicação real e profícua, por oposição a essa outra forma de comunicação massiva, que nos coloca no centro de um dilema e contradição: nos aproxima, realizando o prodígio de nada mais poder ser ignorado por ser distante, e irremediavelmente nos afasta da vida aqui e agora. Nunca estivemos tão próximos, agora que a globalização se tornou um palavrão de bolso, mas em boa verdade, talvez nunca antes se tenha sofrido tanto de solidão.

E, quem sabe, para espantar a solidão e cultivar o gosto pelas trocas humanas, é que nessas tardes soalheiras, as pracinhas e a avenida sobranceira ao oceano se enchem de pessoas em busca do sol de inverno, mais apreciado, porque tem sabor de coisa rara.

Não é possível passar indiferente às personagens que inundam esses lugares, na sua maioria jovens estudantes ou desocupados e homens idosos. Estes esperam que a tarde anuncie o seu final, para depois de cumprida a tarefa do dia, que é afinal cumprir mais um dia, regressarem a suas casas, ou a seus lares de acolhimento. Esses outros que esmolam, de igual modo aguardam a vinda da noite para se acolherem nos recantos mais abrigados e iluminados das cidades.

Essa gente de pele sulcada, cabelos a que o tempo emprestou a cor da neve, uns de cigarro ao canto da boca deambulando pelas cidades, outros em pequenos grupos aqui e ali, são o que sem pudor chamamos de "nossos velhos", mas na verdade são a nossa memória, e mais que passada prospetiva. E é na medida em que nos acordam para um futuro que sempre chega, que preferimos, tantas vezes esquecê-los. O velho continente, envelhecido, esquece os que vão envelhecendo.

Vivemos de forma orgiástica o endeusamento da beleza e da juventude, mas um dia, se tivermos a felicidade de viver longos dias, tomaremos a estrada da velhice. Pudéssemos encara-la como uma espécie de "idade do ouro" o momento único de realizarmos a síntese de nossas vidas.

Vamos perdendo a memória, mergulhados no turbilhão do dia que passa. Aqui e agora sendo a dimensão primordial de nossa existência, jamais nos deveria fazer perder de vista o futuro. Nas praças e jardins das cidades, ele surge na forma de um quadro vivo: um dia poderemos estar ao fim da tarde saboreando o sol num banco de jardim, ou seja ter a felicidade de chegar a "velho". Nesse momento da vida, já não andaremos às voltas com o Tempo, do que seja te-lo ou da sua falta, já que é o momento de convivermos de perto com a eternidade. Então, teremos todo o tempo do mundo.

  VOLTAR ANGELA SANTOS MAIS