Do Livro e do Saber na Era Comunicacional

Na era da Comunicação global, do derrube de fronteiras imposto pelas sociedades da informação, em que o poder prevalecente é o da imagem, coloca-se a questão de saber que lugar ocupa a palavra escrita e consequentemente o livro, nas culturas de massificação.

O acervo de informação à disposição de uma considerável parte da humanidade, pelo menos da que vive em sociedades que dispõe de condições que permitem aos seus cidadãos o acesso aos meios massificados da informação, não nos pode fazer esquecer que uma outra fatia, não menos considerável da humanidade, das estepes à Ásia e ao grande continente africano, permanece analfabeta.

A universalização e democratização do ensino, tendo diminuído o fosso entre letrados e iletrados, não nos conduziu necessariamente a um estágio de maior conhecimento: a humanidade não se revela mais sábia, apesar de termos as mais consagradas bibliotecas ao alcance da mão, na comodidade de nossas casas, os museus mais conceituados do mundo ou os dados mais recentes da ciência, disponíveis nas redes informáticas e a que acedemos através de um simples click.

Em grandes discursos de meras intenções políticas, os que governam os destinos do mundo elevam suas vozes, tanto em defesa do ambiente que ao ritmo de poluição a que está sujeito, acabará sufocando e nós com ele, como da necessidade de tornar universal o acesso ao conhecimento, e da escola como meio privilegiado da formação dos indivíduos, portanto de cidadãos. Educar para a cidadania, implicaria dar de novo ênfase e importância a determinadas áreas de formação, que tanto gregos como romanos – para de algum modo apelar a dois dos grandes pilares de nossa estrutura civilizacional – sublinhavam como as traves-mestras do edifício educacional do habitante da "polis". As áreas de formação cívica, ao longo das ultimas décadas foram sendo despromovidas em favor das áreas tecnológicas e cientificas, sem sombra de dúvida caminhos de evolução e progresso, para a humanidade, mas não os únicos.

Pensar que no dealbar do um novo milênio, as manchas de pobreza no planeta se alargam, que o anafabetismo, não foi irradicado, que os nacionalismos mais ferozes ainda matam, que a carta magna dos Direitos Universais do Homem, é letra morta, para milhares de homens, mulheres e crianças que conhecem a condição infra-humana da existência, deveriam fazer pensar. Progresso é um conceito que nos traz à memória um processo de eliminação da bárbarie, e por todo o planeta há sinais de que ela tende a crescer e de que os conceitos de progresso e evolução deveriam ser revistos.

Educar para a cidadania deveria ser o lema de quem dirige os destinos de um país, porque é no ensino que se aposta positivamente no futuro, ou pelo contrário o individamos. Progresso está intimamente ligado a um outro conceito: EDUCAR!

Porque falamos de ensino, é pertinaz lembrar que em nossas escolas parece surgir como um verdadeiro drama as relações quase traumáticas que uma elevada percentagem de alunos vive com algumas disciplinas, nomeadamente a matemática e a língua materna. De uma forma geral as pessoas falam cada vez pior, e a formação de uma mente racional e lógica também se perde, pelas dificuldades que enfrentam nossos estudantes.

O sucesso escolar, e a aquisição do conhecimento, que se realiza durante a passagem pela escola, ou faculdade, está diretamente ligado à boa preparação dos docentes, que mais do que ensinar se deveriam preocupar com a capacidade de incutir o gosto por aprender e o insucesso escolar liga-se quer a fraca preparação dos professores como á escolha de um conjunto de matérias ministradas aos vários níveis do ensino que desmotivam o aluno pela fraca relação que estabelecem entre a escola e a vida. Motor por excelência da formação dos indivíduos, a escola veio gradualmente desvalorizando as disciplinas das áreas ditas cívicas ou humanistas ao longo das últimas décadas em favor das tecnologias e áreas cientificas. Desde quando a ética, o conhecimento, formação do indivíduo para a cidadania, e formação de um espirito abrangente e critico sobre o seu meio, se revelou incompatível com o ensino das ciências? Porquê então a excessiva cientifização do curriculuns escolares em detrimento da formação humanistica dos alunos? Exigências de uma sociedade, que deixou de colocar o Homem no seu centro. A crise de valores de que tanto se fala, poderá, quem sabe de algum modo explicar-se à luz da questão acabada de colocar.

Uma sociedade crescendo em globalização, promovendo métodos de organização cada vez mais uniformizadores, e contraditoriamente parecendo dar uma ênfase particular ao indivíduo, vem criando condições para a produção de um homem-padrão, essencialmente movido pela idéia de sucesso, que se tornou um dos ícones endeusados de nossos tempos. Os mídia e os interesses por si veiculados têm operado "maravilhas" no tocante a esta questão: o bombardeio diário da falácia de um mundo de bem-estar ao alcance de todos, a velocidade vertiginosa a que a informação corre sem permitir uma digestão crítica das mensagens subliminares, a desvirtualização da função primeira dos meios de comunicação, informar, vai-nos transformando em meros receptores passivos e prontos para a filosofia consumista e as sociedades do "Fast".

Mais do que servir os públicos e informar, a televisão que dispõe de um meio de incomensurável poder, quer pelos públicos que atinge, quer pela influencia que exerce sobre eles, se parece preocupar mais com os picos de audiências. Neste jogo do vale tudo, a imagem "shock" vence ao knock-out a palavra, ou não fosse tão popular, e certamente eficaz, a expressão corrente: "uma imagem vale por mil palavras". Parece, pois, que os meios que por excelência poderiam estar ao serviço da informação e formação dos indivíduos, se encontram enredados numa lógica de sobrevivência, em que os fins justificam os meios.

Seria importante lembrar que nossas sociedades e nossas culturas se ergueram e mantiveram pela palavra: pela oralidade que durante milhares de anos foi passando de homem a homem, tribo a tribo os conhecimentos dos mais velhos, a memória e a História ciosamente guardadas pela escrita, em pedras, papiros, e papel. A palavra, desde os tempos dos cidadãos livres helênicos ao "corner speacher" do Hide Park em Londres, tem sido utensílio de explicitação do mundo, de expressão livre de idéias, de passagem de testemunhos e de saber ao longo do tempo.

Sabemos que o domínio da palavra, a capacidade de "manipular" e concatenar conceitos é sobremaneira revelador de inteligência e que a verborreia, o lugar comum que nada traduzem de novo, antes reproduzem a mesmidade e a uniformização, em si mesmos são empobrecedores. O fenômeno da globalização e a atual caraterística das sociedades atuais me parecem estar contribuindo de forma rápida e decisiva para este estado de coisas.

E é neste contexto das sociedades "Fast", que vamos perdendo a capacidade de entender a história que perpassa cada contexto ou conjuntura temporal, e de ao jeito de Janus, com sua cabeça bifurcada, encarar o futuro sem deixar de olhar para o passado que nos explica o presente.

É um momento único na História da evolução humana, o da invenção de um complexo estruturado de signos criado pelo homem e ao qual este atribuiu sentido, realizando um dos maiores prodígios na história da humanidade: a linguagem escrita. O Fogo, a Roda a Linguagem … a Escrita, são na verdade marcas inconfundíveis do homem na sua caminhada e ascensão, que o transformaram para sempre.

E porque falamos da palavra escrita, não poderemos esquecer o seu veículo por excelência o livro que desde tempos imemoriais fez chegar aos nossos dias as bases da nossa cultura e retomando o fio à meada, recolocamos a questão inicial de saber que lugar resta ao livro na era da sociedade da informação e dos bytes?

O Livro foi desde tempos remotos, o material por excelência com que se moldava o conhecimento. As grandes bibliotecas do mundo, desde a grande biblioteca de Alexandria, chegaram, até nós pelo afã de uns poucos que em cada época dominavam a palavra e as línguas, e se dedicavam à tarefa de passar à posteridade a memória e a história colectiva. No silencio dos mosteiros, os monges se dedicavam á missão de transcrição de grandes obras, à sedimentação de verdadeiros tesouros culturais onde se inscrevia a evolução do pensamento humano.

Desde sempre o homem sentiu a necessidade de gravar sinais que pudessem ser lidos pelos vindouros, e registar seu percurso, a sua relação com as divindades, com a natureza, seus medos, suas aspirações, a sua idéia de transcendência, o simples relato de sua vida quotidiana. Desde os primeiros desenhos rupestres gravados nas grutas a que se acolhia, que o homem procurou romper com a realidade de que ia gradualmente tomando consciência: a de sua natureza perecível.

A palavra escrita é o exemplo vivo de que o homem desde cedo tomou consciência de que a palavra, na sua forma escrita, lhe sobrevivia e de que através dela deixava testemunhos para além dos tempos. A palavra escrita encerra assim algo de perene, e já que falamos dos tempos modernos, que ela venha na forma de livro, ou gravada em diskete, a palavra escrita tem esse cunho que a aproxima de algo "para sempre", mesmo que esta possa ser uma mera expressão de nossos desejos mais fundos, tem o seu quê de verdade.

E já que do livro na era da informatização era nosso propósito dissertar, é pertinente colocar a questão: estarão livros e os livreiros condenados pelas sociedades informatizadas a tornarem-se uma relíquia com o andar dos tempos? Esta questão levanta uma outra, quiçá, do meu ponto de vista de caráter afetivo, mas com cabimento: O que pode verdadeiramente substituir o prazer de folhear, manusear, ler um livro? O que pode tomar o lugar do livro, esse velho companheiro de horas, que respira, tem densidade, textura, cheiro ? A cadeira que nos retém horas diante de um computador e nos permite, sem sair do lugar viajar pelos continentes, pode substituir o prazer desse passeio pelas livrarias, sentindo o peso e a presença do "espirito dos livros"? Responda quem souber!

25.03.00

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