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Bisneto
de moleiros italianos, neto de marceneiros e filho de cirurgião,
todos profissionais que trabalham com as mãos, Leonardo Molinar
pressentia que, mais cedo ou mais tarde, iria descobrir uma forma
exclusivamente sua de também trabalhar e sobreviver com as próprias
mãos. Aos oito anos, brincando dentro das marcenarias dos avós,
Molinar já produzia os seus próprios brinquedos, principalmente
peões. Aos treze, portanto a quase trinta anos atrás, o seu teste
vocacional já apontaria para a escultura. Porém, o preconceito
da época e as incertezas de uma carreira artística, principalmente
para uma família da pequena Uberaba(MG), o levariam para as engenharias.
Porém, por pouco tempo. Para não desapontar a família, cursou
a engenharia civil até o terceiro ano. Naqueles anos usava a sua
prancheta apenas para criar e desenhar 'camisetas logomarcadas'
para serem vendidas aos demais calouros e alunos da universidade.
Ao perder o pai repentinamente e sentindo-se liberto, decidiu
voltar para São Paulo, abandonando a engenharia, para recomeçar
os seus estudos, agora em publicidade, propaganda e marketing,
que percebera ser uma atividade que conciliava todos os seus interesses
e necessidades: razão e emoção, sobrevivência e prazer, além de
arte e comunicação; todas as suas paixões. Molinar trabalhou como
profissional de comunicação e marketing em várias empresas, tais
como: a extinta loja de departamentos Mappin, o jornal Folha de
São Paulo e a Companhia Cervejaria Brahma, entre outras empresas.
Mudou-se definitivamente para Goiânia(GO) em 92. Num país que
vivia de crise em crise e aos solavancos nas últimas três décadas,
onde empresas centenárias desapareciam da noite para o dia, Molinar
também experimentou a sua crise pessoal. Em meados de 95, investindo
todas as suas economias, associava-se a uma grande empresa atacadista,
adquirindo os direitos de uma franquia, a ser estabelecida em
Goiânia, daquela que seria uma grande rede de provedores de internet
e de distribuição de produtos de informática. Sucumbindo-se em
meio a mais uma crise econômica, a empresa franqueadora, que daria
sustentação logística ao negócio, simplesmente desiste do empreendimento,
deixando vários franqueadores a 'ver navios'. Molinar via seus
planos desmoronarem. Perdera tudo! Como encarar a família e dizer
que, de repente, tudo que mal havia começado já estava acabado?
Durante semanas, trancou-se sozinho no vazio imóvel que alugara.
Esvaziara a loja; demitira todos os funcionários. Angustiado,
buscava, naqueles dias, uma forma de enfrentar e contornar o problema.
Foram nestes tormentosos dias, aproveitando vários materiais disponíveis,
que Molinar produziu as suas duas primeiras obras: Família(que
sempre foi o foco das suas atenções) e Trajetória(sua interpretação
íntima para os momentos que estava vivendo). A técnica de relevo
de Molinar surgiu de forma absolutamente espontânea. Como se estivesse
num estado de transe, foi utilizando os materiais que encontrava,
inclusive as tintas, como se tentasse reconstruir com os cacos
uma peça que inadvertidamente deixara quebrar. As formas e as
cores foram surgindo espontânea e naturalmente. Era na verdade
um jeito inconsciente de drenar e extravasar os sentimentos que
sentia: por um lado, revolta, ódio e frustração, por outro, angustia,
desespero e preocupação em relação à sua família. Mas, ...como
'o tempo é santo remédio', Molinar também deu a volta por cima.
Atualmente, é professor universitário, já tendo lecionado no curso
de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal de Goiás e
no curso de Administração de Empresas da Universidade Salgado
de Oliveira, onde acumula a Coordenação de Extensão e Eventos.
Sobraram grandes lições e muito aprendizado. As nossas crises
pessoais devem ser encaradas como os nossos "saca-rolhas da alma".
Molinar finalmente descobrira, através da sua própria crise, aquilo
que tanto buscava: o 'seu' jeito de trabalhar e de se expressar
com as própria mãos.
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